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10/9/2014 -"...teve até o desfile de um mendigo novo, supostamente drogado, que andou pelo centro, o quarteirão fechado da rua Simeão Ribeiro, completamente nu, exibindo-se". A crescente degradação da Praça da Matriz e vizinhança pede:

»1 - Policiamento mais rigoroso
»2 - Redefinição do uso da praça que é o marco zero da cidade
»3 - Outra reforma física
»4 - Maior empenho das autoridades no cumprimento das leis
»5 - Uma recuperação em todos os sentidos

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           Enoque Alves    enoquerodrigues95@gmail.com

78948
Por Enoque Alves - 1/11/2014 09:05:29
O BREJO DAS ALMAS E AS SECAS DA MINHA INFÂNCIA

*Enoque Alves Rodrigues

O período de escassez de chuvas que atualmente assola grande parte do Brasil onde se destacam por ordem de intensidade os Estados de São Paulo e Minas Gerais me transporta ao querido torrão natal de Brejo das Almas dos meus tempos de menino, quando, munidos de garrafas com água e guiados por dona Lú (Maria de Lurdes), saiamos da Vila Vieira, antiga Lagoa, em novenas intermináveis onde, depois de passarmos pelo Centro do Brejo e largo da Matriz, seguíamos em direção ao morro da Caixa D’agua onde depositávamos aquelas garrafas contendo o mais precioso líquido juntamente com as nossas esperanças de que a entidade responsável pela torneira que faz chover nos atenderia. Quanto mais o Homem lá de cima aquecia o seu maçarico mais nós rezávamos aqui em baixo. Tempos difíceis àqueles onde o sol não dava tréguas ardendo sem dó e piedade no lombo do caboclo.

Graciliano Ramos dizia que as secas se diferem uma da outra apenas pela sua duração por que todas as secas são iguais por afetar diretamente o que o sertanejo tem de mais sagrado: a roça, o sustento e a dignidade.

A seca que estamos vivendo nos dias atuais em Minas e em São Paulo além de ser uma das mais longas em quase 80 anos é sem duvida alguma a mais grave e prejudicial por que afeta todos os setores da economia, impactando, invariavelmente, na conta de todos que além de ter de conviver com a falta d’agua para suprir necessidades básicas de sobrevivência terá de arcar com os aumentos escorchantes dos produtos que certamente irão reduzir o feijão na mesa do pobre e a água que o rico esbanjava lavando seus carrões. Foi-se o tempo em que as secas as quais se referia Graciliano castigava só o sertanejo. Naquela época o homem nascia, vivia e morria no campo onde produzia safras que consumia e vendia o seu excedente aos pequenos e grandes centros urbanos. Hoje não. Com o êxodo rural que aos poucos foi tirando o homem do campo devido á absoluta falta de oportunidades de lá seguir produzindo, empurrou-o para a cidade com a cabeça cheia de esperança de dias melhores que na maioria das vezes não passa de uma vã ilusão ou utopia, pois as barreiras com as quais o sertanejo que não foi preparado para viver na cidade terá de enfrentar superarão, e muito, as que dificuldades que ele, outrora, galhardamente driblava no cultivo da terra seca.

Não entrarei no mérito da crise do desabastecimento de água de São Paulo ou do nível do Cantareira. Vivo em São Paulo, mas sequer sei onde fica essa joça. Isso, no entanto pouco importa. O que importa é que independente da gravidade destas estiagens faltou gestão e sobrou incompetência do Governo. Faltou consciência e sobrou desperdício do povo. Mas, nem mesmo isso me interessa já que não escrevo sobre São Paulo.

Voltando para o meu Brejo das Almas, vejo o esforço hercúleo que as autoridades estão fazendo para amenizar o impacto desta terrível seca na vida de seus cidadãos munícipes. Os rios principais que banham a cidade de Francisco Sá estão minguando. Queira Deus não desapareçam completamente. Córregos que antes corriam o ano todo agora estão secos. Há partes que sequer se consegue acreditar ter existido água algum dia. Lagoas e Brejos que dão nome ao meu rincão querido se esturricaram há muitíssimo tempo.

Materialmente diríamos que a situação é desesperadora e que beira a calamidade não fosse à fé que ainda temos na Providencia Divina. Quando as ações humanas não tem muito que fazer, ou avançar, a alternativa mais sensata que se tem além de seguir lutando com todas as forças, é contar com a ajuda de Deus que a ninguém despreza e no final acaba sempre fazendo o melhor, contemplando-nos com a graça das sonhadas chuvas. Isso já ocorreu com as novenas de Maria de Lurdes que narrei em uma de minhas crônicas antigas.

Sejamos perseverantes em nossos melhores propósitos, confiando, primeiro em Deus e depois naqueles que tem ás mãos os destinos do nosso Brejo das Almas. Teremos muito em breve água farta. É questão de tempo.

Enquanto isto não acontece, retorno-me, em sonhos, á minha infância Brejeira e vou solvendo, lentamente, os momentos felizes onde vejo ás enchentes do rio São Domingos com suas águas barrentas que, qual avalanche, traz em seu leito, serra abaixo, troncos e toras, peixes e sapos que dispensa, violentamente, no rio verde grande. Ao norte da minha cidade vejo na elegância dos seus bancos de areia o rio Gorutuba onde aproveito para descansar. Ainda ao norte correm piscosos os córregos do carrapato, sitio novo, ribeirão de cana brava, o córrego do pau preto, do brejão, mamonas, traçadal e do quem-quem. Já ao sul da “beldade do norte de Minas” onde nasci, observo caudalosos, rio boa vista, vaca brava, córrego dos patos, rio caititu (olha o capitão Enéas ai, gente!), o rio da prata e o córrego rico. Vejo ainda no caminho de Salinas a lagoa da barra. E o que dizer da lagoa das pedras e seus encantos?

Que tristeza que tudo isso não passa de um sonho. Que alegria por a seca ainda não me ter roubado o dom de sonhar. Quanta decepção ao acordar e constatar que o meu sonho não é uma realidade. Quão incomensurável é a minha felicidade em saber que os meus olhos um dia presenciaram tão maravilhosos acontecimentos. Pena que as minhas retinas de menino não “reteram” tudo aquilo. Via com naturalidade o infinito na finitude das coisas e tempos e imaginava que aquelas belezas jamais se acabariam.

Eu era feliz e não sabia!

E tenho dito.

*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo das Almas.


78692
Por Enoque Alves - 27/9/2014 09:40:57
FIGUEIRA E O BREJO DAS ALMAS




Figueira e o Brejo das Almas

*Enoque Alves Rodrigues

Quando no dia 30 de Outubro de 1672 o Sertanista Antônio Gonçalves Figueira, Paulista nascido em Santos, filho de Maria Gonçalves Figueira e de Manoel Afonso Gaia fez sua primeira viagem integrando a expedição das esmeraldas liderada por Fernão Dias Paes e Borba Gato rumo ao norte de Minas Gerais, aquela localidade nada mais era senão um amontoado de matas virgens onde apenas índios e a pintada reinavam. Figueira tinha fama de grande caçador e quando saia à caça jamais voltava de mãos abanando.

Nesta sua primeira viagem em uma expedição a qual ficaria eternamente gravada nos anais da história em consequência de vários e insólitos episódios o grande Antônio Gonçalves Figueira, nada mais era senão um simples ajudante de ordens de seu cunhado Matias Cardoso de Almeida, Tenente naquela expedição. As atribuições de um ajudante de ordens daqueles tempos se restringiam a preparar as montarias para mais graduados montarem além de se responsabilizar pelos suprimentos da tropa incluindo ai as caçadas com as quais a alimentava bem como da cozinha onde preparava o rango da moçada.

Esta primeira expedição serviu-lhe muito mais como experiência do que não deveria fazer caso fosse o desejo lograr êxito na busca das esmeraldas e outras pedras preciosas por que ao contrário do que lhe ocorria quando saia à caça voltou de mãos abanando por que nenhuma pedrinha sequer conseguira colher. Na volúpia em busca das verdinhas o Bandeirante Fernão desembestou-se pelos lados da Bahia enquanto que Figueira, seu cunhado Matias Cardoso retornaram a São Paulo para reestudarem novas tentativas que de fato viriam a efeito nos anos de 1.694 e 1698, quando, finalmente definiram um rumo certo: o norte de Minas Gerais ou especificamente em Itacambira ou mais especificamente ainda na Lagoa Vapabuçú onde segundo davam conta às más línguas o próprio Fernão, assim como havia passado e colhido algumas pedras assim como muito antes haviam feito Sebastião Tourinho e Antônio Dias Adorno.

Só que também desta vez o trem não deu nada certo para eles por que na tal Jaíba coberta por matas densas e fechadas bem como por vegetações rasteiras idênticas rodeadas, pra variar, pelos montes claros que mais se pareciam com as torres gêmeas de tão iguais que eram acabaram por desorienta-los por que por mais que andassem acabavam saindo sempre no mesmo lugar. Aborrecidos e extremamente desapontados depois de darem sete voltas retornando sempre ao mesmo ponto de partida (hoje essa localidade se chama sete passagens), acabaram por abandonar a expedição das esmeraldas a qual ainda permaneceu por ali durante sete anos, tendo cada qual formado sua pequena expedição sendo que a do Figueira composta por 1000 homens ganhou os rumos do rio verde grande onde se acampou e a expedição de seu cunhado Matias retornou á São Paulo margeando o rio grande passando por Miguelópolis até chegar ao vale do Paraíba do Sul onde conseguiram umas pedrinhas chinfrins, mas reluzentes.

As coisas não estavam boas para os lados de Figueira. De Santos chegou-lhe a notícia levada que foi por um mensageiro no lombo de um burro que sua mãe havia morrido. Ele, perdido naquela vasta região do norte de Minas não havia até então conseguido nada de mais significativo senão vários bornais de pedras que imaginava tratar-se de turmalina, um parente meio próximo da esmeralda. Havia ouro sim, metal preciosíssimo que ele não muito interessado colhia. Os patacões saltavam-se das entranhas da terra qual mamona estalando em nosso agreste calorento. A fome do ouro com o qual saciavam a fome do maldito El Rei de Portugal já havia ainda não havia passado, mas a moda agora era mais para as esmeraldas e turmalinas. Por isto fazendo couro á imensa expedição de Fernão Dias Paes Leme a de Figueira se denominava esmeraldinha.

Antônio Gonçalves Figueira acabou dono de uma vasta faixa de terras subdividida em várias fazendas denominadas de Jaíba, Olhos D’água e Colônia dos Montes Claros. Foi com a intenção de unir os Montes Claros á região do rio Gorotuba e de lá até a Bahia, que ele aos treze dias do mês de outubro de 1704 organizou uma diminuta expedição composta de apenas vinte homens partindo em direção ao nordeste quando depois de percorrer vários dias entre idas e vindas ou mais vindas que idas porque seguia se perdendo e voltando sempre ao mesmo lugar, caindo e se levantando, na histórica tarde do dia 2 de novembro daquele mesmo ano sem mais nem menos, inesperadamente, viu-se na barriga da serra do catuni, ao lado de uma linda mais singela lagoa que desaguava em um riacho com nascentes naquela mesma serra, cuja lagoa se denominava "das pedras" que ao contrário do que ele pensava e buscava, não eram preciosas, mas pedra mesmo.

Por ser já tarde, dormiu por lá onde também por ser dia de finados acabou por fincar um cruzeiro de madeira tosca ao pé do qual ele juntamente com os seus vinte comandados rezou e que batizaram de "Cruz das Almas das Caatingas do Rio Verde", onde algum tempo depois construíram uma pequenina Igreja onde depositaram a imagem de São Gonçalo que veio se tornar patrono do lugar. E o resto da história todos conhece. É de domínio público.

O Capitão Antônio Gonçalves Figueira (outros historiadores utilizam "Figueiras") não era, efetivamente, o que podia se denominar de um destemido e inteligente Bandeirante, mas, convenhamos, justiça lhe seja feita, não fossem suas trapalhadas, seus perdidos, sua falta de foco e ausência total de bússola, jamais teria chegado um dia ao meu, ao nosso e ao seu Brejo das Almas querido. Quiçá, tivesse realizado outras descobertas em outras plagas lá pelos lados da não menos querida Bahia. Mas, quis Deus que ele não fosse tão longe e assim conseguiu, mesmo sem querer, querendo, dando-nos de presente o Brejo das Almas, ou Francisco Sá, "beldade do norte de Minas", que hoje cresce a cada dia, sonhando, feliz, a cada despertar, com a aproximação do dia em que real e definitivamente se cumpra mais um vaticínio daquele "Bandeirante trapalhão" quando disse que o lugarejo se tornaria um comércio próspero, não só pela sua posição geográfica, como também pelas riquezas naturais de suas terras.

Que Deus o ouça.

E tenho dito!

*O autor nasceu no Brejo das Almas


78568
Por Enoque Alves - 6/9/2014 21:33:29
parabéns meu brejo das almas pelos seus 91 anos de emancipação

“Brejo das Almas ou Francisco Sá, igual a ti outro não há...”

*Enoque Alves Rodrigues

“Elevado à categoria de município com a denominação de Brejo das Almas, pela lei estadual n°. 843, de 07-09-1923, desmembrado de Montes Claros e Grão Mogol. Sede no antigo distrito de Brejo das Almas. Constituído do distrito sede. Instalado em 07-09-1924...”

Amanhã, domingo, 07/09/2014 o meu, o seu, o nosso Brejo das Almas ou Francisco Sá estará completando 91 anos de emancipação político administrativa. Tenho visto alguns folders falando em 90 anos. Acredito que se refiram ao ano de 07/09/1924 quando se instalou em definitivo a sede administrativa do Município e nesse caso estaremos comemorando realmente 90 anos de existência da Cidade e 91 de sua emancipação.

Ao comemorarmos, festivamente uma data tão importante para o calendário de nossa terra e de nosso povo, não podemos nos esquecer daqueles que um dia lutaram e tombaram no sentido de que tudo isso que hoje vivenciamos se realizasse. Os grandes homens que hoje conduzem com eficiência os destinos deste nosso pujante Município rumo a excelência em todos os seus aspectos, foram, de igual forma, precedidos por outros empreendedores contumazes que deixaram para todos nós, brejeiros, seus pósteros, marcas indeléveis de suas impolutas figuras. Sensíveis que somos a tudo o que se encontra a nossa volta, no Brejo ou fora dele, não nos é preciso seguir uma cronologia exata para nos depararmos com aqueles que deram os primeiros passos na construção de nosso Município para que ele se transformasse no que hoje é. Certamente que indispensáveis se fizeram as incontáveis idas e vindas de muitos Joãos de barro ás Lagoas que antes existiam em busca da principal matéria prima com a qual dariam início à edificação de um amontoado de pequeninas casas que se chamaria Brejo das Almas e depois Francisco Sá.

A história do Brejo começou em 1704. Engana-se quem pensa que a história de um Município só se inicia quando ele atinge a sua emancipação. A emancipação é apenas uma etapa no processo histórico de desenvolvimento político, cultural, social e econômico de um núcleo demográfico e sua respectiva geografia.

Da chegada a estas plagas na tarde do dia 02/11/1704 acompanhado por vinte homens, de um Sertanista de nome Antônio, Paulista de Santos, filho de Maria Gonçalves Figueira de quem herdou o sobrenome e de Manoel Afonso Gaia, remanescente da expedição de um certo Fernão, até o primeiro tremor no dedo indicador de um Coronel de nome Jacinto que acusaria, tempos depois, a presença do Parkinson, durante acirrada discussão na Câmara Municipal da bela MOC, cuja pauta era exatamente a aprovação do projeto de lei que emanciparia (07/09/23) o Brejo das Almas, ou Francisco Sá (17/12/38), muitas águas rolaram no Gorutuba e no São Domingos.

De 08/01/38 desencarne de Jacinto ao decreto lei 148 de 17/12/38 transcorreram-se onze meses. Promoveu a alteração toponímica do Município de São Gonçalo do Brejo das Almas para Francisco Sá, ilustre Ministro de Viação, mas que ao contrário do grande Jacinto, nada fizera pelo Brejo. Ao invés de aproveitarem o calor dos acontecimentos da perda irreparável do grande Líder, oferecendo à Cidade pela qual lutou e finalmente emancipou, o seu nome, deram a ela o nome de alguém muito importante para o Brasil, mas insignificante para o Brejo.

Do início da emancipação feminina em 1940 à construção do Mariquinha Silveira que foi concebido nos anos 1950 onde foi criado o curso ginasial que preparava as mulheres para uma nova vida até então restrita a lavoura e cuidar da casa, foram dois lustros. Da transformação e mudança de nome do Mariquinha Silveira para Tiburtino Pena na década de 1960 foi um pulo. Da implantação do curso do Magistério no Tiburtino Pena em 1965 que capacitava as nossas deusas brejeiras a voos mais altos no campo do intelecto até a formação da primeira turma de normalistas em 1967 passaram-se dois anos somente. Do luto velado e permanente das viúvas até a participação ainda que tímida do divino ser brejeiro (mulher) na política local foi uma eternidade. Pouco mais de uma dezena de nossas guerreiras chegaram à Vereança. Em 2004 tivemos no Brejo a primeira candidata mulher a Prefeitura. Vários partos de porco espinho se deram para que tudo isso se tornasse realidade. Barreiras e entraves até curiosos, pacientemente, superados, fundem a história da emancipação da mulher brejeira com a do próprio Brejo. Não, nenhum machismo: o mundo era assim e não sei se você sabe, o nosso brejo querido é parte integrante do mundo.

Das missas rezadas em latim nos áureos tempos do despojado Augusto a modernidade da igreja do abastado Silvestre, muitos badalos bateram. A centenária palmeira, postada ali, silenciosa, à guisa de atalaia não me deixa mentir.

Da fartura do ouro branco (algodão e alho) dos meus tempos de menino ás secas que esturricavam o solo sob o pipocar de mamonas e fretenes tristes das cigarras não se passou muito tempo. Somente 18 anos, mas que foram suficientes para me tangerem da vida cotidiana do Brejo que até hoje, seguramente, ainda “lamenta” a minha perda, não obstante não existir ali uma vivalma sequer que me conheça pessoalmente. Quanto a mim, então, mesmo tendo conseguido tudo que quis mediante trabalho árduo, mas que me apraz, devo dizer, sem falso romantismo, que continuo escutando o gorjear dos pássaros brejeiros, o barulho de todos os rios que o banham, o cantar da juriti e das revoadas de suas maritacas, assim como do coaxar vespertino de “meu igual” cururu na Lagoa das Pedras de antanho.

Quantas eleições foram ganhas com a palavra dada e cumprida apenas com o fio do bigode? Do mesmo jeito quantas eleições foram perdidas por que alguém deixou de cumprir promessas vazias feitas no afã de iludir o povo, soberano em sua sabedoria?

Enquanto isso, na velha Câmara, de Jacinto a Rogério, de Augusto a Gentil, de Francelino a Jacinto, o Teixeira, de Zé de Deus a Euler, de Adalberto a Valda, de Zé Nunes a Alineu, de Idalino a Ronaldo apenas para citar alguns, até os dias atuais quantos projetos, simples e polêmicos foram aprovados ou deixados de aprovar debaixo de acaloradas discussões?

E na prefeitura do mestre Benfica? Quantos já se passaram? O que fizeram ou deixaram de fazer?

No São Dimas, quantas vidas foram salvas? Quantas pereceram? Se salvas, é o estado se fazendo presente no amparo ao Cidadão pagador de impostos. Se perdidas, aonde, Deus, se achava o estado? O que aconteceu? Por que diabos deixou que o Cidadão Brejeiro morresse? Bem, é fácil de explicar: Cidadãos morrem aqui e em qualquer lugar, até mesmo na Suíça! Ok, parcialmente de acordo, mas você vive na Suíça ou no Brejo? Então: por mim ninguém morreria em parte alguma, mas se alguém tem de morrer desamparado que não seja em meu Brejo, uai?

Acalmem se, por favor... Chega de urticárias... Não empurrem... Vamos devagar por que eu tenho pressa. Mas ainda não acabei...

Dos digníssimos homens públicos do passado sobre os quais falei acima ao mais vil e reles que constrangeu e decepcionou a nossa gente até o palanque comemorativo das atuais festividades onde desfilam consciências imaculadamente límpidas e comprometidas com as causas dos menos favorecidos, revezando-se em seus comedidos discursos onde não tem vez e voz as vaidades e promoções pessoais mais apenas às alusões ao que representa este dia 07 de setembro de 2014 para o nosso lugar, quanto tempo se passou? Muito, mas valeu a pena!

Portanto, regozijam-se Brejeiros. Saiam ás ruas em desfile e brindem essa data. Temos muito que comemorar. Os tempos são outros. As mudanças que se faziam necessárias estão, aos poucos, se processando. Estejam certos que o amor filial que vocês demonstram á querida mãe que se chama Brejo das Almas é recíproco e verdadeiro. A jovem e bem cuidada senhora de noventa anos, alegre e feliz, comovida e carinhosamente lhes agradecem.

E tenho dito.

*O autor nasceu no Brejo.


78441
Por Enoque Alves - 11/8/2014 20:36:47
EXEMPLOS DE UM BOM BREJEIRO – PARTE III

*Enoque Alves Rodrigues

- Bom dia, irmão Laudelino...
- Deus seja louvado!
- Ontem, à noite, escutei na Rádio Nacional do Rio de Janeiro que o homem desceu na Lua...
- Mentira... Deus não daria tanto poder e inteligência ao homem!
- Foi a Rádio quem disse...
- A Rádio mentiu!
- Acredito que neste ano faremos uma farta colheita...
- Isso sim, é verdade... Deus seja louvado!
- O senhor precisa se juntar a nós durante ás refeições. Há sempre uma cadeira para o senhor...
- Não posso. Não sou digno de tanta reverência. Já lhes dou muito trabalho. Basta as minhas limitações físicas causadas pela velhice que não me permitem colaborar com vossa pessoa e família nos muitos afazeres da casa...
- Não se preocupe irmão. Deus já nos deu mais que o suficiente que é a saúde para que possamos trabalhar com fervor. De nossa parte não nos é nenhum esforço ou favor ampara-lo. Ficaremos agradecidos se pudermos suprir vossas necessidades. Quero que saiba que tudo que temos também lhe pertence...
Pronto... A sorte estava lançada, por que a simples citação do nome do Criador por parte de Liberato, meu avô, já era a senha de acesso a todos os segredos que levavam aqueles dois senhores de barbas brancas a intermináveis conversas que, via de regra, varavam noites. Não obstante as elevadas culturas de ambos, amealhadas na grande universidade da vida, além de professarem a mesma doutrina, raramente seus pontos de vista se convergiam. Convencionaram entre si, por quais critérios eu jamais soube, só iriam dormir quando finalmente chegassem a um acordo. Enquanto isso não ocorria o céu era o limite. Eu, criança ainda, admirador confesso do meu avô, ficava ali, de plateia, observando tudo aquilo e, na maioria das vezes, torcendo para que eles jamais se entendessem para que eu pudesse solver um pouquinho mais do conhecimento de cada um. Ás vezes eu apostava comigo mesmo... Quem afinal cederia? Quem concordaria com quem? De quem seria a palavra final? Frustro-me confessar, cinquenta anos depois, que eu dificilmente acertava. Os caras eram foda mesmo, e quando um já se considerava vencedor ou detentor da palavra final que encerraria a celeuma, o outro, inesperadamente, “levantava uma questão de ordem qualquer” e, bíblia em punho, com o indicador apontando capítulo e versículo que sustentavam suas afirmativas na dita cuja, começava tudo de novo. Enquanto eu cochilava, dormia e acordava o “embate” corria solto, principalmente nas noites de sextas-feiras por que, como adventistas, não trabalhavam aos sábados, ou seja, o meu avô não trabalhava aos sábados já que Laudelino, como já disse, nunca trabalhava por suas limitações. Era exatamente assim: cada qual se munia de sua bíblia e toda e qualquer discussão, dúvidas e acertos eram elucidados mediante as claras letras do livro sagrado. Fora dele não havia conversa. O diabo é que como acontece ainda em dias atuais, cada um a interpreta á sua maneira o que seria até aceitável, porque difícil e complicado se torna quando um quer convencer o outro de que certa e inquestionável é a sua interpretação. Ai o bicho pega mesmo.
Naquela noite a coisa parecia que ia ferver. Aqueles dois senhores do bem se miravam, de soslaio, como se fossem fulminar o outro.
O tema era “festa das cabanas.”. Se você não é ou nunca foi adventista “quatrocentão” não vai saber do que estou falando. Isso vem do Velho Testamento. É coisa antiga, mas que era costume daquela época já longínqua. Também não vou te explicar por entender subjetivo. O mineirismo é proposital.
Pois é, Laudelino tentava convencer Liberato, meu avô a respeito da origem ou de como, quando e onde começou a primeira festa das cabanas. Dizia Laudelino que foi Abraão no Egito, “um bilhão” de anos antes de Cristo. Já Liberato afirmava categoricamente que quem celebrou essa “p” pela primeira vez foi Moisés, rumo à terra prometida, e que o fez para comemorar as farturas, etc., que data e local jamais poderiam ser as mencionadas por Laudelino por que o tal de Moisés nunca antes pisara aquelas terras. Já de inicio se percebia que aquela noite seria longa. Que o tema seria demasiadamente polêmico e que os dois debatedores não estariam dispostos a cederem. Que não abririam mão de suas minucias em beneficio do outro. Quando minha Dindinha (avó) percebia isto, corria à cozinha e preparava chás, biscoitos, água e leite que deixava sobre a mesa à disposição do marido Liberato e do irmão Laudelino que, envolvidos nas acaloradas discussões nunca tomavam conhecimento daqueles mimos.
Cinco horas da manhã. De tanto molharem o dedo para folhear a bíblia estavam com a boca seca. Mesmo assim não se entregavam. Não se deixavam convencer. Os argumentos eram inconsistentes no entendimento de ambos.
Esgotado apesar de curioso para assistir aquele final, acabei dormindo. Ao me despertar ás 10 horas vi que o meu avô repousava sobre um velho catre que ficava na sala não obstante ser este mobiliário próprio de dormitório, enquanto que o irmão Laudelino dormia, a sono profundo, sobre duas cadeiras à guisa de cama. Frustrado e mais que desiludido por ter “perdido o ultimo ato” perguntei ao meu avô quem havia vencido. E ele, para minha surpresa e felicidade tranquilizou-me: Não se preocupe Noquinho. A peleja ainda não terminou. Combinamos apenas uma trégua a fim de descansarmos um pouco para, quem sabe, liquidarmos esse assunto hoje á noite... O irmão Laudelino é muito sabido, mas um pouco “cabeça dura!”.
- Perdão, meu Deus!... – Exclamou meu avô, dando três tapinhas na boca. – Eu não queria dizer isto!

* O autor é Brejeiro de nascimento.


78307
Por Enoque Alves - 13/7/2014 12:28:17
FRANCISCO SÁ E AS REDES SOCIAIS EM SUA DIVULGAÇÃO

*Enoque Alves Rodrigues

De 2004 até 2009 mantive dois blogs hospedados em sites da Editora Abril, aqui em São Paulo, hoje desativados. No primeiro, denominado “Isto é Espiritismo”, repercutia, sem proselitismos, a Doutrina Espírita disseminada por Kardec, na França, em 1854. Já no outro blog, “Gente, Causos e Coisas do Brejo”, divulgava Francisco Sá, o querido Brejo das Almas. Nele escrevia minhas crônicas quinzenais, hoje vertidas para o livro, “O Brejo das Almas em Crônicas.”.

Quando em 2009 a Abril extinguiu aqueles sites após tê-los mantido por quase cinco anos no ar, jaziam, no registrador de visitas do blog “Gente, Causos e Coisas do Brejo”, para minha total surpresa e decepção, apenas e tão somente a bagatela de 212 acessos. Uma ninharia, suficiente para desmotivar qualquer mortal que se propõe a escrever algo. Pois, o mínimo que alguém que se atreve a escrever alguma coisa, despretensiosamente, espera, é que outros leem e, se possível, comentem o que se escreveu. Aliás, entendo que faz parte de uma boa educação, manifestarmos através de um simples recado ou comentário, toda vez que acessarmos a página de alguém. É uma maneira de dizermos: “Olá, estive aqui. Visitei sua página rapidamente. Um abraço. Fui!”.

No caso em tela, seria muito de minha parte desejar que alguém comentasse, visto que ninguém lia, porque ninguém acessava. O pior, no entanto, já havia ocorrido. Em 2006, criei no Orkut duas comunidades que ainda existem: “Alô Brejeiro!” e “Francisco Sá, Meu Amor!”. Pois é... Fiasco total. Até hoje o único acesso que consta lá é o meu próprio. Para a pergunta que postei: “você conhece Francisco Sá?” Nenhuma resposta. Ou melhor, uma resposta. A minha: conheço, sim, senhor. E daí, qual é o problema, cara pálida? Triste, não! Mas é a realidade. Minha filha, que naquele tempo frequentava o Orkut, tinha em sua página, inúmeros adicionados, enquanto eu não tinha um sequer em minhas páginas comunidades.

- Filha, quando é que você vai prestigiar o papai com sua visita a uma de minhas páginas no Orkut?

- Pai, me desculpe, mas com esses títulos estranhos vai ser muito difícil alguém se aventurar. Acho que estas páginas não terão nenhum outro acesso senão o do senhor! Dito e feito. Ainda bem que eu não escrevi mais nada lá. Alias, nem eu sei hoje o que lá se encontra. Nunca mais entrei naquela joça. Só atualizo a minha página pessoal no Orkut por que não posso desativa-la devido ter lá adicionados alguns amigos. Que o Orkut com sua morte anunciada para agosto ou setembro de 2014 se encarregue de extingui-las.

Em maio de 2009 ao visitar meus pais em Burarama, passei, anonimamente, um dia e uma noite no Brejo. Ao retornar para São Paulo iniciei pelo site, “City Brasil”, alguns relatos de pouca relevância sobre Francisco Sá. Hoje este blog se encontra com quase 340 mil acessos. Além dos outros blogs que mantenho alusivos ao Brejo, criados na mesma época, todos eles muito bem frequentados e comentados.

Mesmo com todas as postagens as quais me referi no inicio destas mal traçadas linhas, em 2008, se você jogasse no Google “Francisco Sá”, o resultado da pesquisa trazia um certo Francisco Sá Carneiro, que até hoje não sei quem é. Pois, por não se tratar do meu Francisco Sá, Cidadezinha que se achava perdida nos rincões das Gerais, terra abençoada por Deus que me viu nascer, nenhum outro interesse teria eu em pesquisar ou procurar saber a quem se referia. Por certo, pelo simples fato de esse senhor ostentar o mesmo nome do Ministro da Viação que dá nome ao nosso lugar, já deve ser um grande motivo para fruir de toda felicidade e sucesso. Por favor, não me chamem de bairrista, “porque eu sou”.

No velho Orkut que hoje agoniza, passaram a criar, aqui e acolá, algumas comunidades alusivas ao Brejo das Almas. Nada disso, no entanto, foi suficiente para romper as barreiras virtuais que separavam o nosso Brejo das Almas ou Francisco Sá do mundo incomensurável do WWW (World Wide Web), que em português significa "Rede de alcance mundial". A coisa não engatava ou talvez porque o Brejo não queria “ser alcançado” ou quem sabe, ainda, algum brejeiro, sem querer dividi-lo com o mundo, havia enterrado uma cabeça de jumento aos pés do cruzeiro.

Hoje, no entanto, graças aos esforços e dedicação de todo o nosso povo, a coisa mudou radicalmente. Se você digitar “Francisco Sá”, receberá de volta uma grande enxurrada de referências sobre a nossa Cidade. Com o advento do facebook e twitter, então, as comunicações ganharam muito mais velocidade. Ferramentas poderosíssimas que entre suas incontáveis funções colocam vários indivíduos online, repercutindo, ao mesmo tempo assuntos, ás vezes de pouca importância aparente, mas que, lá no fundo, ao se analisar melhor, se constata, surpreendentemente, que a principal missão dos idealizadores de tais ferramentas está sendo cumprida ao pé da letra: aglutinar pessoas, aproximando-as cada vez mais uma das outras. Transportando-as para as diversas partes do Orbe sem que precisem tirar um só pé do chão. De deslumbramento comedido, uma vez que encaro tudo na vida com naturalidade, deparo-me hoje com as facilidades que não existiam antanho. No Oriente Médio abro um simples computador de mão em meio a uma rua qualquer de Bagdá e de lá meus olhos veem a desfilarem-se no canto direito da pequena tela, “tops” ou curtas mensagens me informando que alguém, em um ponto qualquer do Planeta, curtiu ou comentou o meu link. Que há alguém querendo me adicionar a fim de ter-me como seu novo amigo. Com dois cliques sobre um link e em átimos de segundos estou dentro do Brejo. Volto para o facebook e os “tops” continuam me informando: Que o Brejo agora tem um Centro de Memórias. Que voltou a produzir alho como antes. Que as onças do Catuní voltaram a atacar rês. Que lá em “Capivara” a dita cuja que dá nome ao povoado foi extinta. Que no morro não há mais mocós. Que dos dois riachos só ficou um. Que o uivo dos ventos que varriam as ruas do Brejo emudeceu. Que as águas do Gorutuba e São Domingos estão secando. Que Lagoa Seca transbordou-se. Que a Vaca Morta acaba de ressuscitar, etc. Com o deslizar do mouse sou remetido a fotos antigas dos Padres Augusto, Silvestre e Salustiano, da Casa Viena, do Mercado Velho, do Cel. Tito, de Feliciano, filho de Lauro, de Denilson criança, de Karla Celene, neta de Edith e Antonio, de Wanderlino, em tarde de autógrafos na bela MOC, etc. Com mais dois cliques vejo e ouço um conterrâneo vereador, ao vivo e em cores, aos berros, em acalorado discurso na Câmara Brejeira, em defesa de Munícipes menos favorecidos. Dois cliques mais e sou transportado para o mais completo e bem elaborado jornal regional. Trata-se de “O Jornal de Francisco Sá”, do amigo Flávio Leão. Aqui, sem que seja necessário que eu dê qualquer clique, mas apenas com a barra de rolagem, vejo-me, como que por encanto, literalmente no Paraiso. Em meio a beldades, formosas mulheres, com olhares ternos e inocentes de quem acaba de deixar a adolescência, dignas representantes da mais pura “beleza brejeira”. Estou extasiado. Não... Não vou mais navegar... Navegar não é mais preciso. Quem gostava de navegar era o Cabral e nós sabemos aonde ele foi parar. Perdeu-se pelos caminhos “tortuosos” das índias e acabou “dando” aqui. Quanto a mim, cheguei, finalmente, ao meu Porto Seguro que é este céu e estou rodeado por anjos e divas sob intensos cafunés. Daqui não saio. Daqui ninguém me tira. Não mais desperdiçarei o meu precioso tempo com agenda apertada, compromissos inadiáveis, cálculos matemáticos precisos e outras preocupações naturais de vocês terráqueos. E que o sol da minha vida e razão maior do meu existir, a dona Teresa, não me leia. Amém!

Voltando à realidade atual podemos afirmar com toda convicção que mesmo a passos lentos, ciberneticamente falando, Francisco Sá, o nosso Brejo das Almas, hoje é conhecido no Mundo. Quanto aos méritos, são de todos nós, seus filhos, que sempre nos orgulhamos em levar adiante a sua divulgação.

Valeu peixe!

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 8/7/2014 15:28:08
Exemplos de Um Bom Brejeiro – Parte II

*Enoque Alves Rodrigues

Quando Laudelino, o forasteiro, finalizou o culto que ele por iniciativa própria não obstante ser um recém-chegado àquelas paragens celebrou, o meu saudoso avô, sábio e tranquilo como sempre, reuniu-se com a filharada informando a todos que por “motivos alheios a sua vontade” naquele dia ele não faria o culto matinal. Que todos deveriam permanecer atentos para novas recomendações. Que teria de avaliar melhor as circunstâncias que se apresentavam naquele momento para depois fazer o seu juízo de valor e comunicação oficial a respeito dos próximos passos. Que ele, enquanto condutor daquela família, se retiraria por algumas horas quando retornaria com a decisão que todos aguardavam.
Lembro-me como se fosse hoje do olhar de minha tia Nira, primogênita de meu avô a quem idolatrava. Corpo vergado e mãos sobrepostas em posição de ternura e reverência a figura imaculada do pai, aproximou-se do mesmo, e delicadamente disse-lhe:

- Perdoe-me, meu pai, se lhe pareço inoportuna, mas, por favor, se me permite gostaria de vos fazer uma pergunta. É possível?

- Claro, minha filha, como não? Do que se trata?

- Jamais deixamos de ter o culto matinal antes de nos dirigirmos ao trabalho. Não consigo entender por quais razões vamos interromper as tradições de nossa doutrina apenas por que um estranho sobre o qual jamais escutamos falar fez aqui, sem a vossa autorização e consentimento, um culto onde pregou para si mesmo sem a presença sequer de uma vivalma.

- Minha filha, - respondeu-lhe meu avô -, o irmão Laudelino, imbuído das melhores intenções fez seu culto onde estava aparentemente só aos nossos olhos. No decorrer desse culto percebi que ele ao passar a palavra para alguns “irmãos invisíveis” darem seus testemunhos, ele próprio permanecia em silêncio olhando atentamente para algo que eu não conseguia ver, mas que ele certamente os via e ouvia, devido à eloquência com que ele os aparteava, assim como os agradecia por tão importantes palavras. Com fundamento nos ensinamentos de Deus e na doutrina que professamos a qual eu sempre lhes transmiti, não devemos acreditar em “coisas” que não estejam inteiramente ao alcance de nossas vistas. É por isso que vou analisar para ver que decisão tomar a respeito desse nosso irmão. Espere com paciência. Permaneça vigilante...
Ao meio dia em ponto o meu avô retornou ao casarão da fazenda. Olhar tranquilo e sereno. Feição suavíssima que não deixava dúvida quanto á segurança e firmeza da decisão que tomara.

Com palavras simples, mas, comedidas, proferidas em um só tom, baixas e pausadas como é o costume arraigado em nossas tradições Mineiras, pediu que minha santa Dindinha, (avó) sua adorada esposa, lhe desse um pedaço de cuscuz acompanhado de um bule de alumínio cheio de café de fedegoso (os adventistas daqueles tempos não tomavam café por entendê-lo tóxico). De posse daquelas iguarias dirigiu-se ao casebre adjacente onde estava Laudelino a pouco mais de vinte e quatro horas aonde, como se velhos amigos fossem, conversaram na mais perfeita harmonia que se assemelhava a um diálogo de anjos. Por ser eu criança, extremamente apegado ao meu avô, nenhuma restrição fez quanto a minha presença ali.

Liberato, o meu avô, após saudar Laudelino, o forasteiro, ofereceu-lhe o café com cuscuz. Este, agradecido, desculpou-se com meu avô por não poder aceitar os alimentos informando que se achava em jejum por uma graça obtida. Diante disso o meu avô, calmamente, começou a falar-lhe sobre o assunto que o levara até aquele local. Eu, pasmo, só observava. Nada podia falar. Até por que eu nada entendia.

- Gostei muito do culto que o irmão fez hoje de manhã!

- Deus seja louvado, - respondeu Laudelino. - Observamos vossa presença. Os “irmãos” estavam muito felizes com a acolhida que nos destes.

- É um prazer “tê-los” em nossa casa!

- Então, eu posso continuar recebendo os “irmãos” nos cultos que eu realizar aqui?

- Pode. Claro. Como não? Como eu já vos disse, fique a vontade!

- Apenas precisamos combinar uma coisa: Refere-se aos horários dos cultos. Como eu saio para trabalhar com meus filhos todos os dias ás seis horas da manhã, gostaria claro, se o irmão concordar, que eu realizasse o meu culto para os meus familiares ás cinco horas com a duração de trinta minutos, pois vou necessitar de mais trinta minutos para o desjejum... Pode ser? Depois disto vossa pessoa poderá realizar o vosso culto na hora que melhor lhe aprouver, inclusive terá melhor horário para receber e conversar com vossos “irmãos!”.

- Laudelino não era um sujeito comum. Ele era um ser de luz de marca maior. Chegou aqueles cafundós com uma missão muito especial. Mesmo tendo depois se revelado a pessoa que ele realmente era e que jazia natural e humildemente por debaixo daquela sofrida carcaça, foi difícil ao velho Laudelino suportar tamanha carga de simplicidade, desprendimento, tolerância, cordialidade e fraternal demonstração inequívoca de amor ao próximo de um matuto como o meu avô que jamais antes saíra de sua fazenda a não ser para ir ao Centro do Brejo das Almas, ou Francisco Sá, onde vendia suas colheitas.

Meio desconcertado, Laudelino, sinônimo de todas essas virtudes só restou exclamar:

- Meu Deus! O que é isto, meu irmão?

- Como é possível o senhor me pedir licença para demandar o que é vosso? O forasteiro aqui sou eu! Cheguei ás suas terras sem avisar. Mesmo assim fui recebido. Fiz um culto onde recebi os meus “irmãos” ás cinco da manhã acordando a todos e mesmo assim o senhor vem até mim com todo esse respeito e solicitude?

Ao passo que meu avô lhe respondeu:

- Não sou o verdadeiro dono dessas terras ou dessa fazenda. Apenas possuo os títulos por que cheguei primeiro e as comprei de outro que também não era o dono como dono não foram nenhum dos que por aqui passaram. O verdadeiro Dono disto aqui é o Dono do Mundo. É Deus. Sendo assim, ainda que fosse da minha vontade eu não poderia negar a ninguém o direito a um pouso por curto ou prolongado que seja!

Laudelino agradeceu e a partir dali uma grande parceria se formou.

Nos próximos capítulos dessa verídica história vamos encontrar esses dois gigantes do bem se debatendo entre si no campo das ideias.

E quais eram essas ideias?

Como o Cristão de verdade deve se comportar para tornar a vida de seu semelhante um pouco melhor.

Até a próxima, Brejeiros. Fraternal abraço.

* O autor é Brejeiro de nascimento.


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Por Enoque Alves - 24/5/2014 09:52:28
Exemplos de Bons Brejeiros – Parte I

*Enoque Alves Rodrigues

Quando criança passava minhas férias Escolares na Fazenda Terra Branca, no Município do Brejo das Almas ou Francisco Sá, próximo ao morro da masseira, de propriedade de meu saudoso avô Liberato ou João Albério Rodrigues.

Adventista, vegetariano e Sabatista, denominação esta atribuída aqueles que guardam o Sábado. Lembro-me que o casarão daquela Fazenda que ficava ao norte de Minas Gerais era todo rodeado de pequeninas casas onde residiam alguns colaboradores serviçais além de outros parentes, próximos ou distantes, que meu avô socorria, levando-os para morar ali, onde participavam dos cultos assim como de toda liberdade na casa como se familiares também fossem. Naquela fazenda cortada por caudaloso rio, além da criação de gado leiteiro mantinha o cultivo de todo tipo de cultura, além de um grande canavial que quando era tempo da colheita o Engenho de madeira puxado por duas trelas de bois gemia dia e noite meses a fio, na fabricação de rapadura, melado e puxa. Que gostoso.

Minha diversão era cavalgar sobre um velho pangaré que de vez em quando cismava e me atirava ao chão saindo em desabalada carreira, deixando-me sozinho naquelas quebradas no mais completo abandono.

Certa manhã quando o meu avô tirava o leite das vacas vi, ao longe, descendo a serra por uma picada que ficava em frente á Fazenda, trôpego e cansado, um senhor alto, de idade avançada, com barbas brancas, que ao postar-se diante de nós apresentou-se:

- Bom dia, eu sou o Laudelino...

- Que o Senhor esteja nesta casa! Saudou-nos.

- Amém, assim seja irmão. Seja bem-vindo em nome de Jesus! Respondeu-lhe o meu avô.

Lembro-me, que jamais saia de perto do meu avô, que eu estava com uma cuia tomando o leite quentinho que ele acabava de tirar, misturado com farinha de milho e rapadura raspada. O meu avô não conhecia Laudelino, mas ao escutar sua saudação de chegada foi logo dizendo para mim: não se assuste Noquinho, é um irmão da Igreja.

- Preciso de um “poiso” por esta noite. Necessito descansar para seguir viagem!

- É um prazer, em nome de Deus, recebe-lo, irmão, em nossa humilde casa. Sinta-se a vontade!

- Amém!

A família que o meu avô constituiu era numerosa. Era composta por ele, minha avó, sete filhas mulheres, sendo uma casada à época (tia Cota) e seis solteiras, além de três homens sendo o meu pai o mais velho.

Os adventistas daqueles tempos eram bem mais rígidos por que tinham toda a sua Doutrina fundamentada no Velho Testamento. A denominação seguida por meu avô e sua família era a do (movimento de reformas que depois passou a chamar-se da completa reforma.). O meu avô, já velho, ao levantar-se todos os dias, passava em frente aos dormitórios de todas as filhas e filhos batendo nas portas, e antes de sair para o batente duro realizava um culto matinal ás 6 horas onde todos tinham de participar. Ele sempre se postava na cabeceira da mesa e após entoar hinos punha-se a leitura da Bíblia. Apenas ele como o chefe daquela família tinha aquela primazia. A ninguém mais, nem mesmo ao filho mais velho era permitido assumir a posição de destaque do meu avô na direção do culto e na cabeceira da mesa. Naquela manhã, por volta das cinco horas, no entanto, algo de muito inusitado estava acontecendo naquela “jurisdição disciplinada de quartel.”. Pois antes que meu querido avô se levantasse, já podia escutar lá fora cânticos de louvores e alguém a tilintar uma velha enxada convidando os moradores daquela imensa casa a acompanha-lo no culto que faria. Era o velho Laudelino, o forasteiro, recém- chegado àquelas plagas. Observador que sempre fui, Recordo-me, ainda hoje das feições de meu avô naquele episódio inesperado. Seus aposentos ficavam na parte de cima da casa e da janela pode observar esta cena: Laudelino, que tinha a mesma idade (73) anos e feição de meu avô, inclusive a mesma barba longa e branca, própria dos adventistas de antanho, havia montado uma mesa na frente da casa sobre a qual tinha sua Bíblia e na cabeceira assentou-se iniciando ali o culto. Em meio ao culto Laudelino, como se estivesse rodeado de uma multidão de pessoas presentes, passava a palavra para alguns que depois de “darem seus respectivos testemunhos” devolviam-na ao dirigente Laudelino que agora, ou seja, quarenta minutos depois finalizava o culto. Enquanto isto o meu avô, calmo como sempre foi, assistia a tudo aquilo de sua janela, tranquilo e sereno e, passivamente, como era de seu costume, sorrindo, deslizando a mão pela sua bem cuidada barba e a cada refrão de Glória a Deus de Laudelino lá embaixo meu avô respondia lá de cima em sua janela: Aleluia, amém, irmão!

Curioso, passei a matutar em meu cantinho.

Para quem, diabos, Laudelino estava pregando? Quem eram aqueles seres invisíveis a quem ele concedia a palavra? Por que eu não os via? Eram eles realmente verdadeiros? De carne e osso?

E agora? O que aconteceria depois de Laudelino terminar o culto? O meu avô faria outro culto ou “validaria” o culto de Laudelino?

De onde veio Laudelino? Quem era ele? O que pretendia ele ali naquela localidade? Foi enviado por alguém? Continuaria por lá?

Quem, finalmente, se revelaria por debaixo daquela velha carcaça? Uma pessoa de boa ou má índole? Por quanto tempo o meu amado avô o toleraria?

A que se dedicaria ali? Sim, por que não obstante ele ter a mesma idade de meu avô, em termos de condicionamento e força física não o assemelhava em nada. Estava demasiado gasto e até mesmo para dar um passo manquitolava.

Trabalhador incansável que sempre foi o meu avô, será que ele o manteria ali em sua fazenda sem condições para o trabalho?

É o que veremos no desenrolar dessa verídica história de minha infância.

Até a próxima, Brejeiros. Fraternal abraço.

* O autor é Brejeiro de nascimento.



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Por Enoque Alves - 18/4/2014 20:05:01
FELIZ PÁSCOA, BREJEIROS - O BREJO DAS ALMAS EM CRÔNICAS ESTÁ CHEGANDO!

*Enoque Alves Rodrigues

Feliz Páscoa, Brejeiros.

Neste momento muito especial em que todos nós estamos com os corações voltados para o Símbolo Maior da Páscoa, Jesus, quero desejar a todos vocês, Brejeiro ou não, mas frequentador deste meu BLOG toda felicidade do Mundo. Que todas as suas expectativas se cumpram. Que a verdadeira simbologia da Páscoa se materialize em vossa vida. Que a paz, saúde e prosperidade jamais lhes faltem.

O Brejo das Almas Em Crônicas.

O meu livro “O Brejo das Almas em Crônicas” composto de 302 páginas onde estão elencadas quarenta e seis histórias do antigo Brejo das Almas e de seus personagens que marcaram época, será lançado aqui em São Paulo no próximo mês de Junho/2014.

No ano passado eu havia solicitado à Municipalidade do Brejo a gentileza de me enviar lista com indicações de nomes de instituições públicas, como escolas, bibliotecas e outras entidades de interesse do Município para que eu encaminhasse, gratuitamente, alguns exemplares do meu livro “O Brejo das Almas em Crônicas.”. Acompanhei a evolução deste meu pedido até a sua terceirização, encaminhado que foi a outro órgão para que me atendesse. Mesmo não tendo recebido à lista com as indicações dos nomes e endereços para envios, prometo ao meu povo que quando for a Minas passarei no Brejo para distribuir, graciosamente, alguns exemplares diretamente a quem encontrar pelas ruas.

O Brejo e os antigos personagens que fizeram a sua história a qual muito nos orgulha e enaltece enquanto Brejeiros, não obstante somente alguns fragmentos dela terem sido repassados realmente de pai para filho, são muito lindos e não podemos deixar de forma alguma que tudo isto morra algum dia. O tempo, nem sempre, senhor absoluto da razão, não pode jamais apagar o que há de bom em nossas memórias a respeito de nossa Terra, assim como de sua gente antiga que muito sofreu, vivendo e escrevendo a sua história de maneira simples, muitas vezes, despretensiosa, no intuito de deixa-la gravada com marcas indeléveis a posteridade atual e vindoura.

Em virtude de todas as crônicas relatadas neste livro serem inteiramente inéditas, tão logo ele seja publicado voltarei a atualizar este BLOG semanalmente como sempre fiz cuja interrupção foi necessária devido ao grande acúmulo de trabalho na área de minhas atividades, conciliado com a revisão de dois livros sendo o próprio “O Brejo das Almas em Crônicas” e o outro de temática Espírita que será distribuído gratuitamente.

Um forte abraço para todos vocês, Brejeiros!

E vamos em frente...

*Enoque Alves Rodrigues nasceu no Brejo.


76785
Por Enoque Alves - 7/1/2014 21:38:58
BREJO DAS ALMAS - 76 ANOS SEM JACINTO


BREJO DAS ALMAS - 76 ANOS SEM JACINTO


*Enoque Alves Rodrigues


Brejo das Almas, 17h30m do dia 8 de Janeiro de 1938. Com quase 67 anos, falecia, depois de padecer por doze anos do mal de Parkinson, no Brejo das Almas, ou Francisco Sá, distante 480 quilômetros da Capital Belo Horizonte, ao norte de Minas Gerais, Jacinto Alves da Silveira. Portanto, brejeiros, amanhã, quarta-feira, oito de Janeiro de 2014, o nosso Brejo completa 76 anos sem o seu fundador, ou principal responsável por sua emancipação politico-administrativa.

A Parkinson é idiopática, ou seja, é uma enfermidade primária de causa obscura. Há deterioração e morte celular dos neurônios produtores de dopamina. É, por isso, uma doença degenerativa do sistema nervoso central, com início geralmente após os 50 anos de idade. É uma das patologias neurológicas mais frequentes visto que sua prevalência situa-se entre 80 e 160 casos por cem mil habitantes, acometendo, aproximadamente, 1% dos indivíduos acima de 65 anos de idade. Apesar do muito que já se pesquisaram, decorridos quase duzentos anos do descobrimento desta gravíssima doença por James Parkinson, pouco ou quase nada se sabe sobre suas causas.


O fato é que, deve-se a ela, todas as consequências de doze anos de sofrimentos que vitimaram o grande e insubstituível benfeitor de nossa Cidade. Tudo começou quando ainda vereador em Montes Claros, no momento em que lutava pela aprovação de mais um projeto que beneficiaria o Brejo. Ali ele sentiu as primeiras dores no dedo indicador da mão direita, que insistia em não obedecer aos seus comandos. Seu colega de partido, Antônio Ferreira de Oliveira, o Niquinho “Açúcar”, ou Farmacêutico, é quem conta com todos os detalhes, o inicio desse duradouro tormento, que, como já mencionei, doze anos depois ceifaria a vida do nosso mais ilustre Brejeiro.


Jacinto Alves da Silveira foi, até hoje, o único capaz de reunir todos os predicados que habilitam qualquer individuo a afirmar ter vivido a vida em toda a sua plenitude na prática do bem. Descendente de famílias de Ouro Preto, assim como os Pena, Oliveira, Dias, Xavier, entre outras, esta última pertencente à genealogia do grande Mártir da Inconfidência, o Tiradentes, Jacinto, um dos muitos filhos do velho Fazendeiro José Alves da Silveira, nasceu no Brejo, lá pelos idos de 1871, quando o Brejo sequer sonhava em ter as feições de hoje. Ao contrário, assemelhava-se, muito mais, ao longínquo dois de novembro de 1704, quando não passava de uma vasta mata às margens dos rios Verde Grande, São Domingos e Gorutuba, onde Antônio Gonçalves Figueira, dono de várias fazendas na região, fincou pela primeira vez, ao lado da Lagoa das Pedras, o imenso cruzeiro que marcaria para sempre, no tempo e no espaço, o inicio de uma nova era, de uma promissora civilização e de uma progressista Cidade, como o próprio Bandeirante profetizara. Jacinto, ao contrário de seus outros irmãos que eram todos Fazendeiros, desde a infância, apesar de rústico, já se revelava muito inteligente, quando lia, escrevia e realizava cálculos difíceis até mesmo para quem tinha a mais elevada cultura. Era, desde aqueles tempos, um iluminado, na mais clara e límpida definição do termo.


Bonito, com 1,80 de altura, bigodes aparados e bem fornidos, cabelos cortados à escovinha, trajando-se sempre de brim-cáqui, o belo jovem Jacinto Silveira juntamente com outros peões, percorria, no lombo do cavalo, por estradas de chão batido a longa distância de 270 quilômetros conduzindo grandes manadas de gados de corte que eram vendidas na cidade de Curralinho, hoje, Corinto, situada ao norte de Minas Gerais. Com 24 anos conheceu e casou-se com a normalista Maria Luiza de Araújo, na velha Matriz de Montes Claros, no dia 16 de Novembro de 1895. Maria Luiza foi durante toda a vida, sua fiel e inseparável companheira, a qual foi responsável pela condução dos destinos do povo brejeiro no campo da educação e cultura, enquanto Jacinto preparava esse mesmo povo na política e principalmente para a emancipação administrativa do Brejo, que ocorreria em 1923/24. Foi o primeiro presidente da primeira legislatura municipal brejeira, 1924/1930, que era composta pelos seguintes vereadores: Padre Augusto Prudêncio da Silva, Francisco Fernandes de Oliveira, José Dias Pereira Zeca, João de Deus Dias de Farias e Rogério da Costa Negro, este último, um grande comerciante do ramo de tecidos.


Lutador incansável pelos direitos de seu povo, íntegro, transparente, correto em todas as suas atitudes, honesto até a medula, numa época em que a mosca varejeira sequer sonhava sobrevoar o mundo da política, Jacinto Silveira conduzia os destinos do povo Brejeiro pelos caminhos da retidão e do porvir, assim como Moisés do Egito conduzia seu povo rumo à Terra Prometida. Jamais perdeu uma só eleição. O Brejeiro daqueles tempos sabia reconhecer os valores inalienáveis daquele homem e o tinha como a um verdadeiro Líder. E como tal se comportava: respeitador e cerimonioso, de falar pausado, olhava sempre nos olhos do interlocutor e não o interrompia quando o outro se pronunciava. Firme e assertivo, sempre expressou o seu pensamento. Nunca se utilizou de meias palavras. Era homem de posições claras e definidas. Benevolente e despojado, servia a todos com amor sem pedir nada em troca. Disciplinado, sabia ser enérgico sem ser jactante. Muitos foram os Governadores de Estado que utilizaram o prestigio de Jacinto. A palavra dele era uma ordem e nela todo e qualquer Brejeiro acreditava cegamente por que Jacinto nunca deixou de cumpri-la.


Rico, dono de várias fazendas de gado e cultivo, casas comerciais e muitas outras fontes de renda, Jacinto Alves da Silveira, homem que durante toda a existência sempre teve a casa cheia de amigos e correligionários, que sem nenhum apego às coisas materiais, ajudava, com recursos pessoais a todos, brejeiros ou não; bancava, do próprio bolso, inúmeros candidatos em campanhas eleitorais caríssimas. Depois de ter custeado a emancipação do Brejo das Almas, tendo inclusive doado prédios de sua propriedade para comporem a Sede Administrativa e o conjunto arquitetônico do Município, condição esta indispensável a sua homologação, já no final da vida, corroído pela enfermidade degenerativa, ainda era obrigado a arrastar-se de sua casa até a Prefeitura, onde dava expedientes, deixando-nos o belo exemplo de que é no trabalho que nos realizamos e enobrecemos. Morreu, no entanto, pobre, mas digno e praticamente só, tendo a seu lado apenas os familiares.


Não é sem motivo que um de seus filhos, o também Coronel Geraldo Tito Silveira, assim se expressa em um de seus lindos libelos, referindo-se as indiferenças das quais fora vitima o pai: “Nos áureos tempos de sua vida abastada, quando ele plantava as sementes de uma pequena fortuna, depois esbanjada nos ardores da política, feita somente para o bem-estar de outrem, sua casa solarenga vivia repleta de “amigos”. Até então, não se via pela estrada real, que ia dar à Bahia, uma só pousada ou hospedaria, de modo que os forasteiros que por ali passavam procuravam a casa do Coronel Jacinto, onde recebiam todo o conforto, gratuitamente. Muitas dessas pessoas eram acometidas de terríveis pestes inclusive febre brava!”.


E arremata o grande escritor do Norte de Minas, Geraldo Tito Silveira, agora lamentando mais uma grande injustiça com a qual brindaram o pai. Aliás, muito já falei sobre tal injustiça que espero um dia, quiçá nessa atual encarnação ver corrigida: “Como corolário da ingratidão dos homens, mudaram o nome de Brejo das Almas, não para perpetuar o nome de Jacinto Silveira, na terra que engrandecera, mas para honrar o nome de outro Brasileiro, Ilustre, é verdade, mas que nada fizera por ela.”. Refere-se ao Doutor Francisco Sá, (1862-1936), nascido na fazenda Brejo de Santo André, que naqueles tempos pertencia ao Município de Grão Mogol e que foi Ministro da Viação e levou a Estrada de Ferro Central do Brasil até Montes Claros, que muito lhe deve.


Não sei, até porque de há muito não vivo mais no Brejo e não participo de seu dia-a-dia, se a Sociedade Brejalmina ou Brejalmense, movida por nobres sentimentos de gratidão, ou, quiçá, políticos locais, se lembrarão de promover neste dia 8 de Janeiro, alguma cerimônia, por mais simples que seja, ainda que um singelo minuto de silêncio, àquele que foi, é e será, o primeiro e mais importante Brejeiro. O maior de todos, porque deu tudo de si, até a própria vida, para que o Brejo das Almas ou Francisco Sá figurasse no mapa de Minas e do Brasil, como o Município importante e promissor que é.


Depois de permanecer longo tempo na erraticidade, acha-se, atualmente, no meio de nós. Não dentro da política que, convenhamos, mudou muito, e para pior. Servidor nato e dedicado que jamais fugiu à luta, não obstante toda a ingratidão que recebeu, acreditem céticos de plantão: Se hoje se realizassem uma “chamada oral” convocando homens de bem a colaborarem com qualquer causa que tivesse por objetivo o bem comum, a justiça social, a luta contra as desigualdades dos menos favorecidos, alguém, digno, decente, probo e humano em quem, todos nós pudéssemos nos espelhar, ao bradarem o nome “Jacinto Alves da Silveira!” Com toda certeza ouviríamos, prontamente, em algum lugar do Brasil, a voz firme, forte e determinada do Coronel e grande Líder: “Presente... Eis-me aqui!”.


E tenho dito


*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



ALGUNS FRAGMENTOS ALUSIVOS A JACINTO SILVEIRA – CRÔNICAS PUBLICADAS

*Enoque Alves Rodrigues




“Que Jacinto Luz era sogro de José Alves da Silveira, grandes fazendeiros no Brejo das Almas de antigamente, sendo este último pai de Jacinto Alves da Silveira, principal responsável pela fundação e emancipação do Brejo das Almas, hoje Francisco Sá?...”.

“Naquele tempo, Jacinto que era seu compadre, dava expediente na Prefeitura”. A farmácia de França ficava exatamente no trajeto, que Jacinto fazia três vezes ao dia, pois almoçava em casa. Numa dessas passagens, França, desesperado, chamou-o:

- Compadre!

- Pois não. Respondeu-lhe o Coronel Jacinto, sempre educado, cordial e solícito.

- Já não sei mais o que fazer compadre. Não posso mais aceitar porco, galinha e mantimentos como forma de pagamento. Os meus cercados estão cheios. Se eu continuar assim vou quebrar. Mas também não posso deixar o povo sem remédio. O senhor precisa me ajudar!

Jacinto, homem prático, de raciocínio rápido, desses que em fração de segundos cria, amadurece e executa uma ideia, ali mesmo, sobre o balcão da farmácia, pegou sua pena e num papel timbrado escreveu em letras garrafais: “Com o único objetivo de zelar e preservar a valiosa saúde do povo brejeiro, com o intuito exclusivo de evitar propagação de doenças e pestes eventuais, inerentes ás espécies suínas e ovinas, porcos e penosas, proíbo, a partir de hoje, qualquer forma de pagamento de remédios mediante tais modalidades”.

Depois de assinar, entregou o papel para França com a recomendação: “Aqui está compadre, a solução para o seu problema. Pegue isso e cole na frente da farmácia. Quando alguém chegar com porcos e galinhas, basta o senhor mostrar o cartaz. Como a maioria não sabe ler, diga que o papel lhe proíbe de vender remédios para receber de outra forma que não seja em dinheiro vivo...”.


“Quantos, porventura, de nossos conterrâneos saberiam definir o quanto representou o nome gravado naquela velha placa para o Brejo das Almas? O certo é que o Padre Augusto Prudêncio da Silva, sobre o qual muito já escrevi neste mesmo espaço foi, juntamente com Jacinto Silveira, um dos maiores beneméritos do antigo Brejo das Almas...”.


“Alto, magro e esguio”. Vestido do mais puro brim, cáqui, calçado com botas de couro, canos longos, com chapéu panamá à cabeça, olhar tranquilo e falar manso. Sentado estava no solar de seu casarão de onde observava todo o Brejo das Almas, reduzido, naquele tempo, a um pequeno amontoado de casas. Ao avistar Marcolino, elegantemente se expressou:

- Bom dia, meu amigo. Como vai o senhor? Porventura, há algo que eu possa fazer para lhe ajudar?

- Sabe o que é coronel! Eu vim aqui para lhe vender o meu voto. Quanto é que Mercê está pagando?

- Vender, o que, meu filho? Por favor, seja mais especifico. Não lhe entendi!

- Então, coronel, o senhor sabe que todo eleitor aqui vende o voto e que aqui no Brejo qualquer candidato só se elege se comprar votos, já que não tem voto de cabresto para todo o mundo.

Aquele candidato olhou para Marcolino com piedade. Após fitar-lhe de alto a baixo, respondeu-lhe educadamente.

- Creio que o amigo esteja enganado. O voto deve ser dado e não vendido. Voto não tem preço, voto tem consequência. Aliás, você nem precisa conhecer a pessoa para votar nela. O que você tem que conhecer é o seu plano de governo. Não faça de seu voto moeda de troca senão os candidatos vão fazer de você massa de manobra e posso lhe garantir que esta ciranda perversa não é benéfica nem para você tampouco para à Democracia que todos nós um dia almejamos. Não vote, jamais, em quem se propõe a comprar o seu voto. “Ele não o merece...”.

Democracia? De que diabos aquele coronel visionário estava falando em plena década de 1920 quando a maioria das questiúnculas era resolvida à bala ou sorrateiramente?

Impossível seria mesmo entender, quanto mais explicar, não fosse aquele candidato o Coronel Jacinto Alves da Silveira que, segundo os anais da história, jamais perdeu uma eleição das muitas que disputou.


“E o nosso fundador, Seu Jacinto. Você já leu alguma coisa sobre ele?...”.


Certa vez se encontravam na casa do Padre Augusto, no Brejo das Almas, o Dr. Honorato Alves, Camilo Prates, Alfredo Sá, Jacinto Silveira, Antonio Ferreira, Francelino Dias...


Depois de longos minutos neste diapasão coube a Jacinto intervir.

- Compadres, por favor, parem com isso! Os senhores ainda não perceberam que este Lucas dos Infernos está tirando sarro de todos nós? O que ele lhes manda fazer, jamais conseguirão. Ninguém é capaz de fazer isso. Foi bem mais fácil para mim, apesar de sabermos o quanto me foi difícil, (o Coronel Jacinto, como bom Mineiro, de quando em vez também se dava ao luxo de colocar em prática o seu Mineirismo), emancipar o Brejo das Almas. Este negro não quer contar história coisíssima nenhuma!


“Até mesmo o Coronel Jacinto Silveira, meio sisudo, por natureza, recebia com sorrisos os seus gracejos...”.


“Assim sendo, personagens, cuja vida detalhei em suas minúcias como, por exemplo, o Padre Augusto Prudêncio da Silva, Jacinto Alves da Silveira, Geraldo Tito, Feliciano Oliveira, entre outros, não serão abordados...”


“Aqui estamos diante do túmulo do ilustre Brasileiro e acima de tudo, Brejeiro, Jacinto Alves da Silveira, que por toda a sua vida...”.


“Ainda solteiro, Jacinto conduzia grandes boiadas que eram vendidas em Curralinho, hoje, Corinto...”.


“Dos muitos filhos do velho Zé Alves Jacinto foi o único a inclinar para o campo do intelecto e, menino ainda, já dominava o alfabeto e tabuada...”.


“Ali foi celebrado o enlace matrimonial de Jacinto Alves da Silveira com Maria Luiza de Araújo, que...”.


“Não obstante ter sacrificado a própria vida pelo Brejo das Almas, Jacinto Silveira pouca ou quase nenhuma homenagem recebeu em vida...”.


“A esposa de Jacinto Silveira, dona Maria Luiza, tinha uma cultura refinada e muito além de seu tempo. ela foi a primeira normalista do Brejo das Almas...”.


“Mantendo as mesmas tradições de injustiças com que regalaram o marido Jacinto, Maria Luiza, mesmo tendo sido a primeira Normalista do Brejo, não teve a primeira Escola do lugar nominada em sua homenagem...”.


“Nem mesmo na concessão do Cartório do Brejo se dignaram a destina-lo a esposa de Jacinto, agregando-o a outra família, também merecedora, claro, mas sua tradição e amor ao Brejo sequer se aproximavam da tradição dos Silveira...”.

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 15/10/2013 10:00:55
O BREJO ERA ASSIM... DE TUDO UM POUCO

*Enoque Alves Rodrigues

O povoado:

Em 1830 o povoado de São Gonçalo do Brejo das Almas florescia em torno de diminuta capela deste santo padroeiro. Ao contrário do que possa parecer à povoação do Brejo das Almas não se deu em torno do cruzeiro fincado ali pelo Bandeirante Antônio Figueira, cruz esta que deu a primeira denominação do lugar de Cruz das Almas das Caatingas do Rio Verde. Todas as casas mais antigas foram construídas na Rua das Aroeiras e no Largo da Matriz. Elevado á categoria de distrito do Município de Grão Mogol, forças politicas daquele lugarejo começaram a se movimentar junto á assembleia da província no sentido de que o mesmo fosse anexado ao Município de Montes Claros à época dotado de melhor infraestrutura cuja efetivação veio a ocorrer em cinco de Outubro de 1870.

Emancipação:

Através da Lei 843, de sete de setembro de 1923 depois de árdua batalha, finalmente conseguiam emancipar aquele outrora pequeno distrito e exatamente um ano depois eram empossados na Câmara Municipal do Brejo das Almas, hoje Francisco Sá, a primeira legislatura que daria os primeiros passos rumo ao desenvolvimento social, econômico e político do Município.

Primeira Escola:

A primeira Escola com instrução máxima até o curso primário funcionava em prédio precário que assim como todos os demais foi doado por Jacinto, criada em 1923, tinha inicialmente como professoras as normalistas a própria dona Maria Luiza, esposa de Jacinto Silveira, dona Augusta Guimarães Ataíde e como interina dona Maria Augusta Dias. Naqueles tempos somente alguns abastados fazendeiros possuíam linhas telefônicas com as quais se conectavam com o mundo limitado a sua volta, entre eles, figuravam-se, Francelino Dias, Altino Soares Pereira, José Dias Pereira e mais uns três além deles.

Um Professor “Arrojado”:

Algum tempo depois ingressou naquela escola um professor arrojado de nome José Maria Fernandes ao qual foi facultado implantar sua metodologia de ensino que veio revolucionar as infantis cabeças dos Brejeirinhos. O método era simples. Ele queria somente ensinar os seus alunos a pensar. Inusitada e impensadamente para nós em dias atuais começou por abolir o uso do lápis e do caderno. Ele escrevia no quadro negro e o aluno tinha dez minutos para ler e decorar os textos, assim como as frações aritméticas. Ao fim de cada chamada ia selecionando os que respondiam corretamente enquanto que aos pobres coitados que errava ele entregava a cada um uma enxada com ordens expressas para utilizar todo o tempo do recreio carpindo ao redor da escola e quando não se tinha mais o que carpir ali mandava o infeliz carpir as erva na Rua das Aroeiras onde ficava o Grupo. Quando a tarefa de carpir não era executava integralmente ele fazia uso da palmatória e ai meu nego, o pau comia literalmente. Toda ação da molecada era supervisionada pelo Inspetor Escolar Mateus Alves, um crioulo de quase dois metros de altura que era à sombra de cada aluno, relatando ao mestre José Maria todas as estripulias. Quando por fim José Maria Fernandes devido a envolvimento com o álcool foi substituído pelo Professor Manuel José Veloso, ou Neco Surdo em 1924, os alunos assim como os seus pais fizeram uma festa. Até mesmo os pais se incomodavam com os métodos primitivos de José Maria, enquanto que Neco Surdo, figura tranquila totalmente oposta ao antecessor era querido por todos.

Lagoa das Pedras:

A denominação de Lagoa das Pedras é atribuída a um veio de pedras calcárias de grosso porte que se encontrava ao lado Sul, na antiga estrada de Boa Vista para o Areal rumo a serra do Catuni a qual margeia em direção ao Norte prosseguindo muito além. Para se atravessar esse veio calcário, que formava lajedos, lutava-se com muitas dificuldades, principalmente se fosse a cavalo, pois era muito escorregadio e somente os cavalos ferrados conseguiam manter-se de pé, em equilíbrio.
Somente depois de se erguerem ali muitas caieiras em tempos remotos onde arrebentaram as pedras para produzirem à cal as pedras mais salientes foram removidas o que tornou possível o tráfego de caminhões e outros veículos motorizados. Esta é sem duvida alguma a razão do nome “Lagoa das Pedras”, hoje inexistente nos moldes anteriormente vistos e que muita gente atraia ás suas margens. Não passa de lenda a versão de que os primeiros moradores do Brejo se agrupavam em torno do cruzeiro erguido pelo Frei Clemente à cabeceira da Lagoa das Pedras. Tampouco a povoação do Brejo começou ali.

Igreja Matriz do Brejo:

É uma incógnita até mesmo nos dias de hoje a atribuição direta e definitiva do principal responsável pela construção da Igreja Matriz do Brejo das Almas ou Francisco Sá. Restam apenas especulações que dão conta de que a mesma foi erguida pelo povo numa faixa de dois quilômetros quadrados de terra que foi doada pelo Sargento Mor Jerônimo Xavier ao São Gonçalo. Outra versão dá conta de que a construção desta Igreja foi feita pelo próprio Sargento Mor. Mais verossímil se é que assim podemos chamar, é a narrativa de que a construção da Matriz se deve ao Major Antônio Gonçalves da Silva que motivado por sua esposa, ao erguer um casarão no Arraial do Brejo das Almas aproveitou o ensejo e construiu a Igreja Matriz. Nada no entanto confirma nenhuma dessas versões. O certo é que esta Igreja é a primeira do Brejo, pois a ela o Padre Augusto Prudêncio da Silva que faleceu em 1931 se referia como bicentenária. Havia livros e farta documentação que era guardada no porão que dava acesso ao altar mor entrando pela sacristia à esquerda onde seguramente constava o “registro de nascimento e batistério” de nossa primeira igreja. Todos estes livros e documentos, entretanto, foram queimados propositadamente pelo Padre Salustiano Fernandes dos Anjos, o Padre Salú, que sucedeu o Padre Augusto. É certo, no entanto, que a conclusão daquela pequena capela, hoje nossa Igreja Matriz se deu no ano de 1768. No compulsar de alguns livros podemos encontrar um tal de Joaquim Benedito do Amaral, natural da antiga Serro Frio, colaborando com a construção da Matriz na condição de Mestre de Obras, no ano de 1764 o qual veio a falecer exatamente no ano de sua inauguração, em 1768. Essa ultima versão era sustentada pelo Deputado e ex-prefeito do Brejo Feliciano Oliveira. Repito que nenhuma dessas versões teve sua veracidade confirmada. Muito já pesquisei nesse sentido e hoje é tudo que sei. Apesar de sua má fama o Padre salú foi responsável por importante reforma na Matriz no que tange a parte outrora ladrilhada enquanto que seu antecessor o Padre Augusto com a mão de obra do Carpinteiro Antônio Carapina responde pelos altares mores, abóboda e assoalhos de madeira lá pelos idos de 1914-1915. Ali existiam muitas sepulturas o que indica ter sido aquele local o antigo cemitério do lugar. Durante as escavações daquela área nas administrações do Dr. Paulo Cerqueira e do Dr. João Bawden no sentido de nivelar a praça muitas ossadas humanas foram encontradas.

E tenho dito.

*O autor nasceu no Brejo das Almas.


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Por Enoque Alves - 5/9/2013 20:44:31
BREJO DAS ALMAS - NOVENTA ANOS DE EMANCIPAÇÃO

*Enoque Alves Rodrigues

Recebi do amigo Dr. Charles Luiz, convite que muito me honrou para participar dos festejos comemorativos pelos noventa anos de emancipação político administrativa de nossa Cidade de Francisco Sá ou Brejo das Almas. No entanto, compromissos profissionais impossibilitam minha presença ao evento. Por este motivo, fisicamente distante, envio à minha Cidade e ao meu povo Brejeiro, as mais sinceras e cordiais felicitações seguidas de algumas singelas palavras.

Ao comemorarmos, festivamente uma data tão importante para o calendário de nossa terra e de nosso povo, não podemos nos esquecer daqueles que um dia lutaram e muitas vezes tombaram no sentido de que tudo isso que hoje vivenciamos se realizasse. Os grandes homens que hoje conduzem com eficiência os destinos deste nosso pujante Município rumo a excelência em todos os seus aspectos, foram, de igual forma, precedidos por outros empreendedores contumazes que deixaram para todos nós, brejeiros, seus pósteros, obras magnificas, indissociáveis de suas impolutas figuras. Sensíveis que somos a tudo o que se encontra a nossa volta, no brejo ou fora dele, não nos é preciso seguir uma cronologia exata para nos depararmos com aqueles que deram os primeiros passos na construção de nosso Município para que ele se transformasse no que hoje é. Certamente que indispensáveis se fizeram as incontáveis idas e vindas de muitos Joãos de barro ás Lagoas que antes existiam em busca da principal matéria prima com a qual dariam início à edificação de um amontoado de pequeninas casas que se chamaria Brejo das Almas e depois Francisco Sá.

A história do Brejo começou em 1704. Engana-se quem pensa que a história de um Município só se inicia quando ele atinge a sua emancipação. A emancipação é apenas uma etapa no processo histórico de desenvolvimento político, cultural, social e econômico de um núcleo demográfico e sua respectiva geografia.

Da chegada a estas plagas na tarde do dia 02/11/1704 acompanhado por vinte homens, de um Sertanista de nome Antônio, Paulista de Santos, filho de Maria Gonçalves Figueira de quem herdou o sobrenome e de Manoel Afonso Gaia, remanescente da expedição de um certo Fernão, até o primeiro tremor no dedo indicador de um Coronel de nome Jacinto que acusaria, tempos depois, a presença do Parkinson, durante acirrada discussão na Câmara Municipal da bela MOC, cuja pauta era exatamente a aprovação do projeto de lei que emanciparia (07/09/23) o Brejo das Almas, ou Francisco Sá (17/12/38), muitas águas rolaram no Gorutuba e no São Domingos.

De 08/01/38 desencarne de Jacinto ao decreto lei 148 de 17/12/38 transcorreram-se onze meses. Promoveu a alteração toponímica do Município de São Gonçalo do Brejo das Almas para Francisco Sá, ilustre Ministro de Viação, mas que ao contrário do grande Jacinto, nada fizera pelo Brejo. Ao invés de aproveitarem o calor dos acontecimentos da perda irreparável do grande Líder, oferecendo à Cidade pela qual lutou e finalmente emancipou, o seu nome, deram a ela o nome de alguém muito importante para o Brasil, mas insignificante para o Brejo.

Do inicio da emancipação feminina em 1940 à construção do Mariquinha Silveira que foi concebido nos anos 1950 onde foi criado o curso ginasial que preparava as mulheres para uma nova vida até então restrita a lavoura e cuidar da casa, foram dois lustros. Da transformação e mudança de nome do Mariquinha Silveira para Tiburtino Pena na década de 1960 foi um pulo. Da implantação do curso do Magistério no Tiburtino Pena em 1965 que capacitava as nossas deusas brejeiras a voos mais altos no campo do intelecto até a formação da primeira turma de normalistas em 1967 passaram-se dois anos somente. Do luto velado e permanente das viúvas até a participação ainda que tímida do divino ser brejeiro (mulher) na política local foi uma eternidade. Pouco mais de uma dezena de nossas guerreiras chegaram à Vereança. Em 2004 tivemos no Brejo a primeira candidata mulher á Prefeitura. Vários partos de porco espinho se deram para que tudo isso se tornasse realidade. Barreiras e entraves até curiosos, pacientemente, superados, fundem a história da emancipação da mulher brejeira com a do próprio Brejo. Não, nenhum machismo: o mundo era assim e não sei se você sabe, o nosso brejo querido é parte integrante do mundo.

Das missas rezadas em latim nos áureos tempos do despojado Augusto á modernidade da igreja do abastado Silvestre, muitos badalos bateram. A centenária palmeira, postada ali, silenciosa, a guisa de atalaia não me deixa mentir.

Da fartura do ouro branco (algodão e alho) dos meus tempos de menino ás secas que esturricavam o solo sob o pipocar de mamonas e fretenes tristes das cigarras não se passou muito tempo. Somente 18 anos, mas que foram suficientes para me tangerem da vida cotidiana do Brejo que até hoje, seguramente, ainda “lamenta” a minha perda, não obstante não existir ali uma vivalma sequer que me conheça pessoalmente. Quanto a mim, então, mesmo tendo conseguido tudo que quis mediante trabalho árduo, mas que me apraz, devo dizer, sem falso romantismo, que continuo escutando o gorjear dos pássaros brejeiros, o barulho de todos os rios que o banham, o cantar da juriti e das revoadas de suas maritacas, assim como do coaxar vespertino de “meu igual” cururu na Lagoa das Pedras de antanho.

Quantas eleições foram ganhas com a palavra dada e cumprida apenas com o fio do bigode? Do mesmo jeito quantas eleições foram perdidas por que alguém deixou de cumprir promessas vazias feitas no afã de iludir o povo, soberano em sua sabedoria?

Enquanto isso, na velha Câmara, de Jacinto a Rogério, de Augusto a Gentil, de Francelino a Jacinto, o Teixeira, de Zé de Deus a Euler, de Adalberto a Valda, de Zé Nunes a Alineu, de Idalino a Ronaldo apenas para citar alguns, até os dias atuais quantos projetos, simples e polêmicos foram aprovados ou deixados de aprovar debaixo de acaloradas discussões?

E na prefeitura do mestre Benfica? Quantos já se passaram? O que fizeram ou deixaram de fazer?

E no São Dimas, quantas vidas foram salvas? Quantas pereceram? Se salvas, é o estado se fazendo presente no amparo ao Cidadão pagador de impostos. Se perdidas, aonde, Deus, se achava o estado? O que aconteceu? Por que diabos deixou que o Cidadão Brejeiro morresse? Bem, é fácil de explicar: Cidadãos morrem aqui e em qualquer lugar, até mesmo na Suíça! Ok, parcialmente de acordo, mas você vive na Suíça ou no Brejo? Então: por mim ninguém morreria em parte alguma, mas se alguém tem de morrer desamparado que não seja em meu Brejo, uai?

Acalmem se, por favor... Chega de urticárias... Não empurrem... Vamos devagar por que eu tenho pressa. Mas ainda não acabei...

Dos digníssimos homens públicos do passado sobre os quais falei acima ao mais vil e reles que constrangeu e decepcionou a nossa gente até o palanque comemorativo das atuais festividades onde desfilam consciências imaculadamente límpidas e comprometidas com as causas dos menos favorecidos, revezando-se em seus comedidos discursos onde não tem vez e voz as vaidades e promoções pessoais mais apenas às alusões ao que representa este dia 07 de setembro de 2013 para o nosso lugar, quanto tempo se passou? Muito, mas valeu a pena!

Portanto, regozijam-se Brejeiros. Saiam ás ruas em desfile e brindem essa data. Temos muito que comemorar. Os tempos são outros. As mudanças que se faziam necessárias estão, aos poucos, se processando. Estejam certos que o amor filial que vocês demonstram á querida mãe que se chama Brejo das Almas é recíproco e verdadeiro. A jovem e bem cuidada senhora de noventa anos, alegre e feliz, comovida e carinhosamente lhes agradecem.

E tenho dito.

*O autor nasceu no Brejo.


75892
Por Enoque Alves - 2/8/2013 20:04:55
HISTÓRIA BREJEIRA I – INÍCIO DO SÉCULO XX

*Enoque Alves Rodrigues

O deputado Camilo Prates visitava seu Compadre e fiel correligionário, o coronel Olímpio Dias em sua residência de Brejo das Almas, ou Francisco Sá, que se preparava para mais uma eleição. A agitação era geral e comícios pipocavam por todos os lados. As duas únicas forças políticas que ditavam a ordem naquela pequena localidade e que, portanto, traçavam os destinos do povo brejeiro era exatamente o Coronel Olímpio Dias apoiado pelo deputado Camilo Prates e o Coronel Jacinto Silveira que por sua vez tinha o apoio do deputado Doutor Honorato José Alves cuja base eleitoral, assim como a base eleitoral de Camilo Prates, ficava em Montes Claros.
Ao contrário do que ocorre hoje em muitas regiões do Brasil dito civilizado, onde adversários políticos são também ferrenhos inimigos no campo pessoal, aqueles dois baluartes da política brejeira eram, antes de tudo, grandes amigos, ou melhor, eram compadres. Divergiam apenas e tão somente em suas ideologias político-partidária. Suas diferenças ficavam ali. No mais eram cordiais, respeitadores e afetuosos no trato mútuo. Frequentava um a casa do outro onde o assunto com certeza não era política, por que naquelas ocasiões tratavam apenas de amenidades, pois também não era costume falar mal da vida alheia.
Entretanto, nos dias de eleições postavam-se cada qual em um lado da entrada da única secção eleitoral existente e “observavam” o eleitor desde a sua chegada à secção até a saída, de maneira que finalizada a votação já se sabia de antemão quem havia sido o eleito. Hoje isso é ilegal não obstante sabermos que ainda campeiam ilícitas e grosseiras artimanhas, apesar do grande advento cibernético eleitoral onde se realizam apurações de milhões de sufrágios em algumas horas. Somos pioneiros nesta tecnologia a qual exportamos para Países econômica e socialmente desenvolvidos, mas que quase nada avançaram nesta direção.
Bem, voltemos à visita de Camilo a Olímpio no Brejo das Almas naquela tarde quente outonal. Antes quero ressaltar que a distância de dez léguas ou sessenta quilômetros que separam Montes Claros onde vivia o Doutor Camilo do centro do Brejo onde residia o Coronel Olímpio ainda era percorrida no lombo de cavalo. Somente depois de muito tempo é que o Dr. Camilo adquiriu seu primeiro possante: um “fordeco” de bigodes.
Após passar pela Fazenda na encosta do morro do mocó adentrou, por fim, o lugarejo. Parou na fazendinha de “Sá Jacinta” uma anciã de setenta anos que tinha algumas vacas leiteiras. Lá bebeu água e trocou alguns dedinhos de prosa com a dona da casa. Passou pelo Largo do Comércio e na Farmácia de Francelino, tomou uma pitada de bicarbonato e rumou finalmente para o casarão que se localizava próximo ao antigo mercado onde o anfitrião já o esperava no alpendre. Efetuados os formais cumprimentos seguiram-se para a espaçosa sala de visitas para falarem do assunto do momento. Eleições.
- Como andam as eleições no Brejo, compadre? Indagou Camilo Prates a Olímpio Dias.
- Vai bem, compadre. Mas os eleitores estão muito ariscos. Já não querem mais votar senão mediante alguns agrados!
- Mais isso não está certo... Todo Cidadão tem de exercer o seu dever de votar espontaneamente!
- Pois é, compadre, aqui por estas bandas, as coisas ainda não mudaram nada. Imagine o senhor que na eleição passada além de ter de amargar a derrota ainda perdi quase duzentas cabeças de porcos!
- Mas, o que foi isso?
- Epidemia?
- Não... Foi voto mesmo. Comprei... Paguei mais não levei. O infeliz do eleitor ao invés de me entregar o voto, acabou votando no compadre jacinto que nem pagou nada... Foi só na lábia!
- Mas compadre, isso não existe. Enquanto houver alguém que se propõe pagar haverá sempre alguém pronto para vender.
- Vamos mudar isso?
- Vamos!
Naquela noite grande palanque estava montado no centro do Brejo. O comício, como o próprio nome diz, comia solto e com ele brejeiros homens que votavam e brejeiras mulheres que ainda não votavam, mas lá estavam, saboreavam os apetitosos comes e bebes sendo que os comes compreendiam-se robustos espetos de carne de boi atravessados sobre serpenteante valeta que se perdia de vista. Quanto aos bebes, entendam-se, se possível, a mais pura e destilada aguardente acompanhada de bebida adocicada denominada Cinzano de um tal de Francesco que pelo nome devia ser Italiano.
Lá pelas nove horas da noite antes que aquela “bomba” ou coquetel começasse a explodir, quando o respeitável público presente teria, certamente, dificuldades em reter na cachola algum fragmento do discurso e por consequência não se lembrar do compromisso do voto que firmariam com Olímpio, este, acompanhado de Camilo e mais de uma dezena de candidatos regionais subiram ao palanque.
Enquanto isto, em pequena roda, conversava animadamente, Nezinho Pena, João Caixeiro, Patrício Pena e Estelito, todos comerciantes, além do escrivão de paz Pedro Ferreira.
- Desejo, - iniciou Olímpio seu discurso - agradecer a todos vocês pela massiva votação no pleito anterior, mas que não foi suficiente para me eleger, devido alguns que mesmo tendo empenhado sua palavra de votar na minha pessoa na hora “h” acabaram por votar no outro candidato...
“Muito bem... É isso aí... Temos de votar bem para melhorar o Brejo das Almas. Vamos escolher o homem certo para gerir bem essa joça!” – Respondeu ao fundo um grupinho de comisseiros etílicos contumazes, enquanto Olímpio prosseguia...
- Estou certo que desta vez será diferente, por que espero que todos aqueles que aqui estão desfrutando deste saboroso churrasco regado com o que há de mais puro em termos de bebida votarão em mim. Este momento maravilhoso permanecerá gravado em suas memórias inclusive no momento do grande sufrágio... Vocês se recordarão, certamente, do meu nome na boca da urna, pois estou certo que ninguém por estes lados foi capaz de lhes proporcionar tão inesquecível regalia.
“Muito bem... É isso ai... Temos de votar bem para melhorar o Brejo das Almas. Vamos...”.
Olímpio escutava aquele grupinho que se manifestava sem uma palma sequer. Mesmo assim sua verve e eloquência se afloravam cada vez mais dando ao seu discurso inusitado e desproporcional entusiasmo.
Enquanto Olímpio divagava em sua tentativa de empolgar a massa, Nezinho Pena interveio.
- Coronel Olímpio...
- Pois não!
- O senhor não está notando algo errado?
- Não... Não estou!
E utilizando-se de palavras firmes e ríspidas, próprias dos coronéis de antanho, inquiriu.
- Como é que eu vou saber diabo, se você não me explicar?
- Pois é, coronel... O senhor não entendeu... O povo está dizendo que “vai escolher o homem certo para gerir bem o Brejo. Só que o povo não disse que esse homem certo vai ser o senhor!”.
- Puta merda, caralho, é mesmo!
Agora foi a vez de Camilo Prates intervir, jogando uma pá de cal nos sonhos de Olímpio.
- Tá vendo? Não é o que eu lhe disse, compadre? Esse povo não se deixa vender por nada. Política não se faz assim. Vai dar Jacinto de novo!
E deu Jacinto!
É...
Por vezes, ou quase sempre, o melhor atalho é fazer a coisa certa. Quanto ao resto... Bem, o resto você deixa pra lá.
E tenho dito!
*O autor é Brejeiro.


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Por Enoque Alves - 29/6/2013 10:07:16
BREJO DAS ALMAS – GESTÕES E ANALOGIAS



*Enoque Alves Rodrigues

Próximo a completar trezentos e nove anos de sua fundação, Francisco Sá, ou Brejo das Almas, um dos oitenta e seis Municípios do Estado das Alterosas a fazer parte do Polígono da Seca, passa atualmente por um verdadeiro “choque de gestão”. O Executivo que assumiu os destinos do Município no dia 01/01/2013, segundo informam-me fontes imparciais e fidedignas, está transformando a Cidade e seu entorno, num imenso “Canteiro de Obras”. A continuar nesse ritmo (e tudo indica que os homens de boa vontade, incluindo os Nobres Vereadores que compõem o Legislativo Municipal, não recuarão), quando chegarmos ao fim deste mandato em 2016, bradaremos, orgulhosamente, aos quatro cantos do Brasil a nossa felicidade de sermos Brejeiros. Particularmente, sempre fui um eterno otimista no que se refere á divulgação do que há de bom na terra mãe que me serviu de berço. Mas sempre ressaltei também, ter ciência das mazelas primárias vivenciadas pelos meus conterrâneos locais assim como, quando se fez necessário, “desci o pau” em quem de direito.

Francisco Sá, Brejo das Almas, ou ainda “Beldade do Norte de Minas” como carinhosamente a chamo, em dias atuais pode se considerar Altaneira pela administração que tem. Confiante, caminha a passos largos rumo ao progresso, com fôlego de camelo no deserto. É impossível não atingir metas, consideradas inalcançáveis e utópicas, pelas gestões pífias e inexpressivas que antecederam a atual, que muitos danos causaram ao erário.

Dirão alguns, esse velho está ficando caduco. Como pode exprimir comentários tão positivos a uma administração que mal acaba de começar? Que conhecimento e autoridade tem esse sujeito, que sempre viveu fora do Brejo para falar isso agora?

Pois é...

É exatamente por ter passado quarenta e dois anos de minha vida fora do Brejo, por conhecer vários Países e incontáveis localidades mundo afora é que tenho as prerrogativas que me creditam, sem falsa modéstia, parâmetros comparativos. Ou você é daqueles que compara sem parâmetro? Para se valorizar o Céu é necessário que você antes tenha estado no inferno.

Apaixonado por minha terra, mas cauteloso às interpretações dos que me leem jamais proferi alusões que não fossem fundamentadas em fatos. Provas inquestionáveis disto estão nas parcas e comedidas referências aos bons Prefeitos que passaram pelo Brejo e que nele deixaram suas marcas indeléveis. Se você, brejeiro ou não, pegar as duas mil crônicas que escrevi até hoje sobre Francisco Sá, ou Brejo das Almas, encontrará apenas doze referências positivas de administrações passadas bem sucedidas onde o chefe do Executivo Municipal absteve-se de interesses pessoais em prol dos interesses da Cidade e de seus Cidadãos. Quando isso ocorre, as realizações aparecem. Saltam aos olhos. É o que se vê agora.

Mas nem é preciso ser brejeiro para se apaixonar pelo Brejo. Temos vários exemplos. Um deles são o Jornalista e Poeta, Mário Casassanta, nascido em 1898, em Camanducaia, MG, que tão bem soube descrever as belezas de nossa terra em sua famosa crônica de 1933.

Falando no início da década de 1930, feliz, refiro-me, mais uma vez, a incomparável, mas que seguramente será superada pela administração atual, que foi a gestão do grande Médico Prefeito o Doutor Paulo Cerqueira Rodrigues Pereira, que desde o início de sua administração frente à Prefeitura Brejalmina, em Março de 1931 até o final dela, promoveu uma real revolução visual na Cidadezinha, principalmente no que tange a sua topografia, realizando inúmeros nivelamentos que compreendiam demolições, escavações e terraplenagem de suas ruas e praças.

Diante dessas doces reminiscências que não vivi, pergunto: com quais medidas mensuraríamos a eficiência, dedicação, lisura, devoção e desapego a qualquer resquício de interesse pessoal em pleno exercício de suas atividades na condução dos destinos do Brejo das Almas, de um Prefeito do quilate do Doutor Arthur Jardim de Castro Gomes? Ele amava tanto a nossa terra que foi capaz de descrever fielmente toda a sua beleza. Qual Salomão, no auge de sua sabedoria, o Doutor Arthur Jardim dissertou em seu Relatório-Manografia, a titulo de prestação de contas no final de sua bem-sucedida gestão, desde a espécie e grupo familiar de um simples pássaro Sofrê, á cultura, agricultura, pecuária, rios, córregos e serras, altitudes, longitudes, flores e frutos, etc., até a variedade de matas densas, serrados, Catanduvas e vegetações rasteiras que cobrem nosso rincão paraíso. http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com.br/2012/06/francisco-sa-mg-riquezas-naturais-i.html

Por consequência natural sou instado a somar a estes relevantes exemplos de administrações ilibadas que deram certo e que tiveram à sua frente, não menos exemplares homens públicos, aliás, hoje em dia, desgraçadamente, uma espécie em extinção, quando vemos em sua grande maioria, lobos travestidos de cordeiros se locupletando e se deixando locupletar das benesses do Estado, em detrimento dos menos favorecidos, que ainda os aplaudem, por que não me lembrar, também, como exemplos a serem seguidos, ainda sem sair do meu quadrado brejeiro de 2.759,393 quilômetros, dos nossos antepassados, íntegros em suas respectivas honras, honestidades e vontades de fazer e realizar, de um Feliciano Oliveira, Enéas Mineiro, Eurico Penna e mais uma meia dúzia (em cujo rol, dada a sua magnitude não incluo o incomparável Jacinto) e por motivos óbvios, ao contrário, não posso inserir, evidentemente, gestão finda em 31/12/12 e outras igualmente nefastas.

Deixando a profundidade de lado, como diria Belchior, Cruz das Almas das Caatingas do Rio Verde, sua primeira denominação em 1704, ou Francisco Sá, hoje se encontra em mãos do preparado Denilson Silveira, a quem não conheço pessoalmente, mas apenas, e isto me basta, a robusta biografia de homem simples e impoluto, comprometido com as causas brejeiras, engajado aos clamores de todas as classes sociais, moldado na essência do puro e tórrido barro do brejo, cujos ideais, formação, caráter, princípios, honestidade, aspirações, anseios e transparências, se fundem aos da própria terra. Assessorado por uma “plêiade” da melhor estirpe de destemidos e probos homens públicos do naipe de um Doutor Charles Luiz, entre outros, desprovidos de quaisquer vaidades pessoais, mas, motivados pelo prazer de oferecer a Cidade o seu melhor, aos poucos estão dando cara nova ao velho Brejo.

Cabe a você, morador local acreditar e colaborar no que lhe for possível a fim de que no futuro você possa bater no peito e gritar “participei da gestão que deu ao Brejo o lugar de destaque que ele merece!”.

Quanto a mim, enquanto vivo for, seguirei fazendo minha parte.

É...

Por vezes, é melhor arregaçar as mangas e somar esforços para dividir o bolo do sucesso, do que ficar de lado, torcendo contra, para ser engolido pela lombriga do fracasso.

E tenho dito.

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas.

Leiam essa crônica também em outros sites e mídias.


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Por Enoque Alves - 30/5/2013 12:13:00
CENAS BREJEIRAS 10 – FINAL - NANÁ PRAXEDES

*Enoque Alves Rodrigues

Contemporânea de Sá Antonina que tinha seu Sitio bem na entrada de Francisco Sá ou Brejo das Almas, Naná Praxedes era uma senhora de idade já avançada. Morena, alta, enviuvou cedo de Nonô que contava quarenta anos quando faleceu de amarelão. Como herança deixou-lhe aquela fazenda denominada “barriguda” que se localizava a beira da antiga estrada de Cana Brava ou especificamente na “baixa da migrada”, no município do Brejo. Tinha ela o jeitão das matronas da época, quando, a mulher, divino ser, não conseguia revelar sua feminilidade a não ser na condução austera dos destinos do lar, e da família. Eram comuns as dificuldades que a mulher tinha naqueles tempos quando se via de repente só. Naná, muito pelo contrário, depois de perder Nonô arregaçou ás mangas e foi à luta. Com dois filhos já adultos, Deda e Durval que a ajudavam nos trabalhos da fazenda, não demorou muito e aquele amontoado de torrões ressecados ganhou uma nova visão panorâmica de um verde indescritível.

Tudo que Naná plantava, independente da época, vingava. Ela, que ao lado de Nonô, tinham seis vaquinhas sofridas que nem crias davam juntamente com aquele pobre e fraco genérico de reprodutor que até mesmo para comer o colonião seco tinha que encostar-se nos barrancos, agora possuía uma grande manada de gado. Vacas leiteiras, bois de corte, bezerrinhos mamando, desmamando, nascendo, etc. No chiqueiro a porcada só reproduzia e Naná feliz progredia. O paiol abarrotado de milho, feijão, algodão e outras culturas. A peonada na roça se desdobrava para dar conta de tanto trabalho. O arado não parava um minuto sequer. A terra fértil reclamava o lançar da semente para em pouco tempo, leal, faceira e orgulhosa, devolver a Naná o resultado multiplicado milhares de vezes.

Carretas saiam da bela MOC e de outros confins e se aportavam diante da fazenda “Barriguda” para retirar produtos comprados a peso de ouro. Mas o que era aquilo? Enquanto a seca castigava quase todas as regiões, consumindo sítios e fazendas, a “barriguda” jamais sentia qualquer revés. Seguia produzindo de tudo e em grandes quantidades...

Enquanto isso Manoel Flor, ou “Mané Fulô”, vizinho e proprietário da fazenda “Pau D’alho” que fazia divisa com a fazenda de Naná, desolado e com inveja observava todo aquele movimento. Tentava buscar, inutilmente, em suas lembranças, algo parecido ou próximo de todo aquele sucesso. De tanto retroagir, eis que se achou no dia de seu próprio nascimento. Na mesma fazenda setenta e três anos antes onde se viu chorando de fome. Aquilo não era vida! Como foi possível ter passado todo aquele tempo sem que ele sequer saísse do lugar? O que teria acontecido de tão grave que o impediu de crescer? Será que ele tinha caminhado para trás? Sim por que aquela fazenda ele havia herdado do pai e como já mencionei, mesmo fazendeiro, ele sempre viveu em dificuldades.
O que mais o corroía, de inveja e de ódio, era ver aquela mulher prosperar. Como podia ser aquilo? Quando o marido vivia as terras deles que eram divididas por um pequeno afluente do Quém-Quém não produziam nada e agora... Bem, ele continuava não produzindo, mas, e Naná...

“Aquela mulher” – agora era assim que ele se referia a sua vizinha e amiga de infância -, estava lhe tirando o sono. Próximo, pensava ele, estava o dia em que todos mangariam dele... Deixou-se vencer por uma mulher... Naná, imbatível... Naná, “sortuda”... Por que será que só Naná colhia? Por que será que ele não conseguia colher? Por que será... Por que será?

Manoel se questionava, mas sem se preocupar em procurar as verdadeiras razões de sua desgraça. É próprio dos fracos e derrotados de nascença buscar no sucesso dos outros o motivo de seu insucesso ao invés de ir à luta.

A vegetação seca e rasteira há muitos anos havia invadido aquela sua imensa fazenda, não obstante, privilegiada pela Natureza que a brindou com dois olhos d’agua onde nascia o afluente do caudaloso Quém-Quém. Touceiras de quiçaça esturricada rangiam ao sopro do vento de agosto. A caçarema deitava e rolava a vontade em seus ninhos em copas de arbustos miseráveis, a guisa de cupins. Aliás, pasmem brejeiros, aquele infeliz ser, em sua inabalável inércia atribuía parte de sua desdita ao primeiro surgimento da fétida Caçarema que segundo afirmava, foi a partir dali que a chuva sumiu de vez. Ela era de mau agouro! Mentira. Não era nada disso. Se assim fosse a fazenda de Naná também não produziria.

A Natureza é pródiga para com os que trabalham. Que não têm medo de trampo. Para aqueles que morrem de pé. Mas, também, sabe ser implacável para com os preguiçosos, insolentes e fúteis que desejam passar pela vida sem vivê-la. Sem deixar uma marca por mais simples que seja.

A terra também é assim. Quando não é cultivada pelo menos de vez em quando, revolta-se contra a desídia e abandono do agricultor. Ela empaca. Fica estéril e ai, meu nego, não produz porra nenhuma. Nem quiçaça ou ervas daninhas brotam mais. Por que seria diferente com Mané Fulô?

Pois é...

Um belo dia, quando a voz da consciência se lembrou dele, pediu-lhe que fosse imediatamente à luta. Que saísse a semear sem mais perda de tempo. Velho, reumático por que as juntas haviam se enferrujado durante o longevo tempo de ociosidade e obsolescência, 72 janeiros no espinhaço, todo torto, lá foi o infeliz se reconciliar com aquela que já não lhe suportava mais o peso do corpo esquelético. Com uma má vontade dos diabos deu ali a primeira enxadada. Sentou-se para descansar.

Ele estava cansado de não fazer nada e o corpo agora só queria sossego.

- O senhor vai semear este ano, seu Mané?

- Sei não, uai! – Estou pensando o que vou fazer desta terra improdutiva. Aqui não se produz mais nada, sô!

- Mas como é que o senhor sabe? – Quando foi que o senhor a cultivou pela ultima vez?

- Sei não, uai, mas me parece que já faz uns trinta anos, mais ou menos!

- Sendo assim, fica difícil!

- Eu acho que vou vender essas terras... Mais quem vai comprar isso?

- Eu compro suas terras, seu Mané! – Bota ai o seu preço. Considere-se que estamos negociando uma terra improdutiva!

- Mané arregalou os olhos. Aquilo era uma visagem. Aquela proposta não era verdadeira. Mesmo assim, entre aturdido e desconfiado, pôs o preço.

- O interlocutor que só queria trabalhar e produzir não pensou nem um segundo. Fechou o negócio ali mesmo. Em cartório no Centro do Brejo registrou-se a escritura onde Mané recebeu sua bolada. No Centro do mesmo Brejo das Almas, cinco anos depois, Mané mendigava para sobreviver sem um centavo sequer nos bolsos.

Fazer o que se essa foi á vida que ele pediu pra Deus!

Enquanto isso a fazenda barriguda, que teve seu tamanho triplicado com esta aquisição feita por ninguém menos que Naná, só prosperava.

É...

Por vezes, ou quase sempre, não é preciso muita força para converter pedra bruta em ouro fino. Um pouquinho de vontade já é suficiente.

E tenho dito!

*O autor nasceu no Brejo das Almas, MG.


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Por Enoque Alves - 27/4/2013 19:25:54
CENAS BREJEIRAS 9 – CREUZÃO

*Enoque Alves Rodrigues

Nascida em São Geraldo, à época, diminuta comunidade pertencente ao Município de Francisco Sá ou Brejo das Almas, ao norte das Gerais, Creuza Maria dos Santos, ou Creuzão, codinome alusivo ao seu porte avantajado, desde muito cedo batalhava pela própria subsistência. Aquele divino ser dava um duro dos diabos nas fazendas adjacentes vendendo dias de serviço assim como nós, marmanjos. Responsável pela cozinha, ela realizava verdadeiros milagres na criação de apetitosas gamelas que ela própria se encarregava de levar até as frentes de trabalho onde nós, peões roceiros depois de cansativa manhã de labuta no cabo da foice, entre, cascavéis e teiús, famintos e famélicos, as detonávamos. Se você for um bem nascido que jamais pisou em bosta de vaca não vai saber do que estou falando. Talvez você nunca tenha visto uma gamela. Bem, se você ainda não a conhece, permita-me apresenta-la ainda que extemporaneamente. Ao contrário do que muitos pensam as atribuições de uma gamela iam muito além de um reles e tosco utensílio de cozinha. Não entendeu? Explico: Era ao redor de uma gamela onde era servida a mesma refeição para todos, que nós nos juntávamos, cada qual com uma colher para, respeitando o sagrado espaço pertencente ao outro, almoçarmos. É, portanto, a gamela, de madeira ou de barro, (eu preferia ás de madeira), o mais nobre e importante invento da humanidade até hoje. Capaz de promover a ordem e costumes elementares de educação e honestidade (ninguém se apoderava do mais carnudo pedaço que não fosse seu, não obstante estar ali debaixo de seus olhos), a gamela ainda consolidava o que hoje se considera a maior das utopias que é a paz e união “entre os povos” além de aglutinar em torno de si todas as espécies. Ao redor de uma boa gamela os inimigos se confraternizavam. Não existiam desiguais. Ali, todas as diferenças se ajustavam. Todos os prumos se alinhavam. Os contrários se atraiam. E todos os feios eram bonitos. Era, portanto, incomensurável o poder da gamela. Igualdade para todos, devia ser o lema do gameleiro.

Agora que você já sabe o que é uma gamela, vamos falar um pouco sobre Creuzão, a deusa negra que ilustra esta minha crônica brejeira de Maio-13.

Pele preta, alta, gorda e “magra”. Mineirismo á parte, são estes alguns traços fisionômicos de Creuzão que por si só, nenhuma atração despertaria ao mais simples dos mortais. Culta, falante e sensível. Mudou alguma coisa? Claro, agora, podemos conversar!

Enquanto conseguiu driblar a necessidade, ela estudou na mesma Escolinha que este que vos fala. Lembram-se da Escolinha de uma porta só? Pois é, foi lá. Quando, juntos, conseguimos decifrar a primeira palavra que Florisbela Martins escreveu no quadro negro, “estrangeiro” que nos colocaria no rol dos alfabetizados, a vida lhe desferiu um grande golpe. Perdeu a mãe. Tinha nove anos. Grande foi á batalha travada pelo senhor Alfredo, seu pai, no sentido de protelar o máximo a saída de Creuzão da Escola. Destarte, foi vencido, e por isso não demorou muito para que Alfredo optasse por levar Creuzão para o trabalho onde, infante ainda, especializou-se na divina arte de cozinhar.

Venúcios, Rosalino, Juca, Idalino, Senhorzão, Saturnino, Pompilio e muitos outros fazendeiros regionais tiveram, sem que o soubessem, a honra de tê-la, um dia, pilotando um fogão de lenha em suas respectivas fazendas. Mas foi por pouco tempo, por que não demorou muito e Bimbim, um parente distante de meu querido avô, encantado com seus dotes culinários a “sequestrou”, tirando-a da cozinha das fazendas. Agora ela podia ser encontrada dando expediente na cozinha da Pensão da Dona Quinor, no Centro do Brejo, onde ficou durante algum tempo.

Alvissareiras foram as noticias que recebi do amigo Badú aqui em São Paulo, dez anos depois, a respeito de Creuzão. Informava o conterrâneo recém-chegado que Creuzão já não estava mais no Brejo. Que deixara o emprego na Pensão. Que ela havia se casado e agora possuía um luxuoso e muito bem movimentado Restaurante em Bairro nobre de Belo Horizonte, ou melhor, no Pampulha, próximo ao Aeroporto.

No fim daquele ano visitei minha tia Tatá que residia em BH no Jardim Laguna. Como sempre gostei de prestigiar a garra do ser humano principalmente enaltecendo o sucesso daqueles que vieram de baixo, não fosse sempre assim e eu não teria hoje tantas histórias para contar, aproveitei para dar um pulo até o Pampulha. Eu não tinha o endereço, mas tinha o nome. “Bar e Restaurante Flor da Pampulha”. Não foi difícil encontra-lo. Com três indagações eis-me de fronte ao mesmo. Tudo que Badú me relatou de luxo e badalação e que em alguns momentos cheguei a duvidar, foi pouco.

Logo na entrada havia um tapete vermelho sob toldo esverdeado em forma de espiral que começava na calçada e terminava na grande e emoldurada porta de entrada onde clientes em fila indiana transitavam em trajes elegantes de executivos enquanto as damas ostentavam pulseiras e colares de ouro e vestidos longos. Intrigado, eu, que nas fazendas brejeiras sempre comi das gameladas de Creuzão vestido “impecavelmente” de minha única calça “arranca toco” toda remendada e camisa confeccionada de saco alvejado de algodão, calçado de alpargatas de couro cru feitas pelo meu saudoso avô, não conseguia imaginar as razões, daquela pompa toda de uma aristocracia fria e burra que vivia em uma Metrópole idem, apenas para se alimentar. O que será que aquela gente comeria? Que prato Creuzão prepararia de tão especial e apetitoso para agradar tanto o paladar exigente e refinado daqueles grã-finos? Em que local encontraria Creuzão dentro daquele mausoléu de mármore, granito importados e porcelanas chinesas? Como ela se comportaria ao ver-me ali? Será que me reconheceria? Falaria comigo ou fingiria que nunca me viu? O que eu lhe diria?

Bem, eu havia ido ali não para satisfazer minha curiosidade, mas para motivar-me com a constatação de que nada é impossível para os que trabalham.

No entanto, brejeiros, meus diletos conterrâneos, vocês concordam que eram muitas as dúvidas que eu tinha? Como dirimi-las durante aquele curto espaço de tempo que ali permaneci? Sim, por que desde cedo eu aprendi que em nenhuma circunstância se deve avançar quando se tem mais que uma dúvida. E eu tinha várias. Avançaria assim mesmo?

Não. De forma alguma. Aquele gesto poderia causar constrangimentos desnecessários a ela e a mim. Não me aproximaria nem mais um milímetro.

Para “não perder a viagem” por que, afinal, do saco a embira, uai, aguardei do lado de fora pacientemente á saída de algum serviçal. Quando finalmente isso ocorreu me aproximei, tímido, mas jeitoso.

- Por gentileza, “migô” (era assim que se chamava amigo naquele tempo em BH), poderia me dar uma informação?

- Claro. Como não?

- Você trabalha aqui?

- Sim, trabalho!

- Quem é o seu patrão?

- Não tenho patrão... Tenho patroa... É a dona Creuza!

- Creuza?

- Sim. Creuza!

- Creuza de que?

- Creuza Maria dos Santos... É a minha patroa. E acrescentou – tremenda gente fina. E saber que veio do nada... E o pior, nasceu num tal de São Geraldo no Município de um lugar esquisito que tem dois nomes, Brejo das Almas e Francisco Sá, que, aliás, ninguém conhece... Parece que fica lá “no norte”. E olhando pelos lados como se não desejasse que ninguém mais além de mim o escutasse, baixou o tom da voz e aos meus ouvidos sussurrou: “eu acho que quem nasce no brejo é sapo, mais a dona Creuza é tão boa que nem parece ter nascido lá!”.

Maldição... Por mil demônios. Outra vez aquela história de sapo nas minhas orelhas! Será que aquele infeliz me conhecia? Sabia, porventura, que eu era brejeiro?

Eu já estava convencido. Nem precisava de tantos detalhes. Agradecido, retirei-me, sem entrar.

- Muito obrigado, “migô!”, pelas informações.

- Sempre ás ordens... Num tem importância... Até logo... Deus te crie. Respondeu-me, cerimonioso, o serviçal.

É...

Por vezes, quando não se tem o que dizer ou garrafas vazias para quebrar, sair à Francesa é a melhor das estratégias.

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais.

1. Você que lê minha coluna nos jornais e blogs visite-a também em minha página no Citybrasil e seja um dos quase 180 mil acessos: http://www.citybrazil.com.br/mg/franciscosa/usuario.php?id_cadastro=7585


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Por Enoque Alves - 29/3/2013 16:46:47
CENAS BREJEIRAS 8 – CARMINA DE POÇÕES & HILÁRIO FERRADOR.

*Enoque Alves Rodrigues

Carmina Abadia Ferreira nasceu na comunidade Quilombola de Poções, no distrito de Cana Brava, município de Francisco Sá, ao norte de Minas Gerais, distante a pouco mais de trinta quilômetros do centro de Francisco Sá ou Brejo das Almas, numa época muito difícil onde a fome campeava solta por aquelas bandas. Sua estirpe descendia de escravos da família Sá, pois seus pais haviam servido os pais de Francisco e Alfredo, grandes estadistas locais, tendo o primeiro sido Ministro de Viação e Obras Públicas além de emprestar seu nome a minha cidade.

Lá, aquele divino ser, trabalhava duro na roça ou especificamente na antiga fazenda Poço João de Deus, no quase infrutífero cultivo de abóbora, andu, fava, milho e feijão. Criança ainda mourejava debaixo de sol escaldante de rachar mamonas, mediante pífia remuneração. Ela ajudava os pais Juraci e Quitéria no sustento dos oito irmãos menores. A vida ali era foda mesmo e o temido bicho da fome que faz o “estambo” roncar já não assustava a mais ninguém. De tão presente no cotidiano daquelas criaturas, já não lhes causava nenhum espanto. A fome quando é amiúde, perde o temor do faminto que por não ver outra solução acaba por familiarizar-se com ela. Jovem ainda contraiu núpcias com Hilário Jú, também descendente de escravos, só que vindos da Bahia.

Naquela comunidade não havia nenhuma diversão a não ser o trabalho e as festas anual do Senhor Bom Jesus, de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora do Desterro que ocorriam nos meses de Julho, Maio e Dezembro, respectivamente. A fé que remove montanhas tinha que existir. E existia mesmo em toda a sua plenitude. Sem ela não tinha como se viver ali. A Religião que predominava naquele meu torrão era a Católica Romana da qual faziam parte grandes núcleos inclusive Carmina e todos os seus familiares.

Depois de enfrentarem grandes dificuldades eis que decidiram mudar para o centro de Francisco Sá, ou Brejo das Almas. Fundamentaram esta decisão ao fato de que os dois filhos que estavam crescendo deveriam ter a oportunidade que eles, os pais, não tiveram, de estudarem para que assim pudessem ser alguém na vida. Conseguiram alugar um casebre na Rua Sete de Setembro no centro do Brejo. Matricularam os dois infantes em escola também no centro. Enquanto Carmina cuidava das crianças e passava roupas em casas de senhoras da sociedade brejeira, Hilário que desejava a todo custo fugir da roça, agora se dedicava ao oficio de ferrar cavalos tornando-se exímio especialista. Ninguém dominava melhor que Hilário esta nobre arte que ao contrário do que muitos pensam, não é nada fácil. Ele trabalhava com os melhores cravos e ferraduras que, segundo diziam, eram os fabricados em Salinas de onde também vinha à cachaça que ele mantinha em um corote de carvalho com a qual brindava sua cativa freguesia com uma “cuiada”, pois a “mardita” era ofertada em uma cuia a guisa de copo. Sua banca, na verdade, um caixote de madeira, ao lado de um tronco onde amarrava os bichões, ficava defronte a antiga Viena. Isto era sagrado. Sempre que ele finalizava a tarefa de ferrar as animálias estendia, graciosamente, uma pequena cuia de cachaça ao cliente em forma de agradecimento. Depois disso, com uma bucha vegetal, dava um brilho nos cascos do rinchão que saia de lá com os “pisantes” nos trinques, além de levar uma tosada na crina. Hilário era deveras caprichoso e tinha mesmo que progredir. Em pouco tempo sua fama correu os mais longínquos rincões de onde fazendeiros mandavam através de seus capatazes, suas belas montarias para que Hilário as ferrasse. Havia até ferraduras douradas que de longe reluziam. Enquanto ambos, Hilário e a batalhadora Carmina progrediam, criavam e educavam os dois filhos no caminho do bem.

Quando o Brejo ficou pequeno para os meninos Carmina e Hilário não pensaram duas vezes. Mandaram-nos estudar em Montes Claros que naquela época não tinha a pujança de hoje e, por isso, dentro de algum tempo, também ficou pequena para os dois carinhas que, motivados até a medula pelos pais, filhos de escravos, não pararam mais de estudar enquanto trabalhavam. O Céu era o limite para eles. Nada os deteria. Será?

Não. Você que há muito tempo me lê já está, assim como eu, literalmente, careca de saber, que quando eu insiro uma interrogação no verbo conjugado “será”, alguma surpresa está por vir. Geralmente com este verbo interrogativo eu prenuncio o epilogo de alguma crônica. Mas desta vez você não acertou. Pela primeira vez consegui não ser previsível.

Ano de 1980. Rua Florêncio de Abreu em São Paulo. Aos que não conhecem esta rua informo que a mesma, naquele tempo, era inteiramente ocupada por casas comerciais onde só se vendiam ferramentas. Eu trabalhava numa grande Construtora aqui em SAMPA e cabia a mim o setor de suprimentos da empresa. Foi por isso que naquele dia lá estava eu com uma prancheta à mão a percorrer a Florêncio realizando comparativas de preços para uma grande aquisição ferramental. Como sempre fazia, desci mencionada rua analisando preços do lado ímpar até próximo à Rua 25 de Março. Ao subir a Florêncio cheguei até uma loja onde a denominação grafada em sua placa remeteu-me há um passado muitíssimo distante. Lá estava escrito “Casa de Ferramentas Ferreira & Ferrador.”. Até ai, nada mais natural. Tratar-se-ia seguramente de alguma das muitas coincidências que acontecem vida afora. Nenhuma curiosidade tinha eu a despertar neste particular. Mas eu estava ali fazendo o meu trabalho que era pesquisar preços, por isso tinha que entrar. E entrei...

Predominantemente habitada por brancos, em sua maioria, descendentes de Europeus, os dois senhores que a primeira vista percebi tratar-se dos gestores daquele grande estabelecimento, destoavam-se, e muito, destes estereótipos. Eles eram pretos. Um muito alto enquanto o outro era de estatura mediana. Ao me verem designaram um de seus balconistas para me atender. Enquanto eu era atendido, o senhor alto, passou-me, singelamente, uma xícara de café muito doce e ralo. Não tinha mais dúvidas.

- O “Ferreira & Ferrador” que dão nome a vossa loja, porventura, são de Minas?

- Não. Não são de Minas. Respondeu-me o senhor alto, entre sorrisos. “São do Brejo das Almas!”

- O senhor é o Hilário Ferrador, marido da dona Carmina?

- Não. Somos seus filhos. Nossos pais já não trabalham mais. Eles já trabalharam muito para nos sustentar. Eles vivem conosco aqui em São Paulo para onde viemos concluir os nossos estudos. Aqui nos formamos. Eu sou o Hilário Filho e me formei em direito enquanto que o meu irmão, o Carmino, é Contador. Foram os nossos pais os fundadores desta loja. O “Ferreira” é homenagem a minha mãe enquanto que o “Ferrador” homenageia o meu pai, que venceu na vida e nos educou ferrando cavalos.

Foi por isto que utilizei um “&” comercial ao invés da vogal “E” no titulo desta minha verídica crônica de Abril.

Eita mundinho pequeno demais da conta, sô!

É...

Por vezes, ou quase sempre, não há limites para os que perseveram no trabalho digno.

E tenho dito.

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, MG.
Visitem meu site e leiam todas as crônicas sobre o Brejo das Almas.
http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com.br/


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Por Enoque Alves - 2/3/2013 10:22:26
CENAS BREJEIRAS 7 – MARIANA PERES

*Enoque Alves Rodrigues

Ela estava decidida. Não ficaria nem mais um minuto ali. Dificuldades extemporâneas à sua rotina e a atual decepção amorosa a estavam escorraçando de sua linda e querida Lagoinha, pequena comunidade pertencente ao Município de Brejo das Almas ou Francisco Sá, ao norte de Minas Gerais, onde nascera. Nenhuma oportunidade de estudos tivera. Mariana Peres tinha as mãozinhas calejadas pela lide pesada na lavoura de onde tirava o sustento próprio e de sua prole constituída com Juca Peres composta de oito boquinhas nervosas.

Juca, caboclo forte e destemido, pau pra toda obra, sempre pronto a ir à luta em busca de dias melhores agora estava desmotivado e já não se dedicava ao trabalho e a família com a mesma intensidade de antes. Autoestimas pífias aproximavam aquele brejeiro da inércia total. De repente ele que era um batalhador incansável começou a encostar o corpo. Foi em uma de suas muitas idas ao centro de Francisco Sá que aquela mudança inesperada se apoderou dele. Agora, levantava-se de manhã e ao invés de ir para a roça, já com o mato a invadir as plantações, o fazia pelos caminhos dos botecos brejeiros, ou especificamente no humilde, mas sempre badalado “pé na cova” aonde se enturmava com outros desocupados bebuns. Lá ele passava todo o dia lamentando a sina e degustando as “detonam fígado” de então. Ali ele marcava o ponto. Era, por mais incrível que pareça, naquele paraíso ás avessa que ele encontrava o sossego almejado.

Não adianta buscar no campo da psicologia uma explicação lógica e racional que permita definir com clareza necessária o que se passa na mente humana. Tampouco, nem mesmo Sigmund, conseguiu entender os motivos capazes de arrebatar alguém de uma vida simples e pacata, mas digna e cheia de sonhos e perspectivas, atirando-o ao mais triste e tenebroso atoleiro de dúvidas e incertezas. Ocorre que o nosso cérebro é habitado por vários mundos, sendo quase todos eles impenetráveis. Pois é. Imaginemos então que as ideias de nosso amigo e conterrâneo Juca Peres, de Lagoinha, estavam uma verdadeira quiçaça assim como na quiçaça estavam suas roças que reclamavam sua presença, pois há muito tempo não viam o fio da enxada, nem ouviam o seu tilintar contra as pedras na defesa das viçosas floradas sem as quais vargem alguma vingaria, comprometendo, assim, quaisquer quesitos relacionados à colheita e fartura. Juca havia mergulhado de cabeça na bebida e ociosidade e agora não conseguia sair do marasmo que tornou sua existência. Aliás, na verdade, não saia por que nenhuma força de vontade tinha. Entregou-se inteiramente ao vicio e agora via escapar por entre os dedos eventuais oportunidades que a vida, porventura, lhe havia reservado. Não há, no modesto raciocínio deste escriba, nada que antes tenha sido arquitetado por qualquer plano, impassível aos nossos próprios desejos de mudar ou transformar. A vontade que nos impulsiona a seguir adiante é a mesma que nos leva a mudar aquilo que está à nossa volta, adequando-o ao nosso “modus vivendi”. Mais Juca não queria sair do lamaçal. Fazer o que?

Por conta destes motivos vemos agora Mariana lamentando a sorte que ela não escolheu. Estava, aquele divino ser, entre a cruz e a caldeirinha. Mas ela tinha de fazer alguma coisa. E fez.

Ao retornar certo dia de mais uma bebedeira Juca encontrou a casa vazia. Mariana foi embora com as crianças. Mudou-se para Grão Mogol distante aproximadamente setenta e seis quilômetros do Brejo. Juca até que a procurou durante alguns dias, mas depois desistiu de vez. Ai foi que a coisa entornou mesmo. Juca afundava cada vez mais na bebida pela qual trocou seu Sitio com todas as roças e algumas cabeças de gado. Depois de beber tudo que tinha tornou-se indigente. Morador de rua. Elegeu como seu “point” a escada, de apenas três degraus, da antiga Igreja de São Gonçalo, no centro do Brejo. A todos quantos ali transitavam mendigava uma moeda para, segundo dizia, comprar um pão para matar a fome.

Compadecido do deplorável estado de Juca, certa ocasião o grande Feliciano Oliveira, cujos pais eram donos de fazendas na região, convidou-o para colaborar com os mesmos nas tarefas diárias da fazenda e em troca receberia um soldo a cada fim de mês.

Quem de longe observasse veria, por certo, o segundo personagem desta verídica história ocorrida no Brejo das Almas no inicio da década de 1960, se esvaindo em lágrimas, procurando, improficuamente, lá no fundo de seu limitado vocabulário palavras de gratidão àquela mão salvadora. No dia seguinte Juca amanhecia na fazenda dos pais de Feliciano, dedicando-lhes toda a sua longa existência no árduo trabalho não mais voltando ao vicio da bebida. Foi eternamente grato a Feliciano a quem jamais decepcionou.

Enquanto isso, em Grão Mogol, Mariana refazia sua vida. Contraiu novas núpcias e a prole só fez aumentar. Com quarenta anos era mãe de doze filhos. Quase todos, exceto um, Djalma, o mais velho, viviam com ela. Firmino Ferreira, seu atual esposo era um sujeito de posses e não deixava que nada faltasse a Mariana e aos meninos. Mariana estava muito feliz. Pudera, ela não se acomodou. Correu atrás da própria felicidade e agora em idade madura a alcançava. Que bom. Finalmente, depois de vários trancos, a vida agora lhe sorria.

Será?

Residiam na Rua Alfredo Colares no Centro de Grão Mogol. Manhã de uma primavera de pouco verde. Era outubro de 1961. Saudosa de sua Lagoinha, lá estava ela a visitar parentes. De lá se dirigiu ao velho Centro do Brejo das Almas. Às quinze horas encontramos aqueles delicados pezinhos, antes rachados, a palmilharem as ruas adjacentes empoeiradas. Passou em frente à Igreja Matriz e continuou sua caminhada que, no entanto, foi interrompida abruptamente. Ao chegar diante da Igreja de São Gonçalo, ao fixar seu olhar em algo, na realidade, um farrapo em forma de gente que se encontrava estirado sobre o último degrau do solo sagrado, atônita, não conseguia acreditar no que via. Por alguns instantes permaneceu estática. Teimava em não aceitar o que o destino cruel lhe reservara. Prostrado ali, à beira de um coma alcoólico, no mesmíssimo lugar onde antes, num passado distante, se encontrava o pai Juca, lá estava seu filho mais velho Djalma. Todas as tentativas empreendidas por aquela mãe desesperada resultaram-se infrutíferas, pois desta vez o maldito vicio conseguiu vencer, ceifando, três meses depois, a vida do jovem Djalma.

Carma? Coincidência? Premeditação? Estava escrito? E, nesse caso, como ficaria a irremovível vontade de mudar as coisas da qual falei logo atrás?

Uai, sô, quantas perguntas difíceis de responder! Se nem Sigmund as responderia, por que eu? Por via das dúvidas... Bem, não vou entrar nessa... Prefiro não ter opinião formada a esse respeito... Faço meus os seus pensamentos, comentários e interpretações, mesmo não sabendo quais são... Caititu fora de manada é papo pra onça.

É...

Por vezes, quando não conseguimos identificar de pronto à origem de certas provas que a vida nos impõe, o melhor mesmo é aceita-las, sem questionamentos.

Um forte abraço, brejeiros. Até mês que vem!

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, MG.


74483
Por Enoque Alves - 2/2/2013 15:16:49
CENAS BREJEIRAS 6 – ANA LUCÍLIA DO TABUAL

*Enoque Alves Rodrigues

Ana Lucília. Era esse o nome de minha primeira professora no curso primário lá no povoado de São Geraldo.

Ela era natural de Tabual, lugarejo pertencente ao Município de Brejo das Almas ou Francisco Sá, ao norte de Minas Gerais. Filha de Joaquim Silva e de dona Maria Garcia, foi designada pela Prefeitura do Brejo para lecionar na pequena São Geraldo, cuja escola tinha minha mãe como diretora.

Uma vez em São Geraldo, Ana Lucília, ficava hospedada em casa de dona Dazinha, também professora, esposa de seu Lau, açougueiro.

De 1959 a 1960 Ana Lucília foi minha professora e por que não dizer também, a diva que povoava o meu ilimitado mundo de fantasias, fomentando-o com sonhos bons mais irrealizáveis. “Sweet memories.”.

Naquele tempo de saudosa lembrança, Ana Lucília não possuía mais que 17 anos. No entanto, inobstante tratar-se apenas de uma adolescente, todos nós em sinal de respeito e reverência natural para caracterizar a posição hierárquica que ela mantinha sobre nós, seus pupilos, a tratávamos por “dona”, numa época abençoada onde o professor era tido como um segundo pai ou uma segunda mãe, pois os cupins do desequilíbrio, indisciplina e desamor ainda não haviam corroído as bases sólidas da sagrada família como ocorre nos dias atuais, quando não mais se mantém o menor respeito por aqueles que nos ensinam as primeiras letras assim como os primeiros passos pelos caminhos da vida.

Em meus tempos de infante escolar, que não foram, de forma alguma, os tempos da palmatória, a única referência á travessura cometida por um aluno na sala de aula era surrealista, pois servia apenas como elemento figurativo para ilustrar uma das estrofes da música, a meu ver, de péssimo gosto, “capeta em forma de guri,”, cantada pelos Incríveis. Bem, para cantar aquilo, tinham que ser mesmo “incríveis”: “crescendo o menino, pra escola entrou, de cara feia logo a professora olhou”. No meio da aula, num teco fatal, mandou um coleguinha logo pro Hospital... Conheci um capeta em forma de guri...”. Lembram-se?

Antes de sentarmos para fazermos as nossas lições, guiados pelas suaves mãos da pequena grande mestra, tínhamos de rezar o Pai Nosso e cantar o hino nacional, assim como também fazíamos em nossa saída. Éramos orientados a sermos solidários e a tratarmos uns aos outros com respeito e cordialidade. Recebíamos ali, entremeados com o bê-á-bá e tabuada, noções de religião, amor a Deus, ao nosso semelhante e à Pátria, embasamentos singelos, mas fundamentais que nos preparavam para sermos bons cidadãos no futuro. A minha primeira escola só tinha uma porta que era a mesma de entrada e saída. Não tinha carteira ou banco escolar que eram improvisados, mas, sem quaisquer jactâncias, seria até covardia de minha parte comparar o aprendizado que recebi ali com o de outras escolas que frequentei mundo á fora. Frondosas em seus interiores e frontispícios e imponentes em seus currículos, mas nenhuma tão rica e pródiga em ensinamentos como foi minha primeira escolinha. Pois é.

E o que vemos hoje? Vamos analisar?

Lares desestruturados com pais truculentos, xucros e negligentes que brindam seus filhos, desajustados desde o nascimento, com péssimos e abomináveis exemplos. No bojo paternalista de um genérico de governo quinto-mundista veio ás creches e várias ações sociais que, dado ao baixo nível sociocultural do Brasileiro, tornaram-se fomentadoras da preguiça e paternidade irresponsável. É muito fácil e gostoso fazer filhos para o estado, ou seja, para nós, contribuintes responsáveis criarmos. Eles deixam, na maioria das vezes, toda a educação infantil, inclusive aquela da qual eles, os pais, não deveriam jamais se abdicar por lhes serem atribuições intransferíveis por dever constitucional, por conta dos professores que no final, ainda são cobrados pelos pais inescrupulosos e insolentes, quando algo não sai muito bem para o seu capetinha. O termo “não sair muito bem” aqui utilizado significa dizer, quando os professores em pleno exercício de suas prerrogativas na cruel arte de ensinar, acabam por contrariar as vontades do capetinha birrento, entojado e mal criado. Há casos extremos aqui em São Paulo que certamente não se diferem das demais regiões Brasileiras, aonde alunos, capetinhas e capetões, chegam mesmo a agredir fisicamente seus professores sob o beneplácito dos pais bundões, e de um risível código penal bichado, ultrapassado desde o seu nascedouro em 1940, desprovido de efeitos reais coercitivos que beiram o ridículo e que nenhuma autoridade exerce sobre eles. É o fim do mundo. Definitivamente eu não seria um bom professor. Talvez seja por isso que Deus não me deu esse dom apesar de vir de família onde todos exercem com muita honra, orgulho, galhardia e dignidade esta nobre arte.

Vamos sair dessa zona de turbulência que muito me aborrece e voltemos á docilidade de dona Ana Lucília, de Tabual, personagem de minha crônica deste mês.

Geralmente, conforme deixei entender nas entrelinhas, naquela idade todos nós, garotos, estaríamos preocupados em identificar outro atributo: a beleza física, por exemplo. Dona Ana Lucília era demasiado linda, é verdade, mais a pujança de sua beleza intelectual conseguia sobrepor á lindeza material e isso nos prendia a todos. Quando abria a boca para falar, nossas atenções eram, imediatamente, arrebatadas para a sua graciosa e eloquente didática. Educada, paciente, cordial, enérgica, sorridente, determinada e assertiva. Eram predicados inerentes àquele divino ser, deusa de rara sabedoria e beleza.

Antes de chegarem às férias escolares daquele fim de ano, todos nós, seus pequeninos alunos fomos tomados por sensações cujas causas desconhecíamos. Flutuávamos entre o bom e o ruim. Nos intervalos recreativos conversávamos entre nós ansiosos por encontrar no outro a explicação que aguçava nossas curiosidades rumo ao desconhecido. Por mais que tentássemos, não conseguíamos imaginar o que estaria por acontecer. A merenda à base de triguilha (trigo in natura) com leite em pó parecia-nos insossa. As palavras doces de dona Ana Lucília, também pareciam não serem mais as mesmas. Soavam agora meio que sem sentido. Criança é assim. Um oásis de curiosidade, mas nenhuma criança foi feita para conviver com curiosidade. Nós não éramos diferentes. Algo estava por acontecer, disso tínhamos certeza. Uai, o que seria?.

Duas semanas antes das esperadas férias, a noticia começou a correr trazida que foi por dona Dazinha de seu Lau: dona Ana Lucília, a linda e inteligente professorinha não mais continuaria conosco no próximo ano. O seu saber e todas as suas demais virtudes intelectuais haviam atravessado as fronteiras limitadas da querida São Geraldo. Agora, o prefeitão do Brejo julgava importante designa-la para ir cuidar de outras mentes em formação preparando-as para o porvir. Por certo ele entendeu que nós lá em São Geraldo já havíamos atingido o estágio necessário aos desafios que a vida nos traria. Ela foi promovida e depois transferida para Porteirinha, a pedido do prefeitão de lá, de onde jamais tivemos noticias. Nos primeiros dias do seguinte ano letivo nos sentíamos meio que órfãos, mas depois “o furacão” do saber e ensinar de nome dona Florisbela Martins, (a quem dedico á flor animada que cintila e enfeita o introito desta minha crônica), obedecendo como a um cão de guarda, aos comandos da dona Nazir, preencheu, imediatamente, a altura, os espaços deixados por dona Ana Lucília. Dali é possível que não tenha saído nenhum grande vulto exponencial que pudesse revolucionar o podre mundo da politica, das belas artes ou do saber, ou quiçá, com alguma notoriedade relevante em outros patamares da vida. Mas de uma coisa estejam certos e convictos: De lá saíram cidadãos íntegros e cônscios de seus direitos e deveres sociais e acima de tudo, exemplares pais de família que sabem que a verdadeira educação e disciplina começam em casa e que a escola, com seus professores mal remunerados por um Governo hipócrita, inepto e capenga, preocupado apenas com suas avaliações pífias e tendenciosas, salas de aulas sucateadas e imundas, caindo aos pedaços, milagrosamente apenas as complementam.

Ou eu estou errado.

Desculpe-me, dona Ana Lucília, onde quer que a senhora esteja. Mas, neste finalzinho de minha crônica não me foi possível segurar a onda. Sóbrio, comedido e educadamente, claro, pois foi assim que minha santa mãezinha, a senhora e o mundo me ensinaram.

É...

Por vezes, necessário se faz cutucar o gigante que dorme deitado eternamente em berço esplêndido para ver se ele acorda para cuspir, uai.

E tenho dito!

*O autor nasceu em Brejo das Almas, Francisco Sá, MG.


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Por Enoque Alves - 6/1/2013 22:16:01
Brejo das Almas faz 75 anos sem o seu fundador

*Enoque Alves Rodrigues

Brejo das Almas, 17h30m do dia 8 de Janeiro de 1938. Com quase 67 anos, falecia, depois de padecer por doze anos do mal de Parkinson, no Brejo das Almas, ou Francisco Sá, distante 480 quilômetros da Capital Belo Horizonte, ao norte de Minas Gerais, Jacinto Alves da Silveira. Portanto, brejeiros, depois de amanhã, terça-feira, oito de Janeiro de 2013, o nosso Brejo completará 75 anos sem o seu fundador.
A Parkinson é idiopática, ou seja, é uma enfermidade primária de causa obscura. Há deterioração e morte celular dos neurônios produtores de dopamina. É, por isso, uma doença degenerativa do sistema nervoso central, com início geralmente após os 50 anos de idade. É uma das patologias neurológicas mais frequentes visto que sua prevalência situa-se entre 80 e 160 casos por cem mil habitantes, acometendo, aproximadamente, 1% dos indivíduos acima de 65 anos de idade. Apesar do muito que já se pesquisaram, decorridos quase duzentos anos do descobrimento desta gravíssima doença por James Parkinson, pouco ou quase nada se sabe sobre suas causas.
O fato é que, deve-se a ela, todas as consequências de doze anos de sofrimentos que vitimaram o grande e insubstituível benfeitor de nossa Cidade. Tudo começou quando ainda vereador em Montes Claros, no momento em que lutava pela aprovação de mais um projeto que beneficiaria o Brejo. Ali ele sentiu as primeiras dores no dedo indicador da mão direita, que insistia em não obedecer aos seus comandos. Seu colega de partido, Antônio Ferreira de Oliveira, o Niquinho “Açúcar”, ou Farmacêutico, é quem conta com todos os detalhes, o inicio desse duradouro tormento, que, como já mencionei, doze anos depois ceifaria a vida do nosso mais ilustre Brejeiro.
Jacinto Alves da Silveira foi, até hoje, o único capaz de reunir todos os predicados que habilitam qualquer individuo a afirmar ter vivido a vida em toda a sua plenitude na prática do bem. Descendente de famílias de Ouro Preto, assim como os Pena, Oliveira, Dias, Xavier, entre outras, esta última pertencente à genealogia do grande Mártir da Inconfidência, o Tiradentes, Jacinto, um dos muitos filhos do velho Fazendeiro José Alves da Silveira, nasceu no Brejo, lá pelos idos de 1871, quando o Brejo sequer sonhava em ter as feições de hoje. Ao contrário, assemelhava-se, muito mais, ao longínquo dois de novembro de 1704, quando não passava de uma vasta mata às margens dos rios Verde Grande, São Domingos e Gorutuba, onde Antonio Gonçalves Figueira, dono de várias fazendas na região, fincou pela primeira vez, ao lado da Lagoa das Pedras, o imenso cruzeiro que marcaria para sempre, no tempo e no espaço, o inicio de uma nova era, de uma promissora civilização e de uma progressista Cidade, como o próprio Bandeirante profetizara. Jacinto, ao contrário de seus outros irmãos que eram todos Fazendeiros, desde a infância, apesar de rústico, já se revelava muito inteligente, quando lia, escrevia e realizava cálculos difíceis até mesmo para quem tinha a mais elevada cultura. Era, desde aqueles tempos, um iluminado, na mais clara e límpida definição do termo.
Bonito, com 1,80 de altura, bigodes aparados e bem fornidos, cabelos cortados à escovinha, trajando-se sempre de brim cáqui, o belo jovem Jacinto Silveira juntamente com outros peões, percorria, no lombo do cavalo, por estradas de chão batido a longa distância de 270 quilômetros conduzindo grandes manadas de gados de corte que eram vendidas na cidade de Curralinho, hoje, Corinto, situada ao norte de Minas Gerais. Com 24 anos conheceu e casou-se com a normalista Maria Luiza de Araújo, na velha Matriz de Montes Claros, no dia 16 de Novembro de 1895. Maria Luiza foi durante toda a vida, sua fiel e inseparável companheira, a qual foi responsável pela condução dos destinos do povo brejeiro no campo da educação e cultura, enquanto Jacinto preparava esse mesmo povo na política e principalmente para a emancipação administrativa do Brejo, que ocorreria em 1923/24. Foi o primeiro presidente da primeira legislatura municipal brejeira, 1924/1930, que era composta pelos seguintes vereadores: Padre Augusto Prudêncio da Silva, Francisco Fernandes de Oliveira, José Dias Pereira Zeca, João de Deus Dias de Farias e Rogério da Costa Negro, este último, um grande comerciante do ramo de tecidos.
Lutador incansável pelos direitos de seu povo, íntegro, transparente, correto em todas as suas atitudes, honesto até a medula, numa época em que a mosca varejeira sequer sonhava sobrevoar o mundo da política, Jacinto Silveira conduzia os destinos do povo Brejeiro pelos caminhos da retidão e do porvir, assim como Moisés do Egito conduzia seu povo rumo à Terra Prometida. Jamais perdeu uma só eleição. O Brejeiro daqueles tempos sabia reconhecer os valores inalienáveis daquele homem e o tinha como a um verdadeiro Líder. E como tal se comportava: respeitador e cerimonioso, de falar pausado, olhava sempre nos olhos do interlocutor e não o interrompia quando o outro se pronunciava. Firme e assertivo, sempre expressou o seu pensamento. Nunca se utilizou de meias palavras. Era homem de posições claras e definidas. Benevolente e despojado, servia a todos com amor sem pedir nada em troca. Disciplinado, sabia ser enérgico sem ser jactante. Muitos foram os Governadores de Estado que utilizaram o prestigio de Jacinto. A palavra dele era uma ordem e nela todo e qualquer Brejeiro acreditava cegamente por que Jacinto nunca deixou de cumpri-la.
Rico, dono de várias fazendas de gado e cultivo, casas comerciais e muitas outras fontes de renda, Jacinto Alves da Silveira, homem que durante toda a existência sempre teve a casa cheia de amigos e correligionários, que sem nenhum apego às coisas materiais, ajudava, com recursos pessoais a todos, brejeiros ou não; bancava, do próprio bolso, inúmeros candidatos em campanhas eleitorais caríssimas. Depois de ter custeado a emancipação do Brejo das Almas, tendo inclusive doado prédios de sua propriedade para comporem a Sede Administrativa e o conjunto arquitetônico do Município, condição esta indispensável a sua homologação, já no final da vida, corroído pela enfermidade degenerativa, ainda era obrigado a arrastar-se de sua casa até a Prefeitura, onde dava expedientes, deixando-nos o belo exemplo de que é no trabalho que nos realizamos e enobrecemos. Morreu, no entanto, pobre, mas digno e praticamente só, tendo a seu lado apenas os familiares.
Não é sem motivo que um de seus filhos, o também Coronel Geraldo Tito Silveira, assim se expressa em um de seus lindos libelos, referindo-se as indiferenças das quais fora vitima o pai: “Nos áureos tempos de sua vida abastada, quando ele plantava as sementes de uma pequena fortuna, depois esbanjada nos ardores da política, feita somente para o bem-estar de outrem, sua casa solarenga vivia repleta de “amigos”. Até então, não se via pela estrada real, que ia dar à Bahia, uma só pousada ou hospedaria, de modo que os forasteiros que por ali passavam procuravam a casa do Coronel Jacinto, onde recebiam todo o conforto, gratuitamente. Muitas dessas pessoas eram acometidas de terríveis pestes inclusive febre brava!”.
E arremata o grande escritor do Norte de Minas. Geraldo Tito Silveira, agora lamentando mais uma grande injustiça com a qual brindaram o pai. Aliás, muito já falei sobre tal injustiça que espero um dia, quiçá nessa atual encarnação ver corrigida: “Como corolário da ingratidão dos homens, mudaram o nome de Brejo das Almas, não para perpetuar o nome de Jacinto Silveira, na terra que engrandecera, mas para honrar o nome de outro Brasileiro, Ilustre, é verdade, mas que nada fizera por ela.”. Refere-se ao Doutor Francisco Sá, (1862-1936), nascido na fazenda Brejo de Santo André, que naqueles tempos pertencia ao Município de Grão Mogol e que foi Ministro da Viação e levou a Estrada de Ferro Central do Brasil até Montes Claros, que muito lhe deve.
Não sei, até porque de há muito não vivo mais no Brejo e não participo de seu dia-a-dia, se a Sociedade Brejalmina ou Brejalmense, movida por nobres sentimentos de gratidão, ou, quiçá, políticos locais, se lembrarão de promover neste dia 8 de Janeiro, alguma cerimônia, por mais simples que seja, ainda que um singelo minuto de silêncio, àquele que foi, é e será, o primeiro e mais importante Brejeiro. O maior de todos, porque deu tudo de si, até a própria vida, para que o Brejo das Almas ou Francisco Sá figurasse no mapa de Minas e do Brasil, como o Município importante e promissor que é.
Depois de permanecer longo tempo na erraticidade, acha-se, atualmente, no meio de nós. Não dentro da política que, convenhamos, mudou muito, e para pior. Servidor nato e dedicado que jamais fugiu à luta, não obstante toda a ingratidão que recebeu, acreditem céticos de plantão: Se hoje se realizassem uma “chamada oral” convocando homens de bem a colaborarem com qualquer causa que tivesse por objetivo o bem comum, a justiça social, a luta contra as desigualdades dos menos favorecidos, alguém, digno, decente, probo e humano em quem, todos nós pudéssemos nos espelhar, ao bradarem o nome “Jacinto Alves da Silveira!” Com toda certeza ouviríamos, prontamente, em algum lugar do Brasil, a voz firme, forte e determinada do Coronel e grande Líder: “Presente... Eis-me aqui!”.
E tenho dito
*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
ALGUNS FRAGMENTOS ALUSIVOS A JACINTO SILVEIRA – CRÔNICAS DE 2012.
*Enoque Alves Rodrigues
1.

“Que Jacinto Luz era sogro de José Alves da Silveira, grandes fazendeiros no Brejo das Almas de antigamente, sendo este último pai de Jacinto Alves da Silveira, principal responsável pela fundação e emancipação do Brejo das Almas, hoje Francisco Sá?...”.
2 2.
“Naquele tempo, Jacinto que era seu compadre, dava expediente na Prefeitura”. A farmácia de França ficava exatamente no trajeto, que Jacinto fazia três vezes ao dia, pois almoçava em casa. Numa dessas passagens, França, desesperado, chamou-o:
- Compadre!
- Pois não. Respondeu-lhe o Coronel Jacinto, sempre educado, cordial e solícito.
- Já não sei mais o que fazer compadre. Não posso mais aceitar porco, galinha e mantimentos como forma de pagamento. Os meus cercados estão cheios. Se eu continuar assim vou quebrar. Mas também não posso deixar o povo sem remédio. O senhor precisa me ajudar!
Jacinto, homem prático, de raciocínio rápido, desses que em fração de segundos cria, amadurece e executa uma ideia, ali mesmo, sobre o balcão da farmácia, pegou sua pena e num papel timbrado escreveu em letras garrafais: “Com o único objetivo de zelar e preservar a valiosa saúde do povo brejeiro, com o intuito exclusivo de evitar propagação de doenças e pestes eventuais, inerentes ás espécies suínas e ovinas, porcos e penosas, proíbo, a partir de hoje, qualquer forma de pagamento de remédios mediante tais modalidades”.
Depois de assinar, entregou o papel para França com a recomendação: “Aqui está compadre, a solução para o seu problema. Pegue isso e cole na frente da farmácia. Quando alguém chegar com porcos e galinhas, basta o senhor mostrar o cartaz. Como a maioria não sabe ler, diga que o papel lhe proíbe de vender remédios para receber de outra forma que não seja em dinheiro vivo...”.
3.
“Quantos, porventura, de nossos conterrâneos saberiam definir o quanto representou o nome gravado naquela velha placa para o Brejo das Almas? O certo é que o Padre Augusto Prudêncio da Silva, sobre o qual muito já escrevi neste mesmo espaço foi, juntamente com Jacinto Silveira, um dos maiores beneméritos do antigo Brejo das Almas...”.
4.
“Alto, magro e esguio”. Vestido do mais puro brim, cáqui, calçado com botas de couro, canos longos, com chapéu panamá à cabeça, olhar tranquilo e falar manso. Sentado estava no solar de seu casarão de onde observava todo o Brejo das Almas, reduzido, naquele tempo, a um pequeno amontoado de casas. Ao avistar Marcolino, elegantemente se expressou:
- Bom dia, meu amigo. Como vai o senhor? Porventura, há algo que eu possa fazer para lhe ajudar?
- Sabe o que é coronel! Eu vim aqui para lhe vender o meu voto. Quanto é que Mercê está pagando?
- Vender, o que, meu filho? Por favor, seja mais especifico. Não lhe entendi!
- Então, coronel, o senhor sabe que todo eleitor aqui vende o voto e que aqui no Brejo qualquer candidato só se elege se comprar votos, já que não tem voto de cabresto para todo o mundo.
Aquele candidato olhou para Marcolino com piedade. Após fitar-lhe de alto a baixo, respondeu-lhe educadamente.
- Creio que o amigo esteja enganado. O voto deve ser dado e não vendido. Voto não tem preço, voto tem consequência. Aliás, você nem precisa conhecer a pessoa para votar nela. O que você tem que conhecer é o seu plano de governo. Não faça de seu voto moeda de troca senão os candidatos vão fazer de você massa de manobra e posso lhe garantir que esta ciranda perversa não é benéfica nem para você tampouco para à Democracia que todos nós um dia almejamos. Não vote, jamais, em quem se propõe a comprar o seu voto. “Ele não o merece...”.
Democracia? De que diabos aquele coronel visionário estava falando em plena década de 1920 quando a maioria das questiúnculas era resolvida à bala ou sorrateiramente?
Impossível seria mesmo entender, quanto mais explicar, não fosse aquele candidato o Coronel Jacinto Alves da Silveira que, segundo os anais da história, jamais perdeu uma eleição das muitas que disputou.
5.
“E o nosso fundador, Seu Jacinto. Você já leu alguma coisa sobre ele?...”.
6.
Certa vez se encontravam na casa do Padre Augusto, no Brejo das Almas, o Dr. Honorato Alves, Camilo Prates, Alfredo Sá, Jacinto Silveira, Antonio Ferreira, Francelino Dias...
7.
Depois de longos minutos neste diapasão coube a Jacinto intervir.
- Compadres, por favor, parem com isso! Os senhores ainda não perceberam que este Lucas dos Infernos está tirando sarro de todos nós? O que ele lhes manda fazer, jamais conseguirão. Ninguém é capaz de fazer isso. Foi bem mais fácil para mim, apesar de sabermos o quanto me foi difícil, (o Coronel Jacinto, como bom Mineiro, de quando em vez também se dava ao luxo de colocar em prática o seu Mineirismo), emancipar o Brejo das Almas. Este negro não quer contar história coisíssima nenhuma!
8.
“Até mesmo o Coronel Jacinto Silveira, meio sisudo, por natureza, recebia com sorrisos os seus gracejos...”.
9.
“Assim sendo, personagens, cuja vida detalhei em suas minucias como, por exemplo, o Padre Augusto Prudêncio da Silva, Jacinto Alves da Silveira, Geraldo Tito, Feliciano Oliveira, entre outros, não serão abordados...”
10.
“Aqui estamos diante do túmulo do ilustre Brasileiro e acima de tudo, Brejeiro, Jacinto Alves da Silveira, que por toda a sua vida...”.
11.
“Ainda solteiro, Jacinto conduzia grandes boiadas que eram vendidas em Curralinho, hoje, Corinto...”.
12.
“Dos muitos filhos do velho Zé Alves jacinto foi o único a inclinar para o campo do intelecto e, menino ainda, já dominava o alfabeto e tabuada...”.
13.
“Ali foi celebrado o enlace matrimonial de Jacinto Alves da Silveira com Maria Luiza de Araujo, que...”.
14.
“Não obstante ter sacrificado a própria vida pelo Brejo das Almas, Jacinto Silveira pouca ou quase nenhuma homenagem recebeu em vida...”.
15.
“A esposa de Jacinto Silveira, dona Maria Luiza, tinha uma cultura refinadíssima e muito além de seu tempo. ela foi a primeira normalista do Brejo das Almas...”.
16.
“Mantendo as mesmas tradições de injustiças com que regalaram o marido Jacinto, Maria Luiza, mesmo tendo sido a primeira Normalista do Brejo, não teve a primeira Escola do lugar nominada em sua homenagem...”.
17.
“Nem mesmo na concessão do Cartório do Brejo se dignaram a destina-lo a esposa de Jacinto, agregando-o a outra família, também merecedora, claro, mas sua tradição e amor ao Brejo sequer se aproximavam da tradição dos Silveira...”.
*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 1/1/2013 11:07:56
CENAS BREJEIRAS 5 – NEIDE DO ANGICO

*Enoque Alves Rodrigues

Neide Francisca vivia na digna comunidade do Angico, localizada nas imediações do Brejo das Almas, ou Francisco Sá, quando a seca e a fome castigavam o norte de Minas Gerais. Ali ela cresceu, casou-se e constituiu sua numerosa família ao lado do marido Antonio Donato ou Toni Donato.

Vida dura e Severina. Trabalhavam no campo. Quando as crianças nasciam á parteira ia logo dizendo: “Hehém, tão lisinho e parrudinho. Daqui a pouco vai crescer engrossar o cangote e calejar a mão no cabo da enxada. Vai tirar muita roça do mato!”.

O pai, todo entusiasmado, ouvia aquilo e ficava feliz. Claro, não existiria, ainda que o filho vivesse cem anos, alternativa que não fosse o cabo da enxada. Invariavelmente era este o destino do mal nascido. Aliás, minto. Havia outras opções sim: o cabo da foice, do machado, da picareta e dos cambões. Você escolhia onde queria se especializar. Eu, por exemplo, “um gênio para a época” apesar da idade tenra, doutorei-me na arte de bater cambões. Os caras traziam montanhas de feijão, claro, quando havia boa safra, e eu detonava. Fui mestre nessa arte assim como também fui um exímio retratista. Só que nessa honrosa profissão não prosperei muito, ou melhor, nada, pois apesar de eu ser o “degas”, em quase todas as fotos degolava o distinto e ilustre fotografado, deixando-o sem cabeça. Eu não conseguia enquadrar o sujeito como fazem os fotógrafos de verdade. Até hoje sou um fracasso. Dificilmente consigo tirar uma foto de alguém de corpo inteiro. Sempre falta alguma parte.
Neide do Angico e Toni tiveram nove filhos, mas três morreram de tétano umbilical ou mal de sete dias. Em todos os partos que foram feitos pela mesma parteira, esta profetizava o destino do recém-nascido com a mesma e surrada cantilena. Quando foi para nascer o ultimo, a quem deram em pia batismal o nome de Levi, ao escutar a voz da velha parteira em mais um agouro, Neide do Angico interrompeu-a e vaticinou categórica: “Negativo, o meu ultimo filho não vai provar do cabo da enxada, não... Ele vai ser doutor, vai curar muita gente e vai ser muito rico. Ele vai salvar muitas vidas. Ele vai nos ajudar!”.

Aquilo era um verdadeiro delírio numa época em que por mais que você ralasse, o máximo que você conseguia era não morrer de fome. Imaginem, então, quantos triunfariam na arte de Hipócrates? Quase zero. Apenas filhos de fazendeiros chegavam lá. Assim mesmo, a maioria, quando conseguia, se especializava em medicina veterinária que era para cuidar dos bois do paizão.

Quando a tirinha de folha de bananeira com a qual a parteira amarrou o cordão umbilical de Levi começou a secar, Toni Donato, o pai, já queria leva-lo para a roça. A mãe, a guerreira, Neide, atropelou-o:

-Negativo, já falei que esse menino vai ser Médico.

-Uai, sô, mas Médico de que? Desde quando pobre tem filho Médico? Eu preciso do menino na lavoura para aumentar a produção e vancê sabe disso, resmungou Toni!

-Medicina... Medicina... Medicina. Levi vai ser Médico e não se fala mais nisso!

Neide estava determinada que o filho caçula ao contrário dos demais irmãos que eram analfabetos, estudaria Medicina. Ela só não sabia de que jeito. Com quais recursos, por exemplo.

Com oito anos o nosso amiguinho ainda “estava” analfabeto. Foi aos nove anos que Neide, finalmente, se tocou.

-Diabos, essa criança além de não estar estudando, também não trabalha. Desse jeito não vai dar certo. Toni está com a razão. Tenho que fazer alguma coisa.

Neide, coitada, esperava que a tão prometida Escola fosse inaugurada em seu Angico para que o menino começasse a estudar. Mas estava difícil. Politico entrava e saia e nada de se construir a Escola. Foi assim que ela procurou dona Idazinha, senhora culta e muito bem instruída na arte do bê-á-bá e tabuada. Pronto. Era só o que faltava. Em pouquíssimo tempo Levi já dominava o alfabeto assim como as quatro operações aritméticas. No angico não tinha mais espaço para o garoto. Neide, a mãe, pela primeira vez dava sinais de cansaço. Já não sabia mais o que fazer. Toni estava irredutível. Queria o menino na roça. Continuariam no Angico. Não sairiam de lá para nenhum outro lugar. Afinal, dizia ele, ninguém precisa estudar.

João estava em campanha eleitoral. Ele tinha suas bases em Montes Claros que naqueles tempos era “dono” do Brejo. Tudo se decidia lá. João já havia sido Prefeito de Montes Claros, mas ele queria mais, por isso tinha que engolir poeira. Assim sendo inesperadamente acabou baixando no Angico, em casa de Neide e Toni. Bebeu água do pote, comeu biju e pediu voto. Neide sequer sabia quem ele era. Mas ela estava desesperada e já quase incrédula quanto ao cumprimento da própria profecia. Quando alguém está se afogando qualquer raizinha pode ser a salvação. E era: Ela interpretou a visita daquele forasteiro a sua humilde casa como um aviso dos Céus. Um enviado de Deus. Sem saber com quem estava falando, mas de saco cheio com tantas promessas não cumpridas por velhas e felpudas raposas para a construção da Escola que nunca saia, Neide, aquele divino ser, foi curta e grossa.

Apontando para o raquítico pirralho, cujo nariz escorria, disse ao desconhecido Politico:

-O senhor está vendo aquele magrelinho ali? Pois é, ele é meu filho! Tem dez anos e nunca foi à Escola. O nome dele é Levi. Vira e mexe vem gente aqui igual ao senhor pedir voto prometendo escola pra todo mundo. Eles ganham e somem e nós continuamos sem Escola. Quando o Levi nasceu eu falei que ele ia ser Médico. Mas como, se até agora não iniciou nem o curso primário? Por isso só voto em quem o transformar em Médico. Se o senhor fizer dele um Médico terá o meu voto.

Aquele cidadão, paciente, observou aquela senhora com piedade. Apesar de ele próprio se originar de família simples, não conseguia entender de onde vinham tanta simplicidade e convicção.

-A senhora não precisa votar em mim. Mas eu tenho a obrigação e aqui lhe dou a minha palavra, de transformar o Levi, seu filho, em Médico. Basta que a senhora me autorize leva-lo para Montes Claros. Estou autorizado?

-Está. Pode levar!

Muitos anos depois Levi era Médico. Seu consultório ficava ao lado do consultório de seu benfeitor e agora padrinho. Trouxe todos os familiares do Angico para Montes Claros.

O sujeito que estava no Angico pedindo votos. Que ouviu as súplicas daquela rude senhora. Que chamou a si a responsabilidade de tornar aquela pobre criança um grande e respeitado Médico, era ninguém menos que o Doutor João José Alves, um dos mais importantes Médicos que o norte de Minas Gerais já produziu e que, portanto, dispensa aqui quaisquer outras apresentações. Aliás, muito já escrevi sobre ele. O cara era tão fudido que mesmo em vida, tinha uma praça em sua justa homenagem que ainda existe no centro de Montes Claros, onde se localizavam sua casa e consultório.

Pode?

Em tempo: ele se elegeu naquela campanha. Foi prefeito da bela MOC pela segunda vez.

É...

Por vezes, dizia Albert Einstein, é no meio da dificuldade que se encontra a oportunidade.

E tenho dito!

Ótimo 2013 pranóis.

Postado ás 11 horas do dia 01 de Janeiro de 2013

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 10/12/2012 21:14:51
Feliz natal e um próspero 2013, brejeiros!

**Enoque Alves Rodrigues

Alô, Brejeiros. Alô meu povo!

“Ói nóis aqui travêiz!”

Por mais um ano estivemos juntos e separados. Juntos, por que ficamos, através de minhas crônicas, que são postadas neste Blog inteiramente dedicado ao Brejo das Almas ou Francisco Sá e seu povo, meus diletos conterrâneos, que sempre me prestigiaram concedendo-me a honra e privilégio de lerem aquilo que despretensiosamente escrevo. A internet, nesse sentido nos ajunta de maneira inequívoca ao ponto de nos sentirmos uma só pessoa, mesmo estando eu aqui em São Paulo há mais de 1000 quilômetros de distancia e vocês ai em meu Brejo das Almas querido.
Separados porque mesmo sendo o meu desejo, nem sempre consigo escrever-lhes com a frequência e assiduidade que gostaria. Principalmente neste ano de 2012 que se finda, devido eu ter abraçado outras atividades que, confesso-lhes, estão consumindo muito do meu já escasso tempo.
Foi muito bom contar com vocês durante mais este ano. Espero poder continuar sendo digno de suas atenções e credibilidades no próximo ano de 2013. É certo que não tenho a pretensão de agradar a todo mundo. Assim sendo talvez seja possível que os meus escritos mesmo sendo referentes a épocas remotas e extemporâneas aos dias atuais, tenham em algum momento desagradado alguns ou até mesmo frustrado. Mas isso para mim não tem a menor importância. O importante, na verdade, é a consciência tranquila de que o que me motiva está sendo cumprido, ou seja, compartilhar com muitos de vocês que não tiveram oportunidades de tomar conhecimento a respeito de fatos de há muito ocorridos em nosso Brejo, que o tenham agora através destas crônicas, até porque a maioria de minhas narrativas não se encontra ainda registrada nos anais da história. Elas foram passadas pelo boca a boca, de pai para filho e divulga-las, hoje, possibilita que estes fatos não venham morrer um dia ou cair no esquecimento, deixando os nossos pósteros órfãos.
Desejo a todos vocês meus conterrâneos os mais puros e sinceros votos de um Feliz Natal e um ano de 2013 cheios de Paz e muitas realizações, em vossas vidas pessoais ou profissionais.
Lembrando sempre que querer é poder. Desde que você vá á luta e acredite em você, próprio. Mas não se esqueça de que do Céu não cai nada. Aliás, aqui em São Paulo, atualmente, nem chuva está caindo.
Não tirarei férias neste fim de ano. Portanto o nosso próximo encontro ocorrerá somente na primeira semana de Janeiro/2013 em minha primeira crônica de mencionado ano.
Um forte abraço!

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 1/12/2012 11:24:42
Cenas brejeiras 4 - Cleonice

*Enoque Alves Rodrigues

Ela nasceu no Catuni num tempo em que o ouro branco, algodão e alho imperavam. Ainda criança veio com os pais para o centro do Brejo das Almas, Francisco Sá. Residiam, ela, a mãe, o pai e dois irmãos menores à Rua Lauro Oliveira, próximo ao Grupo Donato dos Santos. Foi matriculada no Mariquinha Silveira onde desde então passou a estudar com todo afinco. Parente distante de dona Daza, senhora influente e bem situada na sociedade Brejalmina de então, não demorou muito para que a pequena Cleonice Rodrigues Pereira, a Cléo, ainda no curso primário, despontasse para a intelectualidade, em cujo campo, surpreendentemente, trafegava com grande desenvoltura que impressionava os mais sábios brejeiros daqueles tempos. Ela discorria com total naturalidade sobre os mais variados temas.
Além de dota-la de singular inteligência, a mãe natureza também fora pródiga com Cléo no item formosura. Á maneira que ela crescia, seus dotes femininos acentuavam-se. Adolescente ainda, ela se transformou numa deusa de rara beleza. Em todas as paradas de sete de Setembro, a segurar a flâmula do Mariquinha, durante muitos anos, lá estava Cléo sempre bonita, alegre e vibrante. Mancebo algum se achava à altura da beleza e inteligência daquela beldade. Por isso ninguém se atrevia a dirigir-lhe qualquer gracejo por mais simples e despretensioso que fosse. A beleza dela ao invés de atrair, afugentava. Rapazes de famílias ricas e tradicionais de Francisco Sá se acanhavam. Bem que eles queriam se aproximar. No quesito beleza exterior até que eles se achavam arrumadinhos e não deixavam tanto a desejar, mesmo muito aquém da beleza de Cléo. Mas o problema mesmo estava no conteúdo. Na “beleza das ideias”. Ai sim, eles tremiam nas bases qual varas-verdes. Pulavam miúdos e recuavam de todo e qualquer intento. Cléo era mesmo poderosa e eles, coitados, “não tinham garrafas vazias para quebrar”. Eram quase bonitos, mas xucros. Não tinham chances. Será?
Casa Viena, assim como Casa Branca e Costa Negro, liderou o comércio de Francisco Sá durante décadas. Ali Cleonice empregou-se na condição de balconista. A notícia correu célere qual rastilho de pólvora. Brejeiros que faziam compras na Viena difundiam a boa nova numa frenética propaganda boca-a-boca, a outros brejeiros de várias localidades, cujos comentários não se referiam a chegada de novidades da Capital, nem a preços e qualidades dos produtos que, diga-se de passagem, eram bons e imbatíveis. O que eles propagandeavam eram as curvas sinuosas da balconista que os atendera. Eles não falavam da inteligência porque no afã de observarem a beleza externa, sequer se atinham a esse tópico, para eles, desprezível.
Em pouco tempo, as vendas que já não eram poucas triplicaram. Brejeiros vinham de todas as partes. Eles chegavam e ao invés de fazerem seus pedidos paravam diante de Cléo e permaneciam estáticos por alguns minutos. Indagados por ela “o que desejam?”, mineiramente, titubeavam, respondendo-a:
-Não sei... Parece que eu vim aqui comprar alguma coisa da qual não me lembro! Depois, disfarçadamente, pediam um produto qualquer e saiam.
Numa manhã quente outonal, a cidadezinha de Brejo das Almas, terra dos meus encantos, amanheceu triste. Não demorou muito para que os falatórios começassem a tomar conta do lugar. A bela da Casa Viena sumira. Muitos acorreram à Rua Lauro Oliveira. Os portões de madeira rústica do velho casarão onde ela morava, jaziam silentes e adormecidos. Os laranjais que outrora, ali existiam cujo perfume das floradas insistia em competir-se, inutilmente, com o perfume natural da diva, apesar do vento que varria as ruas, não tremulavam mais. As maritacas comumente barulhentas em suas algazarras agora mal se entreolhavam. Pintassilgos, sabiás, pássaros-pretos e beija-flores estavam entristecidos. A velha paineira, testemunha ocular e privilegiada daquela beleza agora rangia, chorosa. Pudera a fada, cuja presença radiante lhes alumiava os desejos de seguirem em frente, não mais se encontrava.
Rua doutor Santos, em frente ao número 127, em Montes Claros. Naquela época neste número ficava uma pequena loja que depois se fez grande. Parece-me que a mesma se denominava Geraldino Boutique. Não tenho certeza, sou brejeiro e apesar de o Brejo das Almas se encontrarem a apenas dez léguas de distância de Montes Claros, posso dizer que pouco ou quase nada conheço da bela MOC.
Eu descia mencionada rua. Por alguns instantes pensei estar sonhando. Não poderia ser verdade. Não era Cleonice...
Era Cleonice, sim. Mais bonita impossível. Mais simples bem isso eu não poderia saber. Mesmo menino, eu também fazia parte do rol dos que tinham medo de se aproximarem dela. Não por eu ser feio, pois conforme meu pai me dizia, “eu era muito bonito devido parecer com ele”. Mas eu não estava certo se a minha inteligência a alcançaria. Eu também não era nenhum “garoto papo firme e que eu saiba, o Roberto, jamais falou de mim”. Foi assim que ao avista-la do outro lado, timidamente parei. Atravessei a rua e estendendo lhe a mão em cumprimento, cheio de simpatia, tagarelei:
-Olá, Cléo, como vai? Tudo bem? Você sumiu do Brejo! O que fazes em Montes Claros? Todos nós sentimos sua falta. Você está morando por aqui? E seus pais, como estão?
Ao contrário do que eu imaginava em minha pobre ignorância que envergonharia a mais infeliz e reles das criaturas, aquele divino ser, simplesmente, retribuiu-me o aperto de mão e após abrir-me um largo sorriso, calma e educadamente, como se fossemos velhos amigos, passou a responder o meu sofrível questionário. Falou-me que estava muito bem. Que havia saído do Brejo temporariamente apenas para acompanhar os pais que estavam em Montes Claros a trabalho. Que ela estava fazendo curso de especialização. Que também sentia muitas saudades do Brejo e de sua gente. Que voltaria em definitivo no próximo ano, etc.
Enquanto ela falava, eu pensava: Meu Deus, como Cléo era simples! Mesmo farta em tudo, era de uma singeleza sem tamanho. Quão precipitados fomos por não termos nos aproximado dela antes! Por quais razões havíamos nos subestimado tanto ao ponto de nos privarmos do convívio de uma pessoa tão sábia e iluminada? Quantas vezes deixamos de avançar alguns degraus na escada dolorosa da vida e do saber apenas por imaginarmos que os nossos sentimentos não seriam correspondidos?
Enquanto conflitava com o meu eu, Cléo, como se estivesse lendo os meus previsíveis pensamentos, se despedia, com esta afirmativa.
-Foi muito bom falar com você. Aliás, pensando bem, a gente jamais se falou. Eu tinha vontade de conversar com você, mas sou muito tímida e aguardava iniciativa sua nesse sentido. Também não entendo porque os jovens do Brejo me evitam tanto. Eles praticamente me isolam.
Diabos, isso já era covardia. Eu não estava ouvindo aquilo!
Informada de que, assim como ela, todos nós éramos igualmente tímidos e o pior, que sua beleza e inteligência nos assustavam, sorriu e acrescentou:
Assim fica difícil. Vocês não se aproximam por acharem que sou mais bonita e inteligente que vocês e eu, de minha parte, não me aproximava por pensar que vocês fosse um bando de metidos. Desse jeito viveríamos cem anos no Brejo sem nos falarmos e depois, morreríamos todos com a certeza plena de que as nossas piores e mutuas impressões eram verdadeiras. Como? Se jamais nos falamos!
É...
Por vezes, diziam os antigos, se você quer conhecer e se fazer conhecido, então, fala Mané.
E tenho dito!
*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Aos meus leitores:
Á partir de outubro/12 postarei somente uma crônica por mês. Entre as inúmeras atividades difíceis de conciliar, também estou colaborando ativamente com uma revista de grande circulação nacional e internacional voltada à divulgação do espiritismo.
Abraços.
Enoque.


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Por Enoque Alves - 10/11/2012 21:53:34
CENAS BREJEIRAS 3 – DONA LURDES

*Enoque Alves Rodrigues

Aquela década transcorria celeremente. Estranho, por aquelas bandas, naqueles tempos, se utilizar de qualquer palavra relacionada à pressa ou agitação. Mas em meu caso particular, não. Realmente o tempo que antes não passava, agora voava. Estava preocupado com o serviço militar e com a possibilidade de alçar voos mais altos. E o pior: com medo de estar vivendo um sonho de Ícaro, com asas de cera. Aproximava-se a cada dia, o temido momento em que eu teria que despedir dos familiares, do meu povo e da minha terra. O cordão umbilical tinha que ser cortado. As perspectivas, naquela ocasião, não eram favoráveis a um jovem com a cabeça cheia de sonhos a serem realizados, custe o que custasse. Desde muito cedo aprendi que do Céu só cai chuva e de quando em vez algum canivete. Nada mais. Aliás, pensando melhor, a chuva nem cai do Céu, mas de uma nuvem qualquer que na verdade se forma na terra. Quanto ao canivete. Bem, essa já é outra história. Entenda-o como “elemento decorativo” ou “licença poética”. Sendo assim, estamos entendidos que do Céu não cai nada. Por isso eu tinha que ir à luta.

Ela vivia nos arrabaldes do Brejo das Almas, ou Francisco Sá, em companhia de seu digno esposo Eduardo, ou “Duia”. Particularmente, jamais o chamei pelo apelido. Talvez pelo fato de o “Duia” compor-se a um adjetivo que fazia alusão a cor da pele, ou quiçá à diferença etária não me facultasse tal liberdade.

Esclarecida, inteligente, sensível e altruísta acima da média. Prendada, dedicada, cordial, amor ao próximo e devotamento religioso que a aproximava dos espíritos mais elevados, dona Lurdes ainda possuía o dom da premonição. Muitas pessoas se consultavam com ela. A todos tinha uma palavra de conforto e de coragem para seguir adiante. Dedicava-se também a expulsar quebrantos e mau-olhado ou olho gordo.

-Pois é Dona Lurdes, a Naninha está com um fastio terrível e não tá comendo nada!

-Se preocupa não, Carmem, respondia. –Dê a ela um chá de sabugueiro que é tiro e queda.

Outra, desesperada, recorria àquela alminha bondosa:

-O meu problema, Dona Lurdes, é que o meu marido Dedé sumiu faz três dias. Já o procurei por toda parte e não o encontrei. Eu acho que alguma coisa de muito ruim aconteceu com ele.

-Ih, minha filha, seu marido está muito bem demais da conta, sô. Quem não vai ficar bem vai ser você depois de saber aonde é que ele está. Dizia isso e apontava o dedinho para os rumos de uma famosa casa noturna que existia no Brejo das Almas de antigamente, cujo denominativo fazia alusão ao único satélite natural da terra. Ali, a “casta” boemia brejeira em surdina e solapa “marcava o ponto”.

Outras vezes tinha ela o recesso sacrossanto do lar interrompido por moçoilas desesperadas por se acharem balzaquianas devido ainda não ter surgido em suas vidas o príncipe brejeiro encantado. Elas chegavam e já iam intimando Dona Lurdes, como se fosse, aquele divino ser, responsável pelos seus respectivos insucessos no amor.

-E então, dona Lurdes... Como é que eu fico? –Já passou o dia de Santo Antonio, já fiz todas as rezas, mandingas e simpatias e até agora “não caiu nenhum bem-querer nos meus braços”. O que mais eu devo fazer? A solidão está me consumindo toda. Assim não pode... Assim não dá!

Diante de situações extremas como esta aquela boa senhora, com a simplicidade que lhe era peculiar, fitava a amiguinha consulente, de alto a baixo e no final disparava:

-Você já ouviu falar em maquiagem? Batom, pó de arroz, esmalte, por exemplo... Já experimentou usar uns paninhos melhores? E este pisantinho de dedos, já pensou trocar? Você alguma vez saiu para dançar? Conhecer pessoas, ou é daquelas que ficam enfurnadas em casa!

Como naqueles tempos muitas dessas novidades não faziam parte do cotidiano de beldades brejeiras, minhas conterrâneas, recatadas por natureza, a resposta negativa era mais que previsível. Ai dona Lurdes arrematava:

-Então, você tem que acabar com essa mania de jogar tudo nas costas do santo. Ele tem outros afazeres. O santo só ajuda quem se ajuda. Se você não fizer a sua parte, vai morrer seca. Você tem que ir à luta. Correr atrás. Cobra que não anda não engole sapo, menina!

Certa feita o “quem-quem” transbordou. Ao baixarem as águas, as vazantes ficaram cobertas de peixes. Informada, por quem nunca se soube, pois este rio fica distante da cidade, ao norte de Francisco Sá, e antes que alguém empreendesse a “colheita” dos curimbas que se debatiam no lodo, dona Lurdes, taxativa, foi logo adiantando:

-Negativo. Ninguém vai comer isso. Eles estão envenenados e impróprios para o consumo humano. Vivalma alguma, diante daquele assertivo aviso se atreveu a por a mão naquelas “bocas protráteis”.

Eduardo “Duia” andava de um lado para outro. Algo de sério o preocupava. Ele não era dado a crendices. Muito inteligente preferia resolver as coisas à sua maneira, privilegiando sempre o lado material.

-Duia! –Ela assim o chamava.

-Fala Lurdes, respondeu-lhe Eduardo.

-Enquanto você não aprender a rezar direito, isso ai que você está querendo fazer não vai dar certo!

-E o que é que eu estou querendo fazer, mulher?

-Você sabe!

Passada uma semana, Eduardo “Duia” puxava de uma perna. A bela montaria, brava e arredia, pela qual trocara seu manso cavalinho sem que dona Lurdes soubesse, o atirara ao chão na primeira pernada.

Movido pela curiosidade, quando eu estava para sair do Brejo fui ter com ela. Naquele dia falei com ambos. Nas poucas vezes que lá estive sempre fui recebido com carinho. Ao me despedir ouvi de dona Lurdes esse comentário, dirigindo-se a Eduardo.

-Esse menino dificilmente vem aqui. Aliás, se bem me lembro, vi-o umas duas ou três vezes. Dessa vez ele veio aqui para me perguntar alguma coisa, mas se acanhou. Mais eu sei o que ele ia me perguntar. E olhando para mim acenava e dizia:

-Vá com Deus, menino. Vai dar tudo certo na sua vida. Siga em frente. Basta você acreditar.

É o que tenho feito até hoje. E não tenho do que reclamar. Claro, depois de ter ralado muito na vida.

É...

Por vezes, ou quase sempre, assim como o navegar, acreditar também é preciso.

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Aos meus leitores:
Á partir de outubro/12 postarei somente uma crônica por mês.
Abraços.


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Por Enoque Alves - 12/10/2012 14:08:21
CENAS BREJEIRAS 2 - ASPÁSIA


CENAS BREJEIRAS 2 – ASPÁSIA

*Enoque Alves Rodrigues

Outrora, divertia-me observando o transitar de pessoas pelas ruas do Brejo das Almas ou Francisco Sá. O principal ponto de aglomeração, para onde todos se convergiam, ainda hoje existe em forma de Alameda com seus calçadões.

As jardineiras, carroças, charretes e carros de bois que vinham de Salinas, Grão Mogol, Taiobeiras e outras cidades da região tinham como ponto final a Alameda, ou precisamente, em frente à Pensão da Dona Quinó. Durante as minhas férias escolares era para lá que eu também ia com o objetivo de apreciar aquela movimentação toda. Sentava-me na soleira da porta da Pensão da dona Quinó, uma senhora forte, de meia idade, cujas instalações ficavam em um antigo casarão. Dali, daquele “point”, nada, absolutamente nada, me escapava às vistas.

Foi assim, quase do nada, que numa manhã de sol de rachar mamona, sem querer, observei que do outro lado da Alameda acabava de “apear”, era assim que falávamos na época, de uma empoeirada Jardineira, uma jovem muito bem vestida. Trazia numa das mãos uma mala de fibra enquanto com a outra, agarrava-se a uma frasqueira de couro cru. Entre os dedos tinha um diminuto pedaço de papel. Após atravessar o pequeno trajeto parou á minha frente, indagando-me:

-Menino, você sabe onde é que fica a Pensão da Dona Quinó?

-Sei, sim, dona. É aqui! Respondi, levantando-me da soleira a fim de facilitar-lhe a passagem.

-Uai, disse-me surpresa, quanta coincidência! Como é que eu vim perguntar exatamente no endereço onde vou ficar?

-Fácil, dona, respondi-lhe, como o ponto final das Jardineiras é aqui, seria mais difícil não encontrar.
Olhou-me, fixamente, e, esboçando um sorriso, depois de pensar um pouco, apresentou-se.

-Meu nome é Aspásia. Sou Normalista e venho de Taiobeiras para participar de um estágio no Eliseu. Eu vou me hospedar aqui na Pensão da dona Quinó. Você trabalha aqui? Você conhece o Eliseu? Você é do Brejo?

Meu Deus, quantas perguntas eu tinha que responder. Bem, do alto da timidez que sempre me foi peculiar, principalmente no trato com estranhos, passei a responder.

-Não. Eu não trabalho aqui. Venho nesse local para ver a chegada das Jardineiras. Conheço o Eliseu Laborne. Ele fica na Mariquinha Silveira. Sim, sou Brejeiro.

Daquele dia em diante Aspásia passou a fazer parte integrante da vida brejeira. Aliás, como se revelaria posteriormente, se adaptou a tal ponto que parecia ter nascido no Brejo. Concluiu o estágio em trinta dias, fim dos quais escreveu à família informando sua desistência do magistério e que optaria por algo ligado à saúde, que ficaria em definitivo no Brejo, etc.

Tempos depois podia ser vista dando expediente no São Dimas. Continuava, no entanto, hospedada na Pensão da dona Quinó.

Alegre, sorriso fácil, brincalhona e responsável. Exercia, com dedicação e zelo, o novo e digno oficio que agora abraçava. Ela se destacava em tudo. Como simples auxiliar de enfermagem prestou vestibular no qual foi aprovada para Medicina. Agora o Brejo encolhera para ela. Era demasiado pequeno para lhe proporcionar tão grandes sonhos. Sonhos estes que naqueles tempos nem mesmo a bela MOC seria capaz de realizar. Ela queria muito mais. Tinha que ganhar o mundo.

Em prantos convulsivos, abraçada a dona Quinó, vemos agora, aquele divino ser, com um dos pezinhos delicados apoiado sobre a soleira, se debulhando em lágrimas e palavras de gratidão, àquela benfeitora que apesar do pouco tempo de convívio, dizia considerar como se fosse sua mãe. Iria estudar Medicina na Capital das Alterosas.

-Adeus, dona Quinó, muito obrigado por tudo!

-Adeus, Aspásia, vê se aparece um dia por aqui, menina! Respondeu-lhe, dona Quinó.

Em instantes surgia a Jardineira que a levaria até Montes Claros de onde tomaria o trem de ferro com destino a Belo Horizonte. Lembro-me que havia uma fila tão grande de Jardineiras que a obrigou a embarcar alguns metros antes do ponto, exatamente em frente onde hoje é a “Moda Brasil”.

Quis o destino, assim como o fez em sua chegada, que também em sua saída, marcas indeléveis fossem gravadas em nossos recônditos. Pois, ao passar por mim, pequeno pirralho, sem mais nem menos, assim pensávamos, depois de acalantar-me, com respeitoso abraço, disse-me: “Para você, menino, eu digo um até breve. É certo que nos veremos bem antes do que imaginamos”.

Naquele momento não me ative aos significados daquelas palavras. Teriam algum sentido?

Será?

Treze anos depois era chegada a hora do “sapinho” aqui ganhar o Mundo. O Brejo, quem diria, também ficou pequeno para mim.

Usina hidrelétrica de Volta Grande. Divisa de Minas com São Paulo. Era aquele o maior empreendimento da Construtora Mendes Junior naquele ano. No dia 31 de Maio a Mendes recrutaria mais 200 peões de obra. Eu era um deles. Depois de termos passado uma semana aguardando a vez de fazermos os testes admissionais, eis que somos encaminhados para os exames médicos. Por se tratar de muita gente, o Setor de Recursos Humanos optou por dividir aquela multidão em vários grupos. Como era impossível examinar a todos ali, mandaram dois grupos de dez pessoas para Uberaba, no Triangulo Mineiro. Em um deles estava eu.

Quando o caminhão da Mendes estacionou defronte ao número 342 da Rua São Benedito onde faríamos os exames, demorei a aceitar o que os meus olhos castanhos insistiam em me dizer. Por alguns instantes cheguei a pensar tratar-se de uma visão. Mas não era: o pomposo nome que aquela bem elaborada placa ostentava não me deixava dúvida alguma. Ali estava escrito:

“Doutora Aspásia Modesto de Medeiros Fonseca – Clínica Geral e Cirúrgica”.

Era ela, com o sorrisão aberto e espontâneo de sempre, que fazia tremer os deuses, e com a mesma simplicidade dos velhos tempos brejeiros.

Maktub!

Aliás, em Uberaba, vários outros fenômenos se revelariam para mim que não cabem aqui comentar.

É...

Por vezes, ou quase sempre, é na singeleza das entrelinhas que se encontram as mais importantes revelações.

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 5/10/2012 20:48:58

CENAS BREJEIRAS 1 – GERMANA

*Enoque Alves Rodrigues

Pernas curtas e arqueadas. Andar lento e trôpego. Olhar disperso como se nenhum interesse demonstrasse a sua volta. Sol quente e escaldante não obstante estar ela, como sempre, munida de seu inseparável guarda-chuva. Andava, assim, displicente, pelas calçadas da Praça Rogério da Costa Negro, em Francisco Sá, Brejo das Almas.

-Germana!

-Oi, pode falar!

-Lembra-se de mim?

-Não, respondeu-me, secamente. – como poderia eu me lembrar de você se jamais te vi?

-Uai, sô, como não? Sou o Noquinho, neto do “seu Liberato”, aquele velhinho de barbas brancas que se parece a um papai Noel. Você não se lembra de meu avô?

-Não. Não me lembro. Porque haveria de me lembrar?

Aquele diálogo se parecia mais a uma conversa de bêbados. Germana, não sei por quais razões insistia em não querer se lembrar de nada. Teria, por acaso caído e batido com a cabeça? Estaria, porventura, acometida de alguma súbita amnésia? Bebeu? Sei lá!

Bem, cabia a mim, já que fui eu quem começou a conversa, procurar as melhores formas de fazê-la recordar dos meus tempos de menino, quando ela, já beirando os cinquenta, frequentava a fazenda Terra Branca, de meu avô, próximo de Cana Brava e Vaca Morta. Assim sendo, com a finalidade de tornar-me mais visível, por imaginar que talvez tivesse com algum problema de visão próprio da idade, acerquei-me um pouco mais dela. Olhei-a nos olhos, já meio turvos pelos muitos janeiros e, insistentemente, voltei a me apresentar:

-E então, Germana. Sou o neto do senhor Liberato e dona Justina a quem você visitava na época das moagens de cana no mês de Julho. Você se lembra da tia Cota?

-Cota, o que? De que diabos você está falando, homem?

Caramba. Que coisa chata. Aquela alminha que me fora tão importante em infância, quando ela me embalava com suas lindas e antigas histórias de um Brejo das Almas envolto em épocas perdidas séculos afora, agora estava ali, diante de mim, com sua mente relutante em reconhecer-me. Bem, sendo assim não tomaria mais o seu tempo.

Despedi-me com brejeiras reverências naturais que dispensamos aqueles que tiveram o privilégio de avançarem na idade longeva. Quando eu ia me afastando lembrei-me de um velho apelido de infância. A maneira que caminhava olhava para trás. Como Germana continuava parada, no mesmo lugar, me observando, pensei: porque não voltar e me apresentar melhor? Porque não me dar uma segunda chance? E se ela me desse um esculacho? Sim, porque antigamente ela era boazinha, tranquila, mas de vez em quando embravecia. Depois quem me garantiria que ela não mudou de temperamento depois de tanto tempo?

Voltar ou não voltar? Retornar ou seguir em frente?

Retornei!

Germana continuava estática me olhando. Ao ver que eu volvia em sua direção, fitou-me mais atentamente.

Não lhe dei nenhuma outra chance. Ela tinha que se lembrar de mim. Não se surpreendam: chato é assim mesmo. Quando encasqueta com uma coisa não há nada que o faça recuar. Acerquei-me muito dela ao ponto de lhe sentir o calor da respiração. Levemente lhe afaguei o rosto com uma mão em cada lado. Suavemente puxei de sua cabeça que se aproximou ainda mais de meu rosto. Agora eu tinha que finalizar o trabalho. Era agora ou nunca. Como em meu dicionário não existe a palavra “nunca”, então, era agora.

-Germana!

-Eu! Outra vez você? Mais o que é que você quer de mim, homem de Deus?

-Diabos, Germana. Como pode você não se recordar de mim? Você foi tão importante em minha vida. A minha avó a tinha como sua irmã. Deixava-me com você que cantava para eu dormir, balançando a rede que ficava pendurada entre aqueles dois pés de frutos do conde, lembra-se?

-Não!

Tencionava não utilizar a última cartada. Não mencionaria o apelido de infância. Não queimaria o último cartucho. Mas, brejeiros, acreditem, não teve jeito.

Como Germana permanecia indiferente a minha “insignificante figura” e por não estar nem ai para o Bonifácio, tive que apelar.

Esbugalhei os olhos, enchi e murchei as bochechas, repetidamente, assim como faz aquele vertebrado da classe dos anfíbios que habitam os brejos. Fixei mais o meu olhar ao dela e me esforçando o máximo para parecer-me, cada vez mais com o danadinho, emiti o coaxar característico do mesmo, seguido da fulminante e infalível apresentação.

-Germana, sua diaba. Eu sou o “sapo”!

Nem bem fechei a boca e já pude escutar sua estridente e gostosa gargalhada.

-Sapo?

-Eu já sabia tolinho. Só estava fingindo para força-lo a falar o seu apelido com o qual nós nos divertíamos muito quando você era menino. Por alguns instantes cheguei a pensar que devido você ter “virado engenheiro” lá em Sun Paulo, que você não fosse se lembrar de seu apelido que ainda é para nós, seu segundo nome. Aliás, para mim é o seu primeiro nome, por que “eu nem sabia que seu nome era Noquinho”.

Corrigida, de que “Noquinho” não era o meu nome, mas o diminutivo de Enoque, meu nome verdadeiro, reagiu, sarcasticamente.

-Piorou. Este sim que eu não conheço mesmo. Jamais escutei dizer que seu nome era “Enoque”. Quem diabos lhe colocou esse trem? É feio demais da conta, sô! Sempre lhe conheci por “sapo” e é como “sapo” que vamos sentar ali e conversar. Eu quero que você me fale como andam “seu Liberato” e a “dona Justina” seus avós.

Informada que os meus avós já não se encontravam mais conosco no plano visível, ponderou:

-É isso mesmo, “sapo”, as pessoas boas morrem tudo. E o pior é que quem devia morrer, de tão ruim que é não morre. Sabe quem também morreu? Dito isto me passou um longo relato dos que haviam partido do Brejo. Dava os nomes, datas, doença ou motivos da morte com uma facilidade e precisão tão impressionantes como se referisse a uma trivialidade qualquer de momento.

E eu que cheguei a pensar que Germana estivesse meio lelé da cuca!

Após uma hora de prosa, despedimo-nos.

-Fique com Deus, Germana! – Disse-lhe eu.

-Vá com Deus, “sapo”. Que Jesus te acompanhe menino, respondeu-me.

-Amém!

É...

Por vezes, que importância tem nosso nome de batismo aos que nos embalaram os sonhos?

E tenho dito!

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



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Por Enoque Alves - 29/9/2012 10:12:29
CASOS DO BREJO V – CAMPANHAS ELEITORAIS

*Enoque Alves Rodrigues

É difícil entender onde se localiza a essência dos milagres dentro dos pleitos eleitorais. Dispõem do poder de aglutinar em torno de si todas as forças ainda que em estado de letargia e obsolescência. Diria até que os pleitos eleitorais promovem milagres inimagináveis. Almas que, em eleições anteriores foram banidas da vida publica e lançadas, pelo poder do voto, ao temido fogo do inferno, ressurgem, inesperadamente, das cinzas, qual fênix, coradas e faceiras. Impressiona-me, particularmente, a força de renascimento de alguns. Mas, sinceramente, o que mais me surpreende é a maneira fácil que chega a beirar a inocência com que pessoas simples se deixam influenciar por seus iguais inclusive em nível intelectual. Promessas vazias inseridas em oratórias sofríveis, desprovidas de quaisquer conteúdos são lançadas, boca afora, aos pobres ouvidos do infeliz Cidadão, como se exequíveis fossem. Estes, atordoados, correm de um lado para outro, ou, de um comício para outro, qual barata tonta, como aquele personagem da mitologia grega que, desesperado em busca da verdade, munia-se de uma lâmpada, e saia buscando-a por toda parte, sem, contudo, encontra-la.

Talvez a melhor maneira de entendermos a eficácia de tão grande capacidade de renascimento desses “imortais”, esteja mesmo na ficção dos pastelões como as séries, “duro de matar”. Mas ater-nos-emos ao que há de bom nas eleições por que a função desta coluna é trazer informação e entretenimento aos poucos que ainda a leem, devido á maioria se achar exatamente envolvida atualmente com este tema, campanhas eleitorais, sem tempo para ler as bestagens que ainda insisto em escrever. Falemos de coisas dóceis e amenas, então.

Um dos muitos pontos decisivos das eleições são as campanhas eleitorais que são capazes de mobilizar multidões de pessoas, fomentar o consumo e injetar recursos no comércio, revolucionando toda a vida das cidades, por mais pacatas que sejam. Não fossem pelas circunstâncias já destacadas acima, de alguns, que, uma vez eleitos, divorciam-se dos planos de governo que eles próprios elaboraram e que foram responsáveis pelo êxito obtido nas urnas, dir-se-ia que existem muito mais de positivo em eleições além do que supõe nossa vã filosofia. Deixemos de lado o troca-troca, a compra de votos, o voto de cabresto, o fogo cruzado entre candidatos que nestas ocasiões se esquecem de comezinhos sentimentos de fraternidade, e mais recentemente, a lei da ficha limpa. Recordo-me de uma história que um senhor de barbas brancas que nasceu e viveu no Brejo das Almas onde faleceu com 92 anos me contava.

Dizia-me ele:

Naqueles tempos o voto de cabresto imperava no Brejo. Todos os camaradas eram conduzidos pelos seus senhores geralmente donos de fazendas na região, para votarem na secção eleitoral que ficava no centro da cidadezinha. O voto tinha que ser dado ao candidato previamente escolhido pelo patrão. As duas únicas forças politicas exponenciais disputavam as eleições naquele ano. Os dois candidatos eram coronéis com cabedal eleitoral garimpado depois de muitos anos de labuta e bons serviços prestados à comunidade.

Marcolino de Poções não tinha patrão. Ele não trabalhava para ninguém. Ele era dono de seu próprio passe. Votava em quem queria. Bem, sendo assim, venderia bem o seu voto. Espere ai! Não, ele não se contentaria em vender o voto para um só candidato. Ganharia um pouco mais. Venderia seu voto para os dois candidatos. Ele só teria outra oportunidade daquela dali a quatro anos. Ele era esperto. Sendo assim, procurou o primeiro candidato.

- Mercê ainda está comprando voto?

- Sim, estou. Porque, você quer me vender o seu?

- Quero. Quanto é que Mercê paga?

- São duas galinhas e uma porca!

- Fechado. O meu voto será seu. Como faço para entrega-lo?

- Fácil. No dia da eleição eu estarei lá, na boca da urna, pronto para recebê-lo.

- E quando é que o senhor vai me pagar?

- Quando eu me eleger, claro! Respondeu-lhe seco, o mandachuva.

- E se Mercê não ganhar? Não se eleger?

- Bem, você já está perguntando demais. Isso ai já é outra história que não é da sua conta. Isso é um jogo e eu não jogo para perder. – Você vai ou não vai me vender o seu voto?

- Espere ai, lembrou-se Marcolino. E se o outro candidato também pensar igual ao senhor? E se ele também não jogar para perder? Como é que eu fico? Vou ficar na mão do calango?

Mineiro matuta. Brejeiro pensa e matuta ao mesmo tempo. Assim sendo, fechou com aquele candidato. Matutou. Pensou. Pensou. Matutou e decidiu. Iria se garantir com o outro candidato. Assim se aquele danado com quem ele se comprometeu primeiro perdesse ele não ficaria chupando o dedo.

Foi com a língua de fora e esbaforido que ele, após utilizar-se de vários atalhos no caminho, chegou, finalmente, a casa do segundo candidato.

Alto, magro e esguio. Vestido do mais puro brim, cáqui, calçado com botas de couro, canos longos, com chapéu panamá à cabeça, olhar tranquilo e falar manso. Sentado estava no solar de seu casarão de onde observava todo o Brejo das Almas, reduzido, naquele tempo, a um pequeno amontoado de casas. Ao avistar Marcolino, elegantemente se expressou:

- Bom dia, meu amigo. Como vai o senhor? Porventura, há algo que eu possa fazer para lhe ajudar?

- Sabe o que é coronel! Eu vim aqui para lhe vender o meu voto. Quanto é que Mercê está pagando?

- Vender, o que, meu filho? Por favor, seja mais especifico. Não lhe entendi!

- Então, coronel, o senhor sabe que todo eleitor aqui vende o voto e que por aqui qualquer candidato só se elege se comprar votos, já que não tem voto de cabresto para todo o mundo.

Aquele candidato olhou para Marcolino com piedade. Após fitar-lhe de alto a baixo, respondeu-lhe educadamente.

- Creio que o amigo esteja enganado. O voto deve ser dado e não vendido. Voto não tem preço, voto tem consequência. Aliás, você nem precisa conhecer a pessoa para votar nela. O que você tem que conhecer é o seu plano de governo. Não faça de seu voto moeda de troca senão os candidatos vão fazer de você massa de manobra e posso lhe garantir que esta ciranda perversa não é benéfica nem para você tampouco para à Democracia que todos nós um dia almejamos. Não vote, jamais, em quem se propõe a comprar o seu voto. Ele não o merece.

Democracia? De que diabos aquele coronel visionário estava falando em plena década de 1920 quando a maioria das questiúnculas era resolvida à bala ou sorrateiramente?

Impossível seria mesmo entender, quanto mais explicar, não fosse aquele candidato o Coronel Jacinto Alves da Silveira que, segundo os anais da história, jamais perdeu uma eleição das muitas que disputou.

É...

Por vezes, ou quase sempre, não é preciso se afastar dos caminhos da retidão para se lograr êxitos nas urnas. Basta que você tenha um bom plano de governo. De preferência e se possível, exequível. Porque chapéu de trouxa é marreta.

E tenho dito!

*O autor nasceu no Brejo das Almas. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. Publicou o livro “Liderança Conquistada”. É Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 22/9/2012 10:00:04
CASOS DO BREJO IV – MARIA DE LURDES

*Enoque Alves Rodrigues

O período de estiagens que atualmente assola grande parte do Brasil, inclusive São Paulo, antes denominada, “terra da garoa”, remete-me aos longínquos tempos de minha infância no Brejo das Almas, ou Francisco Sá. Quando, cansados de sonhar com a negritude dos cúmulos que eram cada vez mais empurrados pelo vento para localidades mais distantes, punham-nos a pensar, no quanto seríamos felizes, se fossemos agraciados pela mãe “natura” com alguns pinguinhos de chuva. Ainda que fosse apenas para sentirmos o cheirinho de relva molhada que por si só, era-nos mais que suficiente para que cravássemos no chão a primeira enxadada dando inicio a mais uma tenebrosa aventura que, já sabíamos todos, antecipadamente, no que ia dar. É isso mesmo: no final, as sementes que lançávamos ao solo com as quais deixávamos de matar a fome dos barrigudinhos eram devoradas, sem dó e piedade pela “dona terra” que nada fizera por merecê-las. É a vida, meu nego, que passava lenta e inexorável, por aquelas bandas sofridas.

Avançando um pouco mais no tempo e no espaço, ainda sou capaz de me confrontar com cenas que não faz muito tempo, integravam o cotidiano da gente brejeira, simples, ordeira e pacata: as novenas e penitências aos santos protetores do sertanejo e da lavoura.

Poderia desfilar aqui neste despretensioso espaço, que ocupo com prazer, sem receber um centavo em troca, vários brejeiros que se destacaram na arte de “fazer chover”, ou, na arte de “encherem os sacos dos santos”, que, lá de cima, na maioria das vezes, permaneciam alheios ás súplicas e clamores. Eles nem tomavam conhecimento do nosso padecer. Chuva que era bom mesmo, necas. Mas hoje me aterei apenas a um desses personagens. Prende-se esta minha predileção, a sua quase contemporaneidade, pois é possível que muitos dos que ainda habitam no Brejo das Almas o tenham conhecido, ou, quiçá, até mesmo com ele, ou melhor, com ela, convivido.

Poderosa, voz possante e determinada. Levantava-se de manhã depois de uma noite mal dormida povoada de preocupações com a insensibilidade dos santos que não mandaram a chuva no dia anterior, e já ia logo olhando para o céu. Se seus olhinhos vislumbrassem, em algum ponto do infinito uma sombra de nuvem, ela retornava para o seu canto e esperava um pouco mais para ver se a nuvem se aproximava. Quando isso não acontecia, aquele ser maravilhoso, incontinenti, colocava sobre sua cabeça um litro com água e saia batendo de porta em porta, em busca dos demais moradores que tinham de sair de suas casas já com um litro com água na cabeça e eram quase obrigados a acompanha-la em oração em mais uma novena que invariavelmente terminava aos pés do Cristo Redentor, no morro da caixa d’agua. Lembram-se?

Seu nome? Maria de Lurdes. Sobrenome? Nunca soube. Não obstante todo o Brejo conhecê-la como “Lú Doida”, vou me abster por questões de princípios, do ato de empregar aqui este pejorativo tratamento, até porque de “doida” mesmo, aquele divino ser não tinha nada.

Moravam na Vila Vieira, antiga Lagoa, ali mesmo, onde o Brejo das Almas nasceu. Dali, eles, sempre com Lú à frente, saiam em novena e penitência. À maneira que avançavam pelas ruas do Brejo, aquela procissão ia aumentando. Depois, faziam uma pequena pausa no Largo da Matriz de onde seguiam rumo ao morro da “caixa d’agua” onde o Cristo, com os braços abertos para recebê-los, os aguardava com compaixão. Sob aquele olhar piedoso e manso, os penitentes em prantos e preces puxados por Maria de Lurdes, deixavam em seus pés, tristes lamentos e o mais importante, a certeza plena de que a chuva viria, ainda que tardia. Depositavam, ali, todas as suas esperanças em dias melhores, quando o sol, de preferência depois da chuva, brilharia para todos.

Naquele ano a seca estava esturricando o meu Brejo. Maçarico ligado 24 horas lá em cima. A impressão que se tinha era que os santos de Maria de Lurdes haviam virado as costas para aquela cidadezinha onde orgulhosamente nasci. O diabo é que quanto mais se rezava mais as nuvens se afastavam. Barrigas roncavam qual tambor de couro de boi velho e os caras “do alto” nem tchum. Brejeiros atônitos não sabiam mais a que santo recorrer. Desesperançados, já não queriam mais acompanhar Maria de Lurdes nas novenas. Ela que até então gozava de grande credibilidade junto aos brejeiros na arte de representa-los aos santos de sua devoção que sempre a atendiam, agora estava prestes a se desmoralizar. Não. Ela não se desmoralizaria, jamais. Sempre fora fiel. Faria o possível e até mesmo o impossível para dar uma resposta àquela gente.

Numa noite do mês de agosto, sozinha, subiu até o Cristo. Falariam “cara a cara”. O que conversaram nunca se soube. Segredo de confessionário não se revela a ninguém. O certo é que Maria desceu do morro, renovada. No dia seguinte com sua vasilha d’agua à cabeça foi, uma vez mais, de porta em porta. Batia, e ás vezes saía até quatro moradores com litros de água na cabeça. Foi a maior mobilização popular de penitentes que o Brejo das Almas já teve.

Passearam pelas ruas do Brejo e depois, como sempre faziam, dirigiram-se para o Cristo no morro da caixa d’agua. Ele estava lá como sempre com seu olhar benevolente. Céu límpido e azulado. Prostraram-se. Rezaram vários terços e Ave Marias. Derramaram aos pés magnânimos daquela estátua, a água barrenta que traziam em seus humildes vasilhames. Maria, em prantos, mirava o rosto do Cristo e murmurava palavras desconexas e incompreensíveis à pobre mente humana. Uma vez mais, somente ela e Ele sabiam o que disseram, por que Ele a atendeu. Não se falaram em português. Tampouco em aramaico. Falaram e se entenderam com a voz do coração. O linguajar “cifrado” que ambos utilizaram naquela “estranha comunicação”, Brejeiros, agora, alegres e felizes, só entenderiam no dia seguinte, que depois de um ano seco, amanhecia, finalmente, com chuvas torrenciais que se prolongaram durante toda aquela estação que foi a de maior fartura que o meu Brejo querido já viu.

É...

Por vezes, ou quase sempre, a fé que remove montanhas, acredite, é a mesma que faz chover.

E tenho dito!

*O autor nasceu no Brejo das Almas. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. Publicou o livro “Liderança Conquistada”. É Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Se você é Brejeiro e deseja participar da seleção das melhores crônicas que serão inseridas no meu próximo livro “O Brejo das Almas em Crônicas” entre nos meus blogs e escolha. Ao final envie-me o titulo da crônica pelo e-mail: enoque.rodrigues@ibest.com.br


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Por Enoque Alves - 15/9/2012 10:13:47
Casos do Brejo III - Messias Preá-Final

*Enoque Alves Rodrigues

A princípio, como vinha dizendo, Messias Antonio Dias, ou Messias Preá, estava fechado consigo mesmo que faria vistas grossas e passaria por cima daquele alforje sem toca-lo. Conteria todo e qualquer impulso que o conduzisse a curiosidade nefasta de abri-lo. Não revelaria a ninguém os segredos daquela descoberta. Por isso, conhecedor de seus desejos mais profundos e sabendo que não conseguiria, caso ali permanecesse, controlar suas vontades, afastou-se por alguns metros do local. Quando já se achava próximo ao casarão da fazenda de Antonio Miranda e Edite, virou-se em direção aquele achado e viu que ao redor do mesmo se encontravam dois sujeitos altos e fardados. Ao cruzarem os olhares, em gestos, chamaram-no.
Uma vez mais as mesmas dúvidas e incertezas do inicio se apoderaram dele. Novamente aquela ingênua e pura mente brejeira se deixava mergulhar no mundo das nebulosas.
Voltar, ou não voltar. Eis a questão!
Não. Não voltaria. Ele era um sujeito de palavra e valeria a primeira decisão. Aqueles dois “guardas-mores” que ficassem com o que houvesse naquele bendito alforje. Fosse o que fosse.
Continuou morro abaixo. Cruzou a pinguela que ali existia sobre córrego. Ganhou finalmente a estrada, hoje rua, pela qual se entra no Brejo das Almas, Francisco Sá, os que procedem de Montes Claros. Já longe, não se conteve. Voltou a olhar para cima e pode verificar que um dos guardas continuava sinalizando para ele. Agora, apontava para o alforje, olhava em sua direção e esfregava o dedo polegar ao indicador, naquele gesto mundialmente conhecido que significa grana, bufunfa ou dinheiro.
Se para um bom entendedor meia palavra basta, para ele, os insistentes gestos dos “porta-vozes” do Bandeirante Jerônimo, diziam tudo. Em seu entendimento, e ele era bom entendedor, fora ele o escolhido pelo dito cujo para ser o fiel destinatário daquele tesouro. Qualquer brejeiro menos ganancioso, portador de mediano QI teria feito a si mesmo, antes de retornar ao cume do morro do mocó, as seguintes indagações: por quais razões seria eu o escolhido por este cara a quem jamais vi mais magro? O que foi que eu fiz para merecer tamanha distinção? Será que não está havendo algum engano? Eram perguntas básicas que ele deveria ter feito. Mas não o fez. Terá tido lá seus motivos: muitos bacuris para sustentar, renda parca e outras adversidades naturais da vida, levaram-no a se sentir o dono da cocada preta. Aquela preciosa encomenda era para ser dele sim. E tem mais: era macho o suficiente para retornar lá e pegar aquele quinhão que era seu de direito.
Mesmo determinado a retornar, relutou. Titubeou. Bambeou mas não caiu. É o mineirismo se manifestando. Por alguns instantes uma sensação de medo e arrepios apoderaram-se dele. Mas ele estava decidido a voltar. E voltou...
Recebido de bom grado pelos dois senhores uniformizados, que lhe sorriam. Na sequência abriram-lhe os braços e falaram em arcaico português: nós sabíamos que você viria buscar o que é teu. O bandeirante Jerônimo que também era dono destas terras e que segue sendo nosso patrão jamais se esqueceu de quem o ajudou a conquista-las. Ele era um homem muito justo. Ele nos disse que não consegue descansar enquanto não lhe entregarmos a sua parte. Ele diz que não aguenta mais lhe ver sonhar com este tesouro. Foi por isso que ele nos mandou aqui.
Finalizadas estas palavras de gratidão, agacharam-se. Ergueram do chão o alforje e passaram as mãos de Messias Preá, que, feliz, tremia.
Antes que Messias o abrisse, ouviu dos emissários do Bandeirante um sonoro Nããããoooo. Você não está autorizado pelo chefe a abrir isso agora. Somente quando você chegar a Igreja. E tem que abri-lo na frente de muita gente. Também se faz necessário que um padre esteja presente.
Uai, sô, que recomendação mais doida aquela? Porque tudo aquilo? Agora todos iam saber que ele era rico. Não lhe deixariam em paz. Parentes jamais dantes vistos com certeza agora apareceriam. Filas quilométricas se formariam em frente a sua porta pedindo dinheiro emprestado. Bem. Fazer o que? Era o preço que ele tinha que pagar.
Despediu-se daqueles dois, agora, amigos, e rumou para o Largo da Matriz. No trajeto ele entrava em cada boteco e convidava os bebuns que em procissão, seguiam-no. Argumentava que tinha em mãos o tesouro do Bandeirante Jerônimo e a missão de só abri-lo na Igreja Matriz, na frente do padre. O que ele não sabia era que o padre que ali estava era Salú, ou, Salustiano Fernandes dos Anjos, tido como ríspido e de poucas palavras, que não levava desaforos para casa, ou melhor, para a igreja. O padre, ao ver aquela multidão de bêbados com Messias à frente, que ostentava ás mãos o alforje, a guisa de bandeira de santo, voltou-se para dentro e consultou a folhinha. Salustiano não era brejeiro, portanto, ainda não estava afeito aos costumes do lugar. Ao constatar que aquele mês não era setembro, quando se homenageia boa parte dos santos do brejo, lançou mão de um velho cabo de enxada e postou-se frente à porta. Depois de confirmar que não se tratava de mais uma coluna de bandoleiros, muito comum naqueles tempos, ficou no aguardo dos acontecimentos.
Messias arriou o alforje ao chão e chamou o padre. Relatou-lhe as circunstâncias que o levaram até ali. Depois de transmitir-lhe as palavras que ouvira dos emissários do Bandeirante, alçou do chão o alforje. Abriu-o, finalmente.
O que tinha dentro do alforje? Você quer mesmo saber? Jura que não vai ficar decepcionado com o final desta história? Ela me foi contada pelo meu avô, um ancião adventista que jamais mentiu na vida, cujo nome era Liberato.
Jurou?
Então lá vai...
Esterco. Sim, esterco de boi ou vaca. Sei lá! Você sabe o que é esterco? É isso mesmo. É aquela coisa seca. Só que dentro do alforje havia também uma carta. E o que dizia a missiva?
“Quase dois séculos me separam de vocês. Todo esse tempo o sono dos justos me tem sido difícil conciliar. Talvez por ter me preocupado tanto em ajuntar tesouro na terra. Por isso pretendia dividi-lo com vocês. Mas a vossa cobiça falou mais alto. O ouro em pedra, quando almejado com trabalho e humildade, com o passar do tempo vira ouro em pó. Mas se for desejado pela cobiça, ganância, intriga, hipocrisia, ociosidade e mortes, se transforma nisso aí que vocês agora tem em mãos. Rezem bastante meus filhos e depois vão trabalhar para ver se conseguem alguma coisa. Deixem-me em paz, por favor, amém”.
Salú, num misto de frustração e nervosismo, pois lá no fundo também tinha interesses por uma daquelas supostas moedinhas de ouro para arrumar o telhado da igreja, volveu-se porta adentro de lá não mais saindo.
Quanto aos bêbados, com Messias Preá à frente... Eles foram cantar em outras freguesias. Para os bêbados está tudo sempre muito bem. Eles não se decepcionam nunca. Desilusões são próprias dos sóbrios, avessos etílicos. Resumindo: frustrações são coisas de loucos.
É...
Por vezes, se algum achado não lhe pertence, o melhor mesmo é passar por cima e seguir adiante.
E tenho dito!

*Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. É autor do livro “Liderança Conquistada”, temática simples sobre otimismo, liderança e motivação, cuja primeira edição já se encontra esgotada http://livraria.livreexpressao.com.br/catalog/product/view/id/82/s/lideranca-conquistada/ É Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 20/8/2012 20:36:22
CASOS DO BREJO III – MESSIAS PREÁ

Enoque Alves Rodrigues

No Brejo das Almas de antigamente não há quem não o tenha conhecido. Na verdade ele pouco ia ao Centro do Brejo. Ocupava a maior parte de seu tempo caçando preás no morro do mocó. Vivia, praticamente, no topo do morro. Descia todas as tardes em direção à antiga fazenda de Antonio Miranda por onde saia para bebericar alguns pileques nos bares da região.

Messias Antonio Dias, assim se chamava. A alcunha de “Messias Preá” foi-lhe dada devido a esta prática de caçar preás. No entanto, ele era um caçador meio que às avessas, pois ao invés de caçar estes pequenos animais, pertencentes ao grupo dos roedores, para se alimentar, ele apenas os caçava por mero prazer. Ele se realizava ao vê-los cair em suas inofensivas armadilhas. Uma vez presos e imobilizados ele, curiosamente, amarrava uma pequenina fita em uma das patinhas do preá e o soltava de volta à Natureza. Antes ele tinha o cuidado de registrar em uma folha de caderno a data e o número do bichinho. Assim caso houvesse alguma repetição de o mesmo vir a cair em sua armadilha ele o soltava imediatamente, porque não mais necessitava ser “recenseado”. A sua sensação estava na primeira vez. Nada mais.

Redundante seria me estender sobre a lenda que, segundo a qual, há no morro do mocó um rico tesouro, enterrado que foi por Jerônimo Xavier de Souza. Sobre o dito cujo, muitos historiadores interessantes, de renome e projeção nacional já discorreram. Houve, inclusive, várias corridas à caça do mesmo que, no entanto, resultaram-se infrutíferas. Talvez não tenha chegado ainda o tempo necessário para esta revelação ou quiçá, o espirito deste Bandeirante, parente próximo de Joaquim José, já tenha encontrado o repouso suficiente que o tornou indiferente ás necessidades materiais mais comezinhas de pobres brejeiros, que nada desejariam, senão uma pequena parte deste imenso quinhão, cada dia mais distante.

Bem, antes que você me pergunte: E o que teria o pobre do Messias Preá a ver com isso? Pois, é. Vamos, então, partir para o “quase” epílogo desta despretensiosa crônica e no final você entenderá que, ao contrário do que imaginava, ele, Messias Preá, tinha sim, muito a ver com tudo isso, pois esta história não existiria não fosse ele seu principal personagem.

A tarde caia faceira e preguiçosa por aqueles recônditos de meu Deus. O astro rei acabava de se ausentar do Orbe, partindo para iluminar os mundos intangíveis aos nossos olhos e limitadas divagações. O clarão da lua cheia já cintilava nas águas do São Domingos. Messias houvera tido um dia “muito cansativo e enfadonho”. A caça e identificação de seus preás fora muito produtiva. Agora ele estava se preparando para descer o morro. Sairia em frente ao antigo casarão da sede da fazenda de Antonio Miranda e dona Edite e dali, ganharia as imediações. Era o que ele imaginava. Mas não foi exatamente isso o que ocorreu.

De soslaio, visualizou algo que a primeira vista não conseguiu identificar, mas que reluzia. Brilhava um brilho azulado que resplandecia até as copas dos mais altos e frondosos arbustos. Curioso, apesar de comedido, aproximou-se um pouco daquele estranho objeto. A distância não era grande. Mas, mesmo assim, por estar um pouco escuro, não lhe permitiu definir do que se tratava realmente. Aproximou-se um pouco mais... Mais... Mais... E, zás... Lá estava um grande, e encardido alforje em couro de um boi que seguramente fora sacrificado centenas de anos antes daquela descoberta. Estava aquele alforje, ainda, sujo da terra vermelha do Brejo das Almas, ou Francisco Sá, “igual a ti, outro não há”. Isso só já era motivo mais que primordial para levar a mais iluminada das mentes a navegar por mares pródigos e alvissareiros onde patacas de ouro cunhadas nos tempos do Império tilintavam as vistas do caboclo.

Inebriado, extasiado. São sinônimos, não importa. Era assim que ele estava. Contemplava tudo aquilo, mas não acreditava no que seus olhos viam. Estaria ele experimentando o fenômeno da segunda-vista ou dupla-vista que se trata de um efeito de emancipação da alma o qual se manifesta quando nos achamos acordados, cuja finalidade é nos fazer ver coisas ausentes como se presentes estivessem? Seria ele, Messias Preá, clarividente? Bem, se nem ele sabia possuir este dom quem dirá, eu que, nem lá estava e que, somente hoje, oitenta anos depois, me atrevo a fazer este misero relato.

A curiosidade que matou o gato, por certo, pensava ele, não o mataria. Á necessidade que fez o sapo pular, dele não se apoderaria. Fechara, consigo próprio, que independente do que houvesse naquele alforje, ele não tomaria conhecimento. Abdicado estava, segundo ele, de todo e qualquer desejo que o levasse a por a mão “naquela coisa”.

Você ai que me lê, procure controlar também a sua curiosidade e espere os próximos capítulos por que só darei o final desta história após eu retornar do Brejo das Almas para onde viajo nesta semana para comemorar o aniversário de minha mãe. Não avançarei nesse caso, um milímetro sequer, antes disso.

É...

Por vezes, ou quase sempre, saber esperar com paciência e resignação também é uma das grandes virtudes.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. É autor do livro “Liderança Conquistada”, temática simples sobre otimismo, liderança e motivação, cuja primeira edição já se encontra esgotada. É Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil
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Se você é Brejeiro e deseja participar da seleção de minhas melhores crônicas que serão inseridas no meu próximo livro “O Brejo das Almas em Crônicas” entre nos meus blogs e escolha. Ao final envie-me o titulo da crônica pelo e-mail: enoque.rodrigues@ibest.com.br




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Por Enoque Alves - 11/8/2012 14:49:43
Casos do brejo II - Juarez de Quadros

Enoque Alves Rodrigues

Morro da Masseira - Francisco Sá, MG
Definitivamente ele estava com o burro na sombra. Nasceu numa família onde criar e vender gado de corte era tradição centenária. Assim como seu tio que vivia nababescamente, já em idade avançada, na bela Curralinho dos tempos antigos, ele também se enveredou pelos caminhos da fazenda. Depois de muita labuta e escorregões em bosta de vaca, agora ele estava colhendo os frutos que havia plantado na juventude. Deitado eternamente em berço esplêndido. Ao som do mar não, porque Minas, assim como o Brejo das Almas onde ele nasceu, não tem mar. Porque se o tivesse, certamente que o acolheria. De mais a mais, usufruía de todas as regalias ou benesses. Claro que eu sei que esta estrofe se refere a nossa Pátria Mãe Gentil e que se trata de uma exaltação ao nosso gigantismo e pujança. Ele era merecedor do que possuía. Venceu na vida sem se utilizar de atalhos. Tampouco à sombra do tio rico. Ele correu atrás. Foi à luta. Ele conseguiu.

Juarez Dias de Quadros era este o seu nome, não obstante ter feito todos os seus estudos na Capital Mineira, onde se formou em medicina, jamais quis exercer esta profissão. Aliás, no Brejo das Almas ou Francisco Sá, quase ninguém sabia que ele era médico. Importante salientar que este sobrenome “Dias de Quadros” não tem nenhuma ramificação familiar com homônima atual. O dele descendia do Pará.
Ao seu retorno para o Brejo das Almas, seu tio Olacyr o presenteou com uma imensa fazenda. Foi por isso que antes de prestar o juramento de Hipócrates, a inclinação para com as coisas da terra já estava em seu sangue.
Casou-se com Vanda. Nunca tiveram filhos. Com isso, tempos depois, ricos, estavam agora, Juarez e Vanda, sozinhos no casarão daquela fazenda em cujo frontispício se achava uma cabeça empalada de boi, acima da qual se lia em letras garrafais: “Fazenda Pau Preto – propriedade de Juarez e Vanda – 1932”.
Velhos e alquebrados. Tiveram o privilegio de avançar na vida e na idade. Ninguém vive sem envelhecer. Mas eles eram felizes. Plenamente? Bem! Talvez. Quem sabe. Eram. Claro, não lhes faltava nada. Esperem um pouco, sem mineirismo: Juarez e Vanda eram felizes porque tinham tudo? Ou porque não lhes faltava nada! Particularmente, se eu pudesse, não sairia da zona de conforto. Eu ficaria, por certo, com as duas alternativas. Mas sabemos que há momentos na vida em que temos que decidir. Temos que optar...
Pois é, meus conterrâneos Brejeiros, eles se achavam felizes exatamente porque na concepção deles, não lhes faltava nada. Mas eles não tinham mais a doce sensação de levantar todos os dias de manhã e sair em busca de algo. Uai, sendo assim eles não tinham tudo. Mas também haviam passado quase todos os anos de suas vidas levantando-se de madrugada para conseguirem amealhar patrimônio que pudesse sustenta-los pelo resto da existência. E agora colhiam os frutos.

Bem, não demorou muito e o implacável senhor da razão mandou-lhes a fatura. O burro, conforme eu disse na introdução, estava realmente na sombra. Tudo que Juarez e Vanda desejavam conquistar os deuses lhes deram em dobro. Vocês já perceberam que alguns que parecem nem ter trabalhado tanto conseguem enriquecer com muito mais facilidades que outros que ralaram a vida toda? Eles venceram, é verdade, eu já disse. Mas o carnê agora chegava e tinha que ser quitado. Vinha com juros e correções.

Começou com uma dorzinha nas costas de Juarez. Algum tempo depois Vanda reclamava da mesma dor que baixou para as pernas. Transcorridos dois dias, Juarez também passou a reclamar da dita cuja nas pernas, que endureceram. As de Vanda, também. Agora passavam os dias sentados, um ao lado do outro, cada qual numa bela e bem trançada cadeira em vime. O rico patrimônio, dores e endurecimento nas articulações, somados com a falta de necessidades materiais, eram agora motivos, ou melhor, justificativas, mais que suficientes para manter aqueles dois pombinhos no ócio. Não se mexiam. Também não precisavam. Serviçais zelosos que se esmeravam aos seus cuidados dias e noites, anos a fio, estavam ali, para servi-los.

Foi oportuna e indispensável á intervenção de pequena Plêiade que lá de cima os observava.
Dizia um deles que parecia ser o líder:

- O que são aqueles dois pontinhos escuros e imóveis, lá embaixo, no Brejo das Almas, ao pé do morro da masseira?

- Não saberia informar-lhe, Senhor. Da altitude em que nos encontramos é muito difícil distinguir alguma coisa!
- Vá lá, então. Certifique-se do que se trata e venha me contar. Não é possível: Há 10 anos, 9 meses, 25 dias, 6 horas, 33 minutos e 28 segundos que não consigo registrar em meus apontamentos um minuto sequer de trabalho daqueles dois. Mal consigo sentir a vibração dos elos que os unem a nós e que são alimentados pela força do trabalho. A continuarem assim, em pouquíssimo tempo, os elos vão se romper, e ai, eu não poderei fazer mais nada.
Foi assustadora a chegada do anjo àquelas paragens. Com o dedo em riste apontava para Juarez e Vanda, esbravejando:

- Quem diabos vocês pensam ser? Quem foi que lhes autorizou a parar de trabalhar? Qual foi o tonto que lhes disse que vocês já estão com a vida ganha? Vocês não sabem que um ano trabalhado aqui embaixo representa somente uma hora de estadia lá em cima? Mexam-se, seus preguiçosos. Vocês estão se enferrujando e daqui a pouco não vamos mais conseguir ver vocês. O chefe mandou dizer que se vocês não se movimentarem. Não forem à luta e não trabalharem para seguirem contando pontos, ele vai “puxar vocês”!

Ai, brejeiro, não teve jeito. Quando a água bate na bunda neguinho pula. Todos querem o Paraiso, mas ninguém quer morrer. Saltaram da cadeira e retomaram a luta. Bater o ponto era preciso.

É...

Por vezes, é quando pensamos que temos a vida ganha que mais necessitamos trabalhar. Os apontadores do além não dão moleza. Eles não dormem nunca.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. É autor do livro “Liderança Conquistada” temática simples sobre otimismo, liderança e motivação, cuja primeira edição já se encontra esgotada. É Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Se você é Brejeiro e deseja participar da seleção de minhas melhores crônicas que serão inseridas no meu próximo livro “O Brejo das Almas em Crônicas” entre nos meus blogs e escolha. Ao final envie-me o titulo da crônica pelo e-mail: enoque.rodrigues@ibest.com.br


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Por Enoque Alves - 4/8/2012 18:52:21
CASOS DO BREJO I - NALDINHO E MABÉL: GEOGRAFIA E HIDROGRAFIA

CASOS DO BREJO I – NALDINHO E MABÉL: GEOGRAFIA E HIDROGRAFIA

Enoque Alves Rodrigues

Não. Não podia ser. Aquilo não era verdade. Bem, poderia até ser real. Verdadeiro. Desde que não fosse com ele. Por acaso ele não havia se preparado a vida toda para ser um exemplar pai de família? Um ótimo professor? Optara, desde a mais tenra idade pelo sacerdócio do ensinar e agora estava ali, ouvindo aquilo. Fora, durante toda a vida um estudante aplicado. Orgulho maior de todos os seus professores que se gabavam ao chama-lo a lousa para dissertar sobre os mais variados temas. Ele deixava qualquer um de boca aberta. A sua inteligência era o que se podia classificar como privilegiada. Tinha, com toda certeza um QI de três dígitos.

Brejeiro, nascido na Praça Jacinto Silveira, num lindo casarão onde hoje se localiza um Hotel, Agnaldo Francisco da Conceição, ou Naldinho, parecia biblioteca ambulante. Era a cultura em ebulição. Transpirava o saber por todos os poros.

Menino, ainda, conheceu Maria Isabel Dias ou Mabel nos áureos tempos de Mariquinhas. Lindos dias. Nas namorações veladas dos dois celibatários, onde um se assentava em uma ponta do banco e o outro na outra, o assunto que, pelas circunstancias naturais, tinha que versar sobre as coisas do coração, quando menos se esperava, debandava pelos campos da ciência, da astrologia, da geografia brejeira e da bacia hidrográfica que banha aqueles rincões. Era engraçado de ver. Ele, por força do hábito, Inseria, sem querer, entre as temáticas do emocional, as friezas medonhas e cansativas das ciências e coisas. Estes temas não se coadunam entre si. Era mais ou menos assim:

- Naldinho, temos que marcar logo o noivado. A mãe que está na ponta daquele banco e o pai que está na outra ponta estão me pressionando.

- Pois é, Mabel, você sabia que o rio São Domingos que nasce aqui na serra do Catuni, desagua no rio Verde Grande? E que o rio Verde Grande divide o nosso município de Brejo das Almas do município de Montes Claros? Que a rede hidrográfica do Brejo das Almas é muito pobre devido á maioria de seus córregos secarem quando não chove? Imagine você, uma coisa, Mabel, como é que pode isso? Temos tantos córregos, veja: do lado norte temos o córrego do carrapato, o sitio novo, o ribeirão de cana brava, o córrego pau preto, o do brejão, o mamonas, o traçadal e o rio quem-quem que passa na fazenda Terra Branca do “seu” Liberato. Sem falar do grande rio gorutuba com suas belíssimas praias de areias que banham o povoado do Catuni. Já do lado Sul, nós temos outro montão de córregos, como, o rio boa vista, vaca brava, o córrego dos patos, o rio caititu, o rio da prata e o córrego rico. E as nossas lagoas? Você já imaginou quantas são? Mouras, da barra, da prata, das pedras, lagoa nova. E a lagoa do tabual... E mesmo assim, tudo isso seco... Já imaginou?

- Então, Naldinho, o que você me diz do nosso casamento?

- Interessante mesmo Mabel, não é a nossa hidrografia, mas sim, a nossa geografia. Veja: você sabia que o nosso município se situa na bacia do rio São Francisco? Que o nosso vasto território fica no vale médio do verde grande? Que somos limítrofes, ao norte com Grão Mogol. Ao sul com Montes Claros e Capitão Enéas. Ao leste com o município de Juramento e a oeste com Janaúba? Que estamos distantes de Belo Horizonte 480 quilômetros? Que a nossa área territorial compõe-se de 2.749.393 quilômetros quadrados? Que a nossa densidade demográfica gira em torno de 9.5 habitantes por quilômetro quadrado, sendo 49,5% de homens e 50,5% de mulheres? Você sabia que o nosso município de Brejo das Almas seria maior hoje não fossem as duas grandes mutilações que ele sofreu para “dar a luz” aos municípios de Janaúba e Capitão Enéas? Sabia que o nosso município tem vida própria e é habitado por um povo laborioso, pacato, de hábitos simples e hospitaleiro o que muito dignificam as nossas origens? E o que você me diz, Mabel, de nossa altitude de 667 metros acima do nível do mar? E sobre as nossas coordenadas geográficas de 16º’27’00 de altitude sul e de 43º’28’00 de longitude WGr? E o nosso fundador, Seu Jacinto. Você já leu alguma coisa sobre ele? E os nossos ancestrais? Você já imaginou como o Bandeirante Antonio Gonçalves Figueira conseguiu chegar por nossas terras?

Bem, convenhamos que o “papo firme” do amigo Agnaldo, que, aliás, não possuía em nenhuma parte de seu bojo uma pitada sequer de romantismo, destoava, inteiramente, do que a bela brejeira Mabel queria ouvir. Se ele tivesse ao menos falado das matas, dos pássaros e principalmente das flores silvestres que cercam e ainda perfumam a minha terra, poderia ter recebido um desconto. Mas desta vez a sua mente iluminada o traíra. Ele não falou das flores. E, por não ter ele falado das flores estava agora ali, no veneno, literalmente “no brejo”.

Era exatamente por isso que ele agora se amaldiçoava. Maldizia a sua sina. Não acreditava no que lhe reservara o destino. Lamentava, conforme o encontramos na introdução destas mal traçadas linhas. Levara um tremendo pé no traseiro que o deixou desnorteado. Desiludido, abandonou numa esquina qualquer do Brejo o sonho de ser professor. Casar, constituir família e viver uma vida simples, mas, tranquila e sossegada, a beira do rio. Rio? Não! Isso não... Foi exatamente por falar tanto em rios, córregos, lagoas, altitudes, longitudes, densidades, extensões territoriais e o diabo a quatro, era que ele agora estava ali, sozinho. Sem o amor de Mabel. Ele teria que viver em algum lugar que não fosse o Brejo das Almas, e, de preferência, onde não existisse nada que o fizesse recordar da dor da perda de sua Mabel. Pensou. Repensou. Matutou. Ruminou e não chegou a nenhuma conclusão. Bem... Chegou, sim. A de que na terra ou em qualquer lugar sobre ela, não existiria nada que o fizesse olvidar aquela desilusão. Num misto de fraqueza, coragem e covardia, tomou a pior e mais abominável das decisões. Encontramo-lo, agora, vagando sem rumo pela crosta sem poder subir ou descer. Lá não há elevador nem ascensorista. Coitado, percebeu, tardiamente, que nem mesmo aquele seu tresloucado gesto de “bravura” conseguira liberta-lo do peso da culpa pela perda daquela paixão transitória. Muitíssimos anos depois, em idade avançada, partiu do Brejo a bela Mabel em direção ao Infinito. Não. Não se encontraram. Eles transitam por vibrações diferentes cuja distancia, um do outro, nenhuma medida astronômica conseguiria mesurar. Enquanto isso, aqui em baixo, no velho campo santo do Brejo das Almas, ou Francisco Sá, até bem pouco tempo atrás, por coincidência ou obra do destino, seus corpos jaziam, quase numa mesma cova, um ao lado do outro. Foram colocados ali, involuntariamente. Será?

É...

Por vezes, ou quase sempre, nem tudo que está junto na terra significa que esteja também junto no Céu.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. É autor do livro “Liderança Conquistada” temática simples sobre otimismo, liderança e motivação, cuja primeira edição já se encontra esgotada. É Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Se você é Brejeiro e deseja participar da seleção de minhas melhores crônicas que serão inseridas no meu próximo livro “O Brejo das Almas em Crônicas” entre nestes sites e escolha. Ao final envie-me o titulo da crônica pelo e-mail: enoque.rodrigues@ibest.com.br


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Por Enoque Alves - 28/7/2012 20:38:17
ISTO É FRANCISCO SÁ III - POVO

Enoque Alves Rodrigues

francisco sá - rua do mercado
Composta por raças, cores e credos miscigenados, localizada no antigo polígono da seca no norte das Minas Gerais, Francisco Sá, ou Brejo das Almas é o que podemos classificar como uma verdadeira pérola de rara beleza, onde as abóbadas celestes se encontram. Nos campos, paisagens naturais sem igual predominam em toda a extensão de seu vasto território. Rios, florestas, cascatas e principalmente suas lagoas e brejos incontáveis que, inclusive justificam seu toponímico, cobrem suas terras férteis, deixando-as perfumadas pelo orvalho que emana das flores primaveris a cada amanhecer. Gama infinita de pássaros, de várias espécies, em barulhentas estripulias cantam, festejando todos os entardeceres. Isto é Francisco Sá, o meu Brejo das Almas querido.

No perímetro urbano, ou na cidade, e em sua periferia, casas e casebres exibem em suas janelas e vidraças, pequenos vasos pintados à cal onde azaleias brancas, rosas e lilases debutam suas formosuras enchendo os olhos dos passantes e viajores. Isto é Francisco Sá, o meu Brejo das Almas querido. No centro nevrálgico, brejeiros transitam por suas ruas num vai e vem sem fim. Olhares fitos e ternos que vão do confiável ao desconfiável em hiatos curtos e longos em emaranhados que levam do tudo ao nada e do nada ao tudo, em átimos de segundos aonde todos se conduzem ou se fazem conduzirem pela ausência plena de qualquer planejamento, mandando ás favas as complicações que a vida urbana impõe aos homens que habitam os centros das grandes metrópoles ao redor do mundo. No Brejo das Almas temos todos nós, as mesmas desenvolturas e graus elevados de civilidade que permeiam os mais belos e pomposos perfis e personalidades de nossos iguais mundo afora. Nada, absolutamente nada, possuem além do que nós possuímos. Há, no entanto, muitos fatores que nós brejeiros temos que, certamente, não se inserem nas personalidades de nossos iguais que habitam outras plagas: a simplicidade que beira a ingenuidade. O falar manso e pausado. O cumprimento caloroso. O trato com o fio do bigode. O Mineirismo que é a maneira de dizermos tudo sem nos comprometermos com nada, mas que o interlocutor entende claramente e no final das contas dá tudo certo. O nosso semblante alegre e saudável. A nossa aparência física misturada com o preto, branco, índio, mestiço, mulato e outras raças e etnias que nos tornam parecidos com qualquer um. Transitamos em igualdade de condições e semelhança por todas e quaisquer sociedades sem corrermos o risco de sermos taxados como diferentes ou apontados como estranhos. Desigual. Somos, assim, virtuosos e “gigantes pela própria Natureza.” Nós brejeiros estamos intrinsecamente fundidos ao barro da terra mãe que nos serviu de berço. Também pudera. O imparcial e desapegado introito, preâmbulo ou introdução destas mal traçadas linhas nos indicam, já em seu inicio, que não teríamos como ser de outra forma. O lindo e o belo só podem surgir de origem congênita e semelhante. É, então, por isso que somos assim.

É possível que existam em meio ao povo Brejeiro alguns que não se vejam enquadrados nestes perfis de personalidade e caráter. Talvez, quem sabe, se possa atribuir esta não percepção à busca incansável do dia a dia por condições de vida melhores a que todos nós estamos sujeitos. Não importa. Tendo ou não a consciência do que se expõe, é fato inquestionável que, queiramos ou não, somos exatamente desse jeito. Ou seja, somos bonitos, belos, feios, pretos, brancos, inteligentes, burros, etc. A massa com a qual fomos moldados é esta. Viram, pelos vários porquês, que só temos motivos para nos orgulharmos cada vez mais de nossa simplicidade de ser? Uai, mas esta terminologia de se orgulhar de ser simples não nos remete a deselegância, ou falta de polidez, comedimento e brandura, que nos recomenda evitar sempre as referências pessoais e endeusamentos abomináveis ao mundo dito civilizado? Sim. É verdade! Mas não podemos ficar aqui enclausurados matutando sobre todas estas nossas belezas apenas com os nossos botões. Há momentos que necessário se faz nos manifestarmos sobre este ou aquele tema, mesmo sendo nós próprios o foco como no caso em tela. A nossa terra, o nosso berço, as nossas raízes, são motivos inquestionáveis das alegrias e entusiasmos que nos aprazem. Isto é Francisco Sá, o meu Brejo das Almas querido. Isto é ser brejeiro autêntico, vivendo ou não no Brejo. Ser Brejeiro não consiste somente em ter nascido no Brejo, dormir e acordar nele. Nada disso: ser brejeiro é, antes de tudo, estado de espirito. É, sim, sairmos do Brejo sem que o Brejo saia de nós. É mantermos imaculadamente incólumes, os nossos costumes. É preservarmos e sermos fiéis as nossas tradições por onde quer que andemos.
Ludgero (Lud) era um brejeiro autêntico. Ele sabia de tudo isso e muito mais. Mas ele preferia viver na moita como caititu, por conta do Bonifácio. De dia “manguaçava.” De noite dormia. Ele morava num Sitio, no Catuni, naquele tempo um diminuto povoado ainda vinculado ao Brejo. Foi assim que ao ver-se frente a frente com as primeiras contrações de Antonia (Tonha) que esperava Maria (Lia), desesperou-se. Passou a perna no “carrálo” (cavalo) e se mandou para o Centro do Brejo em busca de remédios. O doutor da Farmácia de nome Francelino, (França) estava postado diante de sua Botica. Conhecia Lud de longa data e sabia que o amigo, em consequência dos vários gorós que consumira durante toda a vida, não batia bem da cuca. Foi por isso que antes mesmo que Ludgero apeasse do “carrálo” França foi logo indagando:

- Qual é o motivo de tanta pressa, Lud? Porque esporeia desesperadamente o mansinho?

- Não tenho muito tempo a perder, França. A Tonha não está bem da barriga. O escaldado de ontem a noite com leite e farinha de mandioca parece que lhe travou os intestinos. Está empanzinada. Com a barriga dura!

- Aqui está, respondeu-lhe o sempre prestativo França, que durante muitos anos foi considerado o melhor Médico do Brejo sem que tivesse diploma de Medicina- É só você lhe dar isto!

Entregou-lhe uma garrafinha branca com óleo de rícino que na verdade se tratava de um potente laxante da família dos denominados “tiro e queda.” Felizmente não foi necessário ministrar. Ludgero, de longe, antes de chegar frente à primeira porteira já escutava os berros de Lia que acabava de nascer. Adentrou, e, surpreso, com os olhos esbugalhados de susto, observou que Tonha, deitada e feliz, amamentava Lia, que faminta, sugava-lhe os seios. Ainda atordoado deu um abraço na patroa, chutou a esquálida cadela “pulguinha” que lambia o rostinho angelical de Lia, pegou no colo o belo rebento e, na sequência, cheio de entusiasmo, á guisa de comemoração pela nova vida que ali pulsava, confundiu com “chora Rita” o líquido da garrafinha que trazia à mão entornando-o, goela abaixo, de uma só vez.

Ai, meu nego, não teve jeito. Foi só correr para o abraço. Como naqueles “memoráveis” tempos a “casinha” ficava distante do “casão” imaginemos que pelo menos, naquela primeira noite, o nosso amigo não teve muito o que comemorar.

É...

Por vezes, é bom festejarmos as dádivas que a vida, de quando em vez, nos oferece, com moderado entusiasmo. Ir com muita sede ao pote não pode ser um bom negócio.

E tenho dito.

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. É autor do livro “Liderança Conquistada” temática simples sobre otimismo, liderança e motivação, cuja primeira edição já se encontra esgotada. É Colunista, Palestrante Motivacional, Historiador e Divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 24/6/2012 12:07:14
FRANCISCO SÁ, MG - RIQUEZAS NATURAIS I - SERRAS

FRANCISCO SÁ, MG - RIQUEZAS NATURAIS I – SERRAS.
Enoque Alves Rodrigues

Muitas foram, até aqui, ás vezes em que ressaltei em minhas crônicas semanais as belezas naturais de minha Terra. Desnecessário seria utilizar-me de um bairrismo exacerbado para afirmar sem quaisquer dúvidas ser o meu berço natal, não obstante seu tamanho diminuto em termos populacional, um dos mais belos e virtuosos de todo o nosso Estado de Minas Gerais. Enquanto sua densidade demográfica se estima hoje em pouco menos de 30 mil almas, sua extensão territorial hoje ainda é muito grande, apesar de ter sido infinitamente maior algumas dezenas de anos atrás quando o Município de Brejo das Almas ou Francisco Sá, devido seu tamanhão foi fracionado, dando vida a outros grandes Municípios. Hoje estes Municípios dispõem de uma infraestrutura igual a de Francisco Sá e suas respectivas rendas per captas, saneamento básico e condições de vida se assemelham e equiparam inteiramente aos mesmos do Brejo das Almas.

No entanto, sem delongas, cedemos nossas terras para que fossem criados estes Municípios, belos, é também bom ressaltar, mas a Matriz onde se encontra a Terra-mãe destes Municípios, ou seja, o pedaço de chão que corresponde a Francisco Sá, é, queiram ou não, o mais bonito, pois é o que reúne as mais lindas e importantes paisagens de nossa região. Sem egoísmo, abrimos mão de vasta faixa de nosso território. Mas, com galhardia, abraçamos o que nele havia de mais belo e destes, jamais abriremos mão. Dentro do nosso Município de Francisco Sá ou Brejo das Almas há ainda nascentes de importantes rios que banham, além do nosso, outros Municípios, além de muitas outras pequenas nascentes que dão vida a córregos e riachos também importantes. Sem mencionar aqui pela simples redundância, das inúmeras lagoas, lagos e brejos que ainda hoje persistem como se estivessem permanentemente martelando aos nossos ouvidos suas existências a fim de que não nos esqueçamos, jamais, das nossas origens. De nossa toponímia. De que assim como a nossa terra, somos belos.

Falar o que de nossa fauna e de nossa flora? Bem, sobre isso eu já falei há alguns milhares de crônicas atrás. Que elas são as mais lindas do Planeta? Você, brejeiro, que assim como eu ai nasceu, mas ao contrário de mim, ainda vive no Brejo, sabia que na fauna do Brejo das Almas há espécies de animais e pássaros que não existem em nenhuma outra parte do Mundo? Que nossa flora é riquíssima em plantas medicinais que só nascem e crescem ai no Brejo? Pois é. Baba baby.

A título de ilustração do tema que discorro acima, me apropriarei, em toda a sua íntegra, da obra prima em que consiste o Relatório-Manografia escrito pelo eminente ex-prefeito Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes, quando de sua prestação de contas, ao deixar a Prefeitura do Município de Brejo das Almas, depois de ter trabalhado dias e noites incansavelmente, e exercido com retidão de caráter, lisura, abnegação e esmero, sua bela e transparente gestão frente aos destinos do Município em épocas hoje remotas. Aliás, sem querer pender-me para este lado, que, algumas vezes, frustrado, cutuco, o nosso Município assim como a maioria dos Municípios Brasileiros em dias atuais ressentem da falta de políticos do quilate do Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes. Os pósteros quiçá premidos por consequências e circunstancias que não existiam à sua época ou quem sabe, pelas muitas facilidades que hoje existem em apropriarem-se do que não os pertence, não conseguiram imitar em igualdade de caráter aquele grande homem.

Diz o Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes em seu lindo e imparcial libelo:

A Serra do Catuni é um planalto que desce bruscamente, na vertente ocidental, que é a do Verde Grande, de 900 – 1000 metros de altitude média, 700 – 650 na base da elevação e a menos, já na baixada. Visto daí, seu corte do firmamento é dado por linhas retas niveladas e rentes como uma amplíssima cremalheira. Esse perfil inesperado é que a torna singular para o visitante habituado ao tumultuário levantamento de cômoros, píncaros, e agulhas das cordilheiras litorâneas e das regiões sul-central.

Quem segue pela estrada de Salinas, e galga a encosta, tem no cimo a surpresa de um tabuleiro que se desdobra para o nascente, em suas ondulações, e onde farfalham as elegantes palmeiras de Catolé, batidas pelo vento constante e vivificador do Nordeste... Mas, também anunciador da seca que, amiúde, crassa nossa linda e paisagística região. O Brejo das Almas ou Francisco Sá, igual a ti, outro não há, nada mais é senão um pequeno torrão, encantador e aprazível, encravado no Norte das Minas Gerais, quase já na divisa com os sertões da Bahia.
Os contrafortes desta serrania nunca se estendem a mais de uma a duas léguas de seu flanco, para o poente, e não tem ramificações muito longas no sentido Leste-Oeste.

As maiores são as de Vaca Brava, Campo Alegre e Barra. Estes contrafortes parecem partir de um centro de impulsão situado na profundidade da terra, sob a massa dos Gerais, rumo aproximado ESE, originando as elevações de Sete Passagens, Pilatos, Morro do Trigo e a serie de montes das cabeceiras do Boa Vista e outros.

Estas elevações secundárias alcançam uma profundidade para o poente de 18 a 30 quilômetros, em altitudes crescentes.
Pela maior parte constituem-se de argila e calcários em lajedos, xistos, cascalhos rolados e com arestas, bancos normais de quartzo leitoso; e, bombeando cada vez mais o dorso, separando os “baixos”, em que correm rios temporários, transformam-se depois em chapadas e tabuleiros cobertos de “carrascos” ou de “catandubas”, como diz o nativo, e até de caatingas mais férteis que sobem das baixas.

Os imponentes e de beleza sem igual, contrafortes da Barra, Brejo, Carrapato, Sitio Novo, Masseira, Cana Brava, Santo André, de SW para NE, são ramificações que não se estendem muito.
Esse caráter pode ser dado a todos os serros que se erguem esparsos a maior ou menor distância, dentro do vale, e cujo maior lance é no sentido aproximado da corrente do Rio Verde Grande, OSO para NNE.
A maioria desses serros termina com a Serra do Catuni, em linhas de cumeadas niveladas e extensas, ficando o seu perfil, no fundo vastíssimo da paisagem descortinados das elevações, como uma sucessão infinita de planaltos e cavaleiros dos vales.

Puxando aqui um pouco a sardinha para a minha brasa, pois sou pequeno e carente de afagos em meu “ego infantil”, lembro-me de duas crônicas que escrevi há muito tempo: “A beleza da fauna Brejeira” e “A beleza da flora Brejeira”, que farão parte do meu próximo livro “O Brejo das Almas em Crônicas” que sairá pela Editora Livre Expressão. Sinceramente meus queridos conterrâneos: se hoje eu decidisse parar de escrever, o simples fato de eu ter escrito estas duas crônicas já me deixaria intelectualmente realizado. Palmilhei grande parte do chão brejeiro onde tive contato direto com suas belezas naturais que me deram o embasamento necessário para escrevê-las.

E tenho dito.

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. É autor do livro “Liderança Conquistada” temática simples sobre otimismo, liderança e motivação, cuja primeira edição já está quase esgotada. Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Caso queiram, sigam-me no twetter: @enoqueal


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Por Enoque Alves - 9/6/2012 12:19:08
A fênix brejeira IV - Pascomiro

Enoque Alves Rodrigues

Ele caminhava pelas empoeiradas ruas do pequeno povoado de Brejo das Almas, HOJE Francisco Sá, quando não havia ainda nenhuma rua asfaltada. Subia no sentido de quem vai para Montes Claros. Mas atenção, só no sentido, ou melhor, na direção da bela MOC, porque na verdade, ele andava sem destino. Se não tinha ele um paradeiro pré-definido, porque razão teria um destino?
Primeiro acho importante informar que o amigo que está sendo retratado hoje neste limitado pedaço de papel eletrônico, nada tinha de especial que o colocasse na condição de “diferente” de todos e quaisquer locais. Tampouco fruía de alguma outra posição que o destacasse de seus iguais. Assim sendo, Pascomiro, era como qualquer um, resguardadas as devidas proporções que, aliás, eram muitas. Senão vejamos:
Não tinha ele nenhuma profissão que pudesse lhe auferir alguns trocados no sentido de suprir-lhe as necessidades mais precárias ou amenizar um pouco a fome que o atormentava. Não gostava de trabalhar. Pascomiro fugia do trabalho como o diabo da cruz. Mas ele gostava de se vestir bem e, porque não dizer, de comer do bom e do melhor. Bebia da “melhor cana” segundo os paus d’agua de plantão, dignos e implacáveis conhecedores do verdadeiro néctar dos deuses dos alambiques. Por minha vez, jamais bebi algo que não fosse água, suco, caldo de cana, café ou leite. Portanto, não sei que gosto tem uma cachaça. Nem duas. Mas respeito nossos amigos beberrões. Eles, assim como eu, não são ou jamais seremos perfeitos.
Pascomiro andava naqueles tempos lá no Brejo de todas as Almas em companhia de um andarilho de nome Elias, que a maioria acreditava ser o profeta. Eles eram, muitas vezes, amparados por Christiano Carlos Xavier de Souza, parente muito próximo do mais importante vulto da Inconfidência Mineira, o Mártir do Lago da Lampadoza, no Rio de Janeiro, de nome Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
Pascomiro tinha uma maneira muito peculiar de conseguir que as pessoas lhe dessem algo para comer sem que fosse necessário sequer que ele abrisse a boca: fingia-se de mudo. Quando, raramente, algum coração renitente não muito adepto do “repartir o pão,” endurecia, ele fingia-se de manco. E assim ia levando a vida. Na crise econômica que o Brasil atravessava, o meu, o teu, o nosso Brejo das Almas foi atingido em cheio. A fome grassava aquela pobre localidade, na verdade, um pequeno torrão existente nas extremidades do Estado das Alterosas em meio ao caminho para a velha Bahia de todos os Santos, ou simplesmente, Bahia para os íntimos de onde provém minha santa mãe.
O tempo fechou para muita gente boa. Para gente ruim, também. De fome, cachorro só conseguia latir encostado na parede. O rei do terreiro, sua majestade, o galo, não cantava. Chorava. Ele estava, deveras, preocupado com a subsistência de sua prole numerosa de pintinhos, desprotegidos. As formigas já não tinham folhas, sequer secas, para transportarem para suas moradas escuras. As cigarras, que são, por costume e compleição física, constituídas da mais pura alegria, sequer davam algum ar de graça. Sorrir do que? Cantar pra que? Se tudo ao redor era destruição, miséria e dor? O João de Barro agora não tinha casa. Construi-la com o que? Se não tinha água não havia barro, principal matéria prima indispensável ao grande e inigualável arquiteto da floresta, agora esturricada.
Bem, se toda esta fauna que foi concebida pela mãe natureza com a mais pura blindagem a quase toda e qualquer adversidade estava penando, imaginem os simples humanos. Pascomiro, coitado, não poderia fugir à regra. E ele estava padecendo sem dó e piedade. Fingir-se de mudo e de manco agora não era nada. Nenhuma sensibilidade causava aos vazios bolsos Brejeiros, agora, preocupados também com a própria barriga. A crise é o cão, endurece tudo. Na crise, o que todos querem mesmo é sobreviver já que viver é impossível. Quanto aos outros, bem, os outros que se virem eles não são quadrados. Pascomiro também era filho de Deus. Ele também tinha que sobreviver. Para isso tinha que comer. Após tentar várias artimanhas. Utilizar-se de inúmeros expedientes, infrutiferamente, agora daria a cartada final. Fingiria de morto. Bem, isso seria infalível. Puxa vida, porque ele não pensou nisso antes? Diabo!
Na barriga do mocó, morro onde hoje se encontra o Cristo, quase todo repaginado, próximo a fazenda de Miranda, conseguiu uma rede. Mais adiante, algumas velas. Dirigiu-se com aquilo até o antigo largo da Matriz. Lá chegando acendeu as velas. Cobriu-se com a rede. Um dos poucos transeuntes que se atrevia sair de casa naquela hora o viu naquele estado de batráquio morto. Assustado bateu em outras portas e de repente pequena multidão se formou ao redor de Pascomiro. Penalizados, decidiam, ali, naquele momento, que fim daria ao “morto.” Uns diziam: coitado, morreu de fome. Ao passo que outros respondiam. Pois é, este é o mendigo Pascomiro. Quantas vezes me pediu algo para comer e eu, perverso, não lhe dei? Alguns mais católicos falavam: agora não adianta se lamentar. Tudo que antes existia para ele já não existe mais. Defunto não precisa comer. Necessita de cova. Vamos, imediatamente, leva-lo para o cemitério antes que seja demasiado tarde. Dito isto, juntaram a rede. Quatro marmanjos, com as caras cheias de pinga (vocês ai já notaram que por mais difícil que seja a situação nunca falta pinga? E que sempre tem alguém para pagar uma dose de pinga para outro alguém ao invés de lhe oferecer um pedaço de pão?), cataram, cada qual uma ponta da rede e, à guisa de forquilhas, iam levando aquela draga velha para dispensar no antigo campo santo. Mas como santo Onofre, o protetor dos bêbados não estava de plantão para os quatro que carregavam, mas para Pascomiro, estes tropeçaram nas próprias pernas e caíram, levando ao chão aquela tralha que rolou por pequena ribanceira e por fim caiu numa das muitas lagoas que existiam em Francisco Sá, onde segundo a Lenda, eram desovados os corpos de garimpeiros após terem sido acharcados de seus patuás cheios de ouro. Não deu outra. O “morto” Pascomiro que de morto mesmo não tinha nada além da preguiça, bateu com as fuças exatamente num destes estufados patuás. Daquele dia em diante acabou-se a pobreza. Mandou a miséria para as cucúias e foi viver da maneira que mais gostava. Sem fazer nada.
É...
Por vezes, diziam os mais antigos, a sorte só existe para aqueles que não acreditam nela.
E tenho dito!

(Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. É autor do livro “Liderança Conquistada” que já se encontra nas melhores Livrarias do Brasil e pode ser pedido diretamente pelo e-mail: enoque.rodrigues@ibest.com.br ou pelo telefone da Livraria SN Station, (11) 2221-0703. É Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.)


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Por Enoque Alves - 2/6/2012 14:38:49
A fênix brejeira III - Margot do boteco

Enoque Alves Rodrigues

Na primeira crônica que escrevi na série “A Fênix Brejeira” que teve como personagem principal Manezim Vaqueiro cuja notoriedade obteve da noite para ao lançar-se à lagoa das pedras para salvar uma criança e, ao ser ovacionado pelo gesto, passou um sabão nos riquinhos que não tomaram tal atitude, etc. Conduzido por marmanjos em procissão que o dispensaram na casa de Margot, na verdade, um fétido boteco com ares e fama de inferninho, que se localizava na beira da estrada de quem saia do Francisco Sá ou Brejo das Almas com destino à Salinas e adjacências, etc. É possível que alguns hoje velhinhos que naquele tempo já eram “hominhos” se lembrem daquele “point” onde muitos caminhantes e boiadeiros paravam para descanso e outras diversões. Mas é claro que não tenho aqui a pretensão de que algum conterrâneo se apresente como frequentador de mencionado “site”, ainda que em épocas tão distantes. Pois, eu próprio, só estou tendo a coragem de declarar ter conhecido aquele lugar, “de passagem,” porque naqueles tempos eu era apenas uma criança, sem maldade e sem testosterona. Viram como eu me saí bem? Isto posto vamos à Margot.
Brejeira, digna, esbelta, 50 anos. Tivera, em infância, uma vida farta, quando o pai, Júlio, dono de uma pequena propriedade onde cultivava alho e algodão, culturas em ascensão na época, não deixava que nada faltasse. Muito bonita e cortejada pelos bons partidos do Brejo, nossa beldade estudou nas melhores Escolas de lá, tendo inclusive realizado um périplo por importantes Colégios da bela MOC, de onde retornou com um lindo canudo de Normalista. No Brejo, quando todos pensavam que nossa musa fosse buscar uma Instituição para lecionar, ou se dedicar a carreira para a qual se preparou, ao quadrar o lindo traseiro nos bancos escolares, eis que a deusa se envereda por caminhos que julgava mais fáceis, mas que de fácil mesmo, como ela confirmaria depois, tardiamente, não tinham nada. Quase todas as jovens que são levadas a estes sendeiros o fazem depois de terem passado por alguma desilusão amorosa ou então, por necessidades que não conseguiram, de outra maneira, suprir. A beldade a qual me refiro hoje não se originava de nenhuma destas vertentes. Ou seja, foi, na verdade por mera curiosidade. Gostou, aderiu, agregou. Permaneceu assim, enquanto a Natureza não lhe mandava a fatura. Quando, por fim, o carnê chegou nossa Margot, na verdade, Margarida Maria de Jesus, já se encontrava com a idade de 45 anos e terrivelmente ferrada pelas marcas implacáveis e indeléveis do senhor da razão. O tempo é foda mesmo. Não perdoa ninguém.
Não tendo outras condições até porque não houvera poupado para usufruir de uma velhice amparada, não lhe restou alternativa senão abrir aquele boteco numa afastada região. Em pouco tempo Margot estava no fundo do poço. O negócio não prosperava. A clientela não aparecia. Não tinha filhos. Os parentes de há muito a abandonaram. Ás vezes amanhecia sem ter o que comer. Mas Margot era grande. Margot não se entregava. Ao invés de lamentar, sorria. Não era nenhum sorriso fingido, mas espontâneo, franco e resplandecente. Ao invés de chorar, cantava. Não era um canto triste, mas alegre. Ao invés de xingar, rezava. Mas ela não rezava da boca pra fora, mas com a fé dos iluminados que acreditam e confiam. Se o corpo, agora trôpego e trêmulo reclamava de cansaço, trabalhava. Mas trabalhava com afinco e dedicação plena de que um dia, tempos melhores viriam. Não, não trabalhava no que você está pensando. Desta profissão houvera de há muito, se aposentado.
Vernúcio, Salineiro, viúvo, fazendeiro, tocava sua boiada juntamente com mais três vaqueiros com destino aos Frigoríficos de Montes Claros. Com sede e fome pararam naquele boteco. Nada havia além de água.
Os olhares se cruzaram. A paixão foi fulminante. De repente toda aquela beleza da juventude que se achava apenas adormecida lá no interior de nossa beldade, ressurgiu. Uma vez bonita sempre bonita. Aliás, não há ninguém feio. Existem apenas aqueles sofridos que não sabem sorrir. A “conta fechou positivamente por aqueles lados.” Deu empate. Vernúcio não queria mais sair dali. A todo custo conseguiram convencê-lo de que ele havia saído de Salinas para vender uma boiada em Montes Claros. Seguiu viagem somente depois de Margot lhe prometer que lhe esperaria naquele mesmo prefixo. Naquele mesmo lugar ou se preferir, naquele mesmo “ponto.” E assim foi.
Vernúcio retornou com as burras cheias de gaita. Margot fechou o negócio para sempre. Foi viver com o primeiro marido de toda a sua vida de 50 anos em uma bela fazenda que se localizava quase na entrada de Salinas a qual muitos com certeza conheceram. Trinta e cinco anos depois lá estavam os dois pombinhos “firmes no batente.” Margot Fruía, agora, no ápice da vida, do conforto que todos que a conheceram antes, unânimes, não acreditavam. Ela era grande. Ela era o máximo. Ela deu a volta por cima sem se utilizar de atalhos. Singulares virtudes que somente aqueles, como Margot, que receberam na testa, ao nascer, o carimbo dos bravos e vencedores conseguem atingir.
É...
Por vezes, dizia Platão, na velha Atenas, 347 anos antes do Cara, “não existe barreira intransponível para o ser humano que pensa, luta e acredita.”
Tomou?
E tenho dito!

(Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há mais de 41 anos na área de Engenharia. É autor do livro “Liderança Conquistada” que já se encontra nas melhores Livrarias do Brasil e pode ser pedido diretamente pelo e-mail: enoque.rodrigues@ibest.com.br ou pelo telefone da Livraria SN Station, (11) 2221-0703. É Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.)


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Por Enoque Alves - 27/5/2012 10:54:57
A FÊNIX BREJEIRA II - JESUINO DO QUILOMBO

A FÊNIX BREJEIRA II – JESUINO DO QUILOMBO

Enoque Alves Rodrigues

Ele surgiu em pleno centro da Cidade de Francisco Sá ou Brejo das Almas como se por encanto. Aliás, surgiu como todos eles surgem. Aparentemente do nada. É muito mais natural do que possamos imaginar, que a maioria daqueles que muitas vezes encontramos a trilhar um caminho insólito como se andarilhos fossem, receberam na verdade alguma missão especial a qual nós, desprovidos de um conhecimento que ainda se encontra a milhões de anos luz de distância, ignoramos inteiramente. Estávamos em meio à década de 1950. Caminhava, vagarosamente, manquitolando pelas ruas empoeiradas do Brejo. Trazia às costas um sujo saco de estopa onde podia se constatar o volume de algo em seu interior. Silencioso, jamais abriu a boca para pedir alguma coisa para alguém. Apenas caminhava. Depois de percorrer todas as poucas ruas do Brejo daqueles tempos, sentava-se em frente à igreja e lá ficava observando a paisagem. Depois de muito observar, fixava seu olhar em algum ponto do firmamento e dormia.

O apelido de Jesuíno do Quilombo, ele recebeu de algum engraçadinho talvez pelo fato de sua aparência física com o grande Zumbi dos Palmares pela tez preta, cabelos pixaim, alto e magro. A princípio, muitos acreditavam que o “quilombo” que trazia como sobrenome fosse por ser ele oriundo de uma respeitável comunidade, àquela época, pequeno reduto desta nobre raça, cuja comunidade se localiza ainda hoje no Município de Francisco Sá. No entanto, como se comprovariam depois, ele sequer a conhecia. Não demorou muito e sua verdadeira procedência foi descoberta, por acaso, pelo renomado poeta, jornalista e escritor Brejeiro de inquestionável expressão literária no norte de Minas Gerais, Olyntho da Silveira.

Jesuíno do Quilombo era na verdade Gotardo Apolinário de Souza e descendia de escravos de senhores de engenhos na Bahia, ou precisamente nas imediações de Vitória da Conquista. Ele chegou ao Brejo das Almas trazido por uma coluna de bandoleiros que lhe retiraram do convívio familiar, passando a explora-lo na condição de cozinheiro. No Brejo, aquele bando de sanguinários que estava sempre fugindo da Policia, escolhia os lugares estrategicamente afastados do centro da Cidade para que assim pudesse pinotear a qualquer momento, caso tivesse que recuar de algum confronto eventual com os meganhas. É por isso que ninguém no centro do Brejo das Almas conhecia ou sequer antes houvera tido qualquer contato com Jesuíno do Quilombo.

Quando naquela cálida madrugada de Setembro o tempo fechou para os lados daquele bando cercado que foi por duas frentes federais que vinham de Montes Claros e de Monte Azul, surpreendido, não lhe restou nenhuma alternativa senão a da fuga vergonhosa e humilhante. Na correria acabou ficando sem seu cozinheiro que por possuir a perna esquerda mais curta que a direita, razão de seu manquitolar, não foi possível acompanhar sua turma. Como ele era apenas um cozinheiro, que nenhum mal houvera causado a qualquer local, não foi difícil a sua acolhida. A cidadezinha pacata de então, acabou por adota-lo como filho. E que filho amoroso ele era.

Numa época em que os serviços de limpeza pública no Brejo capengavam, aquela alma, munida de galhos da velha palmeira que ainda hoje tremula em frente à Igreja Matriz, na Praça Jacinto Alves da Silveira, varria, graciosamente, todas as ruas por onde passava. Antes, ele tinha o cuidado de jogar água para apagar a poeira. Era por isso que, cansado, depois de finalizar suas tarefas de varrições do dia ele se dirigia para as escadarias da igreja para descansar e dormir.

Educado, Digno e nobre, quando algum brejeiro inadvertido lhe estendia uma moeda ele que na maior parte do tempo ficava silente, falava: “por favor, meu senhor, guarde-a. Eu nada fiz por merecê-la. Mas eu poderei até aceita-la. Desde que o senhor me ofereça algum trabalho de limpeza ou cozinha para fazer. Os meus superiores não me permitem receber nada sem o devido esforço.” Sem entender, o interlocutor, bom samaritano, lhe perguntava: mas a quais senhores você se refere? Sempre o vejo ai, sozinho? Ele assim respondia apontando para o Alto: “Eles estão Lá em Cima. Acham-se fora do alcance de nossas vistas mais muito próximo do nosso coração!”

Na gangorra da politica brejeira, Enéas, o Capitão, agora era Prefeito. Feliciano era seu vice. Poucos anos antes o jogo era inverso. O primeiro era vice do segundo. Entendeu? Não? Nem eu. Desvira tudo que você entende. Dá no mesmo!

O que importa é que o Prefeito Enéas, cujo coração de tão grande não cabia no peito, naquele dia ao sair da Prefeitura em direção a Fazenda Burarama, ao passar em frente ás escadarias da Matriz viu, de soslaio, Jesuíno do Quilombo, que voltava com seu galho de palmeira em punho, de mais um périplo de varrição pelas ruas do Brejo. Enéas, a quem nada passava despercebido, apeou. Aproximou-se de Jesuíno e passou-lhe a mão em cumprimento.

- Como vai, meu amigo!

- Bem. E o senhor?

- Bem, também! Você é Brejeiro?

- Não senhor. Sou Baiano!

- O que fazes com este ramo de palmeira na mão? Quis saber o Prefeitão Enéas Mineiro.

- É o meu instrumento de trabalho. Com ele eu faço a limpeza das ruas desta Cidade, que estão, diga-se de passagem, um verdadeiro lixo. Aliás, toda esta Cidade está uma porqueira só que dá gosto. Até parece que não tem Prefeito!

O Capitão, não perdia o rebolado jamais. Com simpatia e ternura, fitou Jesuíno de alto a baixo. Mesmo não sendo Mineiro além do sobrenome, sabia matutar e medir as palavras antes de proferi-las, próprio daqueles, que assim como eu, nasceram nas Alterosas. Foi aí que após pensar bastante, abriu os braços e um grande sorriso, e se apresentou:

- Pois é, meu amigo. Muito prazer! Talvez você ainda não saiba, mas sou eu o Prefeito desta Cidade que se chama Francisco Sá. Quero lhe informar que estou me empenhando o máximo para torna-la a mais limpa possível e com a sua ajuda, vamos conseguir!

- “E por que é que o senhor acha que eu estou lhe falando assim? Vossa Mercê pensa que eu que sempre me mantive calado falaria isso para qualquer um? Eu sou pobre e sujinho de roupa mais limpinho de coração. É por isso que eu só falo com o dono dos porcos. O senhor tem que convocar todo mundo para me ajudar a fazer a limpeza senão daqui a pouco as cobras vão sair dos brejos e vão invadir as casas. É muito trabalho para uma pessoa só... O senhor não acha?”

A partir daquele dia instituiu-se em definitivo o serviço de limpeza pública na Cidade.

É...

Por vezes, a chacoalhada vem de onde menos se espera. De pessoas que seriam inimagináveis, não tivessem boca.

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 41 anos na área de Engenharia. É autor do livro “Liderança Conquistada” que já se encontra nas melhores Livrarias de São Paulo e poderá ser pedido diretamente pelo e-mail: enoque.rodrigues@ibest.com.br . É Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 19/5/2012 11:24:37
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – FREDÃO DE TONHA

Enoque Alves Rodrigues

Ele residia num antigo casarão velho feito com adobe com fachada em cor verde musgo que ficava a três casas depois da casa da Dona Quino, na alameda central, em Francisco Sá, ou Brejo das Almas, em cujo frontispício se lia “pensão.” Ali ele vivia em companhia de Antônia Claudina Ferreira, a Tonha, e seis bacuris todos eles fora da Escola, apesar de se acharem em idade escolar.

Alfredo Dias Severino, 40 anos, agricultor, nascido no Ceará, mas radicado desde criancinha no Brejo, tinha que dar um duro dos diabos para poder sustentar sua grande família. Tonha cuidava das crianças, da casa e da horta, enquanto Fredão trabalhava nas fazendas da região na condição de camarada. A alcunha de Fredão era alusiva ao seu tamanhão de 2,05 metros, uma aberração para a época quando o raquitismo corria solto impedindo que até mesmo os ricos e bem nutridos ultrapassassem a altura de 1 metro e 60 centímetros. Naqueles cafundós de meu Deus onde orgulhosamente nasci, quando, ao traçarem o perfil de alguém, se mencionasse “estatura mediana,” entender-se-ia que o individuo em referência possuía menos de 1 metro e 60 centímetros de altura. Era esta a nossa média. Um pouco mais que isso já era considerado alto. Hoje a estatura mediana para homens é de 1 metro e 70 centímetros.

Alfredo, além de alto, era muito forte. Era como vamos ver mais adiante, um “costa larga.” Tremendo “pé de boi” na arte de trabalhar e produzir consumia, com a mesma voracidade em que detonava os eitos de roçados, duas imensas gamelas de comida no almoço e uma no jantar, esta regada a cachaça. A merenda que era servida ás duas da tarde tinha que ser composta de uma rapadura e duas cuias de farinha só para ele. A sua produção diária era superior á produção de dois homens juntos. Mas para contrata-lo o Fazendeiro ou meeiro tinha que ter “bala na agulha”, ou melhor, tinha que ter rango na panela, senão “a máquina” não girava.

Foi durante uma colheita de algodão na fazenda de Rosalino que ficava próximo a fazenda de meu avô, Liberato, que tive a oportunidade de conhecer, pessoalmente, aquela figura. Sua fama eu já conhecia de longa data. Por isso, quando o capataz de Rosalino, de nome Juca, nos informou que Fredão ia trabalhar com eles na colheita daquela safra de algodão, minha curiosidade ficou mais aguçada.

Manhã de Segunda Feira. O ano era 1961. Atravessei a pinguela do afluente do quem-quem e, de longe, já pude visualizar do outro lado, o algodoal de Rosalino. Aproximei-me. Era verdade. Lá estava ele, o “gigante,” em meio a uma roda de outros camaradas tomando café e palestrando antes de iniciar o batente. Parei-me meio surpreso e pus-me a observa-lo. Mãos longas, mas proporcionais ao corpanzil. Aguardei o inicio das atividades do grandalhão. Desejava ver também como os outros “pequenos mortais” se comportariam. Queria também, se possível, no final do dia, assistir as pesagens das colheitas. Fazer as comparações apesar de nada daquilo me dizer respeito, etc.

Sete horas. Após o tilintar de uma velha enxada a guisa de sirene, assim como são dadas as largadas para as corridas, eis que todos saem cada qual em seu eito de algodão, com sacos amarrados à cintura enquanto os dedos ágeis, em frenéticos movimentos, estraçalham os capuchos, lançando-os aos sacos. Depois de sumirem de vista entre os eitos ou ruas, eis que, num passe de mágica, lá estão todos eles, exceto alguns retardatários, assim como o são nas retas de chegada das corridas, quando nem todos chegam ao mesmo tempo, fazendo a curva de volta, ganhando minha direção. Fredão, para minha decepção, se achava entre os retardatários. Pensei comigo: esse cara não é de nada. É literalmente um bundão. Só tem tamanho e fama. Foi tudo propaganda enganosa.

Ledo engano. Aquele mestiço, brutamontes só estava mesmo “esquentando os motores.” Quando o relógio assinalou oito horas, o pau quebrou. Como se estivesse enlouquecido, o cara, entre um assovio e outro, deu uma chacoalhada nos quadris, endireitou o espinhaço e começou a cantar. Á maneira que ia cantando avançava sobre os eitos como se a melodia ditasse seu ritmo. Com uma só “mãozada” colhia vários capuchos de algodão e socava-os no saco. Enquanto os outros enchiam um saco ele já havia enchido dois. De longe, com um assovio seguido de um olhar estranho, entre, engraçado e diabólico, gritou para o balanceiro:

- “Tadeu, seu cabrunco da mulésta, ampria ai o meu espácio próchimo da balância pra mim colocá os saco, apusquê hoje eu tô cum cão e cum a gota serena e vô tirá seis arroba!”

Caramba. Aquilo não era possível. Principalmente se partirmos do pressuposto de que dificilmente alguém consegue colher mais que 45 quilos ou três arrobas de algodão por dia.

Retornei para a Sede da Fazenda de meu avô e à tarde quando iam iniciar as pesagens, regressei. Subi sobre um mourão que ficava próximo da balança, em meio á montanha de sacos de algodão, e, mais uma vez, pus-me a observar.

O balanceiro Tadeu, ao lado do capataz Juca, com uma velha caderneta onde fazia a contabilidade, sentado na sela de seu cavalo sobre o qual se viam duas grandes bruacas de couro abarrotadas de notas de cruzeiros, numa época abençoada em que ninguém roubava ninguém não só por medo dos efeitos coercitivos da lei dos homens, mas principalmente por temerem a Lei de Deus e o tridente do diabo, não transgredindo um dos mandamentos onde está escrito, não furtarás, ia chamando os peões um por um, por seus respectivos nomes seguidos do total da “apanha” e do valor correspondente ao pagamento da diária.

- Jazão do Brejo, duas arrobas, 20 cruzeiros. Felisbino de Vaca Brava, duas arrobas e meia, 25 cruzeiros. Elpídio do Mangal, uma arroba e meia, 15 cruzeiros. Jacó de Salinas, três arrobas, 30 cruzeiros. Manoel de Taiobeiras, duas arrobas, 20 cruzeiros. Gervásio de Cana Brava, duas arrobas e meia, 25 cruzeiros. Daniel do Catuni, três arrobas, 30 cruzeiros. Geninho de Orion, uma arroba, 10 cruzeiros, etc.

Ao chegar á vez da pesagem da colheita do “gigantão,” o capataz pigarreou, estufou o peitoral, empostou a voz, e, como se fosse proferir um longo discurso, mandou:

- “Alfredo, de Tonha, pai de seis filhos, Cearense cabra da peste, que mora no Brejo, dois metros e cinco de altura, costas largas, que come duas gamelas de comida no almoço, uma rapadura com duas cuias de farinha na merenda e uma gamela de angu com um litro de cachaça na janta, grande pé de boi para trabalhar, seis arrobas, 60 cruzeiros.”

Com apresentação tão rica em pormenores como esta não me restaram mais nenhuma dúvida de que Fredão era realmente imbatível.

É...

As pessoas, por vezes, pecam pelo excesso de detalhes que nem sempre nos interessam.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada que será lançado agora em maio/12 e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 12/5/2012 11:39:56

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – JARDIM PÚBLICO MUNICIPAL

Enoque Alves Rodrigues

Quando a 31 de Janeiro do ano de 1969 o Prefeito Eurico Penna da Silveira inaugurou na Praça Jacinto Silveira, em frente á igreja matriz do Brejo das Almas ou Francisco Sá, “igual a ti, outro não há,” o Jardim Público Municipal, poucos Brejalminos acreditavam que aquele projeto havia finalmente se materializado, deixando em definitivo o papel.

Concebido na prancheta daquele a quem poderíamos chamar de “o Niemayer do Brejo,” o Dr. Arthur Jardim de Castro Gomes, parte integrante e indissolúvel da vida de Francisco Sá desde os primórdios, onde exerceu com fervor, transparência, dedicação e galhardia, os mais diversos cargos públicos, inclusive o de Prefeito em gestões coroadas de êxitos e muitas realizações com avanços em todas as áreas administrativas do município os quais hoje fica difícil pontuar.

A execução da obra do Jardim Público Municipal ficou a cargo de Antonio Plácido que muito se desdobrou para que o cronograma fosse cumprido dentro do curtíssimo prazo estipulado por Eurico.
Muitos brejeiros hão de lembrar, pois, afinal, não faz tanto tempo assim. Em 31/01/1969 eu tinha dezesseis anos incompletos e lá estava em meio á quase totalidade da população do Brejo naquela praça, em frente aquele “monumental e gigantesco amontoado de concreto.” Todos queriam assistir ao rompimento da fita inaugural e presenciar aquele feito inédito e indescritível.

Um pouco antes do discurso de Eurico Penna a praça já estava tomada pela multidão ávida por ouvi-lo. Todos se acotovelavam em busca do melhor ângulo onde pudessem observa-lo e escuta-lo sem se perder nenhum detalhe. Baixinho à época, não me restou nenhuma alternativa senão me atracar ao tronco liso da centenária palmeira que ainda hoje insiste em manter-se de pé no mesmo lugar, de onde, enquanto “a cacunda” aguentava, podia visualizar toda a cerimônia que transcorria animada e na mais perfeita ordem. Depois das bênçãos do Padre que proferiu nas escadarias da Matriz uma breve homilia, deu-se, de fato, o inicio dos trabalhos. Eurico iniciou seu discurso ressaltando os feitos que havia realizado até então e as ações que ainda restavam por tomar frente á Prefeitura Brejeira. Enfatizou a importância daquela obra do Jardim Público para os munícipes de Francisco Sá.

No tronco da palmeira, em pensamento, tentava eu entender a quais importâncias Eurico se referiam. O que haveria de tão relevante numa obra de um pequeno e diminuto jardim onde nem flores existiam? O que, de positivo, agregaria a vida de todos nós, Brejeiros? Seria ou não aquele discurso exagerado e tendencioso que não passava de um monte de falácias desprovidas de qualquer cunho de verdade?

Enquanto eu me via perdido no mundo emaranhado das interrogações, eis que Eurico já se achava finalizando sua fala. Se eu tivesse tido o dom da paciência e sido menos precipitado, certamente que nenhuma daquelas duvidas e questionamentos teriam povoado a minha mente. Involuntariamente, mas como se tivesse lendo o meu pensamento, o grande Prefeito Eurico Penna da Silveira, sim, este “Silveira” pertence á mesma linhagem e estirpe do “cara”. O maior de todos, passou a justificar:

“É possível que algum conterrâneo que aqui se encontra neste momento maravilhoso esteja tentando entender qual seria a importância desse simples jardim público para o Brejo. Quiçá esteja imaginando também que este monumento terá como sua única incumbência segurar a placa que nele se encontra ostentando o meu nome, etc. No entanto, quero dizer que ele muito representará para todos nós hoje e para os pósteros. Durante muito tempo este projeto do Dr. Jardim ficou engavetado porque os meus antecessores não queriam correr o risco de passar por tais questionamentos. As minhas explicações são simples. Tudo que pudermos fazer, por pequenino que possa parecer, para embelezar a paisagem urbana da nossa cidade, ela vai nos agradecer. E, tirando do bolso da camisa duas fotos em branco e preto acenou-as para a multidão: veja aqui em minha mão o antes, onde esta praça se acha sem o jardim, e o depois, onde ela já aparece munida do seu jardim. É ou não é incontestável a diferença? Vocês reconheceriam esta praça se aqui não estivessem?”
Não. Respondemos todos.

É...

Por vezes, dizia um certo politico mineiro de nome José Maria Alkmin, nascido em 11/06/1901, em Bocaiuva. Lembram-se dele? “Em política o que importa é a versão e não os fatos.” No caso em tela que acabo de descrever, esta máxima foi pras cucúias, pois, fato e versão, coadunavam-se. Contra fatos não há argumentos e os fatos estavam ali, em nossa frente, em mãos de Eurico, consolidado incontestavelmente por duas trêmulas, distorcidas e meio desfocadas fotos que muito representavam.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada que será lançado agora em maio/12 e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 5/5/2012 11:42:35
Assim era Francisco Sá – O prédio da Prefeitura

Enoque Alves Rodrigues

Rua do Mercado do Brejo das Almas
Quando no mês de Janeiro do ano de 1949 o Prefeito Feliciano Oliveira juntamente com seu vice, o Paraibano, visionário e empreendedor, Capitão Enéas Mineiro de Souza inauguraram o prédio onde ainda hoje se encontra instalada a Prefeitura do Município de Francisco Sá, construído pelo Engenheiro Francisco Benfica Veloso, de Montes Claros, era esta a composição da Câmara de Vereadores: Antonio Brito de Oliveira, Antonio Silveira, Gentil Dias de Faria, Oscar Ferreira Porto, Felinto José Pereira, Donato dos Santos Silva, Francelino Dias, Osmani Barbosa, João de Deus Dias, Sebastião Almério Borges e Osvaldo Rodrigues Vasconcelos.
Poderia ocupar-me ainda que com rápidas pinceladas, do resgate de maneira sucinta das biografias ou pelo menos, parte destas, da vida politica e pessoal dos personagens que muito dignificaram mencionada Legislatura. No entanto, mesmo tendo este pequeno e reles genérico de escriba esmiuçado, criteriosamente, registros históricos que dão conta do que foram e realizaram suas Excelências, poupo-me de quaisquer outras alusões pois não teria como fazê-las sem que me enveredasse pela seara politica que, como todos sabem, por não dispor do domínio do conhecimento, abstenho-me de comentar.
Debrucei-me sobre muitas páginas amareladas pelo tempo, já corroídas por traças, em precário acervo, apenas e tão somente para satisfazer a minha própria curiosidade. Nada, além disso. Esta curiosidade jazia em minha memória desde os meus tempos de infante quando ouvia os mais antigos brejeiros dizerem ter sido até então, aquela Legislatura, a mais perfeita e atuante. Segundo diziam, a que mais projetos de lei apresentou e aprovou para o desenvolvimento da pacata Francisco Sá. Finalizadas todas as “analises profundas,” “cálculos complicadíssimos,“ “noites insones,” “comparações estatísticas em termos de relevância e realizações com outras Legislaturas,” etc., restou-me, como fato consumado, apenas e tão somente a grande decepção. A de que a mui propalada, elogiada e difundida como tendo sido a melhor e mais atuante Legislatura de Francisco Sá, nada teve em seu todo que a tornasse diferente das demais. É possível que o prédio da Prefeitura entregue e inaugurado naquela Legislatura seja um dos principais destinatários de tanto destaque. Quiçá tais conclusões ocorram em minha mente insana por ser eu desprovido do elementar conhecimento do assunto, analfabeto politico e incapaz de saber distinguir o que são os grandes feitos. Já falei para vocês que o “meu forte” está na engenharia. Nada mais.
Assim sendo, prefiro navegar na zona de conforto. Atenho-me, portanto, a assuntos frívolos, menos complexos. Como se falava no Brejo das Almas dos meus tempos: “caititu fora de manada é papo pra onça!”
Na equipe fixa do Engenheiro Benfica, em sua maioria composta por brejeiros locais, havia cinco peões que eram apelidados pelos nativos do brejo de “estrangeiros.” Recebiam esta denominação todos aqueles que não eram nascidos no Lugar. Independente de ser curta ou longa a distância que separava suas localidades de origem de Francisco Sá. Levemos em consideração que as distâncias de antanho eram “muito mais longas” que as de hoje. Os meios de transporte que em dias atuais rompem e tragam em frações de horas as mais longas distâncias, naqueles tempos praticamente inexistiam. Gedeão, pedreiro, preto, alto, magro, era de Quem-Quem. Valdecir, carpinteiro, branco, baixinho e barrigudo, era de Pai Pedro, já Aquiles, servente, moreno, alto e magro, vinha de Caçarema. Manoel, pedreiro, preto, baixo e magro, provinha de Taiobeiras, enquanto que Jurandir, tez e compleição física idênticas, era de Janaúba. Improvisaram um alojamento com caibros cobertos com lona bem no fundo da construção, onde os “estrangeiros” residiam. Ali, todos eles, assim como eu um dia ao chegar aqui em São Paulo, “queimavam a lata” no preparo do rango, cujo ponto culinário exato do tempero, jamais se obtinha. Á noite, beritavam nos bares do velho centro ou iam marcar o ponto na mais famosa ZBM de então. Rezavam para que a construção da obra nunca chegasse ao fim. Tinham o Brejo das Almas como seus portos seguros onde além da liberdade, colhiam o fruto sagrado inerente à remuneração do trabalho com o qual proporcionavam confortos as suas famílias “distantes.”
Mas como tudo nesta vida um dia se acaba, com a construção do prédio da Prefeitura de Francisco Sá, não foi diferente. Após alguns atrasos no cronograma, eis que chega o grande dia da final. Nenhum peão que havia trabalhado naquela obra queria acreditar. Nós obreiros somos assim. Envolvemo-nos de tal forma com as construções, que acabamos criando laços afetivos e quase sempre acabamos por trata-las como se fossem filhos, irmãos, pai, mãe, esposa, etc. Esquecemo-nos de que elas não nos pertencem. E que, na maioria das vezes, sequer podemos voltar a colocar os nossos pés sobre aquilo que um dia, com sangue, suor e muito sacrifício construímos ou ajudamos a construir. É a vida meu nego. Quantas vezes me vi paradão diante de um arranha-céu qualquer que ajudei a construir em São Paulo? E o pior: quantas vezes guardas impecavelmente fardados saíram de suas guaritas para me perguntar: “o senhor deseja alguma coisa?” Não. Não desejo nada. Apenas observar esta “porra” que eu fiz. “Ah, foi o senhor, parabéns!”
Bem, sem maiores delongas, o fato é que agora estavam todos ali, vestidos de suas melhores roupas, desnudados de suas botas, calças arranca-toco, camisas surradas e chapéus de palha que foram durante muito tempo suas “fardas,” diante do palanque de Feliciano e Enéas que rodeados da mais alta estirpe Brejeira, faziam os seus respectivos discursos de inauguração. A cada intervalo fonético eram os ilustres oradores ovacionados pela plateia com salvas de palmas sempre iniciadas em pontos estratégicos por puxa sacos previamente designados para aquela função. Em grupo, isolados dos demais participantes, aqueles cinco peões apenas olhavam com tristeza. Não acompanhavam as palmas. Não moviam um músculo. Estavam estáticos. Cumpriam apenas uma formalidade a qual exigia que naquela festa se fizessem presentes o Engenheiro e os colaboradores diretos da obra. Fisicamente seus corpinhos estavam ali. Mas os espíritos vagavam por outras plagas, talvez onde pudessem continuar no sacrossanto dever do trabalho e colher os frutos auferidos.
Como nada escapava aos olhos de Feliciano e Enéas, não demorou muito para que ambos notassem a aversão daqueles peões em participarem do evento. Notaram também a tristeza que traziam estampada nos olhares. Foi do vice o Capitão Enéas a iniciativa:
- Benfica! –Gritou ele o nome do Engenheiro da obra em meio à multidão.
- Pois não, seu Capitão. Em que posso atendê-lo?
- Peça para que aqueles cinco funcionários seus que estão ali agrupados venham até o palanque!
- Disse-lhe o Capitão Enéas apontando para o grupo de peões.
Em instantes estavam todos os meus iguais “pés de barro” diante do Capitão Enéas Mineiro de Souza, nordestino porreta, cabra da peste, que em seu tradicional linguajar foi curto e grosso.
- Meus filhos, esperamos tanto por este momento para que hoje, juntos, estivéssemos todos nós aqui cheios de alegrias e entusiasmos comemorando o fim desta tão esperada obra e vejo no “olhar docêis” indisfarçada tristeza. Ao que se deve isto? Que mal os aflige? É festa!
Nós peões, -sim porque na obra, do tapume para dentro, do engenheiro ao servente, somos todos peões- não temos malicia. Assim, uníssonos responderam.
- É que nós não queríamos que a obra terminasse. Não temos nenhum outro lugar onde possamos trabalhar para continuar sustentando as nossas famílias. Por isso não temos agora nenhum motivo para sorrirmos ou sermos felizes. O término da obra cobre de êxito os vossos propósitos e eliminam os vossos problemas. É exatamente aí que iniciam os nossos. Quem agora vai pagar os nossos salários? Sem salário não há solução!
Raposa velha da politica mineira, Feliciano ignorava a cena ao seu redor enquanto Enéas, também felpudo, mas prático e poderoso, se desvencilhava honrosamente da turba.
- E quem foi que falou aqui que vocês vão ficar sem trabalho? Vocês conhecem o caititu?
- Não, senhor, responderam os peões, “só na panela!”
- E o morro do Sapé, “ocêis conhecem?”
- Não. Não conhecemos!
- Diabos. Ocêis não conhecem nada. Assim fica difícil de ajudar!
- E a Fazenda Burarama. Vocês conhecem?
Responderam todos em uma só voz.
- Conhecemos claro. Esta a gente conhece!
- Diabos. Até que em fim vocês me ajudaram a encontrar uma solução para o problema de vocês. Amanhã, quero que todos amanheçam em minha Fazenda. Tenho lá, por toda a vida, muito trabalho para vocês e suas famílias.
Estas famílias cujos sobrenomes preservo por serem influentes na progressista Cidade que desde o inicio da década de 1960 leva o nome deste grande Brasileiro, foram as primeiras a povoa-la.
É...
Por vezes, ou quase sempre, é na inocência dos nossos propósitos que encontramos as maiores soluções.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 29/4/2012 13:14:49
VOCÊ SABIA? JACINTO LUZ, ZÉ ALVES E MASSEIRA!


“Brejo das Almas ou Francisco Sá, igual a ti outro não há...”

- VOCÊ SABIA?

Enoque Alves Rodrigues

CAPITULO XXXI – JACINTO E ZÉ ALVES

Que Jacinto Luz era sogro de José Alves da Silveira, grandes fazendeiros no Brejo das Almas de antigamente, sendo este último pai de Jacinto Alves da Silveira, principal responsável pela fundação e emancipação do Brejo das Almas, hoje Francisco Sá?
Que o passatempo predileto de Jacinto Luz, sogro de Zé Alves, era a caça de veados? Que ele, munido de uma velha espingarda daquelas que se carregava pela boca, mas que nunca falhava, passava longas noites à espreita dos passos cautelosos do mateiro, pendurado numa forquilha de aroeira que se denominava “espera?” Que mencionada “espera” ficava na copa da mais alta e frondosa árvore que, possivelmente ainda existe e que se localiza exatamente na antiga Estrada de Cana Brava, na mata conhecida por “Baixa da Migrada?”
Pergunta: você, porventura também conhece ou conheceu a mata da “Baixa da Migrada” na antiga estrada de Cana Brava?

Pois é...


- VOCÊ SABIA?

Enoque Alves Rodrigues

CAPITULO XXXII – MORRO DA MESSEIRA

Que o Morro da Masseira é observado em sua total amplitude por uma distância que cobre várias léguas?
Que durante toda a década de 1950/1960 uma grande e resplandecente bola de fogo se levantava do Morro do Mocó, na Fazenda de Antonio Miranda, em altas horas da noite, a qual depois de dar uma volta de 360° sobre a Cidade de Francisco Sá, ou Brejo das Almas, ou vice-versa, durante 60 minutos, ganhava os rumos do Morro da Masseira onde finalmente depois de estrondoso barulho se desintegrava?
Que todos, assustados, ao vê-la em voo rasante pela Cidade diziam tratar-se do tesouro que o Bandeirante Antonio Figueira havia enterrado no Morro do Mocó e que ela estava se mudando devido ás maldições causadas pela cobiça do povo brejeiro na caça ao tesouro?
Perguntas: você sabe por que o Morro da Masseira tem esse nome? Você acha que é pelo seu formato? Quem foi que primeiro o chamou de “Masseira?”

Com a palavra os “não brejeiros.”

Pois é...


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Por Enoque Alves - 21/4/2012 11:20:38
VENDAS & VENDEIROS DO BREJO ANTIGO – ESTELITO

Enoque Alves Rodrigues

Continuando com a série “Vendas & Vendeiros” cumpre-me hoje realizar breve dissertação sobre Estelito de Oliveira Pena que, como já mencionei em outras crônicas, era negociante do ramo de secos e molhados cujo estabelecimento comercial se localizava ao lado da loja de João Caixeiro, atrás da Igreja Matriz do Brejo das Almas ou Francisco Sá, igual a ti, outro não há, como diria Niquinho.

Estelito era irmão de “Sô Carrinho” ou Carlos de Oliveira Pena, grande personalidade politica além de bem sucedido comerciante do Brejo das Almas de antigamente, sobre quem dediquei minha penúltima crônica. Não obstante os laços consanguíneos que os unia, eram diferentes em tudo. Compleição física avantajada, falante, Estelito, não que o outro não o fosse, era um tremendo “boa praça.” Enquanto Carlos era formal, de falar pouco e pausado, medindo sempre as palavras, quieto e circunspecto, Estelito era um tremendo espoleta. De falar alto e rápido, contava uma mentira atrás da outra em rodas de amigos que se juntavam à frente de seu estabelecimento para, sentados em tamboretes ou de cócoras, em posição de sentido, ouvi-las atentamente em êxtase profundo mesmo sendo sabedores de que nada daquilo era verdadeiro. Era uma época desprovida de qualquer maldade, onde a inocência dos adultos beirava à pureza das crianças e os corações transbordavam de amor. Você não acredita? Problema seu. O Mundo já foi assim.

Para quem, assim como Estelito, mantinha um comércio muito bem abastecido, imaginar-se-ia que sua dedicação no sentido de que os estoques fossem o mais breve possível desovados seria mais que óbvio. No entanto, acreditem, não era o que ocorria.

Era muito comum e naturalmente natural (desculpem-me pelo proposital pleonasmo), alguns fregueses saírem de suas casas para ir até a venda de Estelito comprar determinada mercadoria da qual era a necessidade inadiável e, lá chegando, envolverem-se em meio à roda de outros brejeiros que ali se achavam despreocupadamente, sem terem o que fazer senão ouvir as anedotas de Estelito. Acabavam por se esquecer do que foram comprar. Acontecia também de alguém chegar, passar pela rodinha, entrar no armazém e não tendo ali ninguém para lhe atender, dar meia volta e integrar-se a rodinha sendo mais um ouvinte. Quando Estelito estava em sua roda de amigos, contando lá seus causos, as coisas relacionadas ao comercio ficavam em segundo plano. Estelito, não fosse à tradição de sua família no ramo do comércio, estava muito mais para um exímio contador de histórias que para vendeiro. Sua venda era por ele utilizada como trampolim para deliciar-se naquela arte de contar histórias mirabolantes cuja fantasia sua mente prodigiosa se encarregava de alimentar.

Não entrarei aqui no mérito do que seria o certo ou errado. Também não vou falar dos “homéricos canos” que Estelito levava. Tudo para ele era diversão. Por certo que até mesmo os prejuízos que alguns caloteiros de plantão lhe causavam, após receberem dele um pequeno trato, acrescidos de muitas hipérboles, se transformavam em histórias ou quase anedotas que beiravam o inverossímil. Ele era assim. Saber conviver com as pessoas, aceitando-as do jeito que elas são também é uma grande virtude. Não há neste mundão de meu Deus um decálogo onde se encontre registrado que alguém seja exatamente igual ao outro até porque quem de nós poderia, em sã consciência bater no peito e afirmar que estamos certos e que alguém está errado? Quais são os parâmetros que dispomos que nos permitam fazermos estas afirmativas com assertividades? Nenhum. Voltamos, então, ao amigo Estelito.

Bulhufas para o que pensavam dele quanto a sua reputação de sujeito negligente com o próprio negócio e de mentiroso de carteirinha. Nada daquilo importava. Ele queria mesmo era rosetar... E rosetava. A vida naquele tempo, em nosso Brejo “de todas as almas” já era demasiado dura, tristemente triste (olha aqui mais um pleonasmo) e bucolicamente bucólica (mais um pleonasmo). As horas não passavam naquele fim de mundo. Pareciam serem todas as horas mortas. A fome do sorrir é igual ou pior que a fome do comer e do saber. Sendo assim necessário se faz que haja sempre alguém para alegrar o ambiente. E havia... Aliás, muito pródiga foi aquela época. Podemos dizer que jamais o Brejo das Almas produziu tantos “contadores de causos” como naqueles tempos. Juca Brinco, Geraldino Fogueteiro, Manél de Vovó (não confundir com homônimo mais atual), Elpídio Rodrigues, Joaquim Cansanção, Matheus do Catuni, Belizário, Jacinto Luz, Osório Silveira e Ludgero, apenas para citar alguns “famosos.”

É próprio, e muito natural aos amantes contumazes do inverossímil á prática de contradições que muitas vezes se assemelham a piadas ou chistes. Há hipérboles que na maioria das vezes chegam a aproximar a narrativa do mais completo e absoluto ridículo não fosse a inocência e o desproposito do narrador. Geralmente o mentiroso é muito meticuloso e pouco ou quase nada cuidadoso. Com o intuito de não ser pilhado na mentira chega até mesmo citar lugares inexistentes ou demasiadamente longe onde, de preferência, nenhum dos presentes tenham sequer sonhado um dia por os pés. Não havendo a contraprova não há como se desmascarar. Costumam se referir também a pessoas mortas, principalmente aquelas que jazem e habitam a mais tempo o mundo dito invisível.

- Foi lá na Cidade de “Corrozinho”, iniciava Estelito mais uma de suas histórias mirabolantes.

- Mas aonde é que fica esse lugar, Estelito?

- Sei lá. Procure você no mapa. Eu só conto a história... Se você quer conferir você vai ter que ir lá!

- Mas ir lá onde? Se ninguém conhece esse lugar? Da outra vez que você o citou e eu fiquei o dia todo procurando no mapa e não achei nada.

- O mapa onde você procurou pertence ao Planeta Terra?

- Sim, claro. Pertence. Porque?

- Lá você não vai achar mesmo seu tonto. Procure no mapa da “terra do nunca!”

- Tá, bom.

Estelito, aliás, não estava de tudo errado não. O ônus da prova, segundo o Direito Brasileiro não é sempre de quem acusa? Caberia então a quem nele não acreditasse a prova de que estaria mentindo. Não é assim que a coisa funciona? Perguntemos então aos senhores doutores da lei. “Data Vênia”, não é assim, Excelências? Dessa forma quem dele estivesse duvidando que corresse atrás das evidências no sentido de desmascara-lo. Mas quando se ouviam dele a que seria a “pá de cal” quando se antecipava ao interlocutor: “não adianta você procurar provas para me desmentir por que você não vai achar porra nenhuma.” Ai a única alternativa que restava ao infeliz ouvinte era mesmo fingir que acreditava.

Festas juninas. Aqui e ali alguns extemporâneos cantopês. Sentados ao redor de uma grande fogueira que antes se acendia ali não obstante ser lá o centro comercial do lugarejo.

- Você se lembra, Manél, quantas pessoas tinha na procissão da sexta feira da paixão do ano de 1900?

- Não. Não me lembro. Até porque neste ano sequer éramos nascidos.

- Trinta mil!

- Que lorota é essa, Estelito! Respondeu-lhe, Manél. Se somarmos hoje toda a população do Brejo a qual é composta pelas famílias Pena, Silveira, Dias, Costa, Pereira, Ferreira, Oliveira e alguns Silva, Santos, Souza e Rodrigues, não teremos nem 4 mil pessoas. O que dirá trinta mil. “Aliás, eu acho que o Brejo das Almas jamais terá um dia uma população de trinta mil almas.”

Boca “mardita!” Decorridos hoje quase oitenta anos desde que Manél, no afã de contrapor-se ao exagerado Estelito, proferiu esta infeliz profecia, a menos que o próximo senso demográfico do IBGE nos prove o contrário, a população brejeira continua estagnada dentro da faixa intransponível dos 30 mil. Os deuses milagrosos responsáveis pelo poder da procriação e por levar adiante, aos quatro cantos do Orbe, as palavras Sacrossantas do Divino Criador, quando diz “crescei-vos e multiplicai sobre a face da Terra” desde então, as esqueceram. Ao invés disso, seguem, à risca, a profecia do pecador Manél. Pelo menos torçamos para que o Brejo não encolha. Isto já estaria de bom tamanho. Pois se depender de “brejeiros ausentes” assim como eu que só retornam a terra mãe, a passeio, a cada ano, daqui a pouco, das 30 mil pessoas da procissão de Estelito do ano de 1900 não sobrará mais ninguém.

É...

Por vezes, diz o ditado popular, onde só se tira e não põe, a tendência natural é acabar. Deus, por favor, salve o meu Brejo. Amém!

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


71035
Por Enoque Alves - 14/4/2012 21:50:02
A minha cronica deste fim de semana é uma velha reprise. Estou finalizando vários projetos em minha área profissional o que tem consumido muito do meu tempo. Breve voltarei com coisas novas.

SAUDADE BREJEIRA - FELICIANO E MONTALVÃO - REPRISE

SAUDADE BREJEIRA - REPRISE

Enoque Alves Rodrigues

Bem em frente à Igreja Matriz localizada na Praça Jacinto Alves da Silveira, em pleno centro de Francisco Sá, conversavam Feliciano Oliveira e Montalvão, ambos, candidatos aos pleitos eleitorais de um ano qualquer, bem no inicio dos anos 1960.
O primeiro, meio alto e esguio, tez parda, careca, vestindo terno azul marinho com listras de giz, gravata borboleta - apesar do calor de deserto do Brejo das Almas de então -, e calçado com um par de botas de couro com canos longos que iam até os joelhos.

Já o segundo personagem, baixo, loiro, olhos claros, barriga saliente, calça de brim azul batido, camisa branca amarrotada, igualmente calçando botas de canos longos, num estilo bonachão, ensaiavam o discurso que fariam, logo mais, em um comício qualquer, lá no povoado de São Geraldo.

Eram velhas raposas da política do norte de minas, sendo o primeiro candidato à deputado federal e o outro a deputado estadual.

Dentro da Igreja aonde ambos se encontravam defronte, o Padre Silvestre, naquele momento, já se preparava para mais uma homilia. Fiéis assomavam-se à praça, tocados em seus recônditos pela “fé que remove montanhas”.

O Padre Silvestre, para quem não o conheceu, era um senhor alto, loiro, olhos azuis e, acreditem, muito sistemático. Diziam até que ele neste ultimo quesito conseguia superar, e muito, até mesmo o padre Salu, que todo brejeiro antigo só de ouvir falar o nome, tremia. O Padre Salu, sobre cuja personalidade difícil, já discorri neste espaço, realmente não era uma “boa ovelha”. Ranzinza, chegava muitas vezes ao extremo de expulsar as beatas de frente de seu confessionário a chutes. A molecada fugia dele.
Pois bem, o Padre Silvestre, a quem conheci de perto, não tinha, com toda certeza o temperamento do Padre Salu. Ao contrário, era dócil, tranqüilo, falar manso e um coração bondoso. Tratava a todos com amor e elevado espírito de solidariedade. Mas então, onde é que os dois padres se pareciam tanto? Pois não, os dois se assemelhavam devido ao fato de detestarem política.

Achavam. Achavam? Não, tinham certeza, assim como a temos nós hoje, que na política brasileira se escondem as maiores mentiras. Que o fator que fomenta a política é a mentira. E, claro, como Cristãos, e sendo a mentira um dos sete pecados capitais, eles, assim como todo e qualquer cidadão de bem, tinham mais é que abomina-la. Até ai, nenhum problema, não fossem os extremos.

Os dois grandes expoentes da política mineira palestravam descontraída e discretamente, já no meio da pequena multidão que se formava na praça. Ambos tinham o nítido desejo, mineiramente disfarçado, de à maneira que os brejeiros se ajuntassem todos, os dois candidatos, meteriam a mão em um bornal que traziam à mão e... zás... de lá sacariam um santinho com suas fotos e números e entregariam aos pretensos eleitores.
Mas o Padre era mesmo terrível. “Aquellos ojos verdes de mirada serena”, enxergavam mais que pirilampos do Mangal. À distancia e de relance, observava a ação dos dois, também, mineiramente. Fingia não vê-los. Os dois, por incrível que possa parecer, eram também amigos do padre Silvestre. Comungavam, ali. Mas o problema é que estavam fazendo política no lugar errado. No território do Padre. Era local sagrado. E isso ele não tolerava.

Não demorou muito e Feliciano puxou do bornal o primeiro santinho para entregar ao fiel eleitor. Tentou entregar, mas não conseguiu. Ao esticar a mão, pasmem. Assim como num passe de mágica, adivinhem de quem foi a mão que estava estendida para receber o santinho da mão de Feliciano Oliveira?
Sim. Foi ela mesma. Ao vivo e a cores: A mão do Padre Silvestre ali estava a tomar da mão de Feliciano o tal santinho.

Não contente, confiscou-lhe, sob os olhares surpresos dos fieis brejeiros, o bornal, cheio de santinhos.

Sem reagir, Feliciano, polido como sempre, mas também surpreso, apenas sorria...
Enquanto a Montalvão, evaporou-se em meio à multidão.

Pairam-me à mente, até hoje: jamais consegui entender como e de que maneira o Padre conseguiu levar a efeito toda esta ação, sem, sequer, proferir uma única palavra. Eu estava muito próximo e posso afirmar que ele não moveu os lábios.
Foram muito engraçadas e hilariantes as justificativas que os dois candidatos, algum tempo depois ao desembarcarem de uma velha Rural Willys já no povoado de São Geraldo, davam aos seus eleitores:

- “Olha pessoal. Viemos aqui falar com vocês, na condição de vossos leais e prestativos amigos de todas as horas. E todos nós sabemos muito bem que para se lembrar do rosto e da fisionomia de um amigo de verdade, aquele velho amigo que só nos faz bem, não se precisa de fotos. As nossas fotos, com toda certeza, já estão lá dentro da memória de todos vocês, nossos amigos. Mas para que não corram o risco de nos esquecerem, uma vez que a pinguinha do brejo que nós lhes oferecemos já está fazendo lá em vossas ideias, os seus efeitos, lhes informamos que o meu nome é FELICIANO OLIVEIRA. Eu sou o mais altinho e careca. Enquanto este aqui que está ao meu lado, baixinho e barrigudo, é o MONTALVÃO. Obrigado meus queridos amigos e correligionários e até a vitória nas urnas, se Deus assim o permitir!”

É...

Por vezes, quando não se tem a certeza necessária, é melhor abrir o jogo, sem delongas.

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 31/3/2012 20:16:29
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ - TONICO LOPES

Enoque Alves Rodrigues

Durante muitos anos o único acesso que qualquer ser vivente teria que utilizar para atravessar o Rio Verde Grande, na estrada que liga Montes Claros ao Brejo das Almas, ou Francisco Sá, era pela Fazenda de Tonico Lopes. Havia ali um ponto onde as águas eram baixas propiciando a passagem sem quaisquer dificuldades, de manadas de gado, além de servir de pouso de curta temporada para muitos vaqueiros e, nos tempos das colunas, de bandoleiros a caminho do Sertão.

Grande fazendeiro, Tonico Lopes era muito influente naquela localidade em tempos hoje já muito distantes. O Rio Verde atravessava ao meio toda a extensão de suas vastas e férteis terras, onde ele além de cultivar várias culturas como arroz, milho, feijão, algodão, cana de açúcar, alho e outras, ainda se dedicava a criação de gado de engorda com a qual abastecia os frigoríficos de toda a região.

Casado com Lindalva com quem tinha quatro filhos labutava aquele grande brasileiro de sol a sol no sentido de prosperar a cada dia. Dotado de índole impecável e coração bondoso, colaborava com todos os transeuntes em passagem por suas terras. Nos períodos de chuva as cheias invadiam grande parte da Fazenda cuja Sede ficava no alto de um pequeno morro. O casarão da Sede funcionava naquelas ocasiões como a uma verdadeira “arca de Noé” porque todos os viajores surpreendidos pela elevação das águas não conseguiam seguir viagem e lá permaneciam até que as águas baixassem. Tonico Lopes a todos socorria sem pedir nada em troca.

Premido pelas circunstâncias, contemporâneo das maiores e mais importantes forças politicas regionais, não demorou muito e aquele sinuoso e íngreme caminho passou a receber as benfeitorias necessárias a sua adequação em prol dos transeuntes para que pudessem utiliza-lo sem riscos ou traumas.

Agora aquele mísero genérico de ponte estava finalmente de cara nova. A coisa ficou muito bonita. Empedraram grande parte da estradinha que levava à Sede e tudo agora estava às mil maravilhas. Tudo dentro dos conformes. Tudo na paz do Senhor.
Será?

As coisas e as pessoas estão em constantes modificações. O que não está melhorando, está piorando. A vida não é estática, é dinâmica. E ela gira em torno de si própria numa velocidade assustadora que é impossível ao nosso cérebro e raciocínio acompanhar. Aí, como não conseguimos acompanhar, surgem a nossa frente, inicialmente pequenos hiatos que, à medida que não os ocupamos inteiramente, vão se avolumando e, de repente, em fração de segundos nos vimos diante dos mais difíceis e intransponíveis obstáculos já que estamos falando aqui de “estradas,” “pontes,” “acessos,” “passagem”, etc.

É oportuno e de salutar importância ressaltar que segundo estimativas confiáveis feitas por quem entende realmente do riscado, aproximadamente 95% dos nossos dissabores são atribuídos a nós mesmos, principalmente por nossas incertezas. Quando na maioria das vezes pensamos termos certeza de alguma coisa, partimos para a ação precipitada, exatamente no momento mais inoportuno possível, quando o cavalo selado da vida de há muito já passou, ou sequer se aproximou ainda de nós, e assim, ao nos jogarmos, caímos, inevitavelmente, com os fundilhos no chão. Essas reações adversas acontecem, exatamente porque quase sempre, as nossas ações e atitudes são tomadas em cima dos nossos próprios egoísmos e de interesses mesquinhos. Não conseguimos pensar por muito tempo no coletivo. Já que deitamos, dormimos e acordamos com o nosso “eu” interior, claro está que é mais fácil pensarmos em nós mesmos. Quanto aos outros? Bem... Isto já é uma “outra história.” Não é comigo... Assovie... Olhe para os lados. Disfarça que lá vem gente. Os outros não são da nossa conta. Eles que se virem. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Não é assim?

Ele começou a crescer os olhos. A mente dele, antes bem articulada, agora se achava em pandarecos. Pudera, deitava e não dormia. Qualquer coisa dava-lhe nos nervos. Agora a movimentação por suas terras era muito mais intensa. Ele precisava fazer alguma coisa. Tinha que tirar proveito daquela situação. Aquela agitação por suas terras poderia lhe render muitos dividendos. Mas como começar? Até ali jamais houvera lucrado um centavo sequer com isso. Puxa vida ele não havia pensado naquilo! Como foi capaz de ser tão tonto durante todo aquele tempo? Quanto dinheiro ele teria arrecadado se tivesse cobrado antes? Não, não cobraria nada. Teria que ficar como estava. Não lhe parecia justo cobrar de alguém que estava apenas em transito por sua fazenda até porque não havia outro acesso. Não se prevaleceria disso agora. Bem... Pelo menos, por enquanto. Talvez um dia, quem sabe. Estas indefinições por si só já são mais que suficientes para indicar que o caboclo está “balançando.” Que os dois “diabinhos” um do bem e o outro do mal (uai, existe diabo bom?) estão pelejando entre si lá dentro do coité do peão. Quando é assim basta um pequeno empurrãozinho que o sujeito capota. Pois foi o que aconteceu.

José Maquinista. Esse brejeiro foi o primeiro a dirigir um veiculo por aquela região. Era um FORD de bigodes. Ele não era o dono, era chofer e ás vezes conduzia também o Ministro Francisco Sá. Chegou ao anoitecer no casarão da sede da fazenda de Tonico Lopes naquela tarde chuvosa depois de haver atravessado o rio verde. Ele trazia em sua companhia um cunhado seu de nome Raimundo que vinha da Capital. Pernoitaram por lá. Na manhã seguinte o acesso que permitia a passagem para o outro lado do rio verde aonde o viajante podia continuar sua jornada rumo ao Brejo das Almas e região, se encontrava com uma cancela e, ao lado da dita cuja uma placa com letras de forma e erros gramaticais sofríveis onde se lia: “PERDAGI DE UM CRUZERO PUR CABEÇA TANTO BOI CUMA GENTE. CARRO E CARROÇA UM E MEIO CRUZERO.” Dois capatazes completavam o cenário bucólico de bornal nas mãos, cobrando ou pelo menos tentando cobrar, daquela gente, pelo simples acesso para o outro lado. Utilizavam uma termologia estranha que até então ninguém por aquelas bandas ouvira dizer: “Pedágio”. Dessa forma conclui-se que a mesma tenha vindo da Capital trazida que fora por Raimundo, cunhado de Zé Maquinista.

Mas como é a necessidade que faz o sapo pular, não demorou muito e os transeuntes conseguiram encontrar alternativa mais trabalhosa porque tinham que dar uma grande volta para atravessar para o outro lado, mas menos onerosa, pois não tinham que pagar nada. Precavidos, colocaram outra placa “desvio a 500 metros”. Agora todos passavam por ali. Enquanto no pedágio, ninguém ia. Maior fiasco. A coisa miou. O tiro saiu pela culatra. A esperteza, como dizia Tancredo Neves, acabou engolindo o esperto. Pouco tempo depois a cobrança foi extinta. Tardiamente, alguém de bom censo veio lhe alertar que aquilo não valia a pena. Que era muito mais fácil para ele continuar sendo bom. Que cobrar dos outros para que transitassem por alguns metros sobre suas terras não era a melhor prática a ser adotada. Que era infinitamente muito mais valioso continuar ouvindo dos passantes o “Deus lhe pague.” “Deus lhe ajude.” “Deus te abençoe,” ou na pior das hipóteses, um “muito obrigado”. Dinheiro nenhum no mundo conseguiria substituir estas simples e fluídicas palavrinhas mágicas que brotavam do coração eternamente agradecido daqueles andantes.

É...

Por vezes, é preferível deixar como está para ver como é que fica. Se você não tiver certeza sobre que passo dar, que caminho seguir, plantar-se ao chão é o melhor negócio. E reze para que os ventos não o balancem.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 24/3/2012 13:23:23
Assim era Francisco Sá - Lucas do inferno

Enoque Alves Rodrigues

Criado no seio das tradicionais famílias Prates e Sá, de onde provem o Deputado Camilo Prates e os irmãos Francisco e Alfredo Sá, respectivamente, Lucas dos Infernos, escravo que fora lá na Fazenda Brejo de Santo André, Município de Brejo das Almas, hoje Francisco Sá, depois de ter servido ambas as famílias por mais de 40 anos, vivia, finalmente, seus dias de glória. Passava a maior parte do tempo em companhia de “seu Camilinho” como era chamado carinhosamente o Deputado Camilo Prates, que como recompensa pelo muito que o velho escravo Lucas fizera por sua família, como prova de gratidão, não permitia que ele trabalhasse mais. Aonde o Dr. Camilo ia, levava seu fiel escudeiro Lucas, um preto alto, magro, de olhos esbugalhados e faces largas. O que mais o destacava dos outros serviçais era a sua presença de espirito e seu astral sempre elevado até as nuvens. Exímio contador de “causos”, brincalhão, prestimoso, a todos conquistava com seu largo sorriso. Não havia quem não gostasse de Lucas dos Infernos. Sua alegria em qualquer parte onde ele estivesse contagiava a todos. No entanto, cortava uma cana dos diabos e, nem mesmo os efeitos etílicos conseguia mudar sua personalidade. Alias foi num desses porres homéricos que ele recebeu o aditivo “dos infernos” no nome. Dizia ele em mais uma de suas histórias, essa segundo afirmava, verídica, que após se embriagar teve sonhos assustadores onde de repente se achou em meio ao inferno junto com vários asseclas de Lúcifer. Depois de ele ter passado por “poucas e boas lá nas profundas” quando os capetas iam, finalmente, fechar os portões para mantê-lo encarcerado lá para todo o sempre, ele, assim como num passe de mágica, se despertou daquele tenebroso pesadelo. Foi a partir deste dia que ele teve o seu sobrenome “dos Santos,” substituído por “dos infernos.”
Lucas nasceu na Fazenda dos pais de Francisco e Alfredo Sá em uma época em que a escravidão se achava em plena evidência no Brasil. Ricos e poderosos, porém, os pais de Francisco e Alfredo jamais foram de dispensar quaisquer maus tratos aos escravos sob suas responsabilidades. Foi por isso que mesmo depois de abolida a escravidão no Brasil, a 13 de Maio do ano de 1888, por Sua Alteza, a Princesa Isabel Cristina Micaela e mais um milhão de nomes, quase todos os escravos que serviam os pais de Francisco e Alfredo preferiram continuar com eles. Assim sendo é certo que Lucas dos Infernos embalou, em infância, os sonhos destes dois irmãos, grandes estadistas, orgulho maior do norte das Alterosas.
Servidão e lealdade. Era este o binômio sobre o qual durante toda a vida repousava as relações de Lucas dos Infernos para com seus patrões ou senhores. Tanto em Brejo de Santo André, em casa dos pais de Francisco e Alfredo, como em Montes Claros em casa do Deputado Camilo Prates ou no Brejo das Almas, em companhia deste em casa do Padre Augusto, pois muitas vezes “Seu Camilinho” o cedia para ficar uma temporada com o Padre Augusto no Brejo das Almas, várias foram ás oportunidades que o preto Lucas teve de provar aos seus senhores o quanto lhes era fiel. O orgulho que tinha em servi-los era indescritível. Por isso que ele agora em idade avançada colhia os louros que amealhou durante muitos anos de dedicação e esmero.
Ele se levantava todos os dias lá pelas 8 horas da manhã. Depois de dar umas voltas pelo Centro do Brejo onde, entre um “causo” e outro, manguaçava nos muitos botecos, retornava ao meio dia para almoçar. Puxava uma palha até ás 14 horas e voltava ao Centro para continuar bebericando. Ás 19 horas após passar pela velha Matriz onde se ajoelhava e rezava aos pés do cruzeiro, regressava para casa. O Padre Augusto não se incomodava por este hábito. Isso era irrelevante ou sem muita importância. Lucas não incomodava ninguém. Bastava abrir a boca para contar suas histórias e piadas para que todos caíssem na gargalhada. Isto sim, era o que mais importava. O resto não tinha peso algum.
Naqueles tempos longínquos era prática comum ao dono da casa quando recebia visitas importantes, convidar algum de seus serviçais para contar-lhes algumas histórias ou piadas desde que desprovidas de duplo sentido ou qualquer grau pejorativo. Tais procedimentos, acreditem, retratavam o alto nível intelectual e financeiro com os quais o dono da casa era aquinhoado.
Certa vez se encontravam na casa do Padre Augusto, no Brejo das Almas, o Dr. Honorato Alves, Camilo Prates, Alfredo Sá, Jacinto Silveira, Antonio Ferreira, Francelino Dias, o próprio Padre Augusto e o famoso Jornalista Mário Cassassanta que à época escrevia uma matéria para um Jornal do Rio de Janeiro sobre o Brejo das Almas. Na grande sala de estar, sentados confortavelmente em bancos de couro depois de terem se esbaldado com o angu de fubá com molho de quiabo e brotinhos de feijão de corda, que Wenceslau sabia preparar como ninguém, lá pelas tantas chamaram o negro, velho escravo “aposentado” para contar suas anedotas. Entrou todo faceiro e gracioso. Sentou-se em meio à roda de visitantes e pôs se a olhar nos olhos do Dr. Camilo e do Dr. Alfredo. Estava à espera de um sinal de ambos para que pudesse iniciar. O sinal não vinha. Por certo que nem o Dr. Camilo tampouco o Dr. Alfredo foram avisados por Lucas dos Infernos dessa sua nova mania. Depois de algum tempo de trocas de olhares sem que o sinal fosse enviado, o Dr. Camilo vendo que a plateia já se achava inquieta, perguntou-lhe:
- E então, Lucas. Não vai começar? Até quando você vai nos deixar aqui sedentos por ouvir suas belas histórias, menino?
- Não posso senhor, respondeu Lucas levando as duas mãos à cabeça. Só poderei começar quando o senhor e o doutor Alfredo me autorizarem. Para tanto basta que cada um pisque seu olho esquerdo, ao mesmo tempo, simultaneamente. Dito isto, estufou o peitoral pra frente, esticou o longo pescoço e arregalou os dois olhões sobre ambos em busca do impossível que não veio, pois por mais que os Doutores Camilo Prates e Alfredo Sá tentassem, não conseguiam sintonizar suas piscadelas. Quando um fechava o olho para piscar, o outro abria, e vice-versa. Depois de longos minutos neste diapasão coube a Jacinto intervir.
- Compadres, por favor, parem com isso! Os senhores ainda não perceberam que este Lucas dos Infernos está tirando sarro de todos nós? O que ele lhes manda fazer, jamais conseguirão. Ninguém é capaz de fazer isso. Foi bem mais fácil para mim, apesar de sabermos o quanto me foi difícil, (o Coronel Jacinto, como bom Mineiro, de quando em vez também se dava ao luxo de colocar em prática o seu Mineirismo), emancipar o Brejo das Almas. Este negro não quer contar história coisíssima nenhuma!
Sábias palavras. Não fosse isso e ambos estariam até hoje piscando um para o outro. Claro, se não tivessem, há muito tempo, partido para o Andar de Cima. Antes que Jacinto fechasse a boca encerrando seu comentário, Lucas dos Infernos já soltava sua diabólica e sarcástica gargalhada seguida da frase que ele sempre utilizava nestas ocasiões: “Peguei vocês, outra vez, seus espertos!”
Em um inesperado efeito dominó, todos os presentes, ao mesmo tempo, no mesmo minuto, no mesmo segundo, na mesma fração de milésimo, em tempo real, simultaneamente, sei lá mais o que, caíram no riso.
- Uai, sô, dirão alguns, porque razão todos eles conseguiram rir ao mesmo tempo, fazendo com facilidade o que certamente seria o mais difícil?
- A resposta veio do próprio sábio Lucas dos Infernos ainda no meio da roda de visitantes ilustres.
- Todos e não somente dois conseguiram fazer o mais difícil por que ninguém lhes disse o que teria que ser feito. É necessário dar ao homem liberdade para pensar e agir, acertar e errar, sem que outros lhes digam o que se deve ou não fazer. É para isso que cada um tem a sua cabeça!
É...
Por vezes, revelar o segredo poderá não ser uma boa atitude. Oculta-lo talvez seja o melhor atalho para se chegar ao êxito. Urge ensinar o ser humano a acertar.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 17/3/2012 13:38:21
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – WENCESLAU, O MANDINGUEIRO II

Enoque Alves Rodrigues

Difícil, para não dizer impossível, contar a história de Wenceslau Bispo dos Santos, “O azar” em um só capítulo. Ainda bem que preveni vocês quanto a merecida continuidade, pois seria uma pena resumi-la em uma só parte. Acredito que o pouco que contei em crônica anterior não faria justiça ao muito que significou aquela límpida alma para aquelas setenta e quatro crianças carentes, que foram resgatadas das ruas do Brejo, pelo Padre Augusto Prudêncio da Silva, em situação de miserabilidade extrema.
Apenas para lembrar, “Azar” surgiu naquele pequeno Orfanato que ficava na antiga Rua do Padre ou Rua da Amargura esta última denominação atribuída à tristeza e melancolia da qual era a mesma acometida durante a semana santa, como que por encanto. Jamais se soube ao certo quem foi que o enviou. Aliás, esta era uma preocupação do Padre Augusto, que, no entanto, só perdurou até ele conseguir ler e decifrar, inteiramente, tudo que se passava na cachola de Wenceslau. Finalizados os seus estudos, analises e conclusões, resultaram indiscutivelmente positivas as boas intenções e ações de “Azar”. Foi a partir daquele voto de confiança do Padre, o qual “Azar” jamais burlou que ele foi investido nas funções de colaborador direto do Padre Augusto, dedicando-se, de corpo e alma a cuidar daqueles menores necessitados. Se algo nos surge no caminho para nos fustigar, certo está que removeremos Céus e Terra no sentido de detectarmos o mais rapidamente possível a origem do mal que nos aflige para eliminarmos antes que nos elimine. Já com relação às dádivas ou acontecimentos positivos que de quando em vez nos brotam no caminho, não temos as mesmas preocupações. Elas vêm e vão sem que nós sequer nos demos ao trabalho de dar uma espiadela no que tange ao seu nascedouro e quais foram os percursos que elas tiveram que percorrer para chegarem até nós. Somos falhos, sim senhor, mas devo dizer que esse procedimento é natural a todos nós humanos. Portanto não chega a ser um erro ou desvio de conduta. Talvez a explicação se prenda ao fato de nos subestimarmos, julgando-nos, em função de nossos débitos contraídos com o pretérito, não merecedores de qualquer dádiva. Bestagens. Ninguém recebe do Alto ou de quem quer que seja nada além do que realmente merece. Ou, então, o pior, por nos acharmos excessivamente merecedores acabamos por não darmos a atenção devida a estas dádivas. “os Céus não fizeram mais que sua obrigação!”
Mas o Padre Augusto, como já disse em várias oportunidades, era incomensuravelmente espiritualizado. Se à época estivesse em voga a termologia “católico espirita” o Padre Augusto a ela se enquadraria sem delongas. Ele sabia de tudo. Por isso não tinha porque investigar. Ele possuía o dom da clarividência. Voltemos ao Wenceslau, o “Azar”.
Ao compulsar os anais da história de Brejo das Almas, hoje Francisco Sá, minha “beldade do norte de Minas,” (Nossa, há quanto tempo não a chamo assim), você irá constatar inúmeras invasões da pequena Cidade por tropas de bandoleiros que se intitulavam legalistas que agiam em nome do Governo, sob cuja égide praticavam as piores atrocidades. Eram violentadores, ladrões e arruaceiros mal cheirosos que a ninguém respeitava. Aonde eles chegavam o pânico estava instalado. Invadiam as roças, criações de gados, porcos e galinhas. Entravam em casas residenciais e comerciais, levavam tudo o que queriam e ninguém podia dizer nada. Só de vê-los de longe já dava medo.
A mais temida “coluna” de bandoleiros que adentrou Brejo das Almas teve como chefe Rotilio de Souza Manduca que se autodenominava Coronel e “Patriota Supremo.” Isso aconteceu precisamente no dia 18 de Fevereiro de 1926. Aquele sujeito juntamente com sua tropa, formada por mil tranqueiras da pior espécie, permaneceram na Cidade por exatos 52 dias. Semearam o terror. Quando finalmente levantaram acampamento, rastros de destruição eram evidentes por se assemelharem às devastações vulcânicas. Mas antes de irem embora tiveram que passar pelo constrangimento de serem “peitados” pelo negro “Azar” que os humilhou publicamente. “Azar” era um tipo de “guardião” do Padre Augusto, apesar deste jamais necessitar disso, pois o Padre também não era de mandar recados e sabia “se virar sozinho.”
Ao lado da casa do Padre havia um grande mangueiro onde ele mantinha seus animais de montaria pastando, além de algumas vaquinhas que abasteciam com o leite, o bucho de seus pequenos internos e uns porquinhos de engorda para a extração de banha, carne e torresmos, porque ninguém é de ferro. Manduca, já no final de sua “estada” no Brejo, não tendo mais a quem acharcar, cismou de mexer com as coisas do Padre. Primeiro mandou que um de seus homens amarrasse um cavalo no cruzeiro que ficava em frente à Igreja. O Padre que naquele momento rezava missa interrompeu a homilia e, aos berros ordenou que o capanga tirasse imediatamente o cavalo do cruzeiro. Este retrucou dizendo que só recebia ordens de seu superior Manduca. O Padre que tinha uma força “estranha” no olhar observou-o com “ternura.” Alguns segundos depois o pobre jagunço começou a tremer e a se borrar. Rabo entre as pernas desatou o nó do cabresto no cruzeiro e deu no pé com sua animália. Chegando ao acampamento que ficava em frente ao mercado velho, inteirou Manduca do ocorrido. Este, de propósito foi pessoalmente até o mangueiro do Padre e, lá chegando, juntou duas vaquinhas, quatro leitões e a mula de estimação do Padre. Quando já estava de saída com os produtos do roubo, antes de ganhar a porteira, deu de cara com o negro Wenceslau, o “Azar.”
- Deixe estes animais ai, disse-lhe “Azar”, porque eles não lhe pertencem. Eles são propriedade do Padre e ninguém vai levar na mão grande.
- Sou Coronel, respondeu-lhe, Manduca, trabalho para o Governo em beneficio do Cidadão. Tudo que estiver a minha frente eu posso utilizar. Eu vou levar, sim, e não será um negro como você que me irá impedir!
- Bem, retrucou Wenceslau, você pode ser Coronel lá pra suas negras. Aqui neste solo sagrado você não passa de um pé rapado. Vá embora enquanto há tempo.
- Quem você pensa ser, disse-lhe Manduca, para me falar desse jeito?
- Vá simbora, voltou a dizer “Azar”, que é o melhor que você tem a fazer!
- Você não vai? Bem, eu lhe avisei.
- Mas você me avisou do que seu negro safaaa...
Não conseguiu finalizar a frase. Um quase inaudível assovio de “Azar” foi mais que suficiente para que nuvens de maribondos ávidos por picarem sangue ruim, caíssem sobre Manduca, que quanto mais tentava se proteger mais era atacado. Não lhe restou alternativa senão implorar ao bom “Azar” para que fizesse que os maribondos parassem de ferra-lo. “Azar” após obter de Manduca a palavra de que jamais voltaria a incomoda-los ordenou, com outro assovio, que os maribondos o deixassem. Humilhado, mas covarde, Manduca retirou-se ameaçando retornar para finalizar seu intento em outra oportunidade.
"Azar” ouviu-o atentamente e no final foi claro: “Não haverá outra oportunidade seu bandoleiro besta. Você não entendeu o que eu lhe disse que isso aqui é solo sagrado por ser terra do Padre? Seus pés sujos não podem pisar mais aqui.”
Dois dias depois Manduca, em companhia de trinta de seus melhores jagunços, retornou ao mangueiro do Padre em calada sorrateira. Vinham pisando em algodão para não levantarem suspeitas. Pretendiam levar todos os animais do Padre. Já estava acessa uma grande fogueira no acampamento para assarem os porquinhos. Não tiveram tempo. Outra vergonhosa derrota agora os esperava. Entraram todos no mangueiro. De onde surgiu tanto lamaçal jamais se soube. O que se via e até soava engraçado, era aquele bando de marmanjos tentando se equilibrar sobre as pernas, que se achavam enterradas no barro até a altura dos joelhos.
Sobre a porteira, confundindo-se com um preto mourão, Wenceslau ou “Azar” observava. E à maneira que a turba tentava sair do barro mais se afundava. Quando isso acontecia, “Azar” soltava grandes gargalhadas a guisa de gozação. O negro era perverso quando queria. Não contente em somente ele apreciar aquela cena deprimente para quem, como Manduca, se dizia autoridade, foi até o Largo da Matriz onde convidou os presentes a irem assistir aquele dantesco espetáculo. Todos viram. Mas ninguém acreditou. Aquilo não era possível. Amedrontados tentaram segurar o riso. Mais “Azar” foi implacável: “Suas pulgas, não trouxe vocês aqui para chorar, mas para sorrir. A menos que estejam com pena deles.” Pronto: era tudo que faltava. Sarcásticas gargalhadas foram ouvidas durante toda a madrugada. Não satisfeitos, subiram sobre a cerca e de lá, qual plateia no Coliseu Romano, dos tempos de Nero, atiçavam: “Vamos, seus bocós. Queremos ver quem de vocês vai sair primeiro desta merda!” Outros, diziam, “cuidado, não vão se misturar!”
De manhã, ao se levantar, o Padre Augusto, já velho e meio surdo, custou a entender de onde partia aquela algazarra. Levantou-se e se dirigiu até o mangueiro. Lá estavam todos, cansados e esbaforidos. Enterrados agora até a cintura. Ao avistarem o Padre foram logo dizendo: Tire-nos daqui, tire-nos daqui. Sua Reverendíssima, “piedosamente” apenas observava. Depois de algum tempo, mineiramente, lhes indagou: Por favor, meus “filhos”, quem foi que os colocou em meio a tanto barro e bosta de vaca? Como é que vocês foram parar ai? Porventura, disse-lhes o Padre, entre sorrisos, estavam vocês praticando alguma estripulia? Eu não acreditaria devido serem vocês bastante crescidinhos.
Todos, desesperadamente, responderam a uma só voz, apontando para “Azar”: Foi ele. Foi este preto dos demônios que nos colocou aqui neste inferno!
- Então, disse-lhes o Padre, se foi ele que os colocou ai, ele que os tire. Eu também, assim como um de vocês me disse outro dia, não sou empregado dele e de ninguém. Eu só trabalho para Deus!
Dito isto juntou a batina e se retirou.
Agora, por favor, amantíssimos conterrâneos, brejeiros do meu coração, povo meu, não perguntem a este quase sexagenário, cabeça branca, o que Manduca teve que prometer desta vez a Wenceslau, para que os liberasse. O que posso lhes informar é que na manhã daquele mesmo dia todo aquele “exército de sujos” era visto a caminho da Bahia. Derrotados, apontavam suas armas para o alto e disparavam. Vitoriosos, agora felizes e aliviados, os Brejeiros, lá atrás, respondiam com sonoras gargalhadas e fogos de artifícios.
É...
Por vezes, ou quase sempre, a prudência nos recomenda que não ha fracos nem fortes diante das estratégias do sobrenatural. O importante é saber achar o “ponto G” do equilíbrio.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 10/3/2012 17:17:34
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – PADRE SALÚ E TIBÚRCIO

Enoque Alves Rodrigues

SERRA DO CATUNI - BREJO DAS ALMAS
Quando em 17 de Março do ano de 1931, acometido por um câncer na garganta, o Padre Augusto falecia no Brejo das Almas, preocupações e incertezas se apossaram das famílias Brejalminas. Todas as atenções agora pairavam sobre uma dúvida muito séria, mas oportuna, pelo fato de que o Padre, que ora perdiam, era muito querido no lugarejo. Todos o adoravam. Ele fazia por merecer.

Quem seria o seu substituto?

Por muito tempo esta pergunta permaneceu no ar. As beatas, que já não sabiam mais o que fazer, sequer conseguiam dormir. Não dava mais para levar adiante, até o seu final, novenas e terços. Além de terem que conviver com a ausência do Padre Augusto, ainda se sentiam desamparadas pela falta de um condutor dos destinos dos católicos da região. Algum tempo depois, soavam-se as trombetas anunciando a chegada de um novo Pároco para os serviços eclesiásticos junto aos pecadores de Maria. Curiosos, todos, indistintamente, acorreram-se a velha Matriz para se certificarem da boa nova. Sim. Era verdade! Lá estava ele, robusto, o senhor Padre, vestido com sua batina de gala. Estrearia com ela a primeira missa na calorosa tarde outonal daquele mesmo dia.

Apesar de vir da diocese de Salinas, distante a poucos quilômetros de Francisco Sá ou Brejo das Almas, ninguém no Brejo o conhecia. Sequer antes ouviram falar seu nome. Logo o inevitável passou a acontecer. O povo, acostumado com a forma carinhosa do Padre Augusto que permaneceu à frente da Igreja do Brejo por trinta e cinco anos, passou a fazer comparações. No frigir dos ovos resultava como liquido e certo que aquele Padre que agora substituía o Padre Augusto, diferia deste como a água do vinho. Nada, absolutamente nada tinham em comum.

Salustiano Fernandes dos Anjos, ou Padre Salú, era este o nome do sucessor do Padre Augusto. Enquanto um era dado a longas conversas, preocupando sempre em ouvir atentamente o interlocutor para, no final, oferecer seus préstimos que sempre eram acompanhados por palavras de carinho, motivação e ternura, o outro era ríspido. De poucas palavras. Não era muito de ouvir. Chegava mesmo a interromper aos berros, fiéis em confissão. As missas já não tinham mais o ânimo de outrora e o povo começou a se debandar. A Igreja, aos poucos, foi se esvaziando e os casamentos e batizados se escassearam. Os jovens continuavam com vontade de se casar, ter filhos, batiza-los, etc. No entanto, quando imaginavam a cara de bravo do Padre Salú, perdiam a vontade, neste caso, literalmente, perdiam o tesão. Questionava as moças e os mancebos quanto a seus respectivos celibatos numa época em que vários tabus existiam sobre este tema, que não era tratado nem mesmo no seio da família. Quando nas cerimonias de batismos ao perguntar aos pais que nome dariam ao filho, se este nome não fosse de seu agrado ele simplesmente o substituía por outro. Caso houvesse recusa dos pais ao novo nome, encerrava ali mesmo a cerimônia, deixando o anjinho pagão. O padre Salú era muito materialista. Não era mau, tanto que era Padre. Era demasiado criterioso e entendia que com estes pequenos exageros, estaria zelando melhor de seu rebanho.

O fim não justifica os meios. Mas é possível que o fato de o Padre Salú, ao contrário do Padre Augusto, vir de camadas sociais mais abastadas, o tenha influenciado para que ele fosse desse jeito. Passava a impressão de que não gostava de pobre. Que apenas o tolerava por força de um oficio que pouco se parecia com uma vocação. Mas no fundo como eu já disse, ele era boa gente. Era do bem, indubitavelmente, desde que não comparado ao antecessor. Ai não tinha jeito mesmo. O outro ganhava de goleada.

Tibúrcio Procópio Soares, ele colaborava com o Padre Salú nos trabalhos da Igreja. Funcionava como ajudante de ordens e Sacristão, destes que muitas vezes se esquecem, até mesmo de tocar os sinos. Tibúrcio era nascido em Grão Mogol. De lá foi para Salinas onde trabalhou nas Fazendas dos pais do Padre Salú. Das fazendas passou a colaborar com o Padre nos trabalhos da Igreja. Foi por isso que ao ser transferido para a Freguesia do Brejo das Almas, sim, quando o Padre Salú chegou ao Brejo, o Brejo ainda não era Francisco Sá, pois só veio receber esta denominação em 1938, levou consigo seu ajudante e fiel escudeiro, Tibúrcio.

Vejam vocês as coincidências. Não foi, creiam-me, propósito meu. Na semana passada me achava aqui, neste mesmo horário e prefixo escrevendo sobre um ajudante de ordens de outro Padre. Nesse caso, o Wenceslau, ou “Azar”, que surgiu como por encanto e trabalhava com o Padre Augusto, cuja alusão, fiz acima. Já que, sem querer, comparamos os costumes daquelas duas figuras exponenciais da vida religiosa do Brejo, por que não traçaríamos analogias entre seus dois serviçais? Não vou, no entanto, cansar vocês relembrando algumas façanhas do bom “Azar”. Voltarei a ele em outras oportunidades. Fixemos, agora, em Tibúrcio.

Vinte e seis anos, alto, mulato, semblante fechado, jamais sorria. Passava por todos nas ruas sem sequer cumprimentar. Mirava a todos com o olhar severo de uma Madre Superiora. De cima para baixo. Encrenqueiro dos mais temidos. Mentiroso de nascença e carteirinha. Garganteador. Nem ele mesmo acreditava no que falava. Somente o Padre lhe dava crédito. Certa vez arrumou um “fuzuê” na “ZBM” que ficava próximo ao Centro. Desentendeu-se com um tal de Calixto de Vaca Brava. Chegaram ás vias de fato. Rolaram pelo chão. Ele tinha dois metros e meio de altura. Calixto tinha três. Os cinquenta centímetros a mais fez a diferença. Levou uma tremenda sova. Chegou a Igreja todo ralado. Indagado pelo Padre Salú, foi logo dizendo: “Estava participando da novena ao São Gonçalo e ao passar defronte a uma casa suspeita fui atacado por um tal de Calixto.”

- Dê-me, disse-lhe o Padre, o nome completo desse facínora que eu vou amaldiçoa-lo agora mesmo! Que mal poderia fazer você, este “santo homem,” a ele para que agisse dessa maneira? Não se agride assim um “homem de Deus.”

O Padre Salú era assim: o que pertencia a ele era valorizado ao extremo ainda que pouco ou quase nenhum valor tivesse. O simples fato de fruir do convívio e confiança dele já era motivo mais que suficiente para que tivesse dele total proteção. Uma pena que somente Tibúrcio tinha esta primazia e deferência.

A aspereza e o jeito rústico de ser, destarte, haver tido uma boa educação de berço, ás vezes arrebatavam o Padre Salú aos mais tenebrosos pensamentos e comentários. Dizia, por exemplo, em seus devaneios, ao se referir ao câncer na garganta que ceifara a vida do Padre Augusto, seu antecessor, que “o Padre só morreu de doença ruim porque era muito bom para os outros.” Dando assim uma falsa conotação de que os Céus não pertencem aos justos e bons.

Algum tempo depois, retornando de uma pescaria, sentiu uma pequena fisgada na perna esquerda. Depois veio uma dorzinha de cabeça chata que não passava nunca. Daí a pouco o estomago começava a dar voltas. Comia, mas as substâncias dos alimentos não se retinham no organismo. Bebia um copo de água, por pequeno que fosse e se achava como se tivesse engolido um elefante inteiro. Nesse entrementes o humor que já era ruim, piorou. Não tinha “Niquinho”, nem “Francelino, o França” os “doutores” da farmácia do Brejo, assim como não tinha também o Dr. João José Alves, na bela MOC.
Procurou, então, os médicos da Capital das Alterosas “Belzonte” que foram taxativos e implacáveis no diagnóstico: “Câncer em estágio avançado e irreversível nos intestinos!”

Após longo padecer, agora era a vez de Salustiano Fernandes dos Anjos, o Padre Salú, acompanhar o seu antecessor na longa viagem rumo ao Cosmos. Igualando-se a ele, pelo menos neste quesito, onde todos nós somos iguais perante as Leis Infinitas que Regem o Universo. Seu espirito, finalmente, pode comprovar meio decepcionado, que a morte não é o fim e que viver não é nenhum privilégio. Que não existem diferenças entre mortos e vivos senão a simples e ás vezes chocante e assustadora troca de vestimenta. Sim, porque mesmo que você não creia, saiba que quem escolhe os “modelitos” que pretende vestir lá em cima somos nós mesmos, enquanto aqui no chão.

Quanto a Tibúrcio, por algum tempo, ainda continuou no Brejo. Mas depois retornou para Salinas de onde ninguém mais teve noticias.

É...
Continuo com aquele certo William.

Por vezes, dizia ele, “há muito mais coisas entre o Céu e a Terra além do que supõe nossa vã filosofia.”

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 3/3/2012 18:16:40
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ - WENCESLAU, O MANDINGUEIRO

Enoque Alves Rodrigues

Quando em 1914 o pequeno Orfanato particular que era mantido pelo Padre Augusto Prudêncio da Silva, em Francisco Sá, Brejo das Almas, atingiu a marca de 74 (setenta e quatro) pequeninos abandonados à própria sorte e que agora encontravam guarida no seio daquele coração misericordioso, coincidentemente ou não, sem que se soubessem ao certo de onde veio, “brotou”, ali, na antiga Rua da Amargura ou Rua do Padre, ou especificamente naquele simples Orfanato, um negro alto, feio, de pele áspera e olhos vermelhos esbugalhados, de andar ziguezagueante. A princípio aquela imagem aparentemente sinistra e ameaçadora, causou um verdadeiro rebuliço a todos. O próprio Padre Augusto, que nada temia, até porque como é de conhecimento de todos, mantinha relações muito estreitas com o mundo invisível, se assustou. Sua Reverendíssima na verdade não gostava de surpresas. Por isso indagava a si mesmo: Quem quer que tenha enviado aquele negro à sua porta teria por obrigação avisa-lo antes. Sim, por que o negro Wenceslau chegou até a casa do Padre com endereço certo. Viram-no, inicialmente, em frente ao velho mercado com um pequeno e amarelado pedaço de papel à mão. Ali notaram que alguém apontava para a direção da Rua da Amargura. Não haveria dúvida, aquela “aparição” repentina tratava-se de uma encomenda. De um presente. Bem, se se tratava de um presente que não fosse de gregos. Não haveria outra forma de saber senão perguntando. A curiosidade que “matou o gato” agora atazanava a vida do Padre. Ele queria saber de onde viera o negro Wenceslau, mas não queria constrangê-lo com perguntas e indagações inoportunas, até porque ele tinha isso como principio. Ajudava a todos sem sequer perguntar de onde veio ou quem foi que o abandonou. O Padre Augusto sobre quem tive o privilégio de dedicar várias crônicas era exatamente assim. Um santo na terra, diziam todos que o conheciam. Fazia tudo em beneficio dos menos favorecidos, muitas vezes em detrimento de si próprio. Quando a Igreja de Roma não era a potência econômica que é hoje, ele deixava de comer para repassar o seu pão a uma boca mais necessitada e esfomeada. O Padre Augusto era incondicionalmente comprometido com as massas desfavorecidas pela sorte. Era, guardadas as devidas proporções, um São Vicente Brejeiro.

Durante uma semana o Padre manteve-se calado. Apenas observava as atitudes do negro Wenceslau. Quanto mais o observava mais curioso ficava. Sim, porque o negro por possuir idade aproximada de dezoito anos era mantido apartado dos pequenos onde a faixa etária atingia os 14 anos. Ele dormia numa pequena edícula nos fundos.

Wenceslau levantava-se de seu catre e já catava uma vassoura. Punha-se a varrer todo aquele casarão. Quando terminava a varrição, corria de espanador e pano em punhos a limpar os móveis rústicos. Terminada esta tarefa ia até a cozinha oferecer seus préstimos no preparo da comida. Quando tudo estava pronto, pegava os pratos que estavam sobre as mesas diante de cada menino e servia-os. Depois disso servia o Padre que tinha como hábito alimentar, primeiro se servir de um bom e fundo prato de sopas de legumes para só depois passar ao prato principal. Somente após servir a todos é que o negro Wenceslau se servia. Mesmo assim, pegava o seu pratinho e se dirigia a um dos cantos da sala. Nestas ocasiões era sempre repreendido pelo Padre que se levantava de seu lugar à mesa, geralmente na cabeceira e, de braços dados com o negro Wenceslau, levava-o até a outra cabeceira da mesa, onde fazia questão de que ele de assentasse, após lhe aplicar pequeno sermão: “Este lugar é seu por direito. Você não é aqui escravo de ninguém. Se você tem o trabalho de se dedicar a tudo e se esmerar para que tudo saia bem, você tem também o direito e a obrigação de usufruir.”

Não demorou muito e Wenceslau ganhou as graças de todas as crianças. Fruía, agora, de toda a confiança do Padre Augusto que, já meio cansado e alquebrado pelos anos, cuidava daqueles pequenos com certa dificuldade. Dotava-os de conforto alimentar pífio, que as sobras parcas da descapitalizada gente Brejeira permitiam. Não tinha mais pique para fazer gracinhas. Até porque isso não era o seu forte. Mas o negro não. Ele estava em plena flor da idade. Com todo o gás e cheio de vontade de animar aquele Orfanato com cara de velório. O Padre sentia que faltava alguma coisa para aquelas crianças. O Padre sabia que ninguém vive só de comida, bebida e estudo. Faltava alegria. Faltava motivação. Faltava entusiasmo. Wenceslau fez uma careta. A molecada caiu na gargalhada. O Padre franziu a testa. Wenceslau recolheu-se. No dia seguinte Wenceslau puxou as duas orelhas de um dos moleques. Balbuciou alguma coisa aos ouvidos e com trejeitos símios, com uma careta assustadora começou a grunhir. Todos caíram na gargalhada, inclusive o Padre. Pronto, o sorriso do Padre era a senha que Wenceslau queria. Era a assinatura da autorização que ele necessitava para daquele dia em diante tornar a vida daquele pequeno Orfanato a mais alegre possível. Definitivamente, lançava-se ali, naquele momento, os “pródromos de uma nova era.” A era da alegria.

Wenceslau Bispo dos Santos, ou “azar”. Era esse o seu nome e apelido. Veio na verdade de Taiobeiras, na região. Não conheceu os pais. Vivia com uma avó que ao falecer, levou-o a perambular pelas estradas que davam no Brejo. O “azar” que ele fazia questão de incorporar ao seu nome, segundo ele próprio informava, era porque não tivera a sorte de conhecer os pais que segundo lhe dissera a avó, morreram de paludismo. Ele era feio de doer. Nem precisava fazer caretas. Mas era um verdadeiro templo de simpatias e cordialidades. Fazia graça com tudo. Brincava com todos sem jamais ser grosseiro. Tinha uma piada para cada menino. Visitantes do Padre eram alvos de suas brincadeiras. Até mesmo o Coronel Jacinto Silveira, meio sisudo, por natureza, recebia com sorrisos os seus gracejos. Era ele especializado na arte da mandinga inocente. No entanto ele só as realizava a pedido dos internos quando o Padre Augusto não estava por perto.

Certa vez todos os meninos se acercaram da mesa, pois “Azar” ou Wenceslau, ia fazer o número do ovo. Consistia no seguinte: ele deixava um ovo na cabeceira da mesa e se assentava na outra cabeceira de onde, gesticulando com as duas mãos e proferindo frases aparentemente desconexas, ordenava que o ovo rolasse até ele. O ovo que a primeira vista se achava imóvel, de repente começava a mover-se e dali a instantes estava na outra ponta da mesa. Nas mãos de “Azar.”

De outra feita tentou repetir a façanha. Toda a petizada ao redor da mesa. “Azar” tomou seu lugar costumeiro na cabeceira. Na outra cabeceira estava o ovo. “Azar” iniciou seu ritual com palavras incompreensíveis aos mortais. Contorcia todo em jeitos e trejeitos. Fazia diabólicas caretas. Acenava para o ovo. Em habitual gesto de chamamento para si num abrir e fechar de mãos e o ovo, nada! Permanecia inerte. Mortinho da silva. Por mais que ele se esforçava, o ovo não se movia. Os pequenos infantes já se desesperavam. Sedentos estavam para verem uma vez mais aquele ovo, qual morena faceira, partir em direção aos braços do feio Wenceslau e finalmente pousar em suas grossas mãos. Lamento informa-los mais desta vez a coisa, literalmente, não rolou. Ovo parado não tem graça. Empacou qual jumento baiano. Ninguém o faria mover-se. Total decepção.

Foi quando o pobre do “Azar” levantou a cabeça. De soslaio visualizou em meio a multidão de moleques dois enormes olhos azuis. Percebeu também que o rosto ao qual pertenciam aqueles grandes olhos era de há muito, dele conhecido. Fixou-se um pouco mais e constatou vasta cabeleira branca à guisa de véu. Era sim. Era ele mesmo. Era o Padre Augusto, o “dindinho” como o chamavam. Ele estava ali presenciando a cena. Não devia...

Num misto de assustado, envergonhado, decepcionado e constrangido, “Azar” que jamais antes houvera pronunciado qualquer palavra destoante de sua vida simples de matuto agora afinado até a medula com as cousas dos santos evangelhos, não conseguiu se segurar. Fixando o olhar vermelho no Padre entre a molecada, começou a se justificar aos gritos.

- Diabo! Capeta! Inferno! Agora eu descobri porque este maldito ovo não me obedece. É porque Sô Padre está ai no meio de vocês, diabos! Na frente dele o ovo não anda. O ovo só anda quando ele não está por perto!

O Padre olhou-o com piedade e brandura. Depois de lhe sorrir, agora foi sua vez de lhe tirar uma casquinha. “Pois é, meu bom “Azar”, eu só estava querendo lhe ajudar.”

- Desculpe Sô Padre, mais eu não sei “que diabo” o senhor tem nos olhos que não permite que o ovo ande.

- Engano seu, meu querido, disse-lhe o Padre, sente-se no seu lugar e chame o ovo, novamente!

Assim foi feito. O ovo sem maiores delongas andou. Caiu nas mãos do negro Wenceslau, o “Azar”. Agora com os olhos mais esbugalhados que nunca. Assustadíssimo. Em vias de sair correndo.

- “Cruz Credo... Por mil demônios. Esse Padre é o capeta mesmo!”

Para o Padre que só queria ajudar a emenda saiu pior que o soneto.

É...

Por vezes, dizia um certo William, há muito mais coisas entre o Céu e a Terra além do que supõe nossa vã filosofia.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 26/2/2012 09:12:16
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – MESSIAS, O BENZEDOR.

Enoque Alves Rodrigues

Ele não tinha do que reclamar. Estava, indubitavelmente, atravessando uma época muito próspera e favorável em sua vida. Até então tivera uma vidinha bem insossa. Apertada ao extremo onde até mesmo o básico necessário à subsistência lhe faltava. Agora, não. A vida finalmente lhe sorrira. Ele estava feliz. Efetivamente, pensava ele, esta era sua melhor fase. Cada enxadada era uma minhoca. E meditava: “justo ele que até ali tudo o que fez em sua vida foi reclamar de tudo e de todos!” Nada para ele estava bom. Sempre faltava alguma coisa. Mas é sempre assim. Você já percebeu que aqueles que menos fazem são os que mais reclamam da vida? Pois é, ele era assim. Quando lhe “sobrava” um tempinho, entre uma reclamação e outra, vendia alguns dias de serviços nas Fazendas das redondezas. Será que alguém lá de Cima ouviu, por fim, suas reclamações?” É o que veremos na seqüência.
Messias Dias Pereira, era esse seu nome, na realidade, pouco ou quase nada fizera para usufruir de todo aquele conforto. Mas, honesto como era, apenas não gostava muito do batente, nada de errado fizera que maculasse sua irrepreensível conduta. Apesar do sobrenome, nenhum parentesco tinha com Zeca Guida.
Nascido em São Geraldo, criança ainda, descobriu que não tinha muito jeito com o cabo da enxada. Com os cambões de bater feijões, então, nem pensar. Feijão mesmo ele só batia no prato e de preferência bem cozido. Foi desastrosa a sua estréia no “oficio” de batedor de feijões que teve como palco inicial as terras de Saturnino, ainda em São Geraldo. Quando ele punha a mão nos cambões, antes de erguê-los para arriar sobre a montanha de feijões, os camaradas batedores abriam a roda e, com medo de que os cambões fossem soltos sobre suas cabeças, afastavam-se, deixando-o sozinho o que tornava à lide contraproducente. Não demorava muito e o dono do trampo o dispensava. Foi assim, também, na fazenda de Zeca, em Cana Brava, já que ao mudar para o Centro do Brejo das Almas, ou Francisco Sá, ainda rapazinho, pouco ou quase nada fazia que se pudesse classificar como trabalho duro. Como já informei anteriormente, ele, de vez em quando laborava, levemente, em Fazendas adjacentes.
Coincidentemente ou não, entre idas e vindas a uma destas Fazendas, foi que sua vida começou a mudar. Passou a ostentar alguns sinais de melhoria financeira. Naqueles longínquos tempos, assim como o é ainda hoje, guardadas as devidas proporções, entre elas, o aumento demográfico e a evolução cultural da gente Brejeira, não era necessário que o individuo saísse muito dos trilhos para cair na boca do povo. Assim sendo, progredir, sem que se tivesse uma fonte de renda muito bem definida e, de preferência, de conhecimento de todos, nem pensar. Cidade pequena aqui ou em qualquer parte do mundo é sempre assim. Todos se conhecem. A maioria tem algum grau de parentesco mesmo que não o saiba. Não conhecer procedência e filiação de algum morador local era tido como tremenda falta de informação. No Brejo das Almas dos meus tempos os indivíduos solteiros eram identificados pela filiação paterna ou materna. Eu, por exemplo, era conhecido como “o Enoque da Dona Nazir do Grupo.” O “grupo” aqui se referia ao vinculo de minha doce mãe ao Grupo Escolar onde era professora. Uma vez casados, ganhavam, imediatamente, uma nova identidade. Agora com o nome da esposa ou do marido. Hoje, se ainda no Brejo residisse, provavelmente seria esta a minha identidade: “O Enoque da Teresa.” É isso mesmo, ao contrário do nome da mãe do cabra que era precedido do “dona”, não era comum se utilizar o mesmo ao se referir à esposa. Somente os casais antigos recebiam esta denominação “seu fulano da dona sicrana” e vice-versa. Passemos adiante.
Rezador era esta agora a lucrativa profissão de Messias. Mas rezador do que? De tudo! Rezava para expulsar das roças e fazendas, cobras, onças, gafanhotos, formigas, escorpiões, carrapatos, lagartas, etc. Tirava quebrantos de criancinhas indefesas. Benzia plantações inteiras, Juntava casais em processo de litígio, amansava burros e cavalos bravios, enfim, ele era o cara.
Certa vez estava ele enchendo o talo no “Pé na Cova”, aquele boteco que ficava bem em frente ao velho cemitério. Não demorou muito e eis que surge ali o Capataz que trabalhava na Fazenda de Elpídio, de nome Manoel da Conceição.
Eles não se conheciam. Jamais antes se viram. Mas quem foi que disse que bêbado precisa se conhecer para se engatar uma boa conversa? Qualquer banalidade entre os amantes do pileque é motivo mais que suficiente para vararem dias e noites. Falavam de tudo. Menos, claro, da vida alheia ou de temas complexos e relevantes dos quais não possuíam o domínio do conhecimento. Eram exatamente 9 horas da manhã quando aquelas duas almas, puras e imaculadas apesar do cheiro forte do suor do sertão, causado pela “brisa brejeira”, misto de calor e poeira, se encontraram naquele genérico de bar. Começaram dialogando sobre porcos, galinhas, carros de bois, roças, secas, águas e, por fim, chegaram a “morte da bezerra,” literalmente.
O bom Manoel informava ao bondoso Messias, que já não agüentava mais conviver com a morte de tanta rês na flor da idade. Que as onças não estavam dando trégua. Que era preciso que alguém fizesse alguma coisa. Bem, mesmo ele não sabendo, estava falando com a pessoa certa. Messias, incontinenti, informou-lhe desta sua especialidade. Inclusive deu-lhe como referência algumas fazendas onde houvera prestado seu trabalho eficaz. Esgotados todos os assuntos. Não tendo mais sobre o que falar, despediram-se.
Dias depois, Elpídio, patrão de Manoel da Conceição, mandou chamar Messias à sua fazenda. Queria fechar com ele o valor para que expulsasse as onças. Mas antes queria uma prova. Messias valorou seu trabalho por cabeça de onça expulsa. Elpídio aceitou, mas continuava querendo provas. Não haveria problemas, a prova seria dada.
Rumaram todos para a porteira de entrada principal da fazenda. Messias pendurou-se no mourão enquanto que Elpídio e Manoel puseram-se sobre a cerca. Num estalar de dedos e ao pronunciar “pintada um” surgiu a primeira onça. Messias desceu, falou-lhe alguma coisa ao ouvido, a onça saiu e Messias voltou para o mourão. Pronto, a prova estava dada. Fecharam ali mesmo o negócio. Iniciou-se o processo e várias onças foram expulsas. A manada agora vivia na paz do senhor, tranqüila, serena e sem sobressaltos. Livre estava das onças ferozes. Será?
Decorridos noventa dias Elpídio chama Messias de volta à fazenda. Novilhas voltaram a aparecer mortas. As marcas registradas dos dentes de onças eram visíveis. O que haveria acontecido? Pergunta Elpídio. É simples, responde Messias, a reza é válida por noventa dias. Depois disso tem que ser revalidada. A cada revalidação eu vou ter que cobrar outra vez e assim, sucessivamente.
- Uai, sô, indagou-lhe Elpídio, mais não tem como você fazer este trabalho de uma só vez? Que diabo de reza é esta que você usa que tem prazo de validade? Deus não trabalha desse jeito. Tudo Dele é definitivo. Depois tem mais uma coisa: Deus não cobra para fazer nada e você me cobrou, e muito. Há alguma coisa errada nisso ai que eu gostaria muito que você me explicasse. Afinal, sua tralha, para que diabo de santo você reza?
- Bem, respondeu-lhe Messias, você quase acertou. Só que não é nenhum santo não senhor. Pode até ser que exista alguma coisa de errado. Mas quem foi que lhe disse que eu tenho alguma coisa a ver com Deus? Eu não trabalho com Ele e nem para Ele. O meu negócio aqui não é com o “Cara lá de Cima”, mas sim, com o “cara lá de baixo” e você sabe que ele não perdoa nada. Ele cobra por qualquer coisa. O que recebi de você na primeira reza, repassei tudo para ele. O meu lucro está exatamente nas revalidações. Se você não revalidar, tanto eu quanto você, ficaremos no prejuízo. Aquele diabo dos infernos é assim mesmo, meu caro, não dá ponto sem nó. Ele nunca perde. Só ganha.
É...
Fazer o que!
Por vezes, ou quase sempre, é melhor não procurarmos saber o nome do santo que realizou o milagre. Ele poderá nos ser, deveras, demasiado frustrante e assustador.
E tenho dito.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 18/2/2012 20:42:41
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – VALDO, “O ESPERTO”

Enoque Alves Rodrigues

Não. Definitivamente as coisas não andavam bem para o lado dele. Nada, absolutamente nada daquilo que tentava lhe saia bem. Se ele plantava, não chovia. Se não chovia, não vingava. Se não vingava, não colhia. Se não colhia, não comia. Se não comia, certamente que morreria. Aparentemente não haveria para ele uma honrosa e digna saída. Naquela pobre e oca cabeça de cabaça brejeira, restava apenas e tão somente, como liquido e certo, o final melancólico de um agonizante moribundo. Desculpem-me pela redundância, mas foi, deveras, necessário para deixar claro e patente o superlativo de desencontros e desatinos pelo qual passava aquela pobre e, para ele, insignificante vida.

Realmente, os “mares de Minas não estavam mesmo para peixes.” Bem, se os “mares de Minas” não estavam para peixes, os brejos de todas as almas bondosas, de minha querida e bem amada Francisco Sá, não estavam nem para sapos. Várias foram as vezes em que este genérico de escriba se referiu aqui neste mesmo espaço, sobre as muitas crises que se abatiam sobre o norte do estado de Minas Gerais, mais precisamente em Francisco Sá ou Brejo das Almas, terra que me serviu de entranha, onde permaneci até os 18 anos.

Parece fácil dissertar sobre crises ou dificuldades, preferencialmente depois de superadas. Vive-las, no entanto, não é nada fácil. Aliás, há que se ter muita esperança, força de vontade, determinação e paciência, para poder atravessar quaisquer crises com otimismo e dignidade incólumes e imaculados. Quando, então, elas afetam diretamente o estômago ai a coisa torna-se mais difícil. É mais ou menos como dizia o senhor Madruga do seriado “Chaves: “Quando a fome aperta, a verdade afrouxa.” Recordo-me, de algumas delas, onde, ainda tenro, tive que interromper os estudos primários para me embrenhar nas fazendas em busca de trabalho, enquanto a deusa de nossa casa, a santa de cabelos brancos por quem tive a graça de ser concebido, orgulho maior de meu existir, que hoje, queira o Divino Mestre, por muitíssimo tempo ainda, vive em Burarama, se desdobrava dia e noite, na bela e gloriosa arte do ensinar. Já o meu pai, que Deus o tenha no santo lugar que lhe é merecido por direito, labutava com uma vendinha de secos & molhados. Quando não conseguia tirar mais nada dali, corria de picareta em punhos, a prestar trabalho duro na Estrada de Ferro para suprir as carências da casa. Tempos duros, mas saudosos aqueles. Entendo, ainda hoje, que as dificuldades são as únicas maneiras de se fazer com que as pessoas provem quem realmente elas são e que fora do trabalho não há realização.

Quem não se lembra, por exemplo, dos tempos da “caça” as gabirobas? O que são gabirobas? Pois é, tratava-se de um pequenino fruto de coloração verde e amarelo que mais se parecia a uma pequena goiaba e que, surgiu ou foi, inesperadamente, descoberta, no serrado Mineiro em plena crise. Famílias inteiras embrenhavam-se nas matas ralas em busca daquela verdadeira dádiva da Natureza. Quantas boquinhas nervosas aquela abençoada frutinha acalmou. Voltemos ao Valdo.

Valdomiro Ferreira dos Santos. Era este o pomposo nome pelo qual respondia. Caboclo, brejeiro, queimado pelo sol escaldante do Sertão de Cana Brava, era casado com Sebastiana, com quem tinha quatro filhos.

Morava no centro do Brejo, próximo ao velho Mercado, ou precisamente na Rua Padre Augusto. Quando não estava trabalhando em suas “improdutivas” roças, era facilmente encontrado dando banhos em minhocas no rio São Domingos. Muitas vezes, quando a aflição mais lhe atormentava, punha-se a sonhar com o rico tesouro do Bandeirante Jerônimo Xavier de Souza, que segundo antiga lenda, se achava enterrado há séculos no morro do mocó, sob uma grande pedra onde ficava a fazenda de Antonio Miranda. Pronto: “cabeça vazia, oficina do diabo.” Falamos, nós, os antigos, ou melhor, os gastos. Pois é. Não demorou muito e Valdo que não tinha mais no que pensar, julgando-se desprovido de qualquer alternativa que o levasse a sair daquela pindaíba com luta e denodo, passou, destarte, a divagar sobre futilidades.

Numa dessas divagações, deitou-se e não conseguiu conciliar o sono. É próprio do espírito não repousar enquanto não encontrar a paz necessária para fazê-lo. Cochilou, o cachimbo não caiu. Pelo menos não fumava. Mas foi o suficiente para em sua visão ver-se frente a frente com o Sargento Mor, ou o Bandeirante Jerônimo Xavier de Souza. Cobria-lhe o lombo vestimenta característica dos que provem de “Além mar”, “da costa”, ou, como queiram “de Portugal”. Valdo, surpreso com aquela inesperada aparição, não teve sequer forças para abrir os olhos. Falar ou balbuciar alguma coisa, então, nem pensar. Mas o “bondoso” Bandeirante, na condição de espírito, lia-lhe os pensamentos e assim poupou-lhe de maiores sacrifícios. Determinado e assertivo como qualquer bom Europeu foi direto ao ponto:

- Meu caro Valdo, há tempos que venho lhe observando. Não consigo mais descansar de tão aturdido que vivo com os seus queixumes e atribulações. Traz-me aqui a vontade imensa de lhe ajudar. Por favor, meu amigo, pense ai, em três desejos e fixe-se em um, e, se possível me fale, que eu o realizarei, imediatamente. Não quero vê-lo sofrendo desse jeito.

Bem, qualquer brejeiro normal, habituado com a dureza da vida, amante incondicional do velho batente, ou como falamos aqui em São Paulo nos canteiros de obras, “do trampo”cônscio de que sem árdua luta não há vitória, pediria chuva para que continuasse no trabalho sagrado de plantar e colher para se alimentar. Mais Valdo. Bem... Valdo, não. Ele queria muito mais. Ele não queria trabalhar. Ele não perderia de forma alguma aquela única chance de ficar rico sem fazer força. Assim sendo, num sacrifício dos diabos, movido pela usura, buscou lá no fundo do recôndito, forças até então, inimagináveis com as quais balbuciou seu mesquinho desejo:

- “Uai, Coroné. Os meu desejos o sinhô bem o sabe. Eu queria que mecê me dissesse adonde o sinhô enterrô o seu tisoro. Se pussive qui o sinhô me trouxesse ele aqui apusquê eu tenho medo de artura e principarmente qui a preda adonde ele está escondido se role sobre mim. Num é mesmo lá no morro do mocó qui ele está enterrado?” Antes mesmo que Valdo fechasse a boca, já se ouvia o fantasma do Bandeirante Jerônimo esbravejando num dialeto Lusitano de quem veio da Ilha da Madeira, nos tempos das Caravelas:

- “Ora, pois, pois. É isso que vucê me pedes, seu curalho? Eu psei que vucê fosse me pedirr chuva para cuntinuarr laburando em suas roças e com suor de rousto, sustentar sua fumília e vucê me vens pedirr ouro? Vá trabalhar vagabuundo... Vucê acha que eu sai daquele curalho de inferrno para vir aqui lhe dar muleza? Nós somos de uma raça trabalhadora, curalho e não aceitamos nada fácil. Eu quueria lhe ofrecer trabalho, curalho. Mas vucê só queres bua vida. Se queres muleza, seu gajo do curalho, filho de uma concumbina, vais sentarse no pudim, ou peidar na água pra fuzer bulinha, curalho. Ora, pois, pois.” Dito isto, virou fumaça. Pó de traque. Evaporou-se.

Boca porca a do Portuga. Mas foi a forma ideal que aquela boa alma encontrou para chacoalhar Valdomiro e tira-lo do marasmo da ociosidade. Da preguiça. Da inércia.

É...

Por vezes, dizia Confúcio, imprescindível se faz jamais negligenciarmos com os nossos pensamentos. Eles são o espelho de nós.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


70386
Por Enoque Alves - 11/2/2012 11:01:42
VENDAS & VENDEIROS DO BREJO ANTIGO – “SÔ CARRINHO”

Enoque Alves Rodrigues

No inicio do século passado podia se contar nos dedos as poucas casas comerciais que existiam no Brejo das Almas, hoje Francisco Sá, “beldade do norte de Minas.” Aliás, somando-se com as casas residenciais, não passava, naquela época, de um diminuto amontoado de pequeninos casebres aglomerados em torno do antigo Largo da Matriz, o principal do lugar. Foi ali que se iniciou, de fato, a povoação da Cidade, que hoje se aproxima das 30 mil almas. Apenas um casarão em estilo colonial erguido no Largo da Matriz, se destacava. Era a residência da principal força politica da região e pertencia ao clã Silveira, cujo chefe era o Coronel Jacinto Alves.
Bem no “portão” de entrada do lugarejo, para quem vinha de Montes Claros, ou precisamente no morro do mocó, ficava a fazenda de Antonio Miranda. Seguindo um pouco mais adiante, se visualizava a casa velha de “Sá Jacinta”, que ficava dentro de um Sítio, onde ela criava vacas leiteiras. Mais alguns passos e já se achava diante da primeira casa comercial, na verdade, um pequeno armazém de “secos e molhados” que pertencia a Nezinho Pena. Um pouco mais em frente e se via a lojinha de Juca Brinco e a casa de Pedro Ferreira, escrivão de paz. Mais para a esquerda, por detrás da Igreja Matriz, se localizava a loja de João Caixeiro. Seguindo por aquela travessa dava-se no velho Largo do Comércio, onde se encontrava o centro comercial do pequeno distrito. Era ali que se concentravam as casas comerciais mais importantes. Lá se reuniam pequenos grupos de pessoas, em sua maioria, comerciantes, para discutirem os preços do alho, algodão, milho, feijão, cachaça, carne e outros produtos que comercializavam.
Para quem olhasse lá de cima, da esquina do velho mercado, via-se a Farmácia de Francelino Dias, o “França.” Francelino, que havia estudado em Seminário de Diamantina, além de farmacêutico, laborava, também, por força de circunstâncias, no oficio de “Médico”, pois naqueles tempos não se havia ali, naquele torrãozinho de meu Deus, nenhum profissional com curso superior, habilitado nas “exatas.” A “Clínica” de França ficava na própria farmácia. Era ele um grande perito em clínica geral. Todos os brejeiros, do mais importante ao mais simples, passavam, obrigatoriamente, pelas avaliações de França. Órfão de pai, França agora tinha como padrasto o personagem de minha crônica de hoje, “Sô Carrinho”, ou Carlos de Oliveira Pena, cuja estirpe familiar e tradição, no comércio e em vários outros ramos de atividades, inclusive no da politica, ainda predominam em dias atuais.
Grande comerciante, só que no ramo de fazendas (tecidos) e armarinhos em geral, “Sô Carrinho”, apesar de ter obtido sucesso inquestionável na arte de comerciar, não era lá de fazer muita força para isso. Falar pouco e pausado, próprio de nós, montanheses. Para inicio de conversa, abominava toda e qualquer propaganda que não fosse “boca a boca”. Dizia ele, com toda razão e propriedade, numa época em que sequer se sonhava falar um dia em propaganda enganosa ou código de defesa do consumidor, que, “quando o produto é bom não precisa falatório para vendê-lo.” “Que a propaganda mais eficiente e eficaz era aquela disseminada pelos clientes, em seu entorno, satisfeitos com os produtos adquiridos.”
Até ai, morreu neves. Talvez, quem sabe, teria eu que encerrar abruptamente este meu relato, pequeno, singelo e despretensioso, assim como o amontoado de casebres aos quais me referi lá em cima, logo no inicio dessas mal traçadas linhas, não fosse à maneira, digamos, atípica e meio surreal, com que “Sô Carrinho” cultivava ou fidelizava sua clientela. Carrancudo e, na maioria das vezes, mal humorado, nenhum sorriso oferecia. “Só produto bom.” A lei da oferta e da procura, por aquelas plagas sertanejas, aonde, em épocas um pouco mais atuais, os meus pés, outrora, rachados e descalços, pisaram, naqueles primórdios, hoje distantes, funcionava meio que às avessas. Imperava-se, quase sempre, somente a lei da procura. Significava dizer que você tinha a necessidade de buscar e adquirir algum produto para atender sua subsistência. Encontra-lo, no entanto, quando isso ocorria, era motivo de comemoração. Quem o possuía para lhe vender, por qualquer que fosse o preço, estaria, pasmem, na verdade, lhe prestando um favor. Conseguiu entender? Sigamos em frente.
Pachorrento, mas sem jamais ser mal educado com ninguém, apesar de não ser afável. Correto e probo. Zeloso, impecável e transparente em suas transações. “Sô Carrinho”, por incrível que pareça, tinha que vender fiado. E vendia. Tornou-se adepto da caderneta, ou, melhor dizendo, do velho e venerabilíssimo fiado. Postava-se no interior de sua loja e, vestido a caráter, com camisa morim branco e calça tergal azul claro, mantinha ao pescoço, a guisa de gravata, uma fita métrica. Sobre o balcão, possuía uma trena em madeira e, penduradas, à prateleira central, duas velhas e reluzentes tesouras da marca mundial. Completando o cenário, havia também, um não menos velho tamborete em couro cru, onde “Sô Carrinho” se assentava, passando ali, longas e preguiçosas horas a enrolar seu inseparável cigarrinho de palha que pitava com prazer, enquanto lia “O Lápis” ou cochilava entre uma tragada e outra. Por força do hábito, nem bem terminava de fumar um cigarro e já estava a enrolar outro, enquanto aguardava a clientela chegar. Ás vezes ali permanecia, horas e horas, por inteiras e modorrentas tardes, sem que uma vivalma surgisse. Eram comuns os seguintes diálogos entre “Sô Carrinho” e sua clientela:
- “Apôis é, Sô Carrin – dizia-lhe um enforcado justificando atraso de pagamento de um fiado qualquer -, num truxe hoje o dinhero de mecê! Mais eu picisava renová o meu crediáro. Os minino e a Maria tão picisano de ropa e as roça acuma o sinhô sabe, num deu nada nessa coiêta.”
- “Tem problema não, Joaquim – respondia assertivo -, você já me provou que é bom pagador e se não me traz o dinheiro hoje, com certeza me trará amanhã ou quando tiver. Pode levar o que precisa que eu debito pra você.”
Mas nem sempre era assim. “Sô Carrinho” sabia, como ninguém, identificar um caloteiro a quilômetros de distância. Aliás, dizia ele, que o homem traz escrito na testa o que é. Ele tinha verdadeira ojeriza pelos que não honravam seus compromissos. E nem precisava que fosse com ele. Se ele soubesse que alguém deu algum calote na praça já ficava puto da vida. Para que o individuo caísse em seu conceito e fosse jogado na vala comum dos mal pagadores não era preciso fazer muito. Bastava que o infeliz deixasse de dar uma satisfação antes de a dívida vencer. Ai o bicho pegava para o lado do caboclo.
- “E ai, Mané, quando é que você vai me pagar sua continha?” Não adianta se agachar do outro lado da rua, porque eu estou te vendo!”
- “Uai, “Sô Carrinho”, eu nem tinha visto o senhor. Eu só estava indo até a venda do Estelito (de Oliveira Pena, irmão de “Sô Carrinho”, que também tinha um comércio), para depois passar ai para trocar dois dedinhos de prosa com o senhor. “
- “Dedinho de prosa não vai adiantar nada, Diabo! O seu tempo para justificar de há muito já passou. Quanto ao prazo de pagar, nem se fala. Aqui comigo você já está com a falência decretada. Pode ser que aquela besta do Estelito ainda lhe fie alguma coisa. Ele não leva nada a sério mesmo!”
Estelito, bem diferente de “Sô Carrinho”, era muito brincalhão e costumava contar vantagens em rodas de amigos, onde ás vezes exagerava proferindo inocentes mentiras, numa época abençoada, onde todos eram felizes e não sabiam, pois a humanidade ainda não tinha por costume falar mal da vida alheia ou desejar a mulher do próximo.
Em paralelo as atividades de grande comerciante, “Sô Carrinho” ou Carlos de Oliveira Pena, foi Vereador e primeiro Vice Presidente da Câmara Municipal do Brejo das Almas. Amigo incondicional e grande correligionário do fundador, o Coronel Jacinto Silveira, além de seu fiel cabo eleitoral. Nas suas raríssimas horas vagas, ainda laborava com toda disposição como Inspetor Escolar, indicado pelo Governo. Faleceu no Brejo, em idade avançada.
É...
Por vezes, dizia Sêneca, a vida, por mais longa que possa parecer, torna-se demasiado curta, se ocupada e preenchida com atividades uteis, em toda a sua essência.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 7/1/2012 17:34:29
SOBRE O BREJO DAS ALMAS – 74 ANOS SEM O FUNDADOR

Enoque Alves Rodrigues

Brejo das Almas, 17 horas e 30 minutos do dia 8 de Janeiro do ano de 1938. Falecia, depois de padecer por doze anos do mal de parkinson, o fundador e maior benemérito da Cidade de Brejo das Almas, ou Francisco Sá, localizada no norte de Minas, Jacinto Alves da Silveira. Portanto, amanhã, Domingo, 8 de Janeiro de 2012, completará setenta e quatro anos de seu regresso à Pátria Espiritual.

A doença de Parkinson é idiopática, ou seja, é uma doença primária de causa obscura. Há degeneração e morte celular dos neurônios produtores de dopamina. É, portanto, uma doença degenerativa do sistema nervoso central, com início geralmente após os 50 anos de idade. É uma das doenças neurológicas mais freqüentes visto que sua prevalência situa-se entre 80 e 160 casos por cem mil habitantes, acometendo, aproximadamente, 1% dos indivíduos acima de 65 anos de idade. Apesar do muito que já se pesquisaram, decorridos quase duzentos anos do descobrimento desta gravíssima enfermidade por James Parkinson, pouco ou quase nada se sabe sobre suas causas.

O fato é que, deve-se a ela, todas as conseqüências que justificam doze anos de sofrimentos impetrados ao grande e até hoje insubstituível benfeitor de Brejo das Almas. Tudo começou quando ainda vereador em Montes Claros, quando lutava pela aprovação de mais um projeto que beneficiaria o Brejo, sentiu-se as primeiras dores no dedo indicador da mão direita, a qual insistia em não obedecer aos seus comandos. Seu colega de partido, o mesmo do Dr. Honorato Alves, Antonio Ferreira de Oliveira, o Niquinho “Açúcar”, ou Farmacêutico, é quem conta com todos os detalhes, o inicio desse verdadeiro tormento, que, como já mencionei, doze anos depois ceifaria a vida de quem tanto fez pelo Brejo.

Jacinto Alves da Silveira, sobre o qual muito já falei, foi, até hoje, o único capaz de reunir todas as características que habilita qualquer individuo a afirmar ter vivido a vida em toda a sua plenitude. Descendente de famílias de Ouro Preto, assim como os Pena, Oliveira, Dias, Xavier, entre outras, esta última pertencente a genealogia do grande Mártir da Inconfidência, o Tiradentes, Jacinto, um dos muitos filhos do velho Fazendeiro José Alves da Silveira, nasceu no Brejo, lá pelos idos de 1871, quando o Brejo sequer sonhava em ter as feições de hoje. Ao contrário, assemelhava-se, muito mais, daquele dois de novembro de 1704, quando não passava de uma vasta mata às margens dos rios Verde Grande, São Domingos e Gorutuba, onde Antonio Gonçalves Figueira fincou pela primeira vez, ao lado da Lagoa das Pedras, o imenso cruzeiro que marcaria para sempre, no tempo e no espaço, o inicio de uma nova era, de uma promissora civilização e de uma progressiva Cidade. Jacinto, ao contrário de seus outros irmãos que eram todos Fazendeiros, desde a idade tenra, apesar de rústico, já despontava para as coisas da intelectualidade, quando lia, escrevia e realizava cálculos difíceis até mesmo para quem tinha a mais polida cultura. Era, portanto, desde aqueles tempos, um iluminado, na mais clara e límpida definição do termo.

Bonito, com um metro e oitenta de altura, bigodes bem fornidos, cabelos cortados a escovinha, trajando-se sempre de brim cáque, o belo mancebo Jacinto Silveira conduzia, juntamente com outros peões, grandes manadas de gados que eram vendidas na cidade de Curralinho, hoje, Corinto, no norte de Minas Gerais. Jovem ainda conheceu e casou-se com a normalista Maria Luiza de Araújo, na velha Matriz de Montes Claros, no dia 16 de Novembro de 1895. Maria Luiza foi durante toda a vida, sua fiel e inseparável companheira, a qual seria responsável pela condução dos destinos do povo brejeiro no campo da educação e cultura, enquanto Jacinto preparava esse mesmo povo na política e principalmente para a sua emancipação administrativa do Brejo, que ocorreria em 1923/24. A Câmara compunha-se dos seguintes vereadores: Padre Augusto Prudêncio da Silva, Francisco Fernandes de Oliveira, José Dias Pereira Zeca, João de Deus Dias de Farias e Rogério da Costa Negro, este último, um grande comerciante do ramo de tecidos.

Lutador, pelos direitos de seu povo, probo, íntegro, transparente, correto em todas as suas atitudes, honesto até a medula, numa época em que a mosca varejeira sequer sonhava sobrevoar o mundo da política, Jacinto Silveira conduzia os destinos do povo Brejeiro pelos caminhos da retidão, assim como Moisés do Egito conduzia seu povo rumo à Terra Prometida. Jamais perdeu uma só eleição. O Brejeiro daqueles tempos sabia reconhecer os valores incontestáveis de Jacinto e o tinha como a um verdadeiro Líder. E como tal se comportava: jamais deixou de falar o que pensava. Nunca se utilizou de meias palavras. Era homem de posições definidas. Não era de ficar sobre o muro. Educação casta e polida sabia ser enérgico no tempo certo. Muitos foram os Governadores de Estado que se utilizaram do prestigio de Jacinto junto aos Brejeiros.

Rico, dono de muitas fazendas de gado e cultivo, casas comerciais e muitas outras fontes de renda, Jacinto Alves da Silveira, homem que durante toda a existência sempre teve a casa cheia de amigos e correligionários, que sem nenhum apego às coisas materiais, ajudava, com recursos próprios a todo e qualquer Brejeiro; bancava, do próprio bolso, vários candidatos em campanhas eleitorais caríssimas. Depois de ter custeado com recursos próprios a emancipação do Brejo das Almas, tendo inclusive doado prédios para comporem o conjunto arquitetônico do Município, condição esta indispensável a sua homologação, já no final da vida, corroído pela enfermidade degenerativa, ainda era obrigado a arrastar-se de sua casa até a Prefeitura, onde dava expedientes, deixando-nos o exemplo o qual sigo até hoje, de que é no trabalho onde nos enobrecemos e dignificamos. Morreu, no entanto, pobre e praticamente só, tendo a seu lado apenas alguns familiares.

Não é sem motivo que um de seus filhos, o também Coronel Geraldo Tito Silveira, assim se expressa em um de seus lindos libelos, referindo-se as injustiças das quais fora vitima o pai: “Nos áureos tempos de sua vida abastada, quando ele plantava as sementes de uma pequena fortuna, depois esbanjada nos ardores da política, feita somente para o bem-estar de outrem, sua casa solarenga vivia repleta de “amigos”. Até então, não se via pela estrada real, que ia dar à Bahia, uma só pousada ou hospedaria, de modo que os forasteiros que por ali passavam procuravam a casa do Coronel Jacinto, onde recebiam todo o conforto, gratuitamente. Muitas dessas pessoas eram acometidas de terríveis doenças inclusive febre brava!”

E arremata o grande escritor do norte de Minas, Geraldo Tito Silveira, agora, lamentando a grande injustiça da qual foi vítima o pai, Jacinto Alves da Silveira. Aliás, muito já falei sobre tal injustiça que talvez, um dia, ainda nesta minha atual encarnação, veja corrigida: “Como corolário da ingratidão dos homens, mudaram o nome de Brejo das Almas, não para perpetuar o nome de Jacinto Silveira, na terra que engrandecera, mas para honrar o nome de outro Brasileiro, ilustre, é verdade, mas que nada fizera por ela.” Refere-se ao Dr. Francisco Sá, nascido no Município, na fazenda Brejo de Santo André, que foi Ministro da Viação e levou a estrada de ferro central do Brasil até Montes Claros, que muito lhe deve.

Não sei, até porque de há muito não vivo mais no Brejo e não participo de seu dia-a-dia, se a Sociedade Brejeira, movida por nobres sentimentos de gratidão, ou, quiçá, políticos locais, se lembrarão de promover neste dia 8 de Janeiro, alguma cerimônia, por mais simples que seja, ainda que um singelo minuto de silêncio, àquele que foi, é e será, o primeiro e mais importante Brejeiro. O maior de todos, porque deu tudo de si, até a própria vida, coisa que hoje não vejo ninguém fazer, para que o Brejo das Almas ou Francisco Sá, figurasse, no mapa de Minas e no Mapa do Brasil, como um dos progressivos Municípios Brasileiros.

Depois de permanecer longo tempo na erraticidade, acha-se, atualmente, no meio de nós. Não dentro da política que, convenhamos, mudou muito, e para pior, desde os seus tempos. Servidor incansável e dedicado que jamais fugiu à luta, não obstante toda a ingratidão com a qual lhe brindaram, acreditem céticos de plantão, em uma coisa: Se hoje se realizasse uma “chamada geral” convocando homens de bem a colaborarem com qualquer causa que tivesse por objetivo o bem comum, a justiça social, a luta contra as desigualdades dos menos favorecidos, alguém para expurgar e limpar a corrupção e tudo o que há de podre no mundo da política, ao se pronunciar o nome “Jacinto Alves da Silveira!” Com toda certeza ouviríamos, prontamente, em algum lugar do Brasil, a voz firme, forte e determinada do Coronel: “Presente. Eis-me aqui!”

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


69934
Por Enoque Alves - 24/12/2011 17:19:15
BOAS FESTAS. FELIZ NATAL E ÓTIMO 2012

Enoque Alves Rodrigues

Durante este ano de 2011 fruí, quase que semanalmente, do privilégio de conviver com vocês, meus amigos e conterrâneos que muito me honraram com suas valiosas visitas aos meus blogs, ao MontesClaros.com e ao City-Brasil, que utilizo, regularmente, para divulgar Francisco Sá, ou Brejo das Almas, minha Cidade de nascimento. Sempre procurei deixar claro e definido o amor que nutro pelo Brejo e sua gente, mesmo sabendo que o Brejo não é nenhum Paraíso na Terra. Que o Brejo, assim como qualquer outra Cidade em fase de desenvolvimento, está exposto a todas e quaisquer mazelas sejam elas de ordem natural ou administrativa, predominando, evidentemente, a segunda. É muito fácil, bom e maravilhoso, -dirão alguns que possuem o vezo de achar que tudo está ruim mas que nada fazem para que as coisas melhorem e que sabem que de há muito não vivo no Brejo-, amar o inferno, se visto e observado de longe, ou de preferência, do Céu. A estes eu recomendo a seguinte frase:

“Não perguntem o que o Brejo pode fazer por vocês, mas o que vocês podem fazer pelo Brejo”, diria John Kennedy, certamente, se brejeiro fosse. Mesmo longe, procurei a vida inteira colaborar, ainda que singelamente, com a divulgação deste meu pequeno torrão.

Agora, com alvissareiras esperanças renovadas pela aproximação de mais um ano, que seguramente nada irá me acrescentar se eu não continuar indo à luta. Por ter sido durante toda a vida um osso duro de roer. Um duro na queda. Um sujeito de tutano que jamais fugiu do pau e das origens. Que, motivado, determinado e disposto vinte e quatro horas, levanta de madrugada todos os dias e, cantando, dirige-se ao trabalho, em busca de resultados enquanto muitos ainda dormem e reclamam da vida. Que mesmo nos momentos mais difíceis e espinhosos, com os pés doloridos e com a mente em frangalhos, mas sempre firme e com Deus à frente, foi à luta sorrindo enquanto muitos tombavam chorando sem sequer saírem do lugar. Que mesmo hoje, realizado, cultiva hábitos simples de um matuto brejeiro que conseguiu, galhardamente, que a vida lhe proporcionasse algum conforto. Que, bóia fria em infância, vendendo dias de trabalho nas muitas Fazendas do Brejo, comeu, com colher de pau, angu de fubá com molho de feijão de corda e quiabo na mesma gamela compartilhada com outros camaradas enquanto o suor do rosto respingava sobre aquele abençoado sustento. Que enquanto peão, dormia em porões de obras em construção, com cheiro de creolina, com a mesma fé, perseverança, coragem, e confiança de que dias melhores viriam. Finalmente, como profissional de sucesso, conquistou, com humildade, o respeito de muitos em todas as áreas por onde trafegou, trafega e milita. Que tem em seu diminuto rol de amigos, somente pessoas sinceras e leais, vinculadas ao bem comum e comprometidas até a medula com os mais puros, sólidos e elevados princípios morais da verdadeira ética e ilibada conduta, etc. Esse cara, do qual sou fã de carteirinha, que possui o RG de nº M-215.967 (sendo o “M” de Minas), de quem falo com muito orgulho, sem rodeios ou falsa modéstia, por incrível que possa lhes parecer, sou eu próprio. Estranho, não! Nem tanto. As referências que faço a minha pessoa não tem o sentido fútil do endeusamento fácil ou autopromoção gratuita e deselegante. Tenho plena consciência de minha pequenez e do quanto ainda tenho que evoluir no sentido de atingir a magnitude de um simples grãozinho de areia. A lisonja que endereço a mim, cuja história de vida conheço de cor e salteado e que hoje é de domínio público, tem apenas e tão somente a finalidade de afirmar que QUERER É PODER. Não importam as dificuldades que a vida coloca em nosso caminho. O que conta mesmo é a nossa capacidade, criatividade, determinação e vontade própria de transpô-las. Ninguém nasce, vive ou morre fraco. Todos nós, salvo aqueles que vieram cumprir missões específicas, nascemos em igualdade de condições, munidos de todas as nossas potencialidades as quais nos cabem estar sempre exercitando no sentido de que não se adormeçam, não se enferrujem e não nos transformem em parasitas. Ao Mestre do Madeiro, Governador Supremo do Orbe Terrestre, não foi dado nenhum milímetro de QI (Quociente de Inteligência) além do que nós, seus iguais, fomos dotados. Ele apenas os utilizava de maneira sábia e raciocinada. Nada mais que disso. Mesmo assim, quantos prodígios Ele operou. Esta minha mensagem, que a principio lhe pareceu estranha ou arrogante por me referir a mim, na primeira pessoa, na verdade, meu caro amigo, ela é todinha para você. Jamais pense em desistir de seus ideais. Não desperdice seu tempo “atirando por todos os lados”. Se ao invés de você ter mil projetos mirabolantes e inexeqüíveis em sua mente, tenha apenas um, desde que seja passível de execução. Pare e pense. Por mais simples que algum trabalho lhe pareça, não o inicie sem que antes trace uma meta estabelecendo inicio, meio e fim. Não estabeleça para você ou os outros prazos os quais não vão conseguir cumprir. Isso pode te levar ao descrédito. O homem tem que ter e honrar a palavra. Lute, mas lute com todas as suas forças. Não se deixe derrotar pela acomodação. O mundo, as oportunidades e os sucessos, pertencem aqueles que lutaram. Vá em frente. Não conduza sua vida olhando no retrovisor. Viva um dia de cada vez. Não tenha medo de nada. Não se preocupe em querer agradar a alguém. Seja natural. Não perca seu tempo com aquilo que não lhe vá dá retorno. Caso o critiquem, não responda com tergiversações. Seja objetivo. Vá direto ao ponto. Analise se as criticas são realmente fundadas e, caso positivo, faça sua correção e procure, independente do caráter de quem o criticou dar o verdadeiro “feedback” embasado-o na mais pura realidade. Procure não deixar nada sem resposta. Não mintas, jamais. Se você mentir uma vez será obrigado a mentir sempre. A mentira é o mais grave desvio de conduta do qual dificilmente o mentiroso consegue se livrar.

Ao finalizar esta minha “milionésima”, cansativa e redundante declaração de amor ao Brejo e ao meu povo. Por faltarem-me palavras mais apropriadas, o que seria, creio, compreensível por vocês que me toleram a tanto tempo, se se considerarmos que já estamos no final do ano, onde muitos neurônios tive que queimar para chegar até aqui e que somente a partir de hoje entro em férias para fazer a devida reposição de carga das já cansadas mas ainda recarregáveis baterias, lanço mão da seguinte estrofe de uma das milhares de pérolas do rei Roberto:

“Nunca se esqueça, nenhum segundo. Que eu tenho o amor, maior do Mundo. Como é grande, o meu amor, por você!”

Brejeiros, não chorem. Ano que vem tem mais bestagens. Eu voltareeeeeeeeei!

Feliz Natal e um Ano de 2012 repleto de amor, paz e muitas realizações na vida de todos vocês meus amigos e conterrâneos.

Inté!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


69808
Por Enoque Alves - 10/12/2011 09:20:11
SOBRE O BREJO DAS ALMAS – SIMPLÍCIO, O MASCATE.

Enoque Alves Rodrigues

Longos anos se passaram desde que o Bandeirante Antonio Gonçalves Figueira e toda a sua comitiva se aportaram, em um triste e melancólico dia de finados, nas antigas plagas de São Gonçalo. Ali, naquela ocasião como é de conhecimento de todos, segundo nos relatam historiadores, fincaram-se um velho cruzeiro, confeccionado em madeira tosca, ao redor do qual se iniciou a povoação daquelas terras, que mais tarde se transformariam em freguesia e muitos anos depois, em Cidade, a qual chamaria de Brejo das Almas e depois, Francisco Sá, em justa homenagem ao grande Ministro da Viação e Obras Públicas, nascido na Fazenda Brejo de Santo André, nas imediações.
Transcorridos mais de dois séculos desse evento, o progresso ainda capengava e insistia em não atingir aquelas bandas. Mesmo depois de o grande estadista levar até Montes Claros a ferrovia que revolucionaria todo o Norte Mineiro, o Brejo das Almas, quiçá por não fazer parte daquele promissor circuito férreo, ou por situar-se a considerável distância de Montes Claros, ao qual fora, outrora, vinculado, pouco se desenvolvia. Os transportes de mercadorias eram feitos de maneira precária, sobre burros, carroças e carros de bois. Não entrarei nos detalhes da história devido eu próprio já tê-la contado várias vezes, até por que não é este o objetivo desta crônica. Abro esse parêntese somente para informar aos “jovens mancebos” e lembrar aos “velhos anciãos” que não faz muito tempo, os confortos que hoje usufruímos, simplesmente inexistiam. Mesmo pairando, nos dias atuais, algumas sequelas rudimentares sobre os nossos costumes, nada nos remete aqueles tempos. O grande e inesquecível Geraldo Tito Silveira, a quem tive o privilégio de conhecer, em uma de suas valiosíssimas obras, relata com riqueza de pormenores, o que ocorreu na Cidadezinha do Brejo das Almas quando a ela adentrou o primeiro veiculo a combustão: um velho FORD de bigodes. Foi um Deus nos acuda. Houve mesmo até quem o amaldiçoasse dizendo que aquilo era coisa do diabo. Matronas que se achavam debruçadas nas janelas ao vê-lo faziam o sinal da cruz e fechavam-nas, imediatamente. Crianças que estavam brincando nos terreiros eram empurradas para dentro de casa. Alguns mais afoitos, geralmente os “mais usados”, ou melhor, os mais velhos, organizavam procissões e saiam atrás do veiculo, onde o motorista a caminho de Salinas ou Grão Mogol, quase morria de medo da turba em fúria. Restava ao pobre do chofer contra-atacar com rezas brabas implorando ao São Cristóvão, protetor daquela reduzidíssima espécie, para que o FORDECO não abrisse o bico antes de galgar subidas íngremes ou sem que primeiro se atravessasse a curva da morte. Mas quem foi que disse que os santos estão sempre de plantão e a nossa disposição para nos atender sempre que deles necessitamos? Ledo engano: na maioria das vezes os “bichões que cuspiam fogo” não conseguiam atravessar nem mesmo a mais insignificante lombada natural e antes de atingir as subidas mais importantes, empacavam-se, qual jumento ruim, e ai, não tinha jeito, a turma enfurecida partia pro pau, até que uma providencial intervenção de alguma autoridade local relevante a acalmasse.
Não é de hoje que as relações humanas entre iguais e coisas são de amor e ódio. Ama-se na mesma proporção em que se odeia e vice-versa. Assim, enquanto o Brejeiro não se familiarizava com aquela novidade, até mesmo pela falta de informação, esconjurava o dia em que o alemão Karl Benz, criou o primeiro automóvel em uma tarde de outono de 1885 que foi patenteado neste mesmo ano e no ano seguinte 1886, fundou a Mercedes. Quando, finalmente, os pesadões conseguiram romper aquele impacto inicial do medo, quando os brejeiros passaram a conviver com alguma assiduidade com aquelas geringonças, apaixonaram-se, perdidamente. Cada um, mesmo não sabendo com quais meios e recursos, queria, a todo o custo, comprar uma daquelas máquinas. Os pais de Alfredo e Francisco não foram os primeiros, como alguns afirmam, a ter um carro em suas garagens no Brejo; até porque, naquele tempo, a fazenda onde eles viviam em criança, não pertencia ao Município do Brejo das Almas. Darcy, fazendeiro e político regional influente, foi quem teve esta primazia. Há, no entanto, controvérsias, as quais respeito e não discuto, até porque me levariam do nada a lugar algum.
Chega de carros e vamos voltar para a realidade do inicio destas mal traçadas linhas. Simplício, era esse o seu nome, vivia de mascatear. Morava na Vila Vieira, próximo a Lagoa, onde deixava seus animais pastando. No lombo do burro varava dias e noites, dando um duro dos demônios, para no final do mês levar alguma merreca pra casa. A vida de caixeiro viajante ou mascate naquele tempo não era fácil. Com seus dois burros, sendo um para montaria e o outro para cargas, comprava em armarinhos de Montes Claros, botões, agulhas, linhas, dedal, elásticos, anáguas, combinações, véus, batons, esmaltes, lixas, espelhos, perfumes e cosméticos baratos, pentes e quando o dinheiro dava, algumas peças de tecidos como morim e tergal. Embrenhava-se nos sertões de Minas e, quando menos esperava, involuntariamente, estava em Monte Azul, lá no extremo, prestes a atravessar a ponte para o Estado da Bahia. É chão, meu nego. Ele tinha uma forma natural e muito peculiar de cultivar a clientela e fazer negócios. Ao chegar às paragens, procurava uma sombra onde amarrava os burros, geralmente em frente à Igreja. Com uma enorme cabaça aberta ao fundo, com pequena fenda à frente onde punha a boca, gritava aos quatro ventos, num português sofrível que faria Camões mover-se no túmulo: “Alô povo de Sun Gerardo, Simprisso Mascatero chegô trazeno procêis as nuvidade deretamente da cedade princesa do norte... Nóis tem de tudo um poco. Nóis tem butão pra muié butuá ropa, pano pra muié fazê vistido pra cubri as vregonha. Nóis tem burracha pra sigurá cirôla de home e de muié... Cumbinação pra muié potregê os peito. Véio pra cubri cabeça de muié crente. Batom pra dexá muié cuns beiço vremeio quinêm carmim. Pente pra muié pintiá cabelo. Lixa pra muié lixá unha. Pó de arroiz, água de chero, tarco e prefumo pra muié ficá bunita e cheroza e num levá chifro. Nóis tem tamém ismarte pra muié pintá unha das mão e dos pé... Agúia, e retroze pra muié custurá ropa e dedár pra muié num furá os dedim.” Simplício era uma figura. Ele falava assim mesmo e todos o entendiam, porque, era esse o “dialeto” do lugar. Lá em São Geraldo, naquele tempo um pequenino povoado, Simplício quando chegava, amarrava seus burros debaixo de um grande pé de umbu que ficava exatamente aonde? Dou-lhe uma. Dou-lhe duas e dou-lhe três: quase dentro do Cemitério! E porque eu sei disso? Por que a nossa casa, assim como a pequena Escola onde minha mãe lecionava, distavam apenas alguns passos do dito cujo. Simplício amarrava os burros lá, que ficavam sozinhos pastando e ia vender suas mercadorias em frente a pequenina Igreja. Aí, nós, moleques aproveitávamos para fazer a festa. Só pra sacanear, enquanto Simplício anunciava suas bugigangas, nós, “capetas em forma de guri como dizia a música”, desamarrávamos os animais e depois de caminharmos com eles por centenas de metros dentro da mata, finalmente os amarrávamos em outra árvore, bem longe, onde jamais as vistas de Simplício alcançariam. Retornávamos para as proximidades do pé de umbu e escondíamos atrás das moitas, afim de que pudéssemos nos esbaldar, bem de perto, com o desespero e xingamentos de Simplício. Após esperarmos, pacientemente, por várias longas horas, lá vinha o pobre do infeliz. Simplício, ainda distante, notou que os burros não estavam mais lá: “Oh, Meu sinhô Jisuis, onde está meus burro? Será que eles se asortaram da pranta? Mais diabo, num é impussive, apusquê eu amarrei eles cun força. Isso num tem cabimento apusquê sinão eles tamém se asortava das otras arve nos otro lugá. Capeta, apusquê isso só acuntece aqui em Sun Gerardo? Será qui é arguma mardição desse sumutéro? Ô dó, agora qui tô vêno qui isso acunteceu a muincho tempo apusquê os bichim nem tivéro tempo de cagá aqui. Sêno anssim eles vai tá longe. Oh meu bum jisuis, ocê qui tamém andô num jumentim cum seus pai me ajuda a encontrá os meu!” Antes que maiores aflições se apoderassem de Simplício, surgíamos como se tivéssemos brotado do nada e, de maneira natural e dissimulada, nos apresentávamos para ajudar: “Seu Simplício, o senhor está procurando pelos seus burros?” “Tô, sim, miséra, apusquê, ocêis viu?” “Sim, nós vimos. Estávamos caçando preá e deparamos com eles debaixo de uma árvore há um quilômetro daqui!” “Antonce vamo fazê o siguinte, ocêis me leva lá pra iêu trazê eles de vorta!” “Sabe, seu Simplício, respondíamos todos, procurando valorizar o próprio passe, bem que nós gostaríamos muito de ajudar, mas temos que nos preparar para irmos à Escola!” “Diabo docêis cum esse nigóço de iscola. Quanto mais istudia mais burro fica. Vamo cumigo lá nos burro qui quando nóis vortá cum eles eu vô dá uma grujeta procêis e ai o ganhame é de todos nóis, apusquê amanhã eu tenho qui amanhecê, niguciá e drumi em Caçarema!”
Era tudo que queríamos ouvir. Pegávamos na mão de Simplício e, como se estivéssemos praticando a primeira boa ação do dia, o levávamos até seus burros. Ele, agora feliz e reconfortado, abria aquele sorrisão. Depois de nos dar alguns trocados, para comprarmos bolinhas de gude, ainda nos elogiava: “Cuntinue anssim meus fio, cum esse curação bundoso e sem niúma mardáde. Num é sem mutivo qui Jisuis, o fio do hôme falô: Dichae qui vindi a mim os piquinino apusquê deles é os reino do Céu!”
É!
Por certo, a máxima, exaltação grandiosa da pureza dos inocentes, proferida pelos Lábios Santos, Imaculados e Misericordiosos do Divino Mestre do Madeiro, O Filho de Maria e José, que por todos nós derramou Seu Precioso Sangue no Gólgota, não se referia aqueles pobres diabinhos de São Geraldo. Não fazíamos jus a ela. Se Ele ali estivesse, certamente que dessa forma a proferiria: “Pelo amor de Deus, afastai de Mim esses tenebrosos capetinhas, porque não são deles o Reino dos Céus!”

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 3/12/2011 19:07:10
AS JOIAS RARÍSSIMAS DO BREJO - INTRODUÇÃO

Enoque Alves Rodrigues

Há algum tempo atrás finalizei a serie de crônicas “As Joias Raras do Brejo”, a qual foi iniciada com “As Joias do Brejo”, por onde desfilaram personagens que de uma forma ou de outra se destacaram cada qual a seu tempo e que muito realizaram ou ainda realizam, no sentido de tornar o nome de nossa querida Cidade de Francisco Sá, ou Brejo das Almas, conhecido no cenário Nacional. A guisa de ilustração, apenas para volver ao tema, quero ressaltar que no campo do empreendedorismo, solidariedade, autoridade, dedicação e respeito a sua gente, coloquei entre os ilustres personagens de “As Joias do Brejo”, como figura de maior destaque nesta área em minha modesta concepção, o inesquecível “Zeca Guida” ou o Zeca de Cana Brava, ou José Dias Pereira.

Já nas “Joias Raras do Brejo”, no campo Literário e Cultural, pela didática simples, fiel e sintonizada com as coisas e pessoas da região, com muitas das quais tive o privilégio de fruir em infância do convívio, destaquei a grande e inigualável, Karla Celene Campos. No entanto, mencionada série foi iniciada com a Dona Yvonne Silveira, pelos atributos inquestionáveis nesta e em todas as áreas da Literatura, cuja magnitude robusta e resplandecente, dela assim como do seu esposo Olyntho, que também integra esta série, a minha pequenez de matuto brejeiro de cabedal cultural insignificante, que mesmo tendo tido o privilégio de alisar bancos de importantes e renomadas escolas, não consegue mensurar. Eu diria que os atributos intelectuais com os quais a Dona Yvonne assim como Olyntho foram dotados, estão muito acima “do que supõe a minha vã filosofia.” É muito para a cabeça indouta de um sujeito de intelecto mediano e esclarecimentos parcos. Talvez, após eu subir e descer por várias vezes ou passar por umas trezentas reencarnações, quem sabe estarei apto a definir com a clareza necessária e exatidão de pensamento compatível, a dimensão exata do caráter, bondade e dedicação desses dois grandes e incansáveis colaboradores a quem o Brejo tanto deve. Conjugo, para ambos, o verbo no tempo presente porque não há diferença de esfera para os que são bons e puros.

Fiz esse introito apenas para dizer que conforme eu havia prometido anteriormente, dividiria aquelas narrativas em três etapas: “As Joias do Brejo”, “As Joias Raras do Brejo” e finalmente, “As Joias Raríssimas do Brejo”, esta última série é a que estarei levando a efeito no primeiro trimestre de 2012. Antes, porém, devo antecipar minhas justificativas, pois com a relativa certeza dos mortais, não conseguirei levar adiante a disciplina sequenciada. Atualmente me encontro envolvido com uma infinidade de grandes projetos que estão consumindo quase todo o tempo deste pobre quase ancião.

A próxima série “As Joias Raríssimas do Brejo” ao contrário das anteriores será mais longa. No entanto, os episódios compostos por pessoas, locais históricos e fatos que tiveram grande relevância para a vida da Cidade e de seus Cidadãos, serão mais curtos e sucintos, dentro do possível, desde que isso não venha desvirtuar os objetivos do entendimento assertivo dos fatos narrados.
É certo que devido até aqui eu ter retratado muito mais os fatos e pessoas do antigo Brejo das Almas ou Francisco Sá, dispenderei, desta vez muito mais tempo com os relatos das localidades históricas e importantes do Brejo e suas adjacências desde a sua fundação, que propriamente com seus personagens. Assim sendo, personagens, cuja vida detalhei em suas minucias como, por exemplo, o Padre Augusto Prudêncio da Silva, Jacinto Alves da Silveira, Geraldo Tito, Feliciano Oliveira, entre outros, não serão abordados. Talvez, apenas para fazer alguma correção biográfica que porventura a história não registra.
Não terei nenhuma pretensão de monopolizar a verdade do que vier a relatar. Tampouco alimentarei a vã ilusão de que reunirei em torno de mim unanimidades que massageiem o meu ego. Ele já se encontra de há muito massageado pelos afagos de todos aqueles que me prestigiam com a leitura das bestagens que escrevo. Faço isso por puro prazer, pois entendo de muito bom grado dividirmos com os outros um pouquinho do conhecimento do qual somos portadores. Por outro lado, a fonte de onde tiro a minha subsistência através do esforço incessante, está onde sempre esteve: Dentro da Engenharia. É ela que me suga. É por ela que dediquei todos os meus longos anos de estudos e aperfeiçoamentos que perduram até hoje. É definitivamente ela que me proporciona a vidinha simples e pacata, mas muito digna que levo. Ou seja, escrevo estas bobagens pelo compromisso que tenho para com minha consciência, minhas origens, minha Terra e minha gente. Por puro prazer, diria.

Falando em escrever, informo a muitos que tem me perguntado, que o meu primeiro livro “Liderança Conquistada”, que está sendo publicado pela Editora Livre Expressão, com data de lançamento a ser definida, ao contrário de quase tudo que escrevo fora da Engenharia, não é sobre o Brejo das Almas. Há somente uma foto aérea do Brejo em sua contracapa com a legenda “foto de Francisco Sá, ou Brejo das Almas, Cidade de nascimento do autor”. A temática é sobre liderança, otimismo e motivação no trabalho e traz em seu conteúdo uma série de episódios por mim vivenciados dentro dos canteiros de Obras desde o inicio de minha carreira. No entanto, alegrem-se, brejeiros, pois o próximo livro que estarei publicando, “O Brejo das Almas em Crônicas” como o próprio título já sugere, é todinho sobre o Brejo das Almas, claro: Lá desfilarão uma coletânea de crônicas inclusive inéditas que escrevi até aqui sobre esta minha Cidade. O lançamento, no entanto é para o ano que vem. Toda a renda e direitos autorais deste livro eu estarei revertendo para instituições localizadas no Brejo. Por isso, como não vivo no Brejo, não sei, sinceramente, hoje quais instituição seriam agraciadas. Assim sendo, quando estivermos próximos do lançamento, farei uma simples e rápida consulta aos brejeiros locais para me indicarem as instituições as quais, antes de eu definir o direcionamento dos recursos, estarei visitando.

Aproveito este espaço para informar ao Mathias e Célia Dantas, meus conterrâneos que hoje vivem em Montes Claros, que lhes enviei via correio, apontamentos que disponho sobre João Catulino Andrade. Ficaria muito pesado o envio por e-mail. Caso necessitem de mais algum dado complementar, estou à disposição. Claro, desde que me dêem o prazo necessário para que eu faça os levantamentos em minha biblioteca. Como vocês sabem, devido minha exigüidade de tempo preciso que me avisem com muita antecedência. Lembrando que ultimamente, o “grande senhor da razão” não me tem sido um bom aliado. Falta-me tempo para quase tudo. Como procuro ser pontual com minhas coisas, prefiro muitas vezes não assumir compromissos que poderão levar-me ao não cumprimento no tempo exigido. Realmente, como vocês disseram, não há quase nada disponível para consultas na internet a respeito dos principais vultos de nossa Cidade. Entendam que isso é assim mesmo. É como a crônica que escrevi três semanas atrás “A importância da Mídia Eletrônica na Divulgação de Francisco Sá”: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/2011/11/importancia-da-midia-eletronica-na.html. Aos poucos, graças a iniciativas de obstinados brejeiros que respiram ou já respiraram um dia os ares dessa nossa terra, farão com que ela seja conhecida muito além do que imaginamos, em pouco tempo. No bojo desse rompimento de limites fronteiriços, virão os nomes que um dia por ela lutaram, tombaram, levantaram e seguiram adiante, tornando-a no que hoje é. A história é prodiga em “justiça tardia”. A NET veio em boa hora para agilizar esse processo.

Geraldo Magela, Antônia, Carlos e Dilermando, obrigado pelas palavras de elogios a minha humilde pessoa. Estejam certos de que não sou merecedor. Acho que vocês as endereçaram a pessoa errada. Quanto ás informações que me solicitam sobre a Doutrina, desculpem-me, mas não posso lhes passar nesse espaço. Esse blog eu o utilizo somente para divulgar o Brejo e todo o material postado aqui também é enviado para divulgação em minha coluna no MontesClaros.com, cujos critérios jornalísticos não contemplam mencionada temática. No entanto informo que mantenho há dez anos um site pelo qual divulgo a Doutrina, inclusive resultados de várias pesquisas que realizei sobre o tema. Lá vocês poderão encontrar vasto material. Tenho também um blog com esta finalidade o qual poderão acessar e deixar vossos comentários e perguntas que terei o imenso prazer em responder, claro, se eu souber. Se eu não souber, “perguntarei aos Universitários’ e lhes transmitirei a resposta Deles. Agora, rezem, porque se eles também não tiverem as respostas que vocês esperam, não nos restará outra alternativa, senão a de aguardarmos com “muuuuiiiiiiita paciiiiiiiiência” o nosso “graaaaande momeeeento” que espero, seja daqui há “muiiiiitos aaaaaanos, para vermos, realmente como essa coisa toda funciona lá em cima. Eu, como Mineiro cansado e Brejeiro tranquilo confesso a vocês que não tenho pressa alguma. Aqui em baixo tá bão demais da conta, sô e tudo indica que se eu continuar trabalhando do jeito que trabalho, qual jumento Celestino, a tendência natural “é isso tudo melhorar” e aí, meu nego, “subir pra que? Mas nem cantando”. “E Que os amantíssimos Confrades de Doutrina e companheiros de ideal que comigo militam há quase quarenta anos me entendam e perdoem. Que assim seja!” Rsrsrsrsrs.

Até parece!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 26/11/2011 19:52:16
SOBRE O BREJO DAS ALMAS – O COMÉRCIO DE ANTIGAMENTE

Enoque Alves Rodrigues


Desnecessário seria recorrer as quase duas mil crônicas que escrevi até hoje sobre o Brejo das Almas, para me certificar de que já me referi, parcialmente, por mais de uma vez, ao tema que dá titulo a minha crônica deste final de semana. Porém, não obstante reunir modesto cabedal de conhecimentos sobre isso, jamais fiz uma alusão mais profunda e compatível com a importância que o assunto requer e merece. Assim sendo, futuramente entrarei nesse tema, pormenorizadamente, com citações nominais dos comerciantes e seus respectivos perfis, endereços de seus comércios, ramo de atividade e muitas outras particularidades comerciais do Brejo das Almas de antigamente. Com isso, muitos saberão que até chegar a Casa Viena, Casa Branca e Costa Negro, de saudosa memória, para não citar os atuais, a distância percorrida foi muito grande.

É difícil até mesmo para alguns moradores do Brejo atual, diante da grande efervescência do comércio local, acreditar que não faz tanto tempo, o escambo era uma das principais moedas de troca no Brejo das Almas. O meu avô, por exemplo, que viveu quase cem anos, muitas vezes teve que recorrer a esta modalidade, praticada pelos antigos Egípcios e todo o mundo civilizado há alguns milênios antes do nascimento do Crucificado. A numismática inexistia. Não haviam moedas cunhadas com valores monetários predefinidos, senão o dar um bem em troca do outro. Mesmo após a invenção da moeda na Lídia, um território da região ocidental da Ásia Menor, hoje pertencente à Turquia, no Século VII, a. C., esses costumes permaneceram arraigados nas entranhas da humanidade. No Brejo, então, não era diferente.

Quando o Brejo se achava em crise, e isso acontecia com frequência ou sempre que as secas grassavam os sertões do Norte de Minas, o povo ficava inteiramente descapitalizado. Nesse caso, o jeito mesmo, meu nego, era munir-se de uma cuia do mantimento que dispunha em casa e sair pelas ruas rezando e implorando ao São Gonçalo para encontrar alguém que não o tivesse. Ou melhor, que tivesse outro diferente do seu, para que houvesse o mutuo interesse da troca por necessidade. É a lei da oferta e da procura só que de uma forma meio as avessas, entendeu?

Pois é, se o Cidadão Brejeiro estava sem capital, ou seja, sem dinheiro, sem grana, não tinha como azeitar a máquina que girava e fazia girar em torno de si todas as coisas e o comércio de antanho. Ai a gritaria era geral. O desespero tomava conta de todos, inclusive dos comerciantes. Tinham que desovar os seus estoques de qualquer jeito para fugirem de uma perda total, pois os carunchos, famintos, não perdoavam nada, vinham detonando tudo que encontravam pela frente.

França tinha um comércio cujo ramo de atividade passava a milhões de anos luz de distância dos famosos secos e molhados. Dos comestíveis. Dos mastigáveis. Dos sossegam lombrigas e protozoários. O querido França militava no ramo dos “bebíveis”. Não, bebum, não era aguardente, não. França vendia remédios como injeções, comprimidos, xaropes, garrafadas, rui barbo e bicarbonato para o estômago, etc., serve pra você? Ele tinha uma farmácia que ficava na esquina do antigo Largo da Matriz, bem próximo de onde hoje se localiza a agência do Banco do Brasil. Nos fundos da farmácia, França, curiosamente, mandou construir dois inusitados cercados, sendo um com tela de arame e o outro só com madeira. O primeiro logo ganhou ares de galinheiro, já o segundo, como não podia deixar de ser, transformara-se em um grande e luxuoso chiqueiro. Esses compartimentos eram utilizados a guisa de cofre. Sim, era lá que França guardava as férias do dia, semanas, meses e anos.

Cenas que hoje deixariam qualquer um estupefato, sem nada entender ou até mesmo sair correndo, ali, sem quaisquer surpresas ou constrangimentos, aconteciam, naturalmente. Raciocine comigo: suponhamos que você esteja dentro de uma farmácia e de repente entra alguém com uma galinha, um porco debaixo do braço ou um bornal com milho, feijão ou arroz. Coloca aquilo sobre o balcão, puxa do bolso de trás uma receita em papel amassado e vai logo dizendo para o Farmacêutico: “Mecê tem esse rumédio ai pra ieu?” Diante da resposta positiva, lhe pergunta: “Isto custa quantas galinhas?”... “Quantos porcos?”... Ou “quantos quilos de feijão?” Pois é, os que me conhecem sabem perfeitamente que não tenho o vezo da hipérbole. Por isso, creiam-me, sinceramente, que era mais ou menos isso que acontecia no Brejo das Almas de então.

França era um ótimo sujeito, mas agora andava meio chateado com sua clientela que, por não ter feito uma previdência que lhes propiciasse um pouco de tranquilidade na doença, vivia agora abarrotando seus cercados com todo tipo de animal. O ruim de tudo isso era que aquele tipo de moeda, o pobre França, por mais que tentasse, não conseguia repassar aos seus fornecedores de Montes Claros. Para os caras dos laboratórios, porco, galinha, feijão, arroz, milho e outras “guloseimas mais”, só interessavam mesmo depois de cozidos, e no prato. Preferencialmente, se possível, por que ninguém é de ferro, na boquinha. Só aceitavam o pagamento em dinheiro ou então em notas promissórias com juros altíssimos.

Necessidade é que faz o sapo pular ou então, quando a água bate na bunda neguinho pula, são ditos da sabedoria popular. Mas cuidado, pense mais e fale o mínimo possível. Não se esqueça de que a língua é o chicote da bunda, dirão outros. França pensou... França refletiu. França tinha que tomar uma providência urgente senão a falência seria inevitável. Mas ele, bondoso, não queria chocar a freguesia. Ele precisava dela. Depois, como ficaria o “remedin” pra combater o paludismo do “brejerin” com a pancinha cheia de “bichin?” Não, definitivamente ele não cometeria uma atrocidade dessas. Brasileiro pensa. Mineiro matuta. Brejeiro pensa e matuta, ao mesmo tempo. Tinha que haver uma saída... Havia.

Naquele tempo, Jacinto que era seu compadre, dava expediente na Prefeitura. A farmácia de França ficava exatamente no trajeto, que Jacinto fazia três vezes ao dia, pois almoçava em casa. Numa dessas passagens, França, desesperado, chamou-o:

- Compadre!

- Pois não. Respondeu-lhe o Coronel Jacinto, sempre educado, cordial e solícito.

- Já não sei mais o que fazer compadre. Não posso mais aceitar porco, galinha e mantimentos como forma de pagamento. Os meus cercados estão cheios. Se eu continuar assim vou quebrar. Mas também não posso deixar o povo sem remédio. O senhor precisa me ajudar!

Jacinto, homem prático, de raciocínio rápido, desses que em fração de segundos cria, amadurece e executa uma idéia, ali mesmo, sobre o balcão da farmácia, pegou sua pena e num papel timbrado escreveu em letras garrafais: “Com o único objetivo de zelar e preservar a valiosa saúde do povo brejeiro, com o intuito exclusivo de evitar propagação de doenças e pestes eventuais, inerentes ás espécies suínas e ovinas, porcos e penosas, proíbo, a partir de hoje, qualquer forma de pagamento de remédios mediante tais modalidades”.

Depois de assinar, entregou o papel para França com a recomendação: “Aqui está compadre, a solução para o seu problema. Pegue isso e cole na frente da farmácia. Quando alguém chegar com porcos e galinhas, basta o senhor mostrar o cartaz. Como a maioria não sabe ler, diga que o papel lhe proíbe de vender remédios para receber de outra forma que não seja em dinheiro vivo”.

É...

Por vezes diz a sabedoria popular, quem tem padrinho não morre pagão.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


69630
Por Enoque Alves - 19/11/2011 16:59:18
SOBRE O BREJO DAS ALMAS – PERGUNTAS E RESPOSTAS

Enoque Alves Rodrigues

"AONDE Ó LIBERDADE O SOPRO EXPANDES, EU QUIZERA VOAR, CONDOR DOS ANDES."

Tenho sido indagado com freqüência a respeito do paradeiro de alguns personagens por mim elencados neste espaço desde os idos de 2004, quando ainda publicava no extinto site da Abril, minhas crônicas semanais sob o titulo “gente, causos e coisas do brejo”. Confesso não dispor hoje da menor noção de onde alguns deles se encontram. É quase certo que a maioria assim como eu, já se mudou do Brejo ou, quem sabe, já estão no andar de cima o que não significa absolutamente que a minha permanência, ainda neste plano, seja por hora extra.

Ainda que alguns menos avisados insistam, ou quiçá, propositadamente, pelo simples dom da retórica fácil ou para polemizar, sou nascido e registrado no Brejo, mas lá vivi por pouco tempo. Não obstante os fortes laços que me prendem a terra mãe que me serviu de berço na atual encarnação e que orgulhosamente divulgo há muito tempo, não tenho hoje no Brejo, pelo menos que eu saiba, nenhuma relação de parentesco. Fisicamente, como já disse por mais de uma vez, ninguém lá me conhece. Ando pelas ruas do Brejo das Almas sem ser notado. Aliás, há sensação mais gostosa do que você ser tratado como estranho em sua própria terra? Você já teve alguma vez o seu momento de espírito invisível? Pois é! Você vê, mede, observa e aprecia todos que estão a sua volta e eles o ignoram inteiramente. Não lhe vêem ou pelo menos, fingem que não estão nem ai pra você. Quando você os fita nos olhos, eles, simultaneamente, desviam o olhar para o nada dando a impressão ser o nada mais importante que você. Isso geralmente ocorre com pessoas simples e naturais, cuja presença, no meu caso, não desperta qualquer interesse ou curiosidade aos demais. Não que eu não me ache bonito, claro, sou muito lindo, os outros que insistem em não me notar. Paciência! Rsrsrsrs.

Saudoso dos meus familiares que vivem em Burarama e do Brejo querido, aproveitando uma rara folga de agenda, estive recentemente no Brejo. Desta vez, ao contrário das vezes anteriores, estava tudo limpinho e arrumado. Chamou-me a atenção especialmente a quantidade de reformas prediais. Bacana.

Entro numa Padaria, na Alameda, peço um café com leite e pão, que me são servidos em um copo de vidro, desses onde costumam servir “a mardita” aos bebuns. Sigo um pouco adiante, saio da Alameda e entro numa Quitanda, onde, segundo as “más línguas”, são vendidos os mais saborosos e bem preparados pãezinhos de queijo do Brejo. Compro um pacote deles; ainda estão quentinhos. Sou tomado por um arrependimento repentino: Diabos, se eu tivesse esperado alguns segundos mais, poderia agora estar saboreando estes pãezinhos de queijo com o café com leite que acabei de tomar lá na Padaria. Passo diante da Igreja do Padroeiro. Fico ali parado por algum tempo imaginando como foi difícil aos caros colegas de épocas remotas, projetar e construir este templo. Verdadeira obra arquitetônica. Pesquisas me levaram a conhecer tanto sobre a história desta igreja, de sua fundação até o acabamento, assim como o pessoal efetivo envolvido em sua construção, atas, inauguração, primeira missa, nome do padre que a celebrou, etc. No entanto, tudo isso é insuficiente para conter minha admiração e encantamento por ela, toda vez que em sua frente me posto. É como se fosse a primeira vez. Mais adiante, deparo-me com a estátua de Feliciano. Meu Deus, estou ficando velho! Conheci esse cara em vida. Fui, em infância, a vários comícios dele só para ouvir o seu lindo palavreado e comer churrasco de espeto de valeta. São aqueles espetos que eram assados sobre uma enorme vala aberta no chão, onde deitavam brasas incandescentes. Como falava bem este homem a quem o Brejo tanto deve. Conhecedor dos mais comezinhos anseios populares, domínio completo do vernáculo de Luiz Vaz, o Camões, articulação impecável, dicção e tonalidade de voz que beiravam a perfeição, aquele cara inflamava as massas com seus discursos inesquecíveis. Agora, restava ali, a minha frente, apenas e tão somente, um reduzido amontoado de pedras e bronzes em cuja cabeça alguns pássaros atrevidos, diria, talvez por não terem sido informados do quão importante foi nosso Feliciano em vida, insistem em utilizar sua bela careca à guisa de aeroporto ou banheiro público. É a vida que passa lenta e silenciosa por aquelas plagas e por todo o canto, nos conduzindo, inexoravelmente, ao grande dia em que talvez, quem sabe, se fizermos um pouquinho do que ele fez, teremos também uma estátua em nossa justa homenagem, para a alegria da posteridade e, principalmente, dos passarinhos brejeiros que ganharão mais um aeroporto.

Cansado, mas com a alma confortada, após caminhar por quase todas as ruas e avenidas do Brejo, visitar, solitariamente, as mesmas localidades dos tempos de infância, deixo-o do mesmo jeito em que cheguei: Calado. Silencioso. Meditabundo. Tenho por costume não deixar que minha humilde presença interfira na vida pacata da Cidade e seus locais. Mesmo quando a visito acompanhado por alguém, procuro manter a discrição. Ciente de que, em muitas situações da vida, basta apenas uma simples palavra minha para fazer com que as coisas fluam, no Brejo das Almas, ou próximo dele, na casa da minha santa mãezinha lá em Burarama, recolho-me inteiramente a minha verdadeira insignificância. Ali me sinto criança outra vez. Inclusive, dou-me o direito de fruir da mesma inocência imaculada dos quase pueris.

Voltando a falar dos personagens dos quais tive conhecimento dos respectivos paradeiros, lembro-me de Maria Quitéria, claro, como poderia eu esquecer? Mudou-se do Brejo para Curvelo, onde se casou. De lá foi para Porteirinha, onde vive. Quanto ao Badú, como todos sabem, ele me encontrou aqui em São Paulo em 1973, por coincidência, na mesma empresa. Casou-se com uma Paranaense, Dalva. Tem três filhos e já se encontra aposentado cuidando de sua empresa de prestação de serviços no bairro da Mooca, aliás, é meu vizinho. Mateus, Bicalho, Conceição Formosa e Antão, retornaram para Taiobeiras e Salinas de onde não tive mais noticias. Geraldino Fogueteiro I, Demóstenes e Manezim Vaqueiro, até onde eu soube, foram para Januária. Quanto aos demais, Zezim Tocador e seu Vazamundo, Francelino do Areal, Feliciano Sansão, Zé Rodrigues, Mateus Gordo, Geraldinho Mazzaropi, Maninho do Mocó, Manél de Vovó, Neuzão, Cláudio Lagôa Seca, Demétrius, Gedeão, Almeida, Maria Bocão, Roberto Carlos do Mato, Tininho, Chuteira, Pascomiro, Galdino, João Pretinho, Geraldo Magela, Boneca Preta, Mané Pezim, Katiússia e muitos outros, permaneceram no Brejo. Cabe, portanto, aos meus queridos conterrâneos locais nos informar de seus paradeiros. Outros que porventura não se encontram relacionados aqui, das duas, uma: ou a minha mente já cansada não conseguiu recordar ou, por motivos óbvios, os excluiram da lista física dos vivos, em reverência aos seus familiares, mantendo-os eternamente na lista indelével do coração.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 12/11/2011 23:13:43
A IMPORTÂNCIA DA MÍDIA ELETRÔNICA NA DIVULGAÇÃO DE FRANCISCO SÁ

Enoque Alves Rodrigues

De 2004 até 2009 mantive dois blogs hospedados em importantes sites da Editora Abril, aqui em São Paulo, hoje desativados. No primeiro, denominado “isto é espiritismo”, fazia a divulgação, sem proselitismos, da Doutrina disseminada por Kardec, na França, em 1854. Ali postava fotos, resultados de pesquisas realizadas por companheiros do caminho, como materializações, psicografias, passes mediúnicos, palestras, etc., além de relatar experiências adquiridas no curto convívio que tive com Chico Xavier, em Uberaba, no começo dos anos 70, quando eu trabalhava na Mendes Jr., na construção da Usina Hidrelétrica de Volta Grande, na divisa de São Paulo com Minas. Já no outro blog, “gente, causos e coisas do brejo”, cuidava da divulgação de Francisco Sá, o querido Brejo das Almas. Naquele blog, escrevia minhas crônicas quinzenais, hoje vertidas para um livro, (Brejo das Almas em Crônicas), cujo original será publicado no próximo ano de 2012 e oferecido graciosamente às Bibliotecas do Norte de Minas, principalmente, a todos os Órgãos Públicos de minha Cidade de nascimento, a fim de se resgatar coisas e casos que de a muito julgávamos perdidos no tempo e no espaço. Postava também fotos e fragmentos de livros e jornais antigos, de uma época que de tão remota, fica até difícil acreditarmos ter existido. Todo esse acervo e muito mais que consegui garimpar de lá para cá, repousa, amarelado, em minha Biblioteca particular, onde a traça e o cupim não tem vez nem razão.
Quando em 2009 a Abril extinguiu aqueles sites após tê-los mantido por quase cinco anos no ar, jaziam, no registrador de visitas do “blog do brejo”, para minha total surpresa e decepção, apenas e tão somente a bagatela de 212 acessos. Uma ninharia, suficiente para desmotivar qualquer mortal que se propõe escrever algo. Pois, o mínimo que alguém, tonto como eu, que se atreve a escrever alguma coisa sem qualquer outra pretensão, espera, é que outros leem e, se possível, comentem o que se escreveu. Aliás, entendo que faz parte de uma boa educação, manifestarmos através de um simples recado ou comentário, toda vez que acessarmos a página de alguém. É uma maneira de dizermos: “Olá, estive aqui. Visitei sua página rapidamente. Um abraço. Fui!”
No caso em tela, seria muito de minha parte desejar que alguém comentasse, visto que ninguém lia, porque ninguém acessava. O pior, no entanto, já havia ocorrido: Em 2006, criei no Orkut duas comunidades que ainda existem: “Alô Brejeiros” e “Francisco Sá, meu amor!”. Pois é... Fiasco total. Até hoje o único acesso que consta lá é o meu próprio. Para a pergunta que postei: “você conhece Francisco Sá?” Nenhuma resposta. Ou melhor, uma resposta. A minha: conheço, sim, senhor. E daí, qual é o problema, cara pálida? Triste, não! Mas é a realidade. Minha filha, que naquele tempo frequentava o Orkut tinha em sua página milhares de adicionados, enquanto eu não tinha nenhum sequer em minhas páginas comunidades.
- Filha, quando é que você vai prestigiar o papai com sua visita a uma de minhas páginas no Orkut?
- Ah, velho, me desculpe, mas com esses títulos estranhos vai ser muito difícil de alguém se aventurar. Acho que estas páginas não terão nenhum outro acesso senão o do senhor! Dito e feito: ainda bem que eu não escrevi mais nada lá. Alias, nem eu sei hoje o que lá se encontra. Nunca mais entrei naquela joça. Só atualizo a minha página pessoal no Orkut por que não posso desativa-la devido ter lá adicionados amigos caros, em sua maioria, familiares.
Em maio de 2009 ao visitar meus pais em Burarama, passei um dia e uma noite no Brejo. Ao retornar para São Paulo reiniciei em outro site, “City Brasil”, alguns relatos de pouca ou quase nenhuma relevância. No entanto, hoje, esse blog se encontra com quase 115 mil acessos. Além dos outros blogs que mantenho, sempre se referindo ao Brejo, criados na mesma época, todos eles muito bem frequentados.
Mesmo com todas aquelas postagens as quais me referi no inicio destas mal traçadas linhas, em 2008, se você jogasse no Google “Francisco Sá”, o resultado da pesquisa trazia um certo Francisco Sá Carneiro, que até hoje não sei quem é. Pois, por não se tratar do meu Francisco Sá, Cidadezinha que se achava perdida nos rincões das Gerais, terra abençoada por Deus que me viu nascer, nenhum outro interesse teria eu em pesquisar ou procurar saber a quem se referia. Por certo, pelo simples fato de esse senhor ostentar o mesmo nome do Ministro da Viação que dá nome ao nosso lugar, já deve ser um grande motivo para fruir de toda felicidade e sucesso. Por favor, não me chamem de bairrista, “porque eu sou”.
No velho, e assim como eu, quase aposentado orkut, passaram a criar, aqui e acolá, algumas comunidades alusivas ao Brejo das Almas. Nada disso, no entanto, foi suficiente para romper as barreiras Cibernéticas que separavam o nosso “Brejo das Almas ou Francisco Sá, igual a ti, outro não há”, como diria Niquinho e Corinto, do mundo incomensurável do WWW (World Wide Web), que em português significa "Rede de alcance mundial". A coisa não engatava. Não dava liga. O Brejo não queria aparecer ou quem sabe, algum brejeiro, sem querer dividi-lo com o mundo, enterrou uma cabeça de jumento aos pés do cruzeiro.
Hoje, no entanto, graças aos esforços e dedicação de todo o nosso povo, a coisa mudou radicalmente. Se você digitar “Francisco Sá”, receberá de volta uma grande enxurrada de referências sobre a nossa Cidade. Com o advento do facebook, então, as comunicações ganharam muito mais velocidade. Ferramenta poderosíssima que entre suas incontáveis funções possui também a de colocar vários indivíduos online, repercutindo, ao mesmo tempo e em tempo real, assuntos de grande, média ou de quase nenhuma relevância aparente, mas que, lá no fundo, ao se analisar melhor, se constatará, fortuita e alvissareiramente que a principal missão dos idealizadores desta ferramenta, missão esta de importância indiscutível, está sendo cumprida ao pé da letra: aglutinar pessoas, aproximando-as cada vez mais uma das outras. Transportando-as para as diversas partes do Globo sem que precisem tirar um só pé do chão. De deslumbramento difícil, uma vez que encaro quase tudo nesta puta vida com naturalidade, até porque o fato de eu ser Espirita há quarenta anos não me torna diferente de ninguém, vejo-me hoje deslumbrado com as facilidades que não existiam antanho. No Oriente Médio a quase doze mil quilômetros de distância da Cidade de São Paulo, onde vivo, abro um simples computador de mão em meio a uma rua qualquer de Bagdá e de lá meus olhos veem a desfilarem-se no canto direito da pequena tela, “tops” ou curtas mensagens me informando que alguém, em um ponto qualquer do Planeta, curtiu ou comentou o meu link. Que há alguém querendo me adicionar a fim de ter-me como seu novo amigo. Dou um clique sobre um link e em átimos de segundos estou no site da Prefeitura do Brejo, onde posso acompanhar todas as ações do amigo Zé, em benefício da gente Brejeira. Entro no link “história da cidade” e vejo lá no final, o meu humilde nome. Volto para o facebook e os “tops” continuam me informando: Que o nosso Brejo agora tem um Centro de Memórias e que estou sendo convidado a participar da cerimônia de inauguração. Que o Brejo voltou a produzir alho como antes. Que as onças do Catuní voltaram a atacar rês. Que lá em “Capivara” a dita cuja que dá nome ao povoado foi extinta. Que lá no morro não há mais mocós. Que os dois riachos já não tem mais os encantos de outrora. Que os ventos que uivavam e varriam as ruas do Brejo das Almas hoje já não uivam mais. Que as águas do Gorutuba e São Domingos estão secando, etc. Com o simples deslizar do mouse sou remetido a fotos antigas das Praças Jacinto Silveira e Rogério da Costa Negro, do Mercado Velho, do Padre Augusto, de Geraldo Tito e Olyntho, de Feliciano, de dona Mariquinhas, de Denilson pequeno, de Roberto do buteco, de Wanderlino, em tarde de autógrafos de um de seus livros de crônicas e poesias, na linda MOC, do Alex sander com sua humildade, lealdade e sede do saber e dos quase dois mil amigos virtuais que frequentam minha página. Com dois cliques sobre um link, vejo e ouço o conterrâneo Tassio, ao vivo e em cores, aos berros, em acalorado discurso na Câmara Brejeira de Vereadores, em defesa dos Munícipes. Mais um clique sobre um link e sou transportado para o mais completo e bem elaborado jornal regional. Trata-se de “o Jornal de Francisco Sá”, do meu amigo Flávio Leão. Aqui, sem que seja necessário que eu dê nenhum outro clique, mas apenas com a barra de rolagem, vejo-me, como que por encanto, literalmente no Paraiso. Cercado agora por lindas beldades, belas e formosas mulheres, com olhares ternos e imaculados de quem acaba de deixar a adolescência, dignas representantes da mais pura “beleza brejeira”, estou extasiado. Não... Não vou navegar mais... Navegar não é mais preciso. Quem gostava de navegar era o Cabral e nós sabemos no que deu. Para mim chega! O meu destino final é aqui. Agenda apertada. Compromissos inadiáveis. Agitação de São Paulo e Bagdá. Poluição. Buzinas nas minhas orelhas. Dez mil projetos de Engenharia iniciando. Vinte mil finalizando. Definitivamente, estou mandando tudo isso às favas. Eu quero mais é ficar neste céu, acompanhado por essas “deusas”, até a morte chegar. E que a dona Teresa, sol que há mais de três décadas ilumina a minha vida, razão maior do meu existir, a mais bonita de todas as deusas, não me leia. Amém!
Voltando à realidade, para finalizar, pergunto: Valeu a pena termos vivenciado aquele engatinhar sofrível desta nova era em prol do conforto que usufruímos nos dias atuais?
A resposta soa-me aos ouvidos na voz do Excelentíssimo Senhor Doutor Deputado Federal Romário de Souza Faria, vulgo, “baixinho”.
- Valeu, peixe!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 5/11/2011 18:31:09
GENTE DO BREJO - MARIA BOCÃO

Enoque Alves Rodrigues

De repente, ela surgiu como se estivesse brotando do nada. Eles sempre surgem assim: de onde menos se espera!

Todos nós meninos, próximos a entrarmos na adolescência, estávamos em frente ao velho Cemitério do Brejo das Almas, ou Francisco Sá, em um dia de finados, no aguardo de outros moleques que se integrariam a nossa turma para juntos, acompanharmos a procissão dos mortos.

- Qual é o seu nome?

- Maria!

- Mas, Maria do que?

- Maria “Bocão”!

- Uai, estranho, mas é esse mesmo o seu nome?

- É!

Perguntada, de onde vinha, respondeu-nos: “do pé na cova”. Referia-se ao antigo e famoso boteco com este nome que existia naquela melancólica, triste e silente localidade onde apenas aqueles que partiram deste mundo rumo ao Mundo Maior, a quem devemos sempre reverenciar, reinavam. Na realidade, conforme soubemos depois, Maria de Nazaré, era esse o seu verdadeiro nome, não provinha do “pé na cova”, apenas deu uma passadinha por lá para “molhar as palavras”, e não houvera brotado do nada, não, senhor. Nasceu, assim como todos nós nascemos, de um pai e de uma mãe e sua localidade de nascimento era o povoado do Caititu, meio distante de onde se achava agora. Tivera, no entanto, ainda em infância, alguma desdita, reservada que lhe fora pelo destino implacável ao qual não nos cabe questionar, que culminou em lapsos de memórias intermitentes que muitas vezes não a permitiam sequer saber onde estava. Trazia consigo, além do sujo bornal, em seu recôndito longínquo, traumas desencadeados talvez por alguma disfunção no processo alimentar, pois tinha como hábito não levar nenhum alimento à boca sem que antes o tivesse cheirado. Muitas vezes, em minhas curiosidades de quase infante, vi-a desprezar após haver recebido de alguém, saborosos e apetitosos petiscos. Alguma coisa, por certo, por razões que desconhecíamos, não caíra bem ao seu olfato sensível. Quando isso acontecia, de o alimento não passar pelo crivo do olfato, de nada adiantava o paladar aguçar o mundo das ascaridídas lá embaixo. Maria cismou com o rango, não tinha mesmo para ninguém. Aí só restava mesmo aos parasitas, chafurdarem-se em seus respectivos infernos astrais, onde permaneciam hibernados, até quando aquele divino ser, criado a imagem e semelhança de Deus, assim como nós, finalmente decidisse ser menos exigente para com o “pão nosso de cada dia”.

Não sei se devo reivindicar para mim a primazia de tê-la visto antes de todos. Tampouco saberia definir o que isso viria acrescentar hoje, ao meu ego e personalidade ainda em duvidosa e inacabável formação, apesar de meus quase sessentinha.

O certo é que do impacto daquele nosso primeiro encontro, ou seja, de nós, moleques do bem, educados dentro dos mais rígidos princípios doutrinários, até vermos Maria enturmada com mais de uma dezena de outros de seus iguais em expiações e provas em busca do burilamento espiritual neste Mundão de Meu Deus, foi um pulo. Ainda hoje seria capaz de citar todos os nomes daqueles que alguns do Brejo, inadvertidamente insistiam em chamar de “doidinhos”.

Retornando a “Francisá”, (já perceberam que a maioria de nós nascidos no Brejo, involuntariamente ou não, ainda hoje nos relutamos em aceitar um gentílico “que não é nosso”, não utilizamos a pronuncia completa e correta de Francisco Sá?), depois de cinco anos em São Paulo, fui até um “brejeiro ausente” lá nos arrabaldes de onde se começava o Brejo. Saudoso, queria logo rever os amiguinhos, assim os chamava, os quais sempre se reuniam em torno de mim, as algazarras diante de algum lar em festa. Encostado ao batente da porta da casa de Feliciano, juntamente com Zé Rodrigues, Mateus Gordo, Maninho do Mocó, Manél, Cláudio Lagoa Seca, Demétrius, Gideão, Almeida e outros, tentava, inutilmente, identificar em meio aquela turma que dançava animadamente uns com os outros, um sequer, daqueles muitos que havia conhecido em tempos não tão distantes assim. Ledo engano: Cadê Maria Bocão, Roberto Carlos do Mato, Tininho, Chuteira, Pascomiro, Galdino, João Pretinho, Geraldo Magela, Boneca Preta, Mané Pezim, Katiússia... Cadê todo o mundo, pô!

- Acalme-se, Noquinho. Essa gente é assim mesmo. Quando uns vem, outros vão e quando uns vão outros vem... Aqueles que conhecemos em nossos tempos de meninos já se foram... Para substitui-los “Mandaram” estes que ai estão. Se você fixar melhor os seus olhos ternos nos semblantes de cada um deles, verá que são iguaizinhos aos que se foram. Não há a menor diferença. Você não tem motivo algum para deixar de amar estes também. Basta que você os olhe com os olhos do Espírito, tontinho. Cresça e apareça moleque e não se esqueça jamais de que as aparências físicas não passam de um mero e insignificante detalhe!

Ai, ai,ai,ai,ai...Diria minha Santa e bela mãezinha lá em Burarama.

Pra ser sincero, essa doeu!

É...

Por vezes, e principalmente quando tentamos burlar o que veem os nossos olhos, a voz da nossa consciência berra aos nossos tímpanos.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 29/10/2011 18:15:26
GENTE DO BREJO - GERALDO MAZZAROPI

Enoque Alves Rodrigues

Durante muitos anos, quando a precariedade das comunicações imperava nas pequenas cidades do norte de Minas, a Prefeitura Municipal de Francisco Sá, ou melhor, do querido Brejo das Almas, tomou a iniciativa de criar seu próprio sistema de som. Uma velha Kombi caindo aos pedaços, de “cor daltônica”, sim, por que Cristão algum conseguia distinguir qual era a cor da danada, de tão suja que se apresentava, era utilizada nesse serviço. Alguns, quando chovia, arriscavam em afirmar meio, mineiramente, que a cor da Kombi era branca, devido pingos de chuva mais afoitos terem conseguido remover o encardido que existia sobre o teto externo. Outros, numa ilusão de ótica iminente, talvez sugestionados pela predominância da cor da terra Brejeira, teimavam em dizer que a cor da Kombi era vermelha. Alguns mais inadvertidos ou com algumas doses de cana na cuca juravam que a cor daquela Kombi era amarela, lilás, azul, verde, etc. Na verdade, nenhum Brejeiro em pleno gozo de suas faculdades mentais possuía assertividades suficientes para tais afirmações. Instados a definir com exatidão aquela cor, apropriavam-se de palavras desconexas de nosso peculiar mineirismo, que é quando falamos tudo sem dizermos nada, a fim de não penhorarmos nossa palavra com afirmações das quais não temos a convicção plena, e mandavam:

- “Noquinho, posso lhe afirmar com toda certeza do mundo que a cor desta Kombi da Prefeitura é vermelha, mas olhando melhor, me parece que é azul, cinza, roxa, rosa, sei lá...”

- “Uai, sô, mas assim você não está afirmando nada. Qual é a cor da Kombi, afinal?” Bem... Deixa pra lá...

Completando a parafernália da qual vinha falando, instalaram-se um potente alto falante sobre o teto da Kombi e, dentro da dita cuja, um locutor com voz semelhante a do grande ícone do Cine Comédia Brasileiro, o saudoso Amácio Mazzaropi, nascido aqui em São Paulo, no bairro do Brás, mas que passou quase toda a sua vida na Cidade de Taubaté, rasgava o verbo. Tendo como fundo musical a toada melosa e porque não dizer machista denominada “empreitada perigosa” (Quem tem mulher que namora, quem tem burro empacador. Quem tem a roça no mato, me chama que jeito eu dou... Eu tiro a roça do mato e sua lavoura melhora. E o burro empacador eu corto ele na espora e a mulher namoradeira passo o couro e mando embora...), composta pelo quase conterrâneo, o Montesclarense Tião Carreiro, que formava dupla com Pardinho, ouviam-se: “Alô brejeiros, aqui vos fala Geraldo Mazzaropi. Por iniciativa do Excelentíssimo Senhor Prefeito de Francisco Sá, tenho a honra de convidar você e digníssima família, para os festejos comemorativos pelo aniversário de nossa bem administrada cidade...”

Geraldinho Mazzaropi, assim o chamávamos, além da entonação da voz que, como já disse, que era idêntica a do velho “Mazza”, tinha também todos os jeitos e trejeitos do Jeca de Taubaté: nádegas propositadamente estufadas para trás, pernas lânguidas e andar meio ziguezagueante como se fosse um frango d’água. Os Brejeirinhos, ao vê-lo, logo se acercavam dele, que sempre solicito, lhes dizia: “qual é a historinha de Jeca que vocês querem ouvir hoje?”

- Sabem aonde o Jeca pegou aquele peixão?

- Nãããããão!

- Perguntem pro homem do Emulsão.

- Ahhhhh!

Referia-se ao Emulsão Scott em cuja embalagem havia um homem com um peixe às costas.

“Domingo ás 20 horas tem espetáculo no majestoso Cine e Teatro Mineiro... Não percam o duelo do século: O grandalhão “João Váine” (não conseguia pronunciar John Wayne) vai enfrentar o sela de prata “Juliano Gema” (Giuliano Gemma). Vai ser tiro para todos os lados. Vamos lá para ver quem vai vencer. Brejeiros, façam suas apostas...”

Pronto, a sorte estava lançada. Nas escolas, bares e alamedas, Brejalminos confabulavam-se e no final deixavam seus palpites sobre quem supunham seria o vencedor do duelo. Mal conseguíamos esperar pelo domingo. Cheios de entusiasmos, acorríamos todos ao velho Cine Mineiro. Sentávamos quase sempre nas primeiras fileiras para não perdermos nenhum lance. Expectativa... Adrenalina a mil... Atônitos e eufóricos... Espera difícil. O filme não começava. Murmúrio geral. Brejeiros inquietos:

- Uai, sô, mas cadê esse trem de filme que não começa?

- Sei lá... Uai... Espere um pouco... Aquele que está lá atrás com um carretel de filme nas mãos não é o Geraldinho Mazzaropi?

- Ih... É ele mesmo!

- Deu crepe... O tão anunciado e esperado filme enroscou todo antes mesmo de ter começado. Enquanto isso, Geraldinho, que era um “faz de tudo”, agora estava com um dos lados do carretel em uma das mãos, enquanto com o dedo puxava a ponta da fita cinematográfica, na tentativa de endireita-la dentro do carretel para que não houvesse cortes ou comprometimento da imagem. Mesmo com todo esse esforço, tais ações resultavam-se, quase sempre, ineficazes, pois do começo ao fim do filme, pouca coisa se aproveitava. Cortes longos e intermitentes muitas vezes, de cenas inteiras, impediam que até mesmo as mais férteis das imaginações concatenassem idéias ou tivessem a mais simples e mísera noção de como seria realmente o enredo do filme e seu final. Entretanto, frustrações “tenebrosas” ainda estavam por vir.

Após passarmos longas horas assentados, com os “quartos” doloridos e a bexiga sobrecarregada reclamando pelo xixizinho básico e imediato, eis que surge, afinal, para a alegria de todos e felicidade geral da nação brejeira, o tão esperado fim do filme e o duelo “de titãs”, finalmente ia começar.

De um lado, Wyane com seu inseparável cigarrão em um dos cantos da boca e com duas tremendas pistolas em cada coldre. Do outro lado, Gemma, equipado igualzinho a Wyane. Ao lado de cada um deles, suas montarias. Ao fundo, vários casarões de madeira com alpendres, onde moçoilas se achavam debruçadas para assistirem o espetáculo de horror. Em um barzinho de araque, vários bebuns observam. Em frente à Igrejinha, também de araque, o Padre e o Sacristão faziam o sinal da cruz. Lá no front os dois homens fitam-se com ódio nos olhos. Dão algumas voltas como se estivessem estudando um ao outro. Olhar tenso. Wayne, de tanta raiva, treme os músculos da face e cerra os dentes, rompendo em dois o cigarrão, cujo pedaço, vai ao chão. Gemma, também treme todo, da cabeça aos pés. Acometido de mortal ojeriza pelo desafeto Wayne, começa a piscar um dos olhos. Não entendíamos nada. Perdemos as principais cenas do filme. Meu Deus, quais foram os motivos que levaram aqueles dois homens ao ápice da ignorância humana? Porque se odiavam tanto?

Numa sintonia de fazer inveja a perfeição da Mãe Natureza, sacaram de uma só vez suas respectivas pistolas e abriram fogo um contra o outro. Baixadas a fumaça das saraivadas de tiros e a poeira levantada pelo tropel das montarias, agora, jaziam, ali, inertes, dois corpos estendidos no chão. Morreram-se os dois.

Para nossa decepção, pelo menos daquela vez, ou enquanto os dedinhos ágeis de Geraldinho Mazzaropi tivessem forças para seguir rebobinando aquela “maldita” fita, não houve ganhadores. Todos perderam. Inclusive nós.

Deu empate!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


69304
Por Enoque Alves - 15/10/2011 22:05:00
FRUSTRAÇÕES NATURAIS – FRANCELINO DO AREAL

Enoque Alves Rodrigues

Alguns mais antigos devem ter ouvido falar ou talvez conhecido o meu personagem da crônica de hoje. Francelino do Areal, cujo “sobrenome” vinha da denominação da Fazenda Areal, de sua propriedade que ficava no Município de Francisco Sá. Ali Francelino cultivava alho, arroz, feijão, algodão, milho, e outras culturas. Criava também gados de corte, que vendia para um hoje inexistente Frigorífico que ficava no bairro Malhada Santos Reis, em Montes Claros. Festeiro contumaz, Francelino era devoto de Nossa Senhora e de todos os santos, principalmente de São Gonçalo, Padroeiro do lugar. Todas as festas do Brejo das Almas de então, tinham-no como seu principal idealizador. Já na véspera ouviam-se ao longe os foguetórios. As bandeiras dos santos saiam do Largo da Igreja Matriz sempre com Francelino a frente rezando “um bendito é o fruto entre as mulheres” e pedindo para que os marmanjos devotos abrissem alas para que o Santo pudesse passar. “Sai da frente bando de bebuns que o Santo precisa passar”, dizia. Aos renitentes que insistiam em não abrir espaço, empurravam com uma velha bengala. Depois de dar toda uma volta em torno do velho centro, paravam, finalmente, em frente a Igrejinha de São Gonçalo e lá ficavam discursando. Após destacar todas as virtudes do Santo homenageado, iam todos encher a cara nos bares. Sujeito de palavra, forte e destemido que veio do nada, fizera, graças ao seu elevado espírito de luta, alguma fortuna, que, no entanto, devido as muitas desavenças familiares, numa das quais chegou a levar uma facada na barriga que deixou seus intestinos a mostra, começou a virar pó. Desgostoso, vendeu a Fazenda Areal com tudo que tinha e rumou-se com a família para Grão Mogol, onde comprou outra fazenda esta bem pequenina, de nome “Três Capões” de onde não mais se teve noticias. Não me lembro ter feito antes alguma alusão ao grande Francelino. Caboclo brejeiro que dentro de sua simplicidade cultivava hábitos muito salutares, quando se tratava de se obter bons resultados. Empreendedor convicto, daqueles que passam ás 24 horas do dia pensando em como se ganhar mais dinheiro, Francelino era, à sua maneira, um “o Midas do brejo”. Várias eram as abrangências de seus empreendimentos que alcançavam muitos ramos de atividades. Quase analfabeto, mal escrevia, punha nos bolsos muitos doutores das letras que queimavam pestanas e se contorciam todos para ganharem alguns parcos vinténs.
Ligeiro e astuto nos negócios. Mas cordial e generoso com os menos favorecidos. Cauteloso ao extremo, quando algum caboclo se dirigia a ele no sentido de lhe pedir algo fiado ou emprestado, ouvia sempre a mesma cantilena: “num vô lhe fiar ou emprestá nada. Vorte prá sua casa e veja com a Creuza o que ocêis necessita. Eu lhe darei de graça. Se eu te emprestá, ocê num vai ter cuma me pagar. Ocê é meu amigo e ai a nossa amizade vai pro brejo que num é das armas”.
Era um motivador nato. Do alto de sua rústica eloqüência salientava sempre que todos deviam ser como ele que nascera pobre e hoje tinha mais que o suficiente para viver. Que assim como ele, quando se luta em busca de objetivos, eles acabam “dando as caras”. Contava aos roceiros embrenhados nos eitos de suas roças, várias anedotas que beiravam o inverossímil. Era dado à pesca. Naqueles tempos, hoje tão longínquos, os rios, Verde, São Domingos, Gorutuba, Quem- Quem e até mesmo alguns córregos meio abusados, eram pródigos na oferta de peixes. Havia grandes e importantes espécies de peixes nestes rios, enquanto que nos “córregos abusados” havia desde a traíra até o bagre, que, alias, davam um bom caldo.
No entanto especialmente naquele ano as coisas não estavam muito boas para Francelino. O ano foi de pouca chuva e a lavoura, quase todas as culturas, principalmente as de arroz, feijão e milho, perderam-se no chão de deserto. Corria-se a enxada no chão seco e era só poeira vermelha que levantava. Era de chorar. Francelino, no entanto, não se abalava, ou pelo menos nada demonstrava. Por outro lado, metera-se na Política onde patrocinava amigos correligionários aos pleitos à Prefeitura, Câmara de Vereadores de Francisco Sá e outras cidadezinhas. Mas para tudo há um limite e o limite da tranqüilidade de Francelino chegou exatamente quando ele enviou uma grande manada de gado para determinado frigorífico, em Montes Claros. O negocio havia sido fechado por ele com o dono daquele frigorífico, de tradicional família da velha MOC, há muito tempo. Lá chegando, com toda a boiada em frente ao frigorífico, o capataz de Francelino foi informado pelo dono do frigorífico, conhecedor dos costumes do caboclo, que teria que voltar com a boiada para Francisco Sá porque seu frigorífico não estava vendendo nada. Que a “crise o estava devorando aos poucos”. E arrematava: “Esta maldita crise não está deixando mais nem um pouquinho de dinheiro para o pobre comprar carne”.
Como naquela época telefone era artigo de luxo até mesmo para certos ricos, o capataz sem saber o que fazer, mas receoso de volver com a boiada sem um prévio aviso ao seu patrão, permaneceu em Montes Claros, designando um peão de sua comitiva para ser o portador daquela triste mensagem. Depois de uma eternidade, o brejeiro finalmente chegou a Fazenda do Areal. Do alpendre do casarão Francelino o avistou ao longe. Logo deduziu que aquele retorno extemporâneo e solitário não lhe traria bons fluidos. Que havia algo de podre no reino da Dinamarca. Que a porca havia torcido o rabo e que não tinha quem o endireitasse. Ou que alguém havia roído a corda e agora cabia a ele consertar.
Ainda no alpendre, já deu um grito:
- “Mateus, Mateus, é ocê?”
- “É ieu, sim, meu pratão!”, respondeu-lhe o pobre vaqueiro, assustado.
- “E por que diabos ocê tá aqui só? Adonde tá Juca com o dinheiro dos boi?”
- “Antonces, meu pratão, é sobre isso qui eu quero falá e mecê num me deja. O cabra lá do figurifi de Monte Craro falô pro Juca qui num tem fulô de abroba (notas de 1000 cruzeiros da época) prá pagá o gado de mecê, apusquê uma tar de crise teve por lá e cumeu todo o frigurifi dele. Que o probe num tem dinhero pra comprá carne apusquê a mardita crise cumeu tamêm o dinhero. Seno assim, meu pratão, é mió qui nóis num vai lá. É muito pirigoso. Eu insisti cum Juca prá num ficá lá e trazê o gado de vorta. Mais ele é temoso Cuma jumento e me obrigô a vim falá cum mecê.”
Educado, comedido e resignado, Francelino entendeu de pronto o que havia acontecido. Calmamente esperou que o peão finalizasse sua fala. Chamou-o para dentro de casa. Ofereceu-lhe água e comida e no final lhe disse:
- “Bem, ocê já feiz a sua parte. Já foi lá e vortô e a crise nun te enguliu. Mais eu tenho lá os meus gado e os meus peão. Vou lá resgatá eles. Fica ai com a Edna, minha muié rezano prá qui eu ainda encontre eles lá Vico. Tumara que a crise nun tenha cumido eles tamêm!”
Pegou seu jeep e rumou-se à caminho de Montes Claros com a consciência plena de que ali chegando teria que renegociar ainda que em suaves prestações a sua boiada com o dono do frigorífico. Que as marés dos mares de Minas realmente não estavam para peixes e que caititu fora de manada é papo pra onça. Ele tinha que entender. Precisava aderir. Tinha que se recompor. A crise quando vem não poupa ninguém. Engole tudo e ai, meu nêgo, salve-se quem puder.
É...
Por vezes, ou quase sempre, quando a coisa está feia é melhor deixar como está para ver depois como é que fica.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 24/9/2011 14:29:43
A FÊNIX BREJEIRA – MANEZIN VAQUEIRO

Enoque Alves Rodrigues

Na década de 1960, mesmo com a crise, as visitas aos principais pontos turísticos mais importantes do Velho Brejo das Almas, ou Francisco Sá, “beldade do norte de Minas”, fervilhavam-se. Uma das atrações turísticas mais visitadas era a antiga e histórica Lagoa das Pedras. Para lá, convergiam-se multidões, vindas de quase todas as localidades e se aportavam às suas margens, onde passavam dias e noites se divertindo com a gama infinita de lazer que ali existia.
Águas claras e cristalinas onde se via, nitidamente, várias espécies de peixes, hoje inexistentes, nadando ao fundo. Ovinos, bovinos, caprinos, suínos e outras criaturas do mundo animal domesticado, misturavam-se a outros animais, do mundo racional civilizado, cada qual consumindo, engolindo inteiro, mastigando e ruminando, de acordo com o que determinam suas respectivas cadeias alimentares.
Canoas a remo, barquinhos com e sem motores, transportavam os homens “de coragem” até o meio da lagoa, cuja profundidade, diziam não ter fim. As mulheres com suas crianças de colo palestravam sentadas à beira da Lagoa com seus pezinhos delicados levemente mergulhados na água rasa, enquanto que seus pimpolhos, mais crescidinhos, cavalgavam sobre pôneis nativos ou brincavam de tourear algum bezerrinho recentemente desmamado. Os mais traquinas brincavam de caçar com bodoque, juritis, pombas amargosas, codornas, rolinhas e outras avezinhas silvestres.
Famílias abastadas de Montes Claros, Grão Mogol, Salinas e até mesmo de “Belzonte”, Capital das Alterosas, faziam dali seu habitat natural. Muitas chegavam ao ponto de fixarem suas residências naquelas imediações e de lá não arredavam pé de forma alguma. Usufruíam dos confortos que a grana lhes proporcionava naquele Rincão Paraiso, enquanto que muitos de nós, Brejeiros autênticos, nascidos nos arrabaldes ou com os dois pés cravados num brejo qualquer de lá, apenas nos conformávamos em vê-los se divertirem. Era tudo que nos restava. Naqueles tempos assim como é hoje, amanhã e para todo o sempre, amém, a nata do leite jamais se deixou misturar com o soro. O máximo que nós, soros, conseguíamos, era como já disse, observar, discretamente, a nata em sua diversão.
- Uai, e a quem pertencia a Lagoa das Pedras?
- A nós, Brejeiros, uai!
Também íamos lá, claro. Mas somente quando não se achavam os ricos. Sim, porque eles nos olhavam com desdém. Agiam em relação a nós que não fruíamos de seus “status quo” como se fossemos Cidadãos de segunda classe. Desprezavam-nos em nosso próprio território. Nada podíamos fazer. Eles aportavam riquezas ao erário de Francisco Sá. Eles faziam a máquina pesada da Administração Municipal girar, ao passo que nós, povinhos simples, apenas produzíamos algumas migalhas que em nada impactavam de relevante.
É possível que muitos dos meus conterrâneos que neste momento se encontram lendo as bestagens que escreve esse reles genérico de escritor, se lembrem, com saudades daquelas tardes e manhãs domingueiras à beira da Lagoa das Pedras.
Manezin Vaqueiro era um desses pobres brejeiros, sem eira nem beira, que se contentava apenas em ver a nata bem sucedida se divertir. Timidez própria dos que “não souberam nascer”, vivia embrenhado nas matas adjacentes a Lagoa das Pedras, observando, sorrateiro, a pompa de seus desiguais. Os homens remavam enquanto sorriam deixando à mostra o ouro que cobria seus dentes bem tratados, que reluziam sob os reflexos lampejantes do Astro Rei naquela manhã primaveril.
De repente, grita uma voz de mulher:
- “Socorro. O Marquinho está se afogando... Tirem-no da água, pelo amor de Deus!” Á maneira que a mulher não obtinha resposta ao seu pedido de socorro, a criança se afundava e eram mais fortes e desesperadores os seus gritos de aflição.
Ao notar que nenhum daqueles “bem nascidos, bundas moles” se manifestavam, Manezin Vaqueiro perdeu a timidez. Num gesto de bravura, coragem e destemor, imbuído do mais puro e elevado sentimento de amor ao próximo e solidariedade, independente de condição social, com habilidade e destreza peculiares a todos nós que nascemos na barranca do rio, jogou-se, de corpo e alma, nesta altura mais alma que corpo, nas águas profundas da Lagoa, só saindo de lá, minutos depois, com a criança quase desfalecida em seus frágeis braços. Foi aplaudido por todos que ali estavam pela sua coragem. Mas, matuto que é matuto, principalmente o brejeiro, não se deixa influenciar por endeusamentos fúteis.
Será?
À sua maneira, frente ao mulherio, carimbou, ali mesmo, a sua lição de moral, passando um tremendo sabão nos “bundas moles” que não tiveram coragem de lançarem-se ao rio.
- “Ocêis é uns riquin de merda qui num tem corage, porra niúma e qui borra as bota a cada peido... É muito fáci ficá ai si divertindo inquanto o minino afoga... De nada adianta ter esses barrigão cheio de cumida boa si nu curação de preda num tem nada. Ni um poquin de amô siqué... Eu divia era de cutucá ocêis cumia vara de tocagado prá vê se ocês se acorda... A cabeça docêis é cuma a cabeça de bagre, só tem b...”
Antes que Manezin completasse a frase, os “ricos bundas moles” corados de vergonha, no afã de sufocarem aquela descompostura matuta, na maior cara de pau, alçaram-no do chão e enquanto caminhavam com ele nos braços, gritavam, em uma só voz, a plenos pulmões, este refrão, aliás, próprio dos habitantes do Sudeste quando em aniversário.
- “E prá Manezin, nada?” Ao passo que outros gaiatos respondiam.
- “Tudo!”
- “E, então, como é que é?”
- “É!”
- É pique... É pique... É pique... É pique... É pique. É hora... É hora... É hora... É hora... É hora. Ra... Tim... Bum... Manezin... Manezin... Manezin... Manezin.
Num misto de frustração pelo “abafo” de suas palavras agora inaudíveis aos ouvidos humanos, mas sentindo-se como se fosse a Fênix Brejeira que renascia das cinzas nos braços daqueles marmanjos vestidos do mais puro tergal, Manezim, agora, apenas sorria. Um sorriso amarelo e desdentado, é verdade, mas era um sorriso.
Não demorou muito para que os “riquin bundas moles” encontrassem o primeiro “infernin” mais próximo aonde “dispensaram aquela tralha”. Antes, no entanto, tiveram o cuidado de efetuar o pagamento antecipado de várias garrafas de “Chora Rita”. Ao saírem dali, deixaram ordens expressas e implacáveis à Margot, dona daquele fétido boteco de beira de estrada: “Segure esse tonto ai, Margot. Faça-o beber quantas garrafas de pinga forem necessárias. Não deixe que esse encosto vá à Lagoa encher o nosso saco. Não queremos que esse estorvo perturbe o nosso merecido sossego. Estamos cansados de não fazer nada. Nós precisamos nos divertir”.
É...
Por vezes, não é sem motivo que o velho adágio popular nos diz que quando a esmola é muito grande o santo deve desconfiar.
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur


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Por Enoque Alves - 6/9/2011 21:42:56
SER BREJEIRO É... SUPERAR OBSTÁCULOS COM GALHARDIA

Enoque Alves Rodrigues

Março de 1964. O dia 31 que marcaria, literalmente, a ferro e fogo a vida de todos nós Brasileiros, se avizinhava. Falsos sentimentos de amor eterno pela Pátria Amada, Salve, Salve, enrustidos por detrás de vaidades pessoais e interesses mesquinhos e individualistas, levavam forças deletérias a aglutinarem-se em noites caladas, debaixo de sombras sorrateiras. Na marra, desiguais apeariam outros desiguais do Poder, lançando os menos favorecidos nos mais profundos e tenebrosos precipícios durante 20 anos. Não vale a pena detalhar aqui as consequências nefastas deste tresloucado gesto, que todos nós ainda hoje tentamos esquecer.
O certo é que, muito antes desse episódio, as coisas já não andavam muito bem pelas plagas que eu, quase infante, palmilhava com pés descalços. Aliás, as marés dos “mares de Minas” já não estavam mais para peixes há muito tempo. Crises de seca e fome grassavam o País de ponta a ponta. Numa dessas pontas, estava eu, um pirralho de onze anos, estávamos nós, e estava ele, o velho Brejo de todas as Almas, lá na pontinha das Gerais, se debatendo todo para saciar os desejos mais sublimes e elementares de seus filhos. A vida fluía difícil e lentamente. Por mais que se trabalhasse, claro, quando havia trabalho, a coisa não saia do lugar.
Não fosse a velha máxima que diz que “não há nada que de tão ruim não possa piorar”, poderíamos até afirmar que os efeitos desastrosos da Revolução, foram apenas mais uma ferida no corpanzil de um lazarento. Mas as coisas não são tão simples assim.
Dejanir de Cana Brava tinha plena consciência disso. Casado com Francisca, pai de seis filhos pequenos, labutava de sol a sol para conseguir o sustento parco daquela prole numerosa. Tivera ele todos os trinta anos de sua curta existência, forjados na bigorna cruel das mais difíceis necessidades de uma vida miseravelmente Severina. Vendia o almoço para comprar a janta. Trabalhava nas roças de Zeca. Quando a lide no campo escasseava, recorria-se ao Gorutuba, de onde sempre voltava com alguns peixes. Agradecido, dizia sempre: “Meu Deus... O Gorutuba jamais me deixou na mão. O que será de mim se algum dia isso acontecer?”
Bem, como o Brejeiro aqui já mencionou nestas mal traçadas linhas, “as marés dos mares de Minas” não estavam mesmo para peixes. Sendo assim, o Gorutuba, coitado, não estava nem mesmo para sapo. A seca atazanava a vida de todos nós matutos do Norte de Minas. Eu, apesar de à época contar apenas 11 anos, já não tinha mais cobras para puxar o rabo (roças para carpir) com uma velha enxada lá na Fazenda do “seu” Venúcios, onde defendia alguns trocados. Vem daí a minha obstinação pelo trabalho, fora do qual não vejo nenhuma outra forma de se realizar na vida. Mergulhei-me, então, na função de “retratista”. Com uma velha câmera kodac e rolos de filmes branco e preto, tentava realçar a sofrível beleza brejeira de meus iguais, que apesar de serem feios de doer, como eu, queriam mesmo era ficar bem e bonitos na fita. Distantes estávamos dos tempos atuais das câmeras de última geração e do photoshop que hoje, num passe de mágica, transforma gordos em magros, pretos em brancos, feios em bonitos e canhões oxidados pelo tempo, em reluzentes e turbinados boeng’s, aliás, difíceis de pilotar. É o progresso meu chapa.

A verdade, sem maiores delongas, é que o que o nosso amigo Dejanir mais temia, aconteceu. O rio Gorutuba começou a dar sinais de cansaço. O peixe que antes oferecia a Dejanir em abundância, agora não mais aparecia. Com o seu velho anzol com vara de bambu, e uma minhoca à ponta, ele ficava horas a fio sentado sobre um toco naquele barranco, à espera que um pintado, uma gorda traíra ou na pior das hipóteses, um bagre enlameado surgissem. Mas, nada. Quando o desespero apertava, ele tentava se tranquilizar acedendo um cigarrinho de palha. Mas permanecia sempre plantado no mesmo lugar como se um arbusto fosse. À maneira que as horas avançavam ele se descabelava. E em suas lamentações amaldiçoava a tudo e a todos. Em seus queixumes olvidava-se que naquele mesmo lugar, no mesmo rio, houvera tirado durante todo o ano o seu sustento. E resmungava: “Capeta, que diabo está acontecendo com estes peixes?” “Antes eles vinham aqui aos montões e agora, nenhum!” “Será que deu veneno na cabeceira deste maldito rio?” “Cruz, credo...”
Mergulhado em sua própria inércia e muito mais preocupado com suas “desgracências”, sequer lhe ocorreu em algum instante mudar de lugar. Não havia notado que a pouco menos de cem metros de distância dele, Antão do Catuni, precavido, prudente e motivado, calmamente retirava peixes e mais peixes do mesmo rio que ele segundos atrás amaldiçoara. De soslaio, entre uma baforada e outra, viu-o. Pôs-se estático. Nada conseguia entender. Em suas divagações inferiores só conseguia concatenar isso: “Desgraça, como é possível que Antão tão perto de mim consiga pegar tantos peixes em tão pouco tempo, enquanto que eu que estou aqui o dia todo não consigo pegar nem uma piabinha?”
Ai não teve jeito. A voz da consciência que até então se achava adormecida lá no fundão da cachola do caboclo brejeiro, não se conteve. Perdeu a paciência e compostura. Aos berros, esbravejou: “Vai trabalhar, vagabundo! Saia dessa inércia inútil! Quem você pensa que é? Durante o ano todo você ficou ai sentado neste toco, e o rio, generoso, empurrou os peixes até você para que você os pescasse. Você no entanto se acomodou de tal forma que hoje não quer nem se dar ao trabalho de caminhar menos de cem metros para busca-los. É por isso que nós, digo, eu, que sou o seu Anjo da Guarda, que recebi a triste missão do Cara lá de Cima para lhe carregar nas costas, seu estrupício, e Ele Próprio, decidimos que a partir de hoje, se você quiser levar algum peixe para casa terá que correr atrás. Você tem que sair daí. Esse toco já não lhe agüenta mais, cara. Você precisa caminhar um pouco e emagrecer, rapaz... Feio... Molenga...Careca... Barrigudo... Preguiçoso... Te manca, meu... Cobra que não anda não engole sapo, sô!”
Convenhamos que o vocabulário chulo, próprio de nós, simples mortais, utilizado pelo Anjo da Guarda de Dejanir, estava há milhões de anos luz de distância do que se pratica nas esferas Angelicais mais elevadas. No entanto, foram as palavras certas no momento mais que oportuno. Foi a sacudida que Dejanir necessitava para, daquele dia em diante, seguir em frente, ir à luta com coragem, determinação e galhardia.
É...
Por vezes, quando até mesmo o nosso Anjo da Guarda perde as estribeiras, é porque a coisa entortou de vez e ai, meu nego, mexa-se. Vá em frente, senão jacaré te abraça.
Enoque Alves Rodrigues, Brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia há quarenta anos, é cronista, escritor com dois livros em fase de lançamento, historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Contatos: enoque.rodrigues@ibest.com.br; enoquerodrigues2010@hotmail.com. Visitem meu blog: http://enoquerodrigues-earodriguesblogspot.com; http://www.facebook.com/profile.php?v=info&edit_info=all&ref=nur#!/profile.php?id=100000392634518


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Por Enoque Alves - 27/8/2011 20:16:52
PLANTAS MEDICINAIS - OS RAIZEIROS DO VELHO BREJO DAS ALMAS

Enoque Alves Rodrigues

São infinitamente incontáveis os historiadores que tem nos presenteado com seus relatos, por sinal, ricos em pormenores, a respeito da flora medicinal que existia nos serrados do velho Brejo das Almas de antanho que, contrariando a ordem da Natureza, cobria como se verde tapete fosse, á árida terra que me serviu de berço. Eu próprio, sem qualquer pretensão de incluir-me no rol de importantes, mas mantendo a prudência peculiar, já discorri várias vezes sobre esse tema que em muitos ainda exerce grande fascínio.
Há, no entanto, várias crendices populares que o nosso matuto brejeiro sempre procurou preservar no decorrer dos muitos anos ou séculos. Refiro-me a comprovação da eficácia de cura atribuída a determinada erva ou raiz. Aliás, ao vermos nos dias atuais a alquimia resultante das grandes descobertas no campo da indústria química prevalecer em quase todas as essências, há que nos perguntarmos: até onde devemos crer na capacidade de cura creditada pelos nossos antepassados, a esta ou aquela plantinha? Será que a raiz que se encontra curtida com cachaça de alambique dentro daquela branca garrafa tem realmente algum poder de cura ou está lá apenas devido ao seu sabor amargo ou para causar um bom efeito visual induzindo o pinguço a consumir mais? São indagações que com toda certeza habitam o imaginário de grande parte da população, pau d’agua ou não.
Contrariando minha mãezinha, a santa de cabelos brancos, razão de meu existir, que acaba de completar setenta e seis aninhos e vive lá em Burarama, que certamente me diria: “Noquinho, cuidado com certas afirmações. Lembre-se que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém,” atrevo-me a dizer que os efeitos dessas garrafadas na maioria das vezes, são muito mais psicológicos, ou placebo que reais. Mas isso não importa. O que conta mesmo é que não há raízes e garrafadas sem os raizeiros, que as preparam e que intitulam a crônica de hoje.
Certo está que as raízes e os raizeiros fazem parte da vida de Francisco Sá, o nosso querido Brejo das Almas, desde os tempos de sua fundação. Em 1704, quando o fazendeiro Antonio Gonçalves Figueira deixou suas fazendas Jaíba, Olhos D’agua e Colônia Montes Claros com destino ao Gorutuba, onde chegaria a dois de Novembro, incorporaram-se em sua pequena expedição de pouco mais de 20 pessoas, vários raizeiros, sendo o mais famoso deles Getúlio Santos Soares. Quando construíram a primeira Capela do Brejo, a São Gonçalo, em 1768, ao inaugura-la, estavam todos cansados e esbaforidos. Devido ao calor, forte indisposição intestinal tomou conta da plebe. Foram todos salvos por garrafadas e mais garrafadas de malva com fedegoso e semente de aroeira.
Antão do Catuni, Geraldo da Marvina, de Lagoa Seca, Rosendo, de São Geraldo, Manuel Pereira, de Poções, Bicalho, do final da Rua Montes Claros, Zezim, tocador, da Padre Augusto, Genivaldo, do Mocó, Zé Cláudio, de Vaca Morta e muitos outros, são alguns dos raizeiros que se encarregavam de abastecer os muitos botecos do Brejo com suas garrafadas milagrosas. No entanto, para quem desejasse saborear todas as garrafadas produzidas por estes verdadeiros alquimistas em uma só parte, sem que se fizesse necessário caminhar muito, bastava apenas ir até o velho “pé na cova”, sugestivo nome de um protótipo de bar, que como o nome indica, ficava exatamente no alto, quase dentro do cemitério de Francisco Sá. Também já muito falei a respeito dos bares do Brejo. Estica o Braço, Rola Moça, do Almeida, Dê Pena, Moça Branca, Roubaram meu Gato, Corta Volta, Rola Pote, Alma Penada, Fura Fronha, Só Cinco, Boca do Inferno, cuja denominação atribuída a sua localização que ficava no antigo beco que dava, ou melhor, que levava o transeunte boêmio à procura do sexo fácil, aonde belas mulheres maculadas e iludidas por promessas fáceis, ainda em idade juvenil, vendiam o sexo, na penumbra de abajur lilás do não menos famoso “Rancho da Lua”, onde Margot, a cafetina, imperava. Isso apenas para citar alguns botecos mais recentes em minha memória quase anciã.
As poucas farmácias da época viviam às moscas, enquanto que os bares com suas garrafadas não tinham do que reclamar. Qualquer pequena dor de cabeça, de barriga, do peito, das pernas, lombrigas, impotência sexual, etc., era motivo mais que suficiente para que o matuto brejeiro recorresse ao bar mais próximo. Chegava, informava ao dono do bar o seu suposto diagnóstico e depois de alguns segundos lá vinha o caboclo com uma límpida garrafa em uma mão e com um copo baboso na outra, dizendo: “aqui está a solução para a sua doença. Toma um gole que é tiro e queda!”
O “doente” pegava o copo e antes de solver em um só trago o precioso liquido, dava o primeiro gole para o santo e... tchan, tchan, tchan, tchan... Entornava tudo de uma só vez e em poucos instantes dizia-se curado. Não. Não ia embora. Ao contrário, ficava lá bebendo mais e enchendo o saco, até cair, fazendo a festa da cachorrada que lambia-lhe os lábios, solvendo os sabores maléficos da aguardente. Enquanto isso, a patroa brejeira que ficara em casa preocupada com os queixumes do bebum, não restava outra alternativa senão o difícil périplo pelas escuras ruas do Brejo, em busca do infeliz em um dos muitos bares, cuja missão quase impossível, mas que protegida pela deusa que ampara e sustenta todas as deusas do sexo feminino, principalmente as nossas mulheres brejeiras, acabava por lograr êxito em seu intento. Lá estava o “maldito” estirado à frente do bar. Chamava-lhe pelo nome. Nenhum sinal de vida. Estava quase em coma alcoólico. Ai a grande heroína do lar, com a ajuda de alguns outros bebuns que ainda estavam de pé, mesmo tropeçando nas próprias pernas, punham-no em posição vertical, jogava-o nas costas e lá se iam, trôpegos, esposa e pau d’agua à caminho do lar aconchegante.
É...
Por vezes, não há cruz mais pesada e difícil de carregar, que um bêbado às costas.
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


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Por Enoque Alves - 14/8/2011 19:52:05
DEVANEIOS DE UM BREJEIRO AUSENTE – ANDANDO PELAS RUAS DO BREJO

Enoque Alves Rodrigues

A imaginação é a mais poderosa aeronave que nos transporta em fração de segundos de um ponto ao outro do Universo, sem que tenhamos movido sequer um dos pés do local em que nos encontramos. Através de suas poderosas asas voamos para os mais longínquos lugares, principalmente para onde se detém os nossos laços e recordações da infância indelével.
Foi assim que de repente me pus a vagar, de maneira dispersa e sem destino definido, pelas ruas, avenidas e praças de meu querido Brejo das Almas, Francisco Sá, “beldade do norte de minas”.
Vi-me defronte à Drogaria União, próximo ao Banco do Brasil, na Praça Jacinto Silveira, de onde iniciei minha caminhada. Parei um pouco em frente à Igreja Matriz e observava a movimentação dos fieis que saiam de mais uma missa. Ganhei a Alameda Montes Claros e fui seguindo. Vi a antiga casa onde antes era a Pensão da Dona Quino, cuja frente servia de ponto para os ônibus que vinham da região de Salinas, Taiobeiras, Grão Mogol, etc.
Mercearia Alameda, Casa Lotérica Lotefrasa, Minas Bahia Consultoria, até a Farmácia Mineira na mesma Alameda. Sem mais nem menos, vi-me, desta vez diante do Mercado Compre Sempre, na Rua Sete de Setembro, com suas saliências íngremes, João de França Corretor de Imóveis, Diocese de Montes Claros, Fantástico Móveis, Casa Quincas, etc. Saio na Rua Marechal Floriano Peixoto. O Bar do Ronaldo, Casa Rocha, Comercial Moreira, Varejão do Hélio, Mercearia Dois Irmãos, Mercearia São Luiz, etc. Agora estou na Rua Padre Augusto, diante da Funerária Avelar –cruz credo-, Mercearia São José. Sigo por ela: Sol e Mar, Varejão da Economia. Paro um pouco e antes de virar a direita para sair em frente ao Mercado Municipal, ponho-me a pensar... Quantos, porventura, de nossos conterrâneos saberiam definir o quanto representou o nome gravado naquela velha placa para o Brejo das Almas? O certo é que o Padre Augusto Prudêncio da Silva, sobre o qual muito já escrevi neste mesmo espaço foi, juntamente com Jacinto Silveira, um dos maiores beneméritos do antigo Brejo das Almas.
Ao invés de entrar à direita, retorno à esquerda, pegando a Avenida Getúlio Vargas. Passo em frente à Igreja de São Gonçalo. Observo, agora, os prédios da Prefeitura e da Câmara Municipal. Subo, trôpego, as escadarias da Câmara e posso observar em seu interior. Na portaria uma gorda senhora com uma prancheta à mão. Sequer nota minha insignificante presença. Adentro os interiores. Fotos antigas e amareladas pelo tempo de Legislaturas de há muito passadas. Sento-me numa das cadeiras do Plenário de onde vejo a Nobre edilidade debruçada sobre projeto de grande interesse e relevância para os munícipes brejeiros. Depois de acirrada discussão, aprovaram-no por maioria absoluta. Saio de lá feliz e convicto de que o meu povo a minha gente, os meus queridos iguais, estão sendo muito bem representados. Que, sem duvida alguma, os seus anseios e suas necessidades mais prementes e comezinhas estão sendo, aos poucos atendidos.
De igual modo, entro no prédio da Prefeitura. Feinho, claro, assim como o da Câmara, faltam algumas reformas. Nenhum obstáculo. Alias esta é uma das grandes vantagens de viver e morar em pequenas localidades. Os acessos são livres. Se você for um local, conhecerá a todos e todos o conhecem. Mas se você não for local, acaba passando despercebido. Agora estou defronte ao Gabinete do Prefeito. Posso vê-lo com sua bela “pena” a sancionar o Projeto de Lei que momentos antes tivera eu o privilégio de ver sendo discutido e aprovado na Câmara de Vereadores. Sem quaisquer delongas, o grande chefe do Poder Executivo Brejeiro, homem de grande sensibilidade política e elevado espírito público, comprometido em mitigar facilidades que beneficiem seu povo, com uma só canetada enquanto eu piscava, zás... Com um só risco, com o seco e assertivo “cumpre-se” dos magistrados, libera toda aquela papelada à Secretaria para que seja registrada nos anais.
Êxtase incomensurável mesclado com prazer e sentimentos de um pequenez pessimista e abstrata, invadiu meu ser. Pensei comigo: Que coisa feia... Por que razão eu imaginava que as celeridades para com as decisões e aprovações de coisas que beneficiam realmente o povo não aconteciam? O que me levou a subestimar algo tão transparente e cristalino? Sei lá...
O certo é que a felicidade sobrepunha os questionamentos de inferioridades de minha reles pessoa. Poderia ali mesmo encerrar aquele périplo pelas ruas do Brejo. Mesmo assim continuei caminhando sem rumo. Correios, Espaço Rural, Asilo São Vicente, Funasa, Construpena, etc. Na Praça Duque de Caxias, vejo o antigo casarão que pertencia a Rogério da Costa Negro, Casa Prado, Hidrogás, Farmácia Nossa Senhora das Graças, Humberto Ruas e Cia, etc. Na Olimpio Dias, Banco Itaú, Tribunal de Justiça de Minas, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Kenya Criações, etc. Na Alfredo Sá, Policia Rodoviária e Cartórios de Protestos e do Primeiro Oficio. Na Francelino Dias, Rádio Raízes e outras. Na Rua Capitão Enéas, O Instituto Municipal de Previdência. Na Lauro Oliveira, o prédio da Escola Estadual Donato dos Santos, Tiburtino Pena, a Augusta e Representável Loja. Na Zeca Guida, o Instituto Mineiro. O Café Cometa da Rua Sargento Mor. Na Rua Belo Horizonte a Secretaria Municipal de Saúde. Na José Patrício Silveira, o Sindicato Rural de Francisco Sá. A Doce Magia Modas, da Rua Tremendal. O Colégio Pirâmide, na Rua Minas Gerais. Na Travessa do Rosário, o Sacolão Brejeiro. O Hospital São Dimas e oTribunal Regional Eleitoral na Rua João Catulino. O Centro de Saúde da Praça Rogério da Costa Negro. Hotel Avenida, da Avenida Padre Silvestre. Depois de muito caminhar me vejo à frente do Hotel Amaralina, onde, “supostamente” estou hospedado. Na mesma praça de onde iniciei a minha caminhada. O corpo pede repouso. Observo, de soslaio, do outro lado da Praça dois conterrâneos ao lado de um boizinho sofrível, com uma selinha ao lombo e com uma garrafa pet a servir-lhe de penico.
Uai, eu não havia dito, supostamente?
Pois é!
Todo esse transe de felicidade ímpar seria muita “areia para o caminhãozinho deste pobre mortal”. Eis que na calada da noite, não demorou muito e a invenção de Alexandre Graham Bell, toca...
Ao tira-lo do gancho, antes mesmo que eu falasse “alô”, uma voz feminina que de pronto identifiquei começou.
Dr. É a Luzinete...
Oi, Luzinete, qual é o problema?
Desculpe-me, doutor, pelo adiantado da hora... Mas eu estou te ligando para avisar que aquele treinamento que o senhor ia dar para o pessoal da Obra de Candeias, na Bahia, foi antecipado para hoje.
Luzinete, sua “demônia”, mas eu não lhe disse que não queria ser incomodado quando estivesse em minha terra? Você, por acaso, não sabe que eu estou aqui em Francisco Sá? Desmarque essa joça, imediatamente...
Desculpe-me, doutor, mas acho que o senhor está enganado, pois eu estou ligando para o telefone fixo de sua residência daqui de São Paulo. Assim sendo, o senhor se encontra aqui em SAMPA e não lá no seu “Brejo das Almas”. E ainda me comeu o toco... Acorde prá realidade, doutor...
É...
Por vezes, sem que saibamos, o maior dos pesadelos está em nosso próprio despertar!!!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá:
http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/
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68423
Por Enoque Alves - 5/8/2011 22:09:18
SER BREJEIRO É...AMAR O BREJO SOBRE TODAS AS COISAS...

Enoque Alves Rodrigues

Há algum tempo atrás li em minha página de relacionamentos “face”, aparte de um conterrâneo ao outro que me sugeria escrever sobre determinado tema relacionado, como sempre, ao Brejo das Almas, do qual supunha ele deter eu o domínio do conhecimento.
Na breve missiva, o conterrâneo que aparteava a quem agradeço de coração, do alto de sua inquestionável sapiência, manifestava-se surpreso devido o outro ter sugerido a mim, que nem no Brejo vivo e não a ele, mencionado tema. Finalizava informando que sai do Brejo muito cedo e que, portanto, não poderia discorrer com natural propriedade tal assunto, etc.
Tenho por premissa me resguardar de comentar ou me envolver com temáticas polemicas onde não consigo visualizar claramente o trinômio principio, meio e fim. É que na área de Engenharia onde atuo, lidamos muito com ciências exatas, cujo cume é o resultado. Assim sendo, as coisas que não se enquadram neste perfil, julgamo-las, abstratas ou descartáveis o suficiente a não nos permitir que debrucemos sobre elas para tomarmos ações que certamente nos levarão do nada a lugar algum.
Não tenho nos dias atuais nenhum vinculo familiar, qualquer parentesco ou contato físico com alguém que vive no Brejo. Ando por suas ruas sem ser sequer notado. Ninguém me conhece fisicamente. Os poucos, que lá ficaram, com os quais convivia, já estão, certamente, no andar de cima. Devo aqui ressaltar que sou brejeiro de nascimento, por amor e convicção. Apenas isso já bastaria para justificar esse meu inexplicável apego à terra que me serviu de berço. A incondicionalidade do amor que nutro pelo Brejo das Almas, sua gente e suas mazelas, está lastreada nas mesmas dificuldades que me obrigaram um dia a sair de lá, e principalmente, pelos parâmetros comparativos que pude estabelecer, diante de várias localidades e povos que vim a conhecer aqui mesmo no Brasil e em outras partes ao redor do Mundo, como no Oriente Médio, por exemplo. Em São Paulo, onde vivo, creio ter atingido o modesto pedestal pelo qual lutei e que a vida me reservou, durante longuíssimos anos de labuta.
Mas... E então, não deveria eu nesse caso, amar muito mais a São Paulo que me acolheu, quando necessitava, dando-me guarida, após haver, com seu coração hospitaleiro e cheio de bondade, me convertido através de seus costumes, sotaques diferenciados dos Italianos da Mooca, com suas pizzas e bracholas, em um de seus iguais?
Não. Negativo!
Amo São Paulo assim como amaria qualquer outro lugar que tivesse me proporcionado constituir minha família, participar de seu crescimento e ainda por cima, depois de comer o pão que o capeta amassou, chegar ao ápice da vida com algum no bolso para me sustentar, sei lá, por quanto tempo, sobre as já frágeis e tremulas pernas que ás vezes insistem, como as mulas empacadeiras do meu Brejo querido, em não mais querer sair do lugar, carregando o peso de minha saliente barriga. É a vida, meu nêgo.
Amar, já dizia o Poeta, é dar-se sem pedir nada em troca. O meu amor pelo Brejo das Almas, ou Francisco Sá, “beldade do norte de Minas” vem daí. Desde que nasci até hoje, muitos anos se passaram desde que amassei pela ultima vez a bosta das vacas da Fazenda Terra Branca de propriedade de meu avô, no Município do Brejo das Almas. Mesmo assim, ainda hoje meus pobres pés, ao palmilharem alguns importantes centros financeiros, palácios de convenções, centros empresariais e conferências inerentes a minha atividade, conseguem tropeçar em algo de natureza mole e tonalidade verde e escorregadia, que no final, pasmo, as narinas que jamais me traem, constatam tratar-se da mesma bosta de vaca dos tempos de outrora.
O amor, meus queridos amigos e conterrâneo é algo que sobrepõe o nosso querer. Nós não escolhemos o que ou quem vamos amar. Dessa forma, por me faltar argumentos dentro da objetividade, por não dispor de palavras suficientes que me permitam relatar com clareza, todas as causas, motivos e peculiaridades que canalizam o meu amor pelo Brejo das Almas, resta-me apenas me homiziar por detrás do meu mineirismo brejeiro, para lhes afirmar categoricamente, que somente o fato do Brejo ter produzido esse povo simples, lindo e maravilhoso onde eu, igual algum encontrei pelas diversas plagas percorridas, esse povo que transita pelas empoeiradas ruas do Brejo onde eu, muitas vezes, em vigília do espírito invisível, também me encontro a caminhar, basta-me para seguir amando-o com todas as forças do meu ser, sem quaisquer outras justificativas. Assim é o amor.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


68363
Por Enoque Alves - 30/7/2011 21:34:44
BELEZAS DE NOSSA TERRA - BREJO DAS ALMAS

Enoque Alves Rodrigues


Desde os mais longínquos primórdios, as belezas da terra que me serviu de berço, o Brejo das Almas, ou Francisco Sá, “beldade do norte de Minas”, são desfiladas em prosa e verso pelos mais diferentes Poetas e Escritores, amantes daquele abençoado torrão. Sejam eles nascidos ou não, naquele recanto. O Itabirense Carlos Drummond de Andrade que o diga. Fascinado com as maravilhas de nossa terra, dedicou todo um livro, uma de suas principais Obras Primas, marco da Literatura Brasileira, ao nosso “Brejo das Almas”.
Encravada no denominado polígono da seca, lá está ela desde Antonio Figueira, linda e faceira a produzir com a mesma lentidão da vida mineira, os seus naturais encantos.
No Brejo, nascemos e vivemos entre vários rebanhos bovinos, caprinos e suínos. Dormimos e acordamos sob o som de imensa orquestra regida por pássaros silvestres de todas as etnias que nos brindam com os seus mais diferentes cantos. O perfume inconfundível das florzinhas agrestes que o vento em lufadas divinas insiste em brindar nossas casas, entrando por portas e janelas, a impregnarem seus interiores é algo difícil de narrar. As suas ruas, estreitas, algumas empoeiradas, outras com pavimentações precárias, cujo traçado por vezes leva o nada a lugar algum, mas que seguiram a topografia natural do lugar, dão- nos a sensação nítida de que o Brejo das Almas foi todo esculpido e moldado sob medida para o nosso deleite.
A beleza das águas paradas da antiga Lagoa das Pedras, que refletiam qual espelho, as imagens das árvores frondosas circundantes, dos bovinos à sombra, deitados, depois de mitigada a sede, dos marrecos, dos ariris, e patos nadando sobre sua superfície, na qual refletia o azul celeste do céu de sol claro, tudo isto, restam-me retidos no recôndito, idelével.
De onde surgiu a denominação “Brejo das Almas?”. Não sabemos. Conheço todas elas. No entanto, nada disso importa. O certo é que antigamente a simples enunciação do nome “Brejo das Almas”, causava aos que desconheciam o nosso lugar uma repentina fobia. Mesmo não sendo eu tão velho assim, me lembro que houve tempos que os próprios brejeiros temiam ao ouvirem sua denominação. Nos dias de finados isso ficava mais patente. Em Montes Claros e outras Cidades adjacentes quando alguém falava: “vou dar um pulo no brejo” fatalmente se ouvia com toda naturalidade: “mas você vai voltar?” “Cuidado, não vá se afogar!”. Depois... “Ande com cuidado por que senão alguma alma penada vai lhe puxar as pernas!”.
A este temor não escapou nem mesmo o grande professor, jornalista e poeta, nascido em 1898, em Camanducáia, MG, Mário Casassanta, em sua belíssima crônica relatando seu regresso de uma excursão ao Norte de Minas em 1933, quando assim escreveu: “Deixando Montes Claros, poucas horas depois, Brejo das Almas. Eu fazia de Brejo das Almas uma idéia tenebrosa. Por que? Pelo nome? Pela distancia? Não sei.”
Para o Dr. Mário Casassanta o nome de nossa querida terra se associa à nossa memória as imagens do ermo dos pântanos e ao silêncio do alem... ” Entretanto a sua visão de homem sensível captou algo as belezas naturais de que somos dotados, e a sua capacidade de homem percuciente e de relevante cabedal de estudos, soube ver as nossas reais possibilidades." E deste modo finaliza sua crônica: “Brejo das Almas dá-me assim, longínqua e doirada de sol como a vi – com a sua opulência florestal, com o seu solo fecundo, com os seus rebanhos, com os seus laticínios, com a sua linda serra, com os seus engenhos, com o seu algodão, com a sua escola fecundíssima, com a sua linhagem de Tiradentes, com a sua linhagem de homem de ideal – Brejo das Almas dá-me assim uma impressão perfeita e encantadora de como é rica de aspectos e de como é cheia de imprevistos a Civilização de Minas Gerais”.
Há também os que acham “excêntrico” o nosso antigo nome. Nós Brejeiros também pensamos diferente. Achamo-lo sugestivo e poético. Ele é simplesmente lindo. Desculpem-me, pelo bairrismo.
O grande “Brejeiro” Olyntho Silveira, orgulho maior de nossa gente, assim como todos os “Silveira”, que ainda hoje, para nossa felicidade povoam nossa terra como guardiães da honra, brindando-a com exemplos de probidade e lisura, no campo político, social e econômico, desencarnado em Montes Claros com quase cem anos, -de quem empresto aqui a maioria das palavras que utilizo hoje nesta crônica- dizia do alto de sua inigualável sabedoria:
“Eis o ideal para os nomes dos lugares – sugerirem à inteligência uma suposição, criarem um estado d’alma, desencadearem a delicada máquina da imaginação que, abalada, de roda em roda, acaba produzindo um sonho acordado. Maravilhoso poder de uma palavra, que logo entra a mexer em nossos arquivos cerebrais, alvoroçando recordações visuais, reconstituindo sonhos e perfumes que a muito se dissiparam, etc. Infelizmente já se tornaram raros e não tardarão em desaparecer as denominações locais, assim ricas de sugestões, poesias e saudades... A rua dos Junquilhos, breve e modesta como a plantinha amiga da sombra sua madrinha, manter-se-á quanto tempo reste de vida a um chefete político a quem alguns amigos pretendam prestar uma homenagem após sua morte. Será em breve a rua Coronel Filismino ou Praxedes, cuja memória aliás nada ganhará.”
Pois é... Isto posto, ficamos assim...
Em que pese o grande homem publico que foi o Dr. Francisco Sá, sobre quem eu, um reles genérico de escritor, especializado em engenharia, tanto escrevi, enaltecendo as inquestionáveis virtudes das quais era possuidor, apenas empresta sua imaculada nomenclatura a nossa Cidade como mera “marca de fantasia”. O nome real recebido na pia batismal da localidade onde nasce o rio São Domingos, onde se encontra a Serra do Catuni, os dois riachos, o morro do mocó, um pouco mais adiante o morro da maceira, a Igreja Matriz e a Igreja de São Gonçalo, entre outras... O calçadão do centro por onde transitam desde a mais pura nata ao mais simples proletariado, meus iguais, e principalmente devido a infinidade de brejos que a compõem, chama-se “Brejo das Almas”.
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


68302
Por Enoque Alves - 23/7/2011 19:05:04
MINEIRISMO BREJEIRO - “CHUVA FINA E TEMPESTADE”

Enoque Alves Rodrigues

Quando em Março de 1931 o médico Dr. Paulo Cerqueira Rodrigues Pereira assumiu a Prefeitura da terra dos meus encantos, Brejo das Almas, na condição de seu primeiro Prefeito, iniciou-se um tremendo quebra-quebra na pacata Cidadezinha. Não. Não se tratava de nenhuma confusão ou levante de revoltosos refratários à nova administração. Já naqueles tempos assim como nos dias atuais, a paz que muitos anseiam em várias partes do Mundo, sempre se fez presente naquele “pedacinho de céu” que quis a Divina Natureza me servisse de berço. Obras e mais obras pipocavam por todos os lados. O Dr. Paulo era na verdade um Médico com espírito de Engenheiro. O homem era foda!
O antigo Largo da Matriz, hoje Praça Jacinto Silveira, assim como a maioria das casas, se achavam sobre grande elevação mais parecida com um morro em pleno centro. Não teve jeito: o nivelamento das ruas e praças do velho Brejo das Almas era inevitável.
Incontinenti, iniciaram-se os trabalhos, árduos por sinal. Naqueles tempos eram absolutamente desnecessárias as famosas tomadas de preços e licitações. Claro, ninguém roubava.
Assim sendo, todas as atividades inerentes ao corte do mato, poda da grama, retirada e recolocação de empedramentos nas ruas, escavações, terraplenagens, movimentação de materiais, eram executados na base da enxada, foice, picareta e carroças puxadas por mulas. Os funcionários pertenciam aos quadros efetivos da Prefeitura.
Formaram-se, então, duas frentes de trabalho. Todas elas tinham seu “front” no próprio Largo da Matriz. Elas eram batizadas com os nomes de seus capatazes, ou seja, o cabo de turma. Esse indivíduo era o responsável por comandar o pessoal, realizar as medições das tarefas executadas que eram reportadas, implacavelmente, ao Ilustre Prefeito. Senhor alto, magro, olhos claros, que vestia-se, impecavelmente, pela mais pura gabardine e ternos cortados pelos melhores alfaiates de Montes Claros. Era nascido na região e apesar de tudo, fazia da simplicidade a sua maneira de ser.
A primeira frente, uma barraca coberta com lona onde os peões guardavam seu ferramental, ficava logo atrás da Igreja, onde hoje é o número 41, da Rua Padre Augusto. Esta era comandada pelo Salineiro Geraldo Salinas, cujo sobrenome fazia jus a sua terra de nascimento e também a cachaça de mesmo nome produzida na Cidade de Salinas, da qual era ele fiel adepto. Enquanto que a outra frente de trabalho ficava no final do Largo da Matriz, no exato lugar onde se encontra atualmente o Hotel Amaralina. Sua equipe, por sinal a mais produtiva, era composta por vários indivíduos entre eles, o baiano “Zé Mãozinha”, apelido que fazia alusão a sua deficiência física, por não possuir a Mão direita, que, no entanto, não o impedia de ser o “rei da picareta”. Era o melhor de todos. O carroceiro era o Jerônimo “pernas tortas”, codinome este que indicava suas curtas pernas arqueadas à guisa de uma torquês. Para completar o trio de aleijados, a própria besta, encarregada de puxar a carroça também possuía as patas dianteiras tortas, igual ao seu carroceiro. Qualquer incauto que observasse aquele trio fora de ação não daria um tostão furado por ele. No entanto, quando ás 6 da manhã ouvia-se o tilintar da pedra sobre a velha enxada pendurada em frente à tenda, o trio se transformava e não tinha pra ninguém. Eram metros e mais metros cúbicos de terra escavados e puxados.
O Estelita Pena, além de vendeiro, fora nomeado fiscal da Prefeitura. A ele cabia fiscalizar a todos e levar diretamente os reportes ao Prefeito Dr. Paulo.
Certa ocasião, a mais produtiva frente de trabalho, a frente da Rua do Padre, a do trio de aleijados, não contente com o “ganhame” e principalmente por ver que a outra frente da “ponta do Largo” que não produzia quase nada e, no entanto, ganhava igual, resolveu fazer corpo mole. Ou melhor, “cozinhar o galo”. Só que o galo era muito velho. Sabendo disso, o Dr. Paulo recomendou ao Estelita Pena “fechar o cerco” sobre mencionado trio. As atenções do Fiscal foram redobradas para que o trio voltasse a dar a produção de antes.
Mas não teve jeito. Ai entrou em ação o “mineirismo brejeiro”. Os outrora senhores produtivos, incluindo ai a pobre besta, se transformaram em malandros, cheios de tretas e artimanhas que utilizavam para driblar as atenções do Fiscal Estelita. Combinaram, então, “Zé Mãozinha” e “Pernas Tortas”, menos a besta que puxava a carroça, coitada, linguagem cifrada na qual se comunicavam com os demais trabalhadores. Ao Dr. Paulo Cerqueira, Prefeito, por ser exaltado e exigente, deram o apelido de “tempestade”. Já para o Fiscal Estelita Pena, alcunharam-no de “chuva fina”. E assim passavam longas horas enrolando cigarros e mais cigarros de palha e bebericando uma cachacinha dentro de um corote, providencialmente escondido sob uma moita, sem que se ouvisse qualquer zumbido de picaretas a agredirem as pedras, nem o barulho natural das enxadas escavando a terra, ou das pás jogando-a sobre a carroça e nem a voz de comando do carroceiro “Pernas Tortas” à besta: “Vamos tortinha, levá mais essa terrinha. O Brejo pricisa de nóis”.
Paradões estavam... Enquanto fumavam e bebiam, conversavam amenidades e, claro, sempre às espreitas, observando o movimento. A desídia definitivamente se abatera sobre aquela produtiva equipe.
Quando, no entanto, o Fiscal Estelita Pena surgia ao longe, percorrendo o caminho entre a Prefeitura e o Largo, hoje convertido em Alameda principal, por onde transitam os lindos pezinhos da mais pura “beleza brejeira”, meu povo, meus conterrâneos, meus iguais, ouvia-se os gritos dos agora “malandros”
- “Chuva Fina!”. Lá vem “chuva fina...” Pronto. Era este o grito de guerra... As picaretas que até então estavam imobilizadas subiam ao ar freneticamente e ao descerem-se retiniam sobre as pedras arrancando delas faíscas de fogo como verdadeiros meteoros. A pobre mula, ou melhor, a besta, que até então dormia o “sono dos justos”, atarantada, não conseguia entender porque agora era acordada com os gritos desesperados de seu carroceiro “pernas tortas”, que ainda lhe xingava: “Vamos lá, sua mula pernas tortas de uma figa, levá esta mardita terra, senão no fim do mêiz num sobra nada prá nóis, diabos!”
A cada aparição do Prefeito seguiam-se no mesmo diapasão, só que a senha era outra: “Lá vem a tempestade” e ai o pau comia solto de novo.
É...
Por vezes, é muito tênue a linha que separa o trabalhador dedicado e comprometido com sua lide, do malandro imaginário.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


68171
Por Enoque Alves - 8/7/2011 22:16:58
MINEIRISMO BREJEIRO - JUCA E SATURNINO

Enoque Alves Rodrigues

São Geraldo, 1960. A bela Florisbela, 18 anos, era minha Professora, tendo a Dona Ana Lucila, como substituta, enquanto que minha querida mãe, ser angelical, era Diretora daquele humilde, no entanto, importante, por ser o único, Grupo Escolar. Diminuta casa de alvenaria de uma porta só, que ficava bem em frente ao cemitério daquele outrora pequenino povoado de São Geraldo, que pertence ao Município de Francisco Sá, ou Brejo das Almas. Nossa casa ficava bem ao lado do Grupo Escolar, tendo como cenário ao fundo, vasto e seco serrado onde de verde restava apenas um antiguíssimo pé de umbu, em cujas copas e folhagens algumas maritacas tagarelavam, sem cessar. O sol ali era abrasador. Mamonas nativas estalavam ao longe demonstrando suas fragilidades diante do calor que se assemelhava a densidade do mesmo que se esvaia das fogueiras das inquisições onde os santos ardiam. A cigarra, incondicional amante da seca, inseria seu cantar a plenos pulmões, a cada intervalo de um pipocar e outro. Era a vida que fluía por aquelas plagas, implacável, mas preguiçosamente...
Na sede do Município, Francisco Sá, Silveira, Oliveira e outros se sucediam. Em Cana Brava Zeca reinava absoluto, enquanto que em Burarama, Enéas, já no final de sua linda e proba existência, ainda dava as cartas como o dono do pedaço e senhor absoluto. Muito fez em defesa de seu povo e de seu torrão que hoje se denomina Capitão Enéas, a Cidade das avenidas, por suas vastas, planas e bem traçadas ruas, cuja planície, presente da Natureza, por concessão única ou quiçá por descuido dos deuses, àquele abençoado recanto localizado ao norte de Minas, estado que se encontra em quase seu todo, coberto por montanhas e elevações, dai vindo o seu codinome “alterosas”.
Em São Geraldo, Juca e Saturnino ou Saturnino e Juca, conduziam os destinos políticos e econômicos daquela plebe proletária cuja subsistência muitas vezes ou quase sempre, dependia de alguma ação por parte daqueles dois caciques que, cada qual a sua maneira, se desdobrava no intuito de atender os mais comezinhos reclamos e, por via de conseqüência natural, colher algum dividendo, quer ele político, social ou mesmo convertido num simples massagear de ego.
Logo na entrada do lugarejo ficava o casarão da fazenda de Saturnino, cuja densidade geográfica ia até a metade do lugar. A partir dali entrava-se nos domínios de Juca, com sua grande e assobradada casa, dentro de um grande manguezal, localizados na saída do povoado de São Geraldo. Eles eram adversários políticos, sendo um da antiga ARENA e o outro do MDB. Evidentemente que nas eleições eles faziam campanhas e Comícios fartos para os candidatos de suas respectivas predileções e assim, ganhava o candidato daquele que conseguia arregimentar aos tais comícios quantidade maior de pessoas.
Será?
Nem sempre!
O certo é que se você fosse visto em Comícios de Saturnino não poderia nem pensar em dar as caras nos Comícios de Juca e, vice-versa. É ai que entrava em cena a grande “expertise” ou jogo de cintura às avessas, do proleta “brejeiro-geraldino” – seria esse o gentílico? Sei lá, não importa! O fato é que a barriga dos frágeis “bacuris” ainda em idade tenra, reclamava os teores calóricos necessários a uma subsistência digna. Não tinha conversa bonita, não. Era rango no prato e pronto! Nada mais interessava. E como dizia o senhor Madruga, personagem do seriado “Chaves”: “quando a fome aperta a vergonha afrouxa”. E afrouxava mesmo. O caboclo, para não perder a “boquinha” do churrasco fácil com cachaça, o fiado no vendeiro da esquina, a peça de tergal para cobrir as vergonhas da mulher, o emulsão scott para expelir as solitárias das barriguinhas de “mandi de enchente” dos filhos, tinha mesmo que ir à luta. Nem que para isso tivesse que gastar o seu autêntico mineirismo. Quando alguém era pilhado em Comícios adversários, era comum ouvir-se o seguinte diálogo:
- “Vi-o, ontem à noite, no Comício de Saturnino!”
- “Negativo. Jamais estive lá. Era o meu irmão gêmeo!”...
- “Uai, mais você não é o filho único da dona Maria do seu Lalau do açougue?”
- “Sou! Por acaso você não sabe que acabaram de adotar um irmão para mim lá em casa?”
- “Não. Não sei. Tudo que sei é que se o seu irmão é adotado ele não pode ser nenhum gêmeo seu. Portanto, não deveria parecer nada com você!”
- “É que você não entende de genética, sô!”
“Uai, espere um pouco. Se você esteve ontem no Comício de Saturnino e viu o meu irmão gêmeo, que diabos você está fazendo aqui no Comício de Juca?”
- “E quem foi que lhe disse que eu estive lá?”
- “Uai, mas você acabou de me dizer!”
- “Por acaso eu lhe falei que estive lá, pessoalmente?”
- “Não. Isso você não falou. Você só disse que havia me visto lá. Nada mais!”
- “Então, pronto. Está tudo explicado... Já ouviu falar num negócio chamado “espírito?”
- “Já!”
- “Pois é, seu bocó, quem lhe viu ontem a noite, comendo churrasco e bebendo cachaça lá no Comício de Saturnino, foi o meu espírito, enquanto eu dormia!”
- “É verdade, sô. Acabo de me lembrar...” – finalizou o outro agora preocupado em ficar bem na fita: “o sujeito feio, desdentado, faminto e barrigudo que o seu espírito viu lá no comício de Saturnino comendo churrasco e bebendo cachaça também não era eu não. Era o meu espírito, aquele sem-vergonha, que fica batendo pernas por ai enquanto eu durmo como um anjinho.”
É...

Por vezes, o melhor mesmo é fingir-se de morto para não correr o risco de se perder a boquinha.
E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


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Por Enoque Alves - 25/6/2011 13:33:37
MINEIRISMO BREJEIRO – MANÉL DE VOVÓ

Enoque Alves Rodrigues

Antigo proprietário de bar em Francisco Sá, Manél de Vovó era muito conhecido e famoso devido ao esmero com que preparava suas garrafadas de pingas, nas quais adicionava desde raízes de vegetais do serrado brejeiro até a bela cobrinha coral, que dava um tom colorido às garrafas, quase sempre brancas.
A cachaça era curtida com aquelas exóticas misturas durante várias semanas. Depois, eram servidas em doses generosas, aos tropeiros cansados que pairavam naquele bar confortável, tendo a frente o manguezal do Clovão, com fartas pastagens verdejantes para suas montarias.
Ali era o que se poderia chamar de “o paraíso dos tropeiros”. Enquanto lá fora, os muares degustavam os brotos ainda em formação do legitimo capim colonião, dentro do bar de Manél de Vovó, na verdade um barraco de madeiras que ficava bem na saída da Cidade, à beira da estrada principal de acesso a todos os confins do norte de Minas Gerais, seus donos, os tropeiros, faziam a festa.
Manél de Vovó, um senhor já de meia idade, moreno, alto, que possuía somente um braço, não me lembro qual, era ágil na alquimia das garrafadas além de exímio cozinheiro, que preparava pratos saborosos que segundo a própria freguesia comentava, também eram afrodisíacos, quase sempre compostos por ovos de codorna e sarapatel, acompanhados de arroz branco, feijão de corda e farinha de mandioca. Era este o prato do dia, ou melhor, de todos os dias. Como sobremesa, casadinhos de queijos com marmelada que ficavam em um prato sobre o balcão. Vinha gente de diversas regiões, de todos os lados para saborear as famosas iguarias do Bar de Manél de Vovó. Enquanto os muitos bares do Brejo das Almas se achavam às moscas, a espera de um mísero freguês, amargando prejuízos pelas crises seguidas que naqueles tempos grassavam o Norte das Gerais, Manél não tinha do que se queixar. Seu bar vivia sempre cheio, todos os dias. O burburinho era intenso. Copos e mais copos de cachaça com cobras e raízes eram servidos à guisa de aperitivo enquanto a clientela mordiscava crocantes torresmos e pernas de galinha, no aguardo, sem nenhuma pressa, do rango principal que fumegava numa preta panela de ferro, sobre um fogão de lenha com fogo preguiçoso. Flores de aboboras como eram chamadas as antigas notas de um mil cruzeiros, quase inexistentes para as mãos dos simples e mortais brejeiros, reluziam aos montes nas mãos de Manél de Vovó. Contava-as assim como se contavam centavos. Ele merecia o sucesso. Ele trabalhava. Mas todos também trabalhavam e não prosperavam. Manél, quem sabe, ao nascer, fora bafejado pela sorte. Será?
O certo é que Manél conhecia o caminho das pedras. Como bom comerciante tinha que agradar a todos; ainda que para isso, tivesse que praticar o mais puro e autentico mineirismo. Isso ocorria sempre que ele queria se esquivar de uma venda na base do “fiado”, sem se correr o risco de perder o freguês. Mas também sabia ser áspero com os maus pagadores.
- Antonces, seu Manél... - Dizia um freguês no intuito de justificar o atraso de pagamento de um fiado para contrair novas dividas.
- Eu não me esqueci daquela continha que fiz com o senhor no ano passado...
- Não se esqueceu, mais não pagou. Se queres beber e comer de novo, primeiro tem que pagar! Não estou aqui para trabalhar de graça, não!
- Seu Manél, “sorta ai um rabo de galo e um “torremo”, que eu lhe pago no dia 30 de fevereiro –brincava um engraçadinho”.
- “Trinta de fevereiro está muito longe. Só lhe vendo se for para pagar no dia 28”. – Respondia, Manél, sério.
- Seu Manél... “Sua cumida é muito gostosa, mas o pissoá aí fora anda dizeno que ocê está guardano sobras de cumida véia pra vendê pra nóis outra vêis. Isso é divéra?”
- É intriga da oposição, respondia Manél: Quem espalhou essa mentira foram os donos de bares do centro do Brejo, revoltados com o meu sucesso...
- Manél... Esse torresmo está muito pequeno. Você vai acabar cortando o dedo da mão que você não tem.
- Então espera o bacuri crescer e virar porco. Não faço milagres...
- Seo Manél... Os “ovo de cadorna” que o senhor me serviu “está” muito pequenos.
- Vá reclamar com o “fiofó” da codorna ou então coma ovos de galinha que são “mais grandes!”
- Mas ovo de galinha não dá sustância e lá na casa da Salomé, num tem cunversa. Eu tenho que chegar com os quatro pneus calibrados. Num posso passá vregonha.
- Isso já não é problema meu, retrucava Manél. Se você não tem como dar conta do recado, fique por aqui mesmo, comendo e bebendo, porque você é um bom pagador e o meu negócio vai agradecer!
Certa feita, munido da curiosidade peculiar aos adolescentes, estava eu a observar a agilidade e destreza com que Manél de Vovó, apenas com um braço, cortava os queijos e marmeladas para fazer os apetitosos casadinhos.
Não, aquilo não era possível!
Ou era...
Seria ilusão de ótica ou estou bêbado?
Não...
Uai, mas eu jamais bebi em toda a minha vida!
Então, o que era aquilo?
Será que os meus lindos olhinhos estão me traindo?
Simples e elementar meu caro Enoque, diria a voz da minha consciência: O querido amigo Manél, em sendo desprovido de um dos braços, não teria outra maneira mais eficaz, apesar de pouco ou quase nada higiênica, de realizar a necessária tarefa da retirada dos resíduos da marmelada da faca antes de cortar o queijo e vice-versa, senão com a própria língua. Que outra forma você acha que ele teria para limpar a faca, bobinho?
O certo é que daquele dia em diante jamais retornei ao bar do Manél de Vovó para comer casadinhos.
É...
Por vezes, é melhor viver enganado que conhecer a verdade. É como dizem os Espanhóis: “La verdad, duele”
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


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Por Enoque Alves - 4/6/2011 15:33:38
MINEIRISMO BREJEIRO – COMÍCIOS

Enoque Alves Rodrigues

Quando a dois de dezembro de 1945, Eurico Gaspar Dutra se elegeu Presidente da Republica, o Tribunal Regional Eleitoral tratou logo de marcar as próximas eleições gerais no Brasil para o ano de 1947. No norte de Minas Gerais, assim como em todo o País, velhas e felpudas raposas famintas por voto, que até então se achavam na toca no aguardo de que a poeira da Revolução de 1930 baixasse, saíam agora a campo em busca do eleitor incauto.
Em Francisco Sá, antigo Brejo das Almas, as forças políticas locais se articulavam e compunham-se. Feliciano, filho de Lauro, nascido na região, foi lançado candidato a Prefeito, enquanto que o Paraibano Enéas, dono da fazenda Burarama, que naqueles tempos se localizava no Município de Francisco Sá, entre os rios Quem-Quem, São Domingos e Verde, saiu como seu vice, com o apoio de Gentil Dias e Osmani Barbosa. Enquanto que a chapa de José Pereira de Aguiar e Francisco Versiani Ataíde, contou com o apoio de João de Deus Dias e outros companheiros.
Finalizadas todas as articulações, costurados todos os acordos, fechada a chapa, era chegada a hora da “onça beber água”. Era, o que imagino, para qualquer político, o momento mais difícil, ou seja, a correria atrás do voto. Tinham que possuir o alto poder de persuasão para que no final dos escrutínios não tivessem que amargar uma tenebrosa derrota e esperar mais quatro anos para começarem tudo de novo. É este o circulo dos que militam nesta área da Sociologia.
Qualquer Brejeiro, por mais jovem que seja, tem conhecimento da grande facilidade que tinha Feliciano Oliveira, com as palavras. Orador eloqüente daqueles capazes de convencer o eleitor ou qualquer que fosse com poucas frases. Ele não se deixava levar pela retórica desprovida de conteúdo. Tampouco era dado a mentira ou promessas miraculosas que jamais se poderia cumprir. Mais que provado está o que afirmo, pela quantidade de vezes em que se elegeu Prefeito do Município e outros mandatos eletivos pela força do sufrágio universal. O homem falava bonito e levava o eleitor matuto brejeiro ao delírio. Qualquer candidato que estivesse em inicio de carreira naquela época queria ser um Feliciano.
Por outro lado, Enéas, ou o Capitão Enéas Mineiro de Souza, era homem de poucas palavras e não muito afeito às letras. Também não dispunha do jogo de cintura necessário em todas as atividades e principalmente na arte da política. Falava estritamente o necessário e, acostumado a caserna dos senhores de engenhos de onde provinha, expressava-se na maioria das vezes com frases truncadas e nem sempre compreensíveis. Bem humorado, afável, sorridente, no entanto, o Capitão possuía um senso de humanidade e um coração bondoso que contrastavam com suas rudes palavras. Empreendedor contumaz, esse Paraibano arretado, “Bandeirante do Norte das Gerais”, era comprometido com o seu povo, com o Brejo e com sua “Burarama”, hoje Capitão Enéas, em sua justa homenagem.
Lagoa Seca. Comício animado. Brejeiros brotavam de todos os rincões daquele que antes era um dos maiores Municípios das Alterosas. Cerveja quente e cachaça do Mangal sendo consumidas por todos, acompanhadas por carnes de bois que ardiam sobre os espetos atravessados em valetas ao chão, cobertas por braseiros reluzentes.
Filinto, Oscar e Idalino, sendo os dois primeiros em campanha eleitoral à vereança, acompanhavam os discursos no meio da multidão, animada, que a cada salva de palmas seguidas de “muito bem!” previamente ensaiados por “puxa-sacos” de plantão, gritavam:
-“Este é o homem... Este é nosso... Este é da gente... É deste homem que o Brejo precisa!”
Hoje não sei, sinceramente como é, mas naquele tempo, falavam-se primeiro os candidatos a cargos minoritários, como vereadores, deputados estaduais, deputados federais, etc., sendo que os candidatos a cargos majoritários faziam sempre o encerramento, fechando-o com a famosa “chave de ouro”. Todos falaram. Chegou a vez de Enéas.
-“Vocês sabem, por acaso, quantos mata-burros tem de Burarama até aqui?”, indagou o Capitão da multidão, aquela altura não muito ávida por tais informações, no sentido de enfatizar, sem qualquer sombra de dúvidas, seu vasto conhecimento de homem público sobre as coisas e mazelas do velho Brejo e sua gente.
- “Sei, doze!”, -respondeu Idalino, mais prá lá do que pra cá.
- “E alguém ai no palanque saberia me dizer por quais motivos, razões ou circunstâncias os trilhos da estrada de ferro não chegaram e jamais chegarão ao Brejo?” –Perguntou o sábio Idalino, acrescentando: “Me parece que alguém cujas iniciais do prenome, nome e sobrenome são “E”, “M” e “S” usou de sua grande influência para se beneficiar, fazendo com que os trilhos fossem desviados, cortando ao meio sua imensa fazenda cujo nome começa com “BU”!
Não teve jeito. Feliciano tinha que intervir. O seu candidato a vice era pesado e difícil de carregar. Foi ai que aproveitando sua vez de falar, com toda a classe e verve que lhes eram peculiares, iniciou seu pronunciamento:
“Obrigado, Idalino, pela “clareza” da sua pergunta. Enéas e eu estamos aqui para falarmos dos problemas que afligem a nossa gente Brejeira. Estamos convictos de que somos os candidatos melhor preparados para corrigirmos distorções existentes. Dêem-nos o voto de vocês e verão que jamais nos furtaremos ao nosso compromisso. A estrada de ferro não chegou e talvez nunca chegará ao nosso Brejo. Isso não se deve a intervenção humana, não. Ela não chegou porque Deus, o Todo Poderoso Criador do Universo não quis. Foi Ele quem fez o Brejo das Almas rodeado de montanhas intransponíveis onde trilho algum passará. Certamente que se assim o fez foi para blindar-nos. Para nos proteger de alguma coisa. É por isso que vocês tem que nos eleger...Nós conseguimos ler e interpretar com facilidade e desenvoltura, a cartilha do Criador.”
Ganhou!
É...
Por vezes, quando nos vemos em palpos de aranhas, onde as palavras que nos permitam virar o jogo, fogem de nós, a única solução plausível mesmo, é apelar aos Céus. Os “Caras lá de Cima” são costas-grossas. Eles podem tudo!
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, Brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


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Por Enoque Alves - 29/5/2011 12:56:10
MINEIRISMO BREJEIRO – CAMPANHAS ELEITORAIS

Enoque Alves Rodrigues

Segundo a definição de Derso Renault em seu livro Chão e Alma de Minas, nós mineiros somos pouco comunicativos. Devido a isso não conhecemos como devíamos as características de nosso caráter, de nosso “ethos”, daí sermos muitas vezes misteriosos. Já Tristão de Ataíde atribui a nossa personalidade às vezes duvidosa e indecisa, as limitações geográficas montanhosas de nosso estado. Diz ele: a montanha é uma limitação do horizonte. Limitação geográfica e psicológica. A montanha é o intimismo, a continuidade, a temperança. O instinto do homem mineiro não é o mesmo que o instinto do homem do litoral. Já Sylvio de Vasconcellos grande observador dos gestos e costumes do mineiro no trabalho diz o seguinte: o mineiro preza a palavra empenhada, por isso mesmo raramente a empenha. Negaceia por costume, contorna assuntos, fala por paráfrases ou simula hipóteses. Está sempre com o pé atrás, desconfiado sempre, elogiando no próximo suas próprias qualidades ou desculpando seus defeitos. É generoso quando suplicado e cruel quando ofendido. Esperto ao extremo ou ingênuo por conveniência. Não aceita ou rejeita as coisas de pronto, etc. Cita inclusive este pequeno dialogo entre dois mineiros ao telefone.
- “Espero você às seis horas na Praça Sete”.
- “Está bem. Agora, se eu não for até as cinco e meia é porque eu não fui”.
Bem, cumpre-me aqui resumir o que estes grandes estudiosos dos costumes arraigados na personalidade montanhesa quiseram dizer ao nosso respeito. Falamos tudo sem falarmos nada. Utilizamos de palavras lindas e afirmativas sem nos comprometermos. Sinalizamos que estamos indo numa direção e, de repente, sem prévio aviso, mudamos de rumo, deixando quem nos está seguindo atarantado, tonto, embasbacado, surpreso, boquiaberto. Aí pensamos: “uai, quem mandou me seguir? Eu nem disse para onde ia!” Não valorizamos os nossos gestos. Esquecemos muitas vezes que um gesto nosso vale por mil palavras. Fazer o que? Por mais que muitos conterrâneos não concordem, somos assim! No entanto, como podem ver, isso não significa um desvio de personalidade, caráter ou conduta. Isso se chama costume e o nosso caráter foi moldado exatamente dentro destes conceitos. Então, isso se chama “simplicidade mineira”, “é o nosso jeito mineiro de ser”. Virtude, então, e fim de papo.
Uai, por quais razões então, os Brejeiros e políticos de antanho seriam diferentes? Eles também não são mineiros?
- São, uai!
- Então...
1962. Campanha eleitoral a pleno vapor. O candidato à Prefeitura do Brejo das Almas, Geraldo Tito e seu vice, Leônidas Ribeiro da Cruz, amassavam o barro vermelho da zona urbana e a bosta de vaca da zona rural, à caça do voto precioso do eleitor, arisco e arredio.
- “Ô, de casa!”. Gritava um candidato com voz rouca e botas sujas do caminhar diário. “Tem alguém, aí?”
- “Tem não, senhor!” - respondia, lá de dentro, um fiozinho de voz quase inaudível, marcado pela fraqueza causada pela desnutrição do rango escasso.
- “Quero falar com o meu amigo Demóstenes!”
- “Mais o que é que Mercê quer falar com ele?”
- “Eu quero pedir voto!”
- “Desculpe, doutor, mais voto nóis num tem mais não! Mercê num cumpriu a promessa das dentaduras!”
- “Mais como não. Você não é a Maria, mulher do Demóstenes?”
- “Sou sim senhor. Uai, o que isso tem a ver?”. Quatro anos de vossa promessa e eu continuo aqui, com a boca murcha!”
- Espere aí, Maria, você chegou a ir a Clinica do Euler tomar as medidas de sua boca para fazer as dentaduras?”
- “Acho que fui!”
- “Mas você não tem certeza? Você tinha que ter comparecido a Clinica, conforme está escrito no cartão que lhe entreguei naquela época”.
- “Uai, doutor, mas eu acho que estive lá, sim senhor. Peguei uma fila grande dos diabos. No final dela, veio uma moça e me deu mais um cartão no qual me mandou escrever o numero do meu candidato e colocar na urna. Foi o que eu fiz”.
- “E onde está agora o cartão que lhe dei, Maria?”, – indagou-lhe o candidato, apreensivo.
Por alguns instantes, Maria de Demóstenes que até então, do alto de sua desconfiança falava com o candidato por trás da porta, sem sequer dar o ar da graça, surge à frente do mesmo com um papel na mão, todo amarelado pelo tempo.
- “Aqui está, doutor!”
- “Por mil demônios, Maria. Isto ai que você trás à mão é a maldita cédula eleitoral que você teria que ter colocado na urna para me eleger, diabo! Enquanto que o cartão que você colocou lá dentro era o cartão do Euler para lhe fazer as dentaduras. Agora não sou eu quem tem a culpa por você estar com a boca assim. Sabe Maria, ou melhor, Mariazinha, minha querida e idolatrada correligionária, o fato é que estou muito necessitado do seu voto, do Demóstenes e dos meninos (quatro filhos adultos do casal) e desta vez, com os votos de vocês, estou certo que vou ganhar para fazer para você, sua família e todos nós, um Brejo melhor!”.
Afinou o discurso com a Maria. “Passarinho não canta na muda, uai” e levou as eleições. Depois de algumas tentativas o grande escritor mineiro Coronel Geraldo Tito Silveira, ganhou as eleições em Francisco Sá, Brejo das Almas. Renunciaria, no entanto, dois anos depois, pelos motivos que todos nós Brasileiros, que vivenciamos os anos “dourados” do chumbo-grosso, conhecemos.
Enquanto que para aquele mesmo exercício de 1963-1966 eram eleitos para a Câmara Municipal do Brejo:
José de Deus Prado, Ivonílde Gaspar Oliveira, Euler Martins Moreira, Robson D’Artagnam Campos, Vanderlei Oliveira Brito, Irineu Lourenço Sampaio, José Antonio da Silveira, Antonio Augusto Dias, Osvaldo Rodrigues Vasconcelos, Jacinto Teixeira da Silva, Joaquim Soares de Jesus e Jorge Ribeiro Rocha.
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. Visitem meu blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/


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Por Enoque Alves - 21/5/2011 20:26:37
AS JOIAS RARAS DO BREJO FINAL – NIQUINHO

Enoque Alves Rodrigues

Previsível demais ou repetitivo ao extremo. Quiçá ao tomar ciência sobre qual “jóia rara do brejo” estarei escrevendo em minha crônica de hoje, o amigo leitor, sempre complacente para com esse humilde operário especializado da engenharia, mas que de quando em vez se mete a besta a escrever alguma coisa, seja induzido a esses adjetivos. Devo, portanto, antecipar que tal conclusão, caso ocorra, não corresponde à realidade. Entendo como oportuno lembrar que mesmo não vivendo fisicamente no Brejo há muitos anos, jamais me distanciei desta terra boa que me serviu de berço. Além do mais, é de conhecimento de todos que passei dezoito lindos anos da minha não menos linda existência, no Brejo das Almas e suas adjacências. Como tudo que faço da vida é vivê-la intensamente, esses dezoito anos, acreditem, representam muitíssimo para mim. Sem contar que sou um pesquisador nato e apaixonado por tudo que se refira ao Brejo. São, portanto, sem falsa modéstia, relevantes os cabedais de conhecimentos que disponho sobre fatos, antigos e atuais ou pessoas que foram ou que vieram a ser importantes no cenário brejeiro ou até mesmo, saídas do brejo, na vida Nacional.
-“Chega de bestagem, Noquinho, meu filho! Diria minha santa mãezinha lá em Capitão Enéas. Para que toda essa introdução se a “jóia rara do brejo”, nem é você? Limite-se a reportar os fatos e chega de rodeios e referências pessoais. Não foi assim que lhe ensinei menino!”
-Está certo, uai, mas mesmo assim cabe aqui uma pequena explicação:
-É que já me referi, ainda que superficialmente, por algumas vezes a esta “jóia rara do brejo”. No entanto, jamais havia lhe dedicado uma crônica. Depois, como abri esta serie com sua filha, a Professora Yvonne Silveira, sobre a qual também fiz uma introdução, nada mais justo que dissertar um pouco e encerrá-la com este personagem.
“Brejo das Almas, ou Francisco Sá. Igual a ti, outro não há...”
O autor da letra do nosso hino, que foi musicado por Conrinto Cunha, que aliás, não me canso de ouvir, o qual escreveu em atendimento ao pedido de uma amiga sua, a Professora Maria de Jesus Sampaio já que até então Francisco Sá não tinha seu próprio hino, é a minha “jóia rara do brejo” desta semana.
Antonio Ferreira de Oliveira, Niquinho, nasceu em Montes Claros. Formado em farmácia, ainda em sua cidade natal, enveredou-se pelos caminhos da Política. Tendo sido ali, ainda jovem, Vereador e Secretário da Câmara Municipal. Foi, inclusive, contemporâneo naquela edilidade de Jacinto Silveira e do Padre Augusto. Redigiu, enquanto secretário na Câmara de Montes Claros, projeto de lei que culminaria na Lei Estadual 843, de 07/09/1923. Cuja Lei desmembrou o distrito de Brejo das Almas dos Municípios de Montes Claros e Grão Mogol, dando-o vida independente, elevado que fora a condição de Município, tendo sua sede própria sido instalada em 07/09/1924, sob a denominação de “Brejo das Almas” que em 1938 se denominaria Francisco Sá.
Orador e poeta de inconfundível eloqüência. Intelectual ativo e inconformado com as injustiças sociais de seu tempo contra as quais lutava com velada bravura sem jamais perder a polidez e afabilidade. Escrivão de paz, farmacêutico de profissão, marido exemplar que pacientemente cuidou de sua esposa enferma até seus últimos momentos de lucidez e um ótimo pai de família de prole numerosa com oito filhos. Fisicamente alto, magro, tez clara, com bigodes, cabelos longos e corridos. Índole integra e sempre disposto a socorrer aqueles que dos seus préstimos necessitassem. Ainda que para isso tivesse que sacrificar a si próprio. Vivia para servir.
Foi com toda esta bagagem que numa ensolarada manhã do mês janeiro do ano de 1929 adentrou as ruazinhas estreitas e empoeiradas do velho Brejo das Almas, o querido Niquinho. Fincou residência no antigo Largo da Matriz, próximo a única farmácia do lugarejo de propriedade de seu amigo Francelino Dias, o França, com quem viria a trabalhar até montar a sua própria farmácia. O velho Largo da Matriz que então desnivelado, passou, em 1931 por reformas de nivelamentos na gestão do Prefeito médico, Dr. Paulo Cerqueira Rodrigues Pereira.
Antonio Ferreira de Oliveira, Niquinho, pode ser considerado um dos grandes expoentes do velho Brejo das Almas. Conseguiu, neste torrãozinho de meu Deus, colocar em prática todos os atributos com os quais a Divina Natureza o dotara. Exerceu todas as suas atividades sempre voltadas para a benevolência e crescimento do Brejo e de sua gente. Mesmo assim conseguiu amealhar com toda a sua honestidade razoável patrimônio que, no entanto, não muito afeito as coisas materiais e, principalmente, -desculpem-me mas não posso nem devo trair a historia omitindo dela a veracidade de fatos ainda que tristes-, pelo vicio do alcoolismo que infelizmente adquiriu, veio a falecer desprovido de bens materiais em casa de Yvonne e Olyntho, amparado pela filha amada e pelo genro querido, com o mais puro e sublime amor, depois de padecer por dez anos da incurável e tenebrosa enfermidade. No entanto levou consigo a maior riqueza. A certeza plena de que sempre que as necessidades brejeiras se manifestavam, lá estava ele a postos para amenizá-las ou tentar combatê-las.
Antonio Ferreira de Oliveira, Niquinho farmacêutico, a “jóia rara do brejo” desta semana, era na verdade em toda a sua essência, um “mitigador de problemas e dificuldades”.
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.Visitem meu novo blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/http://www.facebook.com/home.php?email_confirmed=1&changed_login=1


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Por Enoque Alves - 15/5/2011 16:20:14
AS JOIAS RARAS DO BREJO III – O PADRE SILVESTRE

Enoque Alves Rodrigues

Se o caro amigo leitor fizer parte dos quase cem mil que acessaram minha humilde página no CityBrasil, certamente já deve ter lido pelo menos umas três crônicas que escrevi sobre o Padre Silvestre, antigo pároco da minha, da sua, da nossa linda Cidade de Francisco Sá, o velho e querido Brejo das Almas.
Pois bem, naqueles tempos era comum que as crianças fossem batizadas somente após ter alguma consciência da vida. Fui, portanto, batizado pelo Padre Silvestre lá em São Geraldo, Município de Francisco Sá, no ano de 1960, quando já tinha sete anos. Vários foram os episódios que presenciei os quais tinham como protagonista o Padre Silvestre, a minha “jóia rara do brejo” de hoje, cuja memória, não obstante os meus relatos nem sempre favoráveis ao querido amigo, reverencio sempre. Era um amor de pessoa. Um santo na terra, a meu ver, claro.
Tipo físico europeu, estatura mediana, pele rosada, olhos azuis, cabelos loiros, e com sotaque característico dos “deutschers”, tribo alemã de onde se originava. Falava fluentemente o alemão enquanto se expressava com extrema dificuldade em Português.
Fora as ocupações que mantinha no clero, tendo sob sua responsabilidade toda a comunidade católica brejeira, o Padre Silvestre Classen também era ligado ás coisas da terra e mantinha algumas fazendas de cultivos naturais, além da criação de porcos. Inovador na arte da irrigação, foi pioneiro e grande entusiasta da agricultura familiar, ensinando ao matuto brejeiro, várias técnicas aparentemente primitivas, mas de resultados economicamente positivos e incalculáveis para o homem da terra de antanho. Na suinocultura incentivou grandes pesquisas que resultaram na mudança dos padrões genéticos da porcada que antes era considerada “curraleira”, ou seja, desprovida de qualquer pedegree. De repente o jeca brejeiro passou a conviver com “marcas de porcos” de palavras difíceis como “landrace” e “duroc” e uma leva de outros denominativos difundidos pelo Padre visionário e empreendedor. È isso mesmo, o caipira do brejo não falava “raça de porcos” mas, “marca”, sim senhor.
Certa ocasião, Mudinho do Correio, levou até o Padre Silvestre, um envelope pardo de aspecto bonito e luxuoso, subscrito em letras bonitas e garrafais onde o remetente se apresentava como um certo doutor Castro, que mantinha, segundo ele, um laboratório na Avenida do Contorno, em Belo Horizonte, Capital das Alterosas. Ao abrir o envelope, e principalmente depois de iniciar a leitura da missiva, o Padre arregalou seus grandes olhos azuis e por alguns instantes ficou estático. Havia ali, certamente, algo que muito lhe interessava.
Estudioso, meticuloso e curioso extremado. O Padre Silvestre era daqueles que se necessário fosse, varava noites analisando fórmulas que viessem propiciar melhorias e facilidades a vida difícil do homem caipira e dele próprio. Agora andava as voltas com uma nova invenção sua a qual estava a divulgar nas redondezas. Tratava-se de uma engenhoca que consistia em cortar curvas de níveis dos rios quase secos da região, receber as águas das chuvas escassas e encaminhar para as roças. Produziu também o primeiro “espantalho de formigas” que já vi na vida. Este sim era estranho e porque não dizer, até difícil de descrever: tratava-se de cabaças onde ele contornava toda a face, a imagem e semelhança de grandes tanajuras, com dois orifícios dianteiros e traseiros que captavam e liberavam o vento sob um som triste e melancólico, as quais colocava estrategicamente na porta do formigueiro. Segundo ele, quando as pequenas formigas davam de cara com as tanajuras gigantes, ainda na saída do formigueiro, com medo, retornavam imediatamente para dentro de seus “habitat” e de lá não mais saiam para devorar suas plantações. Quanto aos gafanhotos, ele vivia também às turras. No entanto, até o dia em que sai do Brejo, o placar era de dez para os gafanhotos e zero para o Padre. Ele não gostava de matar nada, por isso, fazia sempre o possível para se livrar dos inimigos de suas plantações “sem derramamento de sangue”. Já contra os passarinhos, rolinhas, pombas amargosas, periquitos, pássaros pretos e outros glutões admiradores de suas safras de milho, ele utilizava-se do bom e velho espantalho. Aquele boneco feito de panos velhos.
Mas que noticia tão importante havia naquele envelope para que o Padre Silvestre ficasse tão entusiasmado? Sobre o que falava o tal doutor Castro?
Pois é, uai, dizia a carta:
“Prezado Padre, tenho a honra de comunicar a vossa Reverendíssima, que o meu Laboratório localizado na Avenida do Contorno, número 2144, em Belo Horizonte, acaba de realizar a grande descoberta que finalmente irá por fim a praga dos gafanhotos que tanto assolam as vossas plantações. É muito simples, caro Padre. Trata-se de uma fórmula. No entanto para que eu possa vos enviar, é necessário que o Sr. me mande dois mil e duzentos cruzeiros para custear as despesas, etc., etc.”. Essa quantia naqueles tempos era suficiente para se comprar várias cabeças de gado.
Dois Meses depois, estava eu em frente à loja da dona Bezinha, quando vejo o Mudinho do Correio com um envelope semelhante, passar em desabalada carreira em direção à Igreja. Curioso, segui-o.
O Padre vivia impaciente e desconfiado. Não obstante ter ele pago aquela imensa quantia antecipadamente, o bendito envelope com a fórmula jamais chegava. Foi por isso que nem bem mudinho entrou na Igreja e o Padre já o interceptou. Arrancou de suas mãos o envelope e ao ler o seu conteúdo, transformou-se. Mudinho e eu agora víamos um Padre transtornado, andando de um lado para o outro, puxando os cordões da batina em frente ao altar, a resmungar enquanto lia e relia o teor da carta em voz alta:
“Prezado Padre, ainda não foi desta vez. O senhor precisa ter um pouquinho mais de paciência com os gafanhotos. Eles também são filhos de Deus. Houve um revertério muito grande na nossa fórmula o qual estamos tentando corrigir. Um grande abraço para o senhor e fique com Jesus. Amém!”
Ao longe, assustados, Mudinho do Correio e eu só ouvíamos os berros do Padre num português sofrível a dizer:
“E você, seu ladróne amardiçoado de una figa, fique com todos os diabros e que se queimem no fogo das profundas. Quanto a fórmula que você ia me mandar, ponha-a no... Bem, isso eu num posso dizê... Que assim seja!”

É...

Por vezes, e principalmente quando são passados para trás, os santos também perdem a paciência e compostura. E ai, salve-se quem puder, uai!

Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
Visitem meu novo blog: Pra variar, é sobre Francisco Sá: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/ http://www.citybrazil.com.br/mg/franciscosa/usuario.php?id_cadastro=7585




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Por Enoque Alves - 7/5/2011 16:52:09
AS JOIAS RARAS DO BREJO II – KARLA

Enoque Alves Rodrigues

Em meados do ano passado, ao abrir minha caixa de mensagens de e-mails tive uma grata surpresa. Talvez por nos acharmos, na maioria das vezes, imbuídos de sentimentos simples e comezinhos, nem sempre conseguimos imaginar o alcance daquilo que escrevemos e, principalmente, com quais pessoas e culturas estamos de certa forma travando conhecimento. Quando, no entanto, fatos fortuitos, ou inesperados nos surpreendem positivamente, isso para o nosso ego por mais simples que sejamos, funciona como um verdadeiro bálsamo. Imaginemos, então, se é que somos capazes, a sensação que podemos sentir, ao constatarmos que mesmo sendo a nossa premissa ter todas as pessoas em um mesmo nível de importância, aquela pessoa que acaba de ler e manifestar-se, também de maneira simples, meiga e natural sobre os nossos escritos, é, na verdade, um grande baluarte de cultura exponencial, um imenso cabedal de conhecimentos de usos e costumes de nosso povo, da nossa gente, e com lugar de destaque dentro da sociedade na qual se insere por pura competência e pelos predicados simples já aludidos aqui, no mais alto e elevado patamar? Aí somos conduzidos involuntariamente, ao seguinte pensamento: puxa vida, como seria bom se eu tivesse essa pessoa como amiga!
Pois é!
Karla Celene Campos, Montes-clarense de nascimento e Brejeira por convicção e vivencia durante longos anos por aquelas plagas de São Gonçalo, aonde os despertares raramente se repetem. Escritora com vários livros publicados, Professora Universitária, Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, Jornalista de renome e projeção nacional, possuidora de vários títulos e trabalhos acadêmicos de irrefutável reconhecimento, era exatamente a pessoa que me escrevia.
Dizia Karla, ter lido, muito tempo depois de sua publicação no MontesClaros.com., uma crônica minha sob o titulo “Fatos e Personagens do Antigo Brejo das Almas”, onde eu fazia referência a um certo casarão de cor rosa, que ficava exatamente na entrada do Brejo das Almas, a esquerda de quem chegava de Montes Claros. Com sua peculiar simplicidade de mulher brejeira, com elegância impar, após tecer elogios sinceros a minha saudade e apego pelo torrão natal e salientar, com sua cordialidade e finura, que apesar de tudo, o nosso Brejo já não era mais o mesmo, como se estivesse a me preparar para receber a informação “bombástica” que na seqüência me daria, disse-me que na verdade, aquele casarão cor de rosa, que quiçá pela cor não muito usual de suas paredes externas, jamais me saiu da memória, pertencera, na realidade, aos seus avós, o Sr. Antonio Miranda e a Dona Edite. Meu Deus... Quanta coincidência!
Conheci em minha adolescência quase pueril, a Dona Edite. Senhora benfazeja do nosso lugar. Religiosa, coração bondoso e incomensurável desapego às coisas materiais. De forte compleição física e olhar dócil e matriarcal. Todo brejeiro via naquela mulher cuja idade eu não consigo precisar, mas creio que à época se aproximava dos 60 anos, o Anjo da Guarda que todos gostariam de ter. De posses, não sei se por herança, atendia a todos com o leite tirado na hora de suas vaquinhas. Seu Sitio produzia frutas diversas em abundância que também ofertava aos necessitados. Quanto ao seu marido, o Sr. Antonio, o vi poucas vezes, insuficientes, no entanto, para que ainda hoje, quase cinqüenta anos depois, alguns resquícios de sua fisionomia me permanecessem retidos ainda na memória, quase senil.
- Senil?
- Mas isso não é coisa de velho?
-É, uai!
- Bem, então, sendo assim mudemos de assunto rapidamente, se bem que ser velho é uma grande dádiva e saber ser velho é a maior das virtudes.
De lá para cá, tornamo-nos grandes amigos e passamos a trocar correspondências apesar de hoje não serem tão freqüentes como gostaríamos, devido a muitas labutas da querida amiga e conterrânea Karla, com suas inúmeras ocupações e minhas, como sempre, embrenhado há quase quarenta anos, tapume adentro numa obra de engenharia qualquer. Ou talvez, quem sabe, participando de um workshop qualquer, tentando ensinar o que não aprendi e aprender o que jamais me ensinarão. Coisas da vida!
Restam-me reminiscentes no recôndito, dúvidas cruéis as quais por não possuir a elucidação adequada, aproprio-me de certo comodismo e até mesmo do meu nem sempre disfarçável mineirismo, para jogar a culpa nas costas do destino insólito, a seguinte indagação: “como foi possível a você, destino tirano e selvagem, que dois conterrâneos com tanta coisa em comum, como por exemplo, o seu amor incondicional pelo Brejo das Almas, Francisco Sá... Que quase na mesma época, palmilhavam com seus pezinhos de anjos, suas ruas empoeiradas e cobertas por paralelepípedos extraídos do morro do mocó... Que certamente por inúmeras vezes, quer na rua, na escola, na igreja do Padre Silvestre, no velho Cine Mineiro, ou quem sabe, na velha Praça da Matriz, ou melhor, na Praça de Jacinto, seus caminhos se cruzaram, não tenham tido em infância, uma única oportunidade de se encontrarem para poder trocar uns dedinhos de prosa?”
Seria porque, naqueles tempos, hoje tão longínquos, o seu, o meu, o nosso Brejo de todas as Almas era uma grande metrópole e depois, sei lá, se encolheu? São respostas que nem mesmo o tempo, o grande senhor da razão terá. Tampouco me interessam nesta altura do campeonato. Antes tarde que nunca! O importante é que hoje, por lapsos saudáveis do próprio destino, acabei por conhecer Karla, afetuosa amiga, a quem aproveito aqui para agradecer de coração pelo lindo livro “Os Bares não Fecham Nunca” que amavelmente me enviou e que li, intensamente. Obrigado, Karlinha e desculpe-me se depois de tanto tempo do envio, somente agora lhe agradeço.
Karla Celene Campos, minha dileta amiga, cuja trajetória, lições de vida, desprendimento, simplicidade, humildade, lisura, coragem, fé, determinação, senso de humanidade, inteligência, beleza interior inigualável, beleza exterior, idem, é, orgulhosamente para mim, a minha “jóia rara do brejo” de hoje, de amanhã e de todo o sempre. Amem!
E tenho dito!
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
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Por Enoque Alves - 30/4/2011 13:25:21
As joias raras do Brejo I - Dona Yvonne

Enoque Alves Rodrigues

É possível que antes mesmo que o amigo leitor inicie a leitura desta crônica já deva imaginar apenas pelo titulo, sobre qual “pérola do brejo” estarei me referindo hoje. Também é natural que uma pequena e vã ilusão se apodere do amigo, ao pensar que ao contrário das pérolas aqui mencionadas anteriormente, devido a minha pérola de hoje ser alguém na ativa com quase 100 anos de idade, de múltiplas atividades e expressivo destaque na mídia escrita, falada e televisada, e pelo fato de em conseqüência disso dispor de farto material cibernético de magnitude astronômica e fácil pesquisa publica, que pouco ou quase nenhum trabalho tenha dado a este pobre operário da Engenharia, que ás vezes se mete a besta e ataca de cronista para escrever estas “mal traçadas linhas” sobre esta grande Diva das Gerais.
Ledo engano! Nesse caso cumpre-me informar que tenho por principio só relatar fatos dos quais tive contato direto pessoalmente ou então através de pessoas que considero fontes seguras. Sem maiores delongas, explico: Não tenho o vezo de retratar algum fato ou personagem com base em informações de internet. Mesmo sendo eu um velhinho plugado vinte e quatro horas no www. Estas facilidades, sinceramente, ainda hoje, não me apetecem. Elas são muito frias e sequer se aproximam da sensação de uma calorosa conversa ao pé do ouvido ou quiçá, do êxtase existente no compulsar de um algum livro com suas páginas amareladas pelo tempo, olvidado em uma instante qualquer, em parte indefinida do Globo.
Utilizo a internet apenas para realizar pesquisas inerentes a atualização diária de minhas atividades no campo da engenharia. Assim mesmo, pasmem, quando não acredito muito em tais pesquisas via internet, recorro-me, quase sempre aos livros.
Bem, isto posto, chega de retórica, Noquinho, e vamos ao que interessa
Yvonne de Oliveira Silveira, Nasceu em Montes Claros em 30/12/1914. Ainda jovem transferiu-se juntamente com sua família para a pequena localidade de Brejo das Almas, hoje Francisco Sá, Minas Gerais. Ali chegando, enfrentou juntamente com o pai Antonio Ferreira de Oliveira, farmacêutico, intelectual e poeta, inclusive é ele o autor do hino a Francisco Sá, todas as dificuldades inerentes a uma vida pobre e Severina.
A mãe, pouco tempo depois por problemas de saúde, retornaria a Montes Claros, onde ainda jovem faleceu.
A menina Yvonne agora na companhia de numerosos irmãos ficava sob os cuidados do pai. Não tinha tempo para chorar ou lamentar as desditas da vida. Ao contrario, arregaçou as mangas e quiçá vem deste longínquo tempo as suas afinidades multifuncionais: aos 15 anos tornou-se professora na única escola do Brejo das Almas de então, onde tinha como diretora Gabriela Campos, vulgo Biela. Ali Yvonne lecionava para alunos do terceiro ano. Ajudava o pai Niquinho na Farmácia e ainda naquela época passou a colaborar na condição de cronista para o jornal “O Lápis”, fundado pelo intelectual e fazendeiro Olyntho Silveira, filho de Jacinto e Maria Luisa, agora e durante inúmeras décadas, seu marido. A primeira crônica que Yvonne escreveu foi dedicada ao irmão João Hamilton, quando este partiu em direção à Itália compondo-se ao front das forças expedicionárias brasileiras naquele País. De lá para cá, a diva não parou mais. Brinda-nos ainda hoje, com singular lucidez, concedida pelo “Cara” lá de cima apenas a alguns pouquíssimos iluminados, com suas crônicas, contos, poesias e tudo quanto se possa imaginar de prazeroso e revigorador para o espírito e intelecto.
É difícil falar de Yvonne de Oliveira Silveira sem se apaixonar. É impossível compreender como uma mulher aparentemente tão frágil seja capaz de exercer ao mesmo tempo diversas atividades, todas elas ligadas direta ou indiretamente ao campo do saber e do intelecto, com o mesmo vigor físico, dedicação e desprendimento da juventude. É privilégio de poucos, caros leitores e motivo de grande orgulho para nós, simples mortais.
Licenciada em Letras pela Unimontes, Professora aposentada de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Norte de Minas, Presidente da Academia Montes-clarense de Letras por vários mandatos, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, pertence a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, Jornalista, Cronista, Poetisa, Historiadora, “ufa”, faltou-me fôlego para continuar descrevendo as atividades da dona Yvonne” como carinhosamente a chamamos.
É sem duvida alguma um mito. Orgulho de todos nós Brasileiros e Montanheses do norte das Gerais.
Em Janeiro de 2008 tive a oportunidade de ler no “Norte de Minas”, uma linda crônica dedicada a dona Yvonne, pelo nosso amigo em comum Dr. Paulo Cesar Gonçalves de Almeida, então Reitor da Unimontes, cujo epilogo pego aqui emprestado para encerrar minha crônica de hoje, devido ao grande teor sintetizado em poucas palavras, mas de abrangência relevante e incontestável, bem como pela maneira fiel, isenta e irrefutável com que descreve a nossa grande Diva Yvonne e o que ela representa para todos nós e principalmente para as gerações futuras.
“Oxalá, diz Paulo, estejamos nós a quem compete levar adiante esta história à altura da magnitude intelectual e da grandeza moral da nossa mestra Yvonne Silveira, para que possamos nos dedicar com carinho ao belo legado que ela nos tem transmitido. E quiçá, novos talentos surjam para percorrer a história vindoura da Unimontes e da educação em Montes Claros e nas regiões Norte, Nordeste e Vales do Jequitinhonha e Mucuri”.
É...
Jóia rara como a dona Yvonne, de beleza e valor inestimáveis, teria mesmo que ter passado pelo velho Brejo das Almas, hoje Francisco Sá, minha apaixonada terra. Lá recebeu ainda em idade tenra e quase pueril, os pródromos finais da raça ariana na terra e o lapidar do Ourives Maior do Universo, que certamente lhe assoprou aos frágeis ouvidinhos em formação estas sábias palavras: Vai, Yvonne, minha filha... Cresça e apareça para todo o mundo... Semeia sua inteligência com humildade e simplicidade aos quatro cantos das Gerais...
Isto é a nossa Yvonne de Oliveira Silveira. “Oliveira” de Antonio e “Silveira” de Olyntho. E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador, escritor, e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


67370
Por Enoque Alves - 26/4/2011 21:09:57
OBRIGADO MEU POVO. ATÉ BREVE MINHA GENTE. AMO VOCÊS!!!

Enoque Alves Rodrigues

Como é de conhecimento de todos os meus leitores, depois de longo tempo, excepcionalmente no final de semana passado, deixei de publicar minha crônica semanal.
Os motivos, no entanto, são óbvios e repousam felizes e placidamente sobre a agradável e alvissareira justificativa da visita aos meus queridos familiares em Capitão Enéas e Montes Claros, que há algum tempo não os via. Como é bom voltar aos braços daqueles que nos amam desde a mais tenra idade. O abraço caloroso e o ósculo sagrado da mãezinha adorada, a dona Nazir. O abraço sincero e o beijo carinhoso e fraternal de minhas não menos adoráveis irmãs Tatinha, Neusinha, Narinha e Neidinha. O aperto de mão dos amigos, etc. Todos consternados e comovidos pelo passamento recente de meu pai, porém, firmes na fé de cada um e confiantes em um porvir melhor.
O dedinho de prosa com os cunhados amados. A algazarra entre os sobrinhos queridos. Até mesmo a visita a minha tiazinha Nira em seu leito de Hospital, são eternizados pela magnitude reminiscente. Fazer o que? Não tenho culpa se o Cara lá de Cima se faz presente em tudo.
As recordações com sorrisos fáceis e resplandecentes de nossas infâncias em Orion, São Geraldo, Caçarema e por fim, Capitão Enéas, são momentos que beiram a sublimidade das coisas. Ratificam, de maneira inquestionável, a existência de um Ser Supremo, cheio de bondade e complacência e gravam com marcas indeléveis no recôndito de nosso ser, a importância superlativa existente na simples arte de viver.
A sensação do encontro de todos eles, indistintamente, com minha filha a quem não haviam até então tido a oportunidade de conhecer, é algo indescritível até mesmo aqueles que estão, de alguma forma, afeitos às letras.
Alias, creio ser este o verdadeiro ápice da vida: quando não encontramos as palavras certas para definirmos tais momentos, ou será que isso ocorre exatamente para nos conscientizar do quanto somos pequenos diante da grandeza do Cara.
Não sei. Como eu já disse, sou pequeno e não tenho nenhuma obrigação de ter esta resposta para tudo!
No próximo final de semana voltarei com minhas crônicas. A série será composta de 5 capítulos “As Jóias Raras do Brejo”. Quanto ao livro “Liderança Conquistada”, de minha autoria, está em processo final de revisão. A capa já está aprovada. Ficou linda.
Estive por alguns instantes em Francisco Sá no dia 21/04/2011, conforme eu havia anunciado. Está muito linda a minha Cidade.
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Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


67280
Por Enoque Alves - 16/4/2011 14:46:04
AS JOIAS DO BREJO X– LOLÔ DO MANGAL

Enoque Alves Rodrigues

Durante muitos anos, ainda nos tempos do Coronel Jacinto Silveira, cuja residência em forma de assobradado casarão ficava ao lado da Praça da Matriz, era possível confrontar-se com um personagem atípico à beleza natural da gente brejeira de antanho, que vez por outra freqüentava aquela casa.
Moreno, Baixinho, barrigudo, pernas finas desproporcionais, vasta cabeleira e desdentado. Feio de doer... Assim era Lolô do Mangal. O “mangal”, inserido a alcunha “Lolô”, claro, era alusivo a localidade no município do Brejo das Almas, onde ele nasceu, viveu e tinha um Sítio, herança de família.
O Mangal, celeiro de gente bonita, onde por muitíssimos anos se produziu a melhor e mais saborosa cachaça do brejo ou quiçá das Minas Gerais, por certo quando do nascimento de “Lolô”, ou Lodovico Lopes da Cunha, cujo nome de batismo quase ninguém sabia, os deuses da formosura naquele instante se achavam em férias ou talvez, quem sabe, bêbados.
Será?
Não!
Os deuses como sempre não tiram férias. Tampouco se embriagam. Eles estavam à postos e muito atentos a tudo e a todos quando o velho “Lolô” viu pela primeira vez a luz do sol.
Dotaram-no do que se pode imaginar do que há de mais puro a uma beleza interior matuta. Deram-no o dom do falar fácil com o qual arregimentava multidões ávidas por ouvir os seus “causos” que tinham quase sempre como cenário a sua querida Mangal. Eram “causos” mas eram verdadeiros. Experiências vividas pelo próprio. Grandes lições de vida.
Uma dessas pérolas ele contava numa roda de amigos em casa do coronel Jacinto.
Certa ocasião, quando sua esposa Conceição, grávida, se encontrava à beira do São Domingos, colhendo alhos numa horta cultivada naquelas vazantes, ele a observava enquanto carregava com pólvora a sua pequena espingarda com a qual caçava juritis. Estavam na época das secas e o São Domingos, não obstante sua nascente tão próximo, se identificava apenas por um pequeno e insignificante filete de água. Em fração de segundos ele teve nítida percepção de que algo de muito estranho e grave estaria por acontecer. Em instantes, pensou... Matutou e concluiu que o que aconteceria não seria com ele, mas com Conceição. Num átimo de tempo, sem titubear, correu até a esposa e aos gritos de “sai logo daí porque está vindo um trem na sua direção e ele vai atropelar você!”. Conceição, surpresa e atordoada, até porque naquela região jamais se passou ou passa trem algum, olhava para os altos da serra, sem nada entender. É fato que está arraigado aos costumes de nós, mineiros e brejeiros, sim, senhor, tratarmos tudo como “trem”, principalmente aquilo que não está muito bem claro e definido em nossa cuca. Em momentos de desespero, como no caso em tela do nosso querido “Lolô”, isso não poderia ser diferente. É trem mesmo, sô.
Com indescritível solavanco e aos gritos de “você quer morrer mulher, sua fdp”, Lolô a todo custo, conseguiu retirar Conceição daquele local.
Naquele instante uma imensa pedra que havia se desprendido da serra, passava em velocidade meteórica no mesmíssimo lugar aonde segundos antes, Conceição de encontrava. Por muito pouco não conseguiriam levar a efeito a teoria de Isaac Newton que diz que “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço”.
É...
Por vezes, ou quase sempre, os deuses não podem dormir, nem mesmo se embriagarem, jamais!
Ainda que se trate da verdadeira água que passarinho não bebe do Mangal.

As próximas crônicas serão sobre as “jóias raras do brejo”. Não percam!
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Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 9/4/2011 16:27:07
AS JOIAS DO BREJO IX– LIBERATO & LAUDELINO

Enoque Alves Rodrigues

20 de Julho de 1969: O homem acaba de chegar à lua... “Este é um pequeno passo para o homem mais um grande passo para a humanidade!”, berrava a quase 400 mil quilômetros de altitude da terra, Neil Armstrong.
No Brasil daqueles tempos, as noticias chegavam com a agilidade de passos de tartaruga. Já no meu Brejo das Almas querido, lá nos cafundós das gerais, quando elas chegavam, vinham também em passos de tartarugas, só que de tartarugas preguiçosas e sonolentas.
Por isso era muito natural que enquanto nós do Brejo estávamos nos deliciando com certas novidades que nos chegavam através do velho rádio de pilha, de marca "abc canarinho", quase todos os habitantes das demais partes do Planeta Terra já não se lembravam mais delas. Se perguntados, talvez até afirmassem que tal fato não tivesse jamais acontecido. O mundo era lindo e girava lentamente.
28 de Dezembro de 1969, ou seja, passados longos cinco mêses após o grande evento que pouco mudaria os destinos da humanidade no Orbe: “Em Brasília, 19 horas... Começa aqui a voz do Brasil”, falava um locutor qualquer.
“Alô amigos, aqui começa o seu repórter Esso..." -Gritava Heron Domingues -: “Americanos não acreditam que o homem pisou à Lua”. Eram noticias simultâneas apresentadas pelos principais jornais radiofônicos de então, lembram-se, velhinhos?
Pronto: Este era o mote responsável por lançar a “grande discórdia” entre dois senhores de barbas longas e brancas, que perduraria por semanas e que, assim como o são todas e quaisquer polêmicas desprovidas de embasamentos necessários às evidências de veracidades mínimas, terminavam sem que se houvessem ganhadores.
Sentados no alpendre do casarão da Fazenda Terra Branca, limítrofe com Vaca Morta, no município de Francisco Sá, ou melhor, Brejo das Almas, os dois senhores naquele exato instante observavam lá no firmamento, o principal satélite da terra. Conversavam amenidades até que ouviram a bombástica noticia já produzida acima.
Liberato, ou João Albério Rodrigues, meu avô e dono da fazenda, adventista até a medula, era adepto de que o homem realmente não teria capacidade para ir à Lua. Sustentava sua “tese” com milhares de citações Bíblicas, todas elas atestando a incapacidade do homem, aliás, incapacidade essa que muitas vezes reduziam as condições humanas à total insanidade. Eu, pequeno ainda, mas estarrecido, só observava.
Já o “irmão Laudelino”, – assim o chamávamos -, também adventista, vivia na fazenda de meu avô. Era velhinho e nada fazia. Ele, ao contrário de meu avô, afirmava aos quatro ventos que o homem havia, sim, pisado à Lua. Que devido o homem ter sido feito a imagem e semelhança de Deus, o Próprio o dotara de muitos poderes e um desses poderes seria que o homem conhecesse de perto as maravilhas feitas pelo Criador, etc. Que se o homem tivesse ciência de suas reais potencialidades, com toda certeza seria capaz de produzir algo muito próximo do Criador. Que o meu avô deveria se aprofundar mais a sua leitura e procurar interpretar melhor as escrituras, etc.
Enquanto ao meu avô, ele replicava, dizendo que não, que apesar de ele ter que trabalhar muito para sustentar seus dez filhos, também conseguia tempo para ler muito. Que o importante, também não era somente ler, mas entender e interpretar. Que de forma alguma, Deus, concederia tanto poder ao homem. Que o homem só sabia fazer guerra e citava a segunda guerra mundial. Hitler, Mussolini e outros que, exceto Hitler, no frigir dos ovos, nem tão bélicos o foram, assim.
Varavam noites nesse diapasão. Não se chegavam a nenhum acordo. Estavam definitivamente em lados opostos. Nenhum dos dois queria “largar a rapadura”. “Dois duros não levantam muros”. Ou ainda, “dois bicudos não se beijam”, assim falamos nós brejeiros.
Pois é, havia entre eles, no entanto, um momento em que todas as diferenças se alinhavam. Todos os conflitos se dissipavam e todas as divergências se convergiam. Esse momento sublime se verificava todos os dias, durante todos os longos anos em que o meu querido avô viveu. Pontualmente ás 5 horas da manhã, ele saltava de seu catre de casal, com sua Bíblia e Hinário debaixo dos braços, junto com minha santa avozinha Justina de Jesus, a “dindinha”. Entoando os seus cânticos, passavam diante dos quartos onde as filhas dormiam. Ao ouvirem o som daquelas lindas melodias, levantavam-se todas e os seguiam em direção a sala da Fazenda, aonde grande mesa de madeira rústica, o altar da família, coberta por branca e límpida toalha de algodão, já os esperavam. Ritualmente, ali, na cabeceira daquela mesa, sobre uma cadeira de madeira em forma de trono, o meu avô se assentava e mesmo com toda a sua humildade, se sentia como se fosse um rei, dirigindo os cultos, onde todos em sinal de respeito e reverência, silenciosamente, o ouviam. Ninguém, nem mesmo o irmão Laudelino, se ousava a discordar do que ele dizia. Ou melhor, ali naquele “pedaço sagrado” daquela imensa casa ele reinava absoluto. Vivalma alguma em sã consciência se atreveria a lhe encher o saco.
É...
Por vezes, ou quase sempre, os reis são, infinitamente incontestáveis.

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Por Enoque Alves - 2/4/2011 14:44:50
AS JOIAS DO BREJO VIII– RC DO MATO

Enoque Alves Rodrigues

“Eu sou terrível, e é bom parar। Se desse jeito, me provocar. Você não sabe, de onde eu venho. O que eu sou e o que tenho. Eu sou terrível, vou lhe dizer. Que ponho mesmo, pra derreter...”
Todos nós Brasileiros certamente já ouvimos esta musica gravada por Roberto Carlos Braga, em 1968, pelo menos umas quinhentas vezes. Brejo das Almas, ou Francisco Sá, igual a ti, outra não há। Não, na crônica de hoje, veremos que pelo menos neste particular, o Brejo das Almas ou Francisco Sá é igual a todas e quaisquer cidadezinhas encravadas em algum ponto do infinito deste imenso Brasil.
Refiro-me a aqueles nossos irmãos que muitos que se dizem normais insistem em trata-los como se loucos fossem, que andam a vagar sem rumo, pelas ruas destas cidades, tendo como ponto de referência para repousar seus esquálidos e desnutridos corpos, viadutos, pontes, marquises ou escadarias de uma igreja qualquer। Geralmente ninguém, nem eles próprios, sabem de onde vieram, tampouco para onde pretendem ir. Eles parecem brotarem-se do nada e assim, ou seja, como se nada fossem, vivem à mercê da boa vontade alheia ou da crueldade de alguns.
O Brejo das Almas tinha e ainda tem os seus “loucos”। Recordo-me naqueles tempos de muitos, entre eles, Pascomiro, Maria Bocão, Boneca Preta, Chuteira e, evidentemente, a minha “jóia do brejo”, que homenageio na crônica de hoje: Roberto Carlos do Mato. Não, não me perguntem qual era o seu nome de batismo, pois não saberia responder. Tudo o que sei, -e os queridos conterrâneos e leitores que me acompanham sabem sempre procuro primar pela veracidade dos fatos que narro-, é que ele era desprovido de qualquer semelhança física com o rei da jovem guarda. Era preto, meio alto, braços longos, magérrimo, feio, -bem o original também não é bonito- e tinha, ao contrário dos outros pseudo-retardados, uma ocupação: era coletor de lavagens para porcos. Ele ia de porta em porta, no Brejo das Almas de então, com dois vasilhames às mãos coletar restos mal-cheirosos de comida, sempre seguido, por nuvens densas de moscas, ávidas por aqueles banquetes.
Deram-lhe a alcunha de “Roberto Carlos” porque ele conhecia de cor e salteado, todas as musicas do rei do iê iê, iê, as quais cantava durante vinte e quatro horas por dia, todos os dias, todas as semanas e todos os anos। Já o “do Mato”, claro, era uma alusão ao fato de ele ser e viver no Brejo das Almas cercado até hoje por densas matas.
Quando Roberto Carlos, o verdadeiro, lançava um novo long-play, os botecos e inferninhos da época, os tocava naquelas máquinas onde um gaiato qualquer coloca uma ficha e escolhe a musica que quer ouvir। Nesse instante, o nosso Roberto Carlos do Mato se postava à porta do estabelecimento e, com os ouvidos atentos e antenados, ouvia, absorvia, ruminava tais melodia e, pasmem, seus sabichões, no dia seguinte, na base da decoreba, já estava a nos alegrar cantarolando em toda parte musica e letra de RC. Para ser sincero com vocês, a letra da musica “eu sou terrível” com a qual inicio esta crônica, assim como muitas outras, consegui aprender de tanto ouvir o nosso Roberto Carlos do Mato cantar.
Certa ocasião estava eu sentado na Praça Jacinto Silveira pensando na “morte da bezerra” ou sobre uma futilidade qualquer, quando a minha frente surgem todos os “loucos” do brejo tendo a frente Roberto Carlos do Mato, cantando a todo pulmão, acompanhado por Zezim Tocador। Quando menos esperava, eis que lá estava eu, no meio deles, em algazarra, seguindo todos nós, cantando as musicas do Roberto, como em procissão, rumo ao velho cemitério. Até ai, nada de mais... Mas porque fomos cantar no cemitério? E como é que eu vou saber! Por acaso são coerentes as atitudes dos “loucos”? Eu era apenas mais um “louco” no meio daqueles muitos “loucos” do antigo Brejo, que de loucos mesmo, não tinham nada.
É...
Por vezes, é melhor nos fingirmos de “loucos” e surpreendermos com inteligência inesperada, que nos fazermos de intelectuais e decepcionarmos com tolices inescrupulosas. Visitem meu novo blog. Pra variar, é sobre Francisco Sá. http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


67025
Por Enoque Alves - 27/3/2011 12:28:43
AS JOIAS DO BREJO VII– DONA QUINÓ

Enoque Alves Rodrigues

É possível que muitos dos meus conterrâneos do Brejo das Almas, Francisco Sá, “beldade do norte de minas”, ainda se lembrem da pensão da dona Quinó. Ela se localizava na hoje movimentada alameda principal, em cujas lojas transitam ainda hoje desde a mais pura nata brejeira à plebe cada vez mais empobrecida, em busca de novidades e bens necessários. Por ali, obrigatoriamente se movimenta desde o topo à base da pirâmide econômica e social do Brejo das Almas.
A verdade é que este “point”, desde os mais longínquos e remotos tempos, sempre foi o mais agitado de Francisco Sá. Outrora, todos os ônibus procedentes de Salinas, Taiobeiras, Grão Mogol com destino a Montes Claros passavam por ali. As linhas que tinham como ponto final o Brejo de todas as Almas, paravam exatamente em frente à pensão da dona Quinó, onde os motoristas e passageiros pousavam em pernoite, no aguardo de partirem no dia seguinte em seus ônibus em busca de seus destinos, sabe-se lá Deus, aonde.
As distancias naquela época eram indiscutivelmente muito mais longas do que o são hoje. A maioria fazia os percursos em lombo de cavalo, pois em muitas estradas devido a suas precárias condições de conservação, eram inacessíveis a ônibus ou qualquer outro elemento rodante. Predominavam, quando se queria observar um desses gigantes em movimento, aperfeiçoados que foram pelo americano Henry Ford, somente as famosas “federais” (estradas de terra batida e depois asfaltadas que rompiam os sertões, feitas pelo Governo Federal), ou, claro, os centros das cidades. Era muito divertido.
Falava eu, sobre a dona Quinó, minha “jóia brejeira” homenageada na crônica de hoje.
Mulher bonita, estatura mediana, tez meio parda (existe esta definição?). Não importa. Comunicativa, tonalidade de voz alta (tipo italiano), mas pausado, próprio de nós mineiros. Vestia-se despojadamente, mas seus colares e pulseiras em ouro muitas vezes a assemelhavam as damas da elite do brejo daquela época. No peito sempre a pulsar um lindo e bondoso coração. Tinha grande vocação para a caridade. Por isso, no exercício de suas funções como dona daquela pensão, objetivava sempre a colaboração antes dos lucros e dividendos financeiros auferidos, sob trabalho árduo.
Levantava-se ás 4 horas da manhã e já partia para a luta. Mesa posta com desjejum para os hóspedes, rumava-se para o mercado velho onde fazia as compras dos gêneros alimentícios, frutas, verduras, legumes, etc., sempre fresquinhos. Preparava, artesanalmente, o almoço que era servido pontualmente, ás 11 horas. Tempero igual o da dona Quinó, jamais vi ou saboreei. Talvez somente o tempero de minha santa avozinha, a dona Justina, que Deus a tenha em sua Santa Glória se equiparava ao tempero da dona Quinó.
Qualquer pessoa que naqueles tempos passasse em frente a Pensão era, fatalmente convidado, a apreciar, inaladamente, claro, os sabores daqueles que eram, sem duvidas, o mais fino tempero mineiro. Já ao longe, ainda na Praça Jacinto Silveira, se sentia o cheiro dos feijões que, entre alhos, cebolas, coentros e outros cheiros verdes produzidos no cinturão verde que rodeavam a minha terra, berço querido da minha infância, tilintavam dentro da panela de ferro ainda na primeira fervura.
A cada fritura de bifes, o brejo parava... O cidadão, se enfermo, sarava, aleijados andavam e os cachorros, desesperadamente, latiam. Os transeuntes não tinham nenhuma outra escapatória senão pararem-se, com seus olfatos aguçados em frente à pensão, no aguardo dos acontecimentos. Ou quiçá de um convite inesperado da dona, para entrarem e, de repente, saborearem alguns pequenos bocados daqueles manjares dos Deuses das Alterosas.
A dona Quinó reinava absoluta na arte da cozinha. Ela era poderosa nesta arte milenar e tinha total conhecimento disso. Por isso, muitas foram às vezes que a vi prestar estas verdadeiras homenagens a algumas pessoas ali aglomeradas, quando preparava pequenas marmitas e ofereciam-nas.
Aliás, jamais consegui entender por quais mistérios aquela bondosa senhora conseguia manter e levar adiante aquela pensão. Ela tinha, – desculpem-me se utilizo o verbo no passado ao referir-me a dona Quinó. Fazem tantos anos que a vi, que não sei se ela ainda vive entre nós-, uma forma hoje muito rara e peculiar de controlar o seu negocio, cuja forma, hoje inexistente: Utilizava-se de uma velha caderneta para registrar nela o velho e impoluto “fiado”. Naqueles saudosos tempos, quando a mosca velhaca do capitalismo desumano e selvagem ainda não havia picado o homem, a palavra, uma vez dada, tinha muito mais peso e força que qualquer documento escrito, assinado, carimbado e registrado. Lembro-me, e olha que eu só tenho 57 aninhos, do meu avô vendendo e comprando gado, lá na sua fazenda “Terra Branca”, perto de Cana-Brava. Era mais ou menos assim: “traga aqueles garrotes que eu vi com o senhor ontem na sua fazenda que daqui a quatro meses, no dia X eu lhe pago”. Não dava outra!
Motoristas, cobradores, boiadeiros, tropeiros, carregadores do velho mercado, que ali faziam ponto, comiam, bebiam e dormiam. Tudo na base do fiado. No final do mês, ao receberem seus proventos, lá estavam todos, em fila indiana, saudando os seus compromissos com aquela grande senhora, de bondade impar.
O casarão onde antes ficava a pensão da dona Quinó ainda resiste ao tempo. Há dois anos quando em sua frente estive, permanecia forte e inabalável, assim como um dia o fora a sua primeira dona. Belos tempos, aqueles...
É...
Por vezes, a maior e mais perfeita lembrança que repousa em nosso recôndito se faz presente nas coisas mais simples e naturais, possíveis.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
Queridos leitores: informo que estarei publicando minhas crônicas a Francisco Sá também neste blog: http://enoquerodrigues-earodrigues.blogspot.com/



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Por Enoque Alves - 20/3/2011 20:25:13
AS JOIAS DO BREJO VI – ROGÉRIO DA COSTA NEGRO

Enoque Alves Rodrigues

Antes que algum conterrâneo ou leitor pense que eu me esqueci de alguma das muitas jóias produzidas pelo Brejo das Almas, devido ainda não tê-las publicado nesta serie de crônicas, quero me antecipar informando que esta serie é dividida por etapas. Ou seja, na primeira etapa estão elencadas “as jóias do brejo”, na segunda, “as jóias raras do brejo” e na terceira e ultima, “as jóias raríssimas do brejo”. Independente da ordem de grandeza, saliento que todas as jóias aqui relatadas, tiveram, resguardadas as devidas proporções, importância fundamental no cotidiano do velho Brejo das Almas. Todas elas, todos nós, inclusive este humilde operário da engenharia a qual se dedica arduamente em tempo integral e que ainda busca tempo para, com todo o amor e orgulho falar de sua terra querida, somos todos indispensáveis à vida do Brejo das Almas. Vamos então ao querido Rogério da Costa Negro.
Quando aos 7 de setembro do ano de 1924 se instalou o Município de Brejo das Almas a sua Câmara Municipal se constituía de 8 vereadores. Um deles que depois viria a ser presidente da câmara era Rogério da Costa Negro.
Nascido em Grão Mogol, no ano de 1889, filho de um rico português com uma criada, Rogério jamais fora reconhecido pelo pai. Ainda jovem, com a mãe mudou-se para o Brejo das Almas. Lá chegando, com muita dificuldade, abriu um pequeno comércio de uma porta só, onde colocava algumas peças de tecidos para vender. Não demorou muito e graças à dedicação e tino comercial de Rogério, aquela pequenina loja de transformou em um grande conglomerado de empresas no ramo de tecidos recebendo o pomposo nome de “Casa Branca & Costa Negro”.
Rogério da Costa Negro progredia a olhos vistos. Possuía agora grandes fazendas de gado, plantações de diversas culturas a perderem-se de vista. Jovem, rico, bonito e famoso, ainda exercia grande influencia na política do lugar, Rogério não tinha do que reclamar.
A sorte sem dúvida alguma o bafejara. A vida, com toda certeza lhe sorrira. Será?
Ainda jovem, no ano de 1925 construiu um luxuoso casarão com grande e aclimatado jardim de inverno e janelas com vitrais azuis, na Praça Duque de Caxias. Era indiscutivelmente a melhor e mais bem projetada residência do Brejo das Almas de então. Muitas festas eram dadas naquele rico e imponente casarão.
Juiz de Paz, tinha ele o poder de mandar prender e soltar, presidente da câmara e outras atividades, Rogério fazia sucesso junto ao universo feminino. Onde quer que chegasse causava o maior frisson. Sempre perfumado, roupas impecáveis, sapatos lustrados, não tinha para mais ninguém.
Não demorou muito e Rogério da Costa Negro conheceu e casou-se com Isméria com quem teve cinco filhos. Algum tempo depois não resistindo aos encantos de uma beldade de beleza brejeira estonteante, de nome Raimunda, não pensou duas vezes e com ela teve também cinco filhos.
Rogério se auto-intitulava amante de mulheres, músicas e flores. Boêmio até a medula, varava noites e madrugadas em boates onde, despojadamente, distribuía gordas e polpudas gorjetas aos cantores e mulheres animadas. Saia da boate e se dirigia a sua linda residência, sempre acompanhado por famosa orquestra da época denominada “turma do sereno”. Rogério chegava, subia aos seus aposentos ao som de sua música preferida “sonho azul” e da janela ouvia os cantos embaixo e de lá mesmo jogava para os cantores várias cédulas de dinheiro. É claro que ninguém arredava pé dali. A fonte era muito pródiga e inesgotável.
Inseri propositadamente uma interrogação no final do parágrafo “a vida com toda certeza lhe sorrira. Será?
Pois é. Tudo na vida se acaba. Com Rogério não foi diferente. Diante dos obstáculos naturais que a vida nos coloca, Rogério acabou por derrapar em uma das muitas curvas da estrada. Com muitos filhos, agora casados, todos eles educados nas melhores escolas, gastos incontroláveis com futilidades, desperdícios infindáveis, farras homéricas, não demorou muito para que o sólido patrimônio de Costa Negro começasse a se esvair. A virar pó, literalmente. Dali a falência total foi um pulo. O golpe de misericórdia que culminou com a venda de suas fazendas de gado, plantações, e da própria loja de tecidos, foi dado por um de seus filhos que havia contraído grande divida, cabendo a Rogério paga-la a fim de preservar o bom nome da família. Pouquíssimo tempo depois, até mesmo o lindo casarão de estilo colonial onde ele vivia com a família, foi dividido em pequeninos cômodos que eram alugados para pequenos comerciantes.
Rogério da Costa Negro agora era apenas um pobre velho trôpego e alquebrado. De toda a sua imensa prole, somente Edinha, sua filha doente e solteira, restou para lhe fazer companhia. Rogério, mesmo diante da situação de penúria ainda mantinha o espírito elevado e a alma tranqüila. Conservava toda a elegância, brilho no olhar, coragem e determinação de seus agora longínquos tempos de juventude e grande riqueza.
No dia 20 de Novembro de 1977, numa bela manhã primaveril, Rogério da Costa Negro partiu desta vida em direção a uma melhor, onde, para os que assim como eu, acreditam, as riquezas conquistadas aqui na terra mediante o esforço dedicado ao amor ao próximo, a benevolência, a tolerância, a caridade e principalmente o desapego as coisas materiais, jamais se acabam. São eternas.
Comovida, a gente brejeira fez-se presente em peso para dar o último adeus aquele que muito significou para o brejo. A multidão que acompanhava o cortejo de Rogério cantando sua música preferida “sonho azul” era tão grande que dava-se a impressão que nas casas do brejo não havia sobrado mais ninguém. No sepultamento a comoção era geral e incontrolável. Ao baixar o caixão ao fundo do túmulo, pétalas de rosas e aromáticos perfumes eram lançados sobre o mesmo juntamente com lágrimas de gratidão.
Rogério, certamente, agradecido pelas dádivas que ele mais admirava em vida, sorria a todos, de algum ponto invisível a olho nu do infinito.
É...
Por vezes, a maior e mais perfeita riqueza que podemos conquistar não se retém nas mãos, mas no mais além.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



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Por Enoque Alves - 12/3/2011 18:36:28
AS JÓIAS DO BREJO V – BIMBIM DO MERCADO

Enoque Alves Rodrigues

Durante vários anos, por mais de duas décadas, ele chegava, sempre por volta das 6 horas da manhã, sentava-se sobre um velho caixote de verduras e ali ficava por todo o dia, debaixo de chuva e sol. O que ele trazia no caixote para vender no mercado? Nada! Parecia tratar-se de mais um daqueles personagens que a vida de quando em vez trás à baila para prosseguirem caminhando por ela, sem destino algum, sem eira nem beira, ou desprovidos de quaisquer perspectivas e objetivos de alguma relevância. Esses indivíduos que nós muitas vezes do alto de nossa ignorância insistimos em chamar de loucos, tem, certamente, suas missões honrosas a cumprirem aqui na terra as quais nós, no estagio atual em que nos encontramos, as desconhecemos inteiramente.
A todos quantos entrassem naquele tempo no velho mercado de Francisco Sá, Brejo das Almas, “beldade do norte de minas”, era recebido por Bimbim, que sempre educado e cordial, ficava sempre postado à porta de entrada, com um “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”. “Como estás?” “E a família, como vai?”
Enquanto ele dialogava com as pessoas, o seu cachorro, um vira latas... –uai, sô, você já viu algum desses belos seres desacompanhados de um ou mais cachorros?- de pelo marrom, com duas grandes pintas nas costelas, olhos grandes, sendo um vazado por alguma estripulia do passado distante, lambia as pernas do interlocutor, pernas estas devidamente protegidas por uma belíssima calça boca de sinos a coqueluche da ocasião.
Antonio Maria da Silveira Pena, esse era o nome de Bimbim, que apesar de pomposo, principalmente no que diz respeito aos sobrenomes “Silveira” e “Pena”, posso afirmar, depois de ter realizado pesquisas genealógicas, que nenhum parentesco tinha ele com qualquer ramificação destas famílias tradicionais do Brejo das Almas que ostentam esses sobrenomes.
-Bimbim, de onde você é? Perguntavam-no.
-Sei lá, eu? Respondia sempre. Quando me dei por mim já estava no mundo e minha mãe não viveu o suficiente pra me contar!
-Você conhece algum parente, Bimbim? - Perguntava-lhe outro mancebo curioso por saber as origens do personagem.
-Conheço não! E se existe num me foi apresentado!.
-“Mais onde você mora? Isso sim, você com certeza sabe! -, dizia outro.
-É claro que eu sei. Eu moro lá no Catuni, bem na barriga da serra. É lá que eu tenho o meu rancho lá no sitio, onde crio as minhas galinhas poedeiras, planto as minhas hortaliças, caço preás e pesco os bagrões do são domingos...
-Uai, espera um pouco. Então você é um homem cheio de atividades!
-Sou!
-E com que tempo você faz tudo isso, se passas a maior parte do dia aqui no mercado sentado nesse caixote?
-E o sitio, é seu?
-E porque você não traz verduras e ovos para vender aqui? Sim, porque a gente não lhe vê vendendo nada. Esse caixote está sempre vazio. Aliás, a noite, quando você não está sentado nele, ele está sempre amarrado com uma corrente naquela árvore...
-Você pergunta muito, respondeu Bimbim, aparentando algum desconforto diante daquele bombardeio tolo, de perguntas vazias e desconexas. Mesmo assim, do alto de sua educação, inteligência e bondade, passou a comentar aqueles questionários, elegantemente.
-Procuro aproveitar bem o tempo que Deus me deu. Concilio essas atividades as quais exerço na maioria das vezes à noite, com o prazer que sinto em ficar aqui sentado nesse caixote, falando, ouvindo e aprendendo com vocês. Não obstante muitos de vocês ainda pensarem que eu sou um louco, creio que a vida tranqüila e sossegada que levo me propicia algum equilíbrio que de certa forma, me coloca em estágio distante dessa classificação.
Quanto ao caixote vazio e de possuir alguma coisa que eu poderia estar vendendo aqui, quero informar que não tenho tantas necessidades materiais assim. A maior necessidade que tenho hoje e que venho, para a minha felicidade, suprindo a algumas décadas, é a de estar aqui, fazendo amigos. Isso é o que mais me conforta já que durante toda a minha vida, vivi só.
No que se refere sim, ele é meu. Comprei-o ainda na adolescência. Lá onde durmo e aqui onde falo que escolhi para passar a vida para depois morrer com dignidade. A importância da vida, caro amigo, -dizia ele ao interlocutor mais próximo-, não está em ganhar dinheiro o tempo todo, mas em saber usufruir do tempo que a vida, muito curta por sinal, nos oferece. Muitas vezes o que pode parecer loucura ou esquisitice para muitos, como o fato de eu passar, horas a fio, sentado neste caixote, em frente a este mercado, é para mim a maior das diversões e prazeres da vida. Ai você me diz: Cada louco com a sua mania.
E eu lhe respondo:
Quem sabe!
É...
Por vezes, as aparências enganam. É dizer: não julgues pelas aparências. Nem sempre elas estão com a razão.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



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Por Enoque Alves - 6/3/2011 11:45:42
AS JOIAS DO BREJO IV – NIQUINHO FARMACÊUTICO

Enoque Alves Rodrigues

Durante muitos anos existiu na Praça da Matriz uma velha farmácia. Era a única farmácia do Brejo. Ela se localizava exatamente numa esquina a direita de quem observasse do antigo mercado. Seu proprietário era Francelino Dias, mais conhecido como França.
No entanto, com toda certeza, o farmacêutico mais importante do velho brejo das almas, foi, sem duvida alguma, Antonio Ferreira de Oliveira, vulgo Niquinho. Homem simples e educado, polido no trato com seus semelhantes, exímio no manuseio de fórmulas medicamentosas, além de ser possuidor de vasto cabedal cultural que o permitia discorrer sobre todo e qualquer assunto no Brejo das Almas de então.
Alto, magro, meio calvo, este gigante Brejeiro exerceu ali no brejo, várias outras posições de destaque na vida cotidiana do lugarejo, além de sua dedicada lide de farmacêutico.
Uma de suas grandes proezas e prova cabal de indiscutível inteligência e amor a Francisco Sá, ou Brejo das Almas, foi o legado que nos deixou a todos, quando escreveu, a pedido da professora Maria de Jesus Sampaio, o hino a Francisco Sá, o qual, musicado que foi por Corinto Cunha, é até hoje o hino de nossa cidade, sendo sem qualquer sobra de dúvida, o que melhor a retrata, destaca e enaltece, perante os vários povos.
-“Brejo das Almas, ou Francisco Sá. Igual a ti, outra não há”- é o estribilho que mais nos orgulha em qualquer parte do Mundo. Mesmo hoje, quando sabemos que o nosso Brejo das Almas já não é mais o mesmo, guindado que fora a condição de cidade média e progressista, que seguindo um processo natural dos centros urbanos, trouxe consigo também as mazelas que corroem os mais profundos sentimentos Cristãos e humanitários, principalmente daqueles menos favorecidos pela sorte, não conseguimos reter as nossas lágrimas nem controlar a nossa emoção, ao ouvirmos tão lindo, maravilhoso e erudito hino. Nesse instante como que por encanto, vem-nos à mente a imagem de Niquinho, o grande benfeitor do brejo.
Esposo da senhora Cândida Peres de Oliveira, pai de muitos filhos, entre eles aquela que viria mais tarde revelar ser a que mais dele herdara os traços fisionômicos e culturais, Yvonne de Oliveira Silveira, normalista desde a mais tenra idade, escritora, poetiza e outras mil atividades nas áreas do intelecto, sendo inclusive presidente da academia montes-clarense de letras, etc., a qual ainda na adolescência viria a esposar Olyntho da Silveira, também grande escritor e poeta, filho da terra e de Jacinto e Maria Luiza, além de irmão do grande Geraldo Tito.
A vida difícil não poupa aqueles que dela tentam sobressair com força e dignidade. Com Niquinho e sua prole não foi diferente. Muito sofreu para conseguir prover sua família do sustento necessário e de uma educação esmerada. Logo cedo, para dificultar mais a sua luta, o destino abateu-se sobre a esposa da qual tivera que separar afim de que ela, em Montes Claros, seguisse tratamento de saúde, enquanto Yvonne o fazia companhia no Brejo das Almas.
Niquinho, não obstante a inteligência muito acima da média, era homem como todos nós. E como tal, possuía, além das grandes virtudes, fraquezas naturais a todos os homens e, evidentemente, estas fraquezas quase que o levaram a derrocada ainda na juventude. Muitos eram os traumas que a vida lhes trazia numa fração muito pequena de tempo. Muitas vezes sequer havia absorvido um golpe e lá vinha outro mais forte ainda. Com isso, como disse, quase naufragou na bebida onde encontrava o falso consolo. A tempo, com a ajuda dos filhos e amigos conseguiu se livrar do vicio que no entanto, deixou-lhe algumas seqüelas que viriam cobrar-lhe a fatura mais tarde e durante a velhice.
Por dez anos padecera de doença que viria a tirar-lhe a vida. No entanto, até mesmo nos momentos de dor que a enfermidade lhe imputava, jamais se lamentou da sorte. Nunca fez sequer qualquer lamentação ao seu destino cruel. Sofria calado, com força, coragem, paciência e resignação, virtudes estas próprias dos espíritos intelectualmente elevados que, de alguma forma, já não mais pertencem a esse mundinho.
Em casa de Yvonne e Olyntho, que dedicados e incansáveis lhes proporcionavam todo o conforto material e espiritual em todas as horas, veladamente, deixou esta vida partindo rumo a uma outra quiçá mais justa e menos cruel para com aqueles que a ela se dedicam com pureza de alma, ternura e muito amor ao próximo.
Assim foi, é e será Niquinho, cujo diminutivo é muito pouco para definir o quão grande foi o gigante Brejeiro Antonio Ferreira de Oliveira.
E...
Por vezes, os gigantes também tombam numa esquina qualquer da vida para volverem-se, numa próxima, mais gigantes ainda.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 26/2/2011 12:41:52
As jóias do Brejo III - Seu Quincas

Enoque Alves Rodrigues

Seu Quincas ao contrário de todas as “jóias do brejo” que serão aqui retratadas, não obstante ter se tornado um autentico brejeiro, não nascera no Brejo das Almas. Vivia ali há muito tempo aonde chegara ainda rapazinho, proveniente de Grão Mogol, sua terra natal.
Em Brejo das Almas, hoje Francisco Sá, “beldade do norte de minas”, Seu Quincas, ou melhor, Joaquim Dias de Oliveira Bicalho, -era este o seu nome de batismo- tornara-se fiscal da prefeitura, tendo ocupado esta função por inúmeras vezes a qual lhe rendia 20% sobre toda a taxa de arrecadação do município.
Exímio na arte de “riscar a binga” para acender seu cigarrinho de palha carregado pelos melhores fumos produzidos naquele torrão de meu Deus, dedicava-se nas horas vagas que, diga-se de passagem, não eram poucas, ao curandeirismo e a de contador de histórias as quais invariavelmente o tinham, quase que sempre, como o protagonista ou personagem principal, que, como todo final de histórias de super-heróis, estava ele sempre por cima.
Mas uma dessas histórias que ele contava e que certamente era verdadeira, ratificada que era pelo vicio que ele mantinha de tomar, entre uma conversa e outra, grandes pitadas de bicarbonato e também por “dar nome aos bois”, o colocava em uma posição não muito favorável a dos super-heróis. Pelo menos nesta história ele não se saiu bem.
Ei-la:
Foi lá em Grão Mogol, -dizia Seu Quincas-, quando eu era rapazinho. Morrera o Vigário da Freguesia o Padre José Tiago. Um entra e sai dos diabos na casa do morto que era muito querido na cidade. Naqueles tempos era hábito e costume da Igreja de Roma que os defuntos padres fossem lavados com água dos rios que depois de usada ficava guardada em um pote de barro por sete dias quando seria lançada de volta aos rios.
Cheguei à casa paroquial onde o Padre estava sendo velado, tinindo de fome e sede. Morávamos nos arrabaldes de Grão Mogol. Visualizei, ao longe, uma preta velha, serviçal da casa, que em gestos de desespero, com as mãos na cabeça, entrava e saia da casa rezando, em prantos compulsivos.Chorava copiosamente e entre um soluço e outro, entre uma reza e outra, resmungava: “Diabos, com tanta gente ruim pra morrer Deus me vai levá justo o sô vigáro. E adespois ainda dizem que Deus é Justo. Home bom como sô pade, nunca mais vai tê na terra!”
Cumprimentei-a que entretida com sua dor e lamentos, sequer notara ali a minha presença. Dirigi-me a uma sala grande onde, sobre uma mesa cercada por velas em castiçais de ouro, jazia, frio e inerte, o corpo daquele que fora em vida, o benfeitor dos muitos fieis de então. À sua cabeceira, um outro padre celebrava as recomendações de praxe, para que a alma do morto encontrasse lá no além o repouso merecido. Ao seu redor, uma multidão de mulheres velhas com lenços pretos sobre as cabeças acompanhava o terço e ao final de cada ave-maria, respondiam em voz alta ameeem! Entre elas, naturalmente, muitas carpideiras, claro. Elas são partes integrantes de qualquer velório e naquela época não era diferente.
Enquanto isso, um grupo de homens alegres pela “pinga do mogol” palestravam num canto um pouco mais distante da cerimônia. Por mais que eu tenha forçado marcar ali a minha presença, ninguém me deu atenção. Estavam todos compenetrados. Enquanto isso a sede apertava e todos nós sabemos que “quando a sede quer, ela consegue ser mais forte que a fome”. Nesse ínterim, cutuquei um daqueles gaiatos:
- “Ancê num sabe onde é que eu acho água pra beber?. Num agüento mais de sede!”
Antes mesmo de eu terminar a frase o gaiato, pau dágua, como se para se livrar logo de mim, apontou para um dos cantos onde pude visualizar um velho pote de barro que com certeza se encontrava o tão precioso liquido que saciaria a minha sede. Mais que depressa fui até lá. Um amassado e baboso copo de alumínio, não sei por que diabos, ali estava, ao lado do pote. Introduzi-o, desesperadamente, e só depois de haver ingerido vários copos de água, pude me ver livre daquela sede.
Não contava com o tremendo revertério que aquele meu inocente gesto, dali a alguns instantes me causaria.
Comecei a suar frio, enquanto a água dava voltas no estômago. Parecia não ter descido. Tinha a sensação de um grande dilúvio. O meu corpo ficou flácido. As pernas bambas e o meu cérebro não conseguia emitir nenhum sinal de comando. Sem compreender quais eram os motivos daquela reação, fui me queixar com a mesma preta velha. Para que me desse atenção, tive que dar-lhe um beliscão nas polpudas nádegas.
- “Uai, sinhozinho. O que é que tu quer de mim?”
- “De você eu não quero nada!”. Só gostaria que me informasse o que é que vocês colocaram naquela maldita água que está naquele pote, ali!” – disse-lhe, apontando com o indicador para o pote.
- “Apusquê ocê está me preguntando isso? Por acaso ocê num é católico e num cunhece os rito da santa madre igreja?”. Naquele pote que ocê está me apontando é o pote que guarda as água benta que lavaram o corpo de sô pade Zé Tiago. Ela está lá para ser lançada no rio daqui a sete dias!”
Antes que aquela preta velha concluísse aquela inesperada informação, meti os dois dedos na goela e em um só tranco expeli aquele maldito liquido do qual até hoje, como se por castigo, sinto ainda o gosto que só é amenizado quando tomo bicarbonato...
E, num gesto mecânico, finalizava a frase metendo a mão no bornal de onde tirava mais uma pitada daquele “pó sagrado” que por alguns instantes o fazia esquecer do triste episodio vivido em tempos longínquos em sua Grão Mogol.
É...
Por vezes, a mesma água que os outros julgam como benta para eles, pode nos causar os mais sérios transtornos.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 24/2/2011 10:17:39
AS JOIAS DO BREJO II – ZÉ ALVES

Enoque Alves Rodrigues

Com várias fazendas de gado e plantações a perderem-se de vista que ocupavam quase todo o território do velho São Gonçalo do Brejo das Almas, Zé Alves foi, indubitável e incontestavelmente, o grande patriarca do lugar. A pedra fundamental do velho brejo foi fincada com muita luta, denodo e bravura, por aquele vaqueiro matuto de falar pausado, mas firme e direto. Possuía grandes manadas de gado as quais vendia, tornando-se o maior comerciante agropecuário de todo o norte das minas gerais.
José Alves da Silveira, sim é esse seu nome completo de batismo, constituiu ali juntamente com dona Antoninha, sua dedicada e mui prendada esposa, numerosa família tendo todos os filhos, a exceção de um deles, seguido os passos do pai na lide de comprar e vender fazendas e gado de corte. Todos os filhos do velho Zé Alves eram fazendeiros, apenas Jacinto Alves da Silveira, um de seus filhos que mais tarde se encarregaria de dedicar-se de corpo e alma ao desenvolvimento de Brejo das Almas, acumulava as atribuições de fazendeiro com a vida cultural, não obstante não ter obtido em toda a existência mais que seis meses de instrução escolar. O resto da historia desse grande brejeiro todos conhecemos e será, uma vez mais, tratada a parte, já que hoje estamos nos referindo ao seu pai.
Zé Alves viajava diariamente para fechar negócios que culminavam sempre com a compra ou venda de novas manadas de gado. Grande tino voltado para esse tipo de comércio, tornara o velho Zé Alves o homem mais rico de todo o Brejo das Almas. Praticava também nas poucas horas vagas, a caça de veados, onças e outros animais de médio porte, que abatia de cima de uma velha espera onde, com toda calma do mundo, permanecia horas e as vezes noites inteiras sobre uma arvore até que os infelizes surgissem para o fim, inexorável.
Mineiro até a medula, caipira de formação e analfabeto por convicção, travava em suas quase sempre bem-sucedidas negociações, antes de tudo, uma verdadeira “peleja” com a Língua Pátria, deixando muitas vezes seus diálogos quase incompreensíveis aos seus interlocutores. Além disso, o velho Zé Alves era do tipo “pavio curto”. Não se utilizava de meias palavras nem mesmo quando o único interessado em fechar determinado negócio era ele próprio. Mesmo sendo mineiro, não aceitava o nosso mineirísmo. Ao contrário, combatia-o, severamente. Não aceitava desculpas ou qualquer justificativa. Tratou com ele tinha que cumprir.
Certa vez foi realizar uma grande venda de gado de corte lá pelos lados de Ouro Preto, terra de seus ancestrais. Ao longe, ao vê-lo surgir, o fazendeiro Nico da Rosa, para o qual Zé Alves venderia a grande manada, abriu-lhe os braços gesto seguido de um grande sorriso colocando à mostra a perfeita dentição matuta coberta do mais puro ouro das gerais, cujos dentes reluziam à distancia, foi logo proferindo as palavras de boas vindas, pratica e costumes daquelas placas naquela época.
- “Olá, compadre Zé. Sejas bem-vindo a minha humilde casa que é muito pequena, mas nós aqui estamos com o coração grande e aberto para recebê-lo!”.
- “Uai, cumpade Nico, que diabos é isso de casa pequena e coração grande e aberto? Nóis aqui viemo a nigocio e num vamo nem entra na sua casa e quanto ao seu coração, pode fechá... Num deixa ele aberto não apusquê pode criá bichios e inframá e nois aqui num é médico. Viemo cumo eu já disse, trabaiá e no cumercio de gado num tem lugá pra frescruras. As trezentas cabeça de boi é oito contos de réis e num tem cunversa!”
- “Calma, compadre. Nós vamos negociar, com toda certeza... mas é minha obrigação a qual exerço de muito bom grado, fazer as honras da casa oferecendo hospedagem, água e comida para o senhor e seus camaradas, até porque sabemos que a distancia entre o Brejo das Almas até Ouro Preto, onde estamos, é muito longa.
Zé Alves, com um pé apoiado em uma trave da porteira, permanecia do lado de fora, enquanto o compadre Nico segurava a tramela do lado de dentro tencionando abrir-la.
“A distança é longa mesmo, cumpade, mais nois está aqui. Vamos antonces entrá nas nigociação, apusque pelo qui tô vendo num vai ser fácil. O sinhô pensa qui falano bunito vai mi drobá... mais eu num vô cedê. Esse gado que eu truxe foi todo ingordado com o melhó capim colonião que já se produziu no brejo...”
Não tinha mesmo como engatar um dialogo que não dissertasse única e tão somente sobre a compra e a venda do gado. Assim sendo, não restou a Nico da Rosa outra alternativa senão partir para o ataque.
Mineiramente, passou a fazer disfarçados comentários no intuito de depreciar um pouco o produto para depois dar o bote e compra-lo por um valor menor.
- “Pois é, compadre, vejo que apesar da boa qualidade de seu capim colonião, seus bois, dessa vez não estão muito gordos como os da manada que eu lhe comprei na ultima vez.”
- “Antonces eu vou levá eles de vorta pro brejo pra engordá mais e quando eles estourá eu lhe trago!”
- “O que é isso, compadre? Só estou lhe dizendo que os bois desta vez não estão gordos como os anteriores... é só isso!”
- “Já entendi. Oncê quer é desvalorizá meu gado prá eu lhe vendê a preço de banana. Por isso mesmo agora eu só lhe vendo os meus bois pelo drobo. Meno de dezesseis mir conto de réis eu num vendo procê. É pegá o largá!”
Não sei como terminou esta história mas, cá prá nós, a diferenças dos valores culturais e monetária para a venda da manada, entre ambos, era muito grande. É possível que nenhuma das partes tenha logrado êxito.
É...
Por vezes, como falamos no Brejo, “dois duros não levantam muros”. Ou ainda, “dois bicudos não se beijam”.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Escritor, Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



66006
Por Enoque Alves - 5/2/2011 21:00:56
AS JÓIAS DO BREJO I - JOSÉ DIAS PEREIRA

Enoque Alves Rodrigues

É de conhecimento de todo e qualquer brejeiro o peso que tem, ainda hoje, o sobrenome “Dias” na política e, principalmente, no desenvolvimento sócio econômico de Francisco Sá, como um todo. Não é preciso arriscar muito para afirmar que por muito pouco os “Dias” se equiparariam aos Silveira, claro, não fossem estes imbatíveis e insuperáveis. O certo é que desde que Francisco Sá, ou Brejo das Almas se entende por “gente”, os clãs “Silveira e Dias” sempre se revezaram em seu cotidiano. Chegavam mesmo, outrora, a fomentar animosidades em seus relacionamentos políticos sem qualquer prejuízo ao amistoso. Estas tradicionalíssimas famílias conseguiam ser inimigas no âmbito da política sem o ser no familiar. Casavam-se “Dias” com “Silveira” e vice-versa. As relações entre estas jóias do Brejo tinham que ser mantidas no mais alto nível com o único e mutuo objetivo de preservar o crescimento e projeção do lugar. Entre os muitos “Dias” que não obstante a minha ainda hoje “tenra idade” conheci, destacarei no episodio de hoje, sucintamente, já que seria impossível relacionar todas as ações, predicados e virtudes do aludido, alguns feitos que já naquela longínqua época demonstravam o quão visionário, arrojado e empreendedor era o nosso “cana-brava” José Dias Pereira. Não é difícil falar desse caboclo apesar do pouco ou quase nada existir a seu respeito nos livros escritos e compulsados na região. Mas é assim mesmo, a história costuma não fazer justiça àqueles que mais realizaram, apesar de que, como se verá mais adiante, o personagem de hoje, nominar algumas ruas e instituições de ensino.
Matuto e inculto, porem educado, humano e sensível. Assim era José Dias Pereira. Grande faro para os negócios acompanhado de imensa dedicação e desprendimento. Construiu com suas próprias mãos, sem contar com herança alguma, todo o seu patrimônio que não era pouco. Dividiam suas rentáveis atividades nos campos de fazendas de criar onde se achavam infestadas de bois de corte, plantações a perderem de vista de cana de açúcar, algodão, alho, etc., casas comerciais diversificadas e muitas outras labutas que lhes auferiam merecidamente lucros astronômicos. Tudo dentro da mais pura e correta honestidade fator este do qual não abria mão.
O homenageado de hoje tinha lá suas maneiras muito próprias, e até mesmo curiosas de colocar a sua máquina de “fazer dinheiro” para funcionar. O homenzarrão parecia não dormir, jamais. No afã de colaborar com o crescimento da região, de sua gente e, claro, seu próprio, não media esforços. De madrugada, quando o galo ainda cantava e o astro rei sequer sonhava em dar as caras, ele já saltava da cama lá em “Cana Brava” onde tinha o seu “quartel general” e de posse de uma velha e enferrujada enxada, ia de porta em porta acordar os homens da casa, previamente comprometidos com ele e sua lide. Era com prazer que se trabalhava para aquele caboclo, até porque naqueles tempos, por aquelas míseras plagas onde, com orgulho, nasci, não se havia outro meio de se ganhar a vida senão suando a camisa no calor causticante da terra vermelha. E aquele caboclo honrava o trato. Jamais passou a perna em quem quer que seja. Era difícil o despertar para o brejeiro de cana brava naqueles tempos... Qualquer desavisado que porventura pretendesse fazer corpo mole e seguir dormindo estava literalmente lascado. Já ao longe se ouvia o tilintar da pedra na velha enxada seguido de fortes gritos enquanto a plebe já se reunia à frente de seus casebres.
O matuto, homenageado, vinha lá quase que sempre vestido com uma calça “arranca toco”, camisa feita de tecido de algodão semelhante ao que se usa no fabrico de sacos de açúcar, sobre a qual, invariavelmente, mantinha um velho e surrado jaleco de couro. Nos pés, um não menos velho e surrado par de botas de couro em cujas botas, pasmem, estivesse ele à pé ou à cavalo, estavam sempre ornamentadas com reluzentes esporas com suas serrilhas afiadíssimas. Sua maneira despojada e despreocupada de se vestir era imutável. Suas vestimentas pareciam fundir-se à sua própria personalidade. Era uma figura.
Zeca Guida: Era esta a sua alcunha. O Zeca Guida de Canabrava ou seria a Canabrava do Guida?
Bem isso pouco importa. O que importa mesmo é que não existia ali nenhum outro benfeitor com quem a gente necessitada pudesse contar. Era somente o Zeca Guida.
- “Zeca, priciso cuocê me impresta uma frôr de abróba pra enviá u’a receicha qui mi deu seo dotô João Alve prá expursá bichios da barriga de Tonha”.
Tem que traduzir: Zeca, necessito que você me empreste uma nota de mil cruzeiros para poder aviar uma receita que foi dada pelo senhor doutor João Alves à Antonia, para expelir vermes.
- “Pois não, Carrim, (Carlinhos) manda a Tonha passá lá em casa e pegá com a Lia”. Pede prá Tonha não esquecê de alembrá Lia pra ela não esquecê de anotá pra discontá no fim do mêiz.”
Outro, premido por suas necessidades também acorria ao benfeitor.
- “Eu gostcharia muincho de vim trabaiá com o sinhô, mais o ganhame aqui é muincho poço!”
- “Não tem importança, não, sô. Vá entonce trabaiá cum Erpido”. (Elpídio)
- “Mais Erpido tamêm paga poço!”, - respondia o peão, desolado.
- “Entonce vai lambê sabão de preda prá fazê escuma. O entonce vá esvaziá a lagoa das preda cum caxa de fosco” (esvaziar a lagoa das pedras com caixa de fóscoro).
Enquanto isso, outro peão expressando-se em peculiar mineirismo, próprio de alguns de nós montanheses, tentava justificar sua possível ausência ao terreiro para ajudar a bater feijões. (várias pessoas se reuniam ao redor de um monte de feijão cada qual com um cambão que consiste em dois pedaços de paus presos um ao outro por um relho de couro na ponta, utilizados para debulhar feijões).
- “Então, ficamos assim, seu Zé (este falava bem). Eu estarei lá ás 6 horas... Mas se até as 5 horas eu não chegar é porque eu não fui!”
- “Não. Isso num tá certo, respondia Zeca, desse jeicho só ocê ganha e ainda bangunça as minha idéias. Vamo simprificá isso: eu vô te esperá só até às 5 hora. Se até as 6 hora ocê num chegá eu vô imbora e ocê num pricisa vim mais. Pode percurar otro patrão pra trabaiá qui eu num vô mais te servi”.
Era a linguagem brejeira se alinhando para romper as barreiras do entendimento. Zeca Guida, não obstante ter sido homem de poucas letras, se expressava muito bem. No entanto, muitas eram as vezes em que ele tinha que se expressar na linguagem cabocla para se fazer entender melhor.
E...
Por vezes, dizia Sun Tsu, “há momentos que a maior sabedoria é parecer não saber nada”.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Escritor, Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



66007
Por Enoque Alves - 5/2/2011 19:56:23
AS JÓIAS DO BREJO I - JOSÉ DIAS PEREIRA


Enoque Alves Rodrigues


É de conhecimento de todo e qualquer brejeiro o peso que tem, ainda hoje, o sobrenome “Dias” na política e, principalmente, no desenvolvimento sócio econômico de Francisco Sá, como um todo. Não é preciso arriscar muito para afirmar que por muito pouco os “Dias” se equiparariam aos Silveira, claro, não fossem estes imbatíveis e insuperáveis. O certo é que desde que Francisco Sá, ou Brejo das Almas se entende por “gente”, os clãs “Silveira e Dias” sempre se revezaram em seu cotidiano. Chegavam mesmo, outrora, a fomentar animosidades em seus relacionamentos políticos sem qualquer prejuízo ao amistoso. Estas tradicionalíssimas famílias conseguiam ser inimigas no âmbito da política sem o ser no familiar. Casavam-se “Dias” com “Silveira” e vice-versa. As relações entre estas jóias do Brejo tinham que ser mantidas no mais alto nível com o único e mutuo objetivo de preservar o crescimento e projeção do lugar. Entre os muitos “Dias” que não obstante a minha ainda hoje “tenra idade” conheci, destacarei no episodio de hoje, sucintamente, já que seria impossível relacionar todas as ações, predicados e virtudes do aludido, alguns feitos que já naquela longínqua época demonstravam o quão visionário, arrojado e empreendedor era o nosso “cana-brava” José Dias Pereira. Não é difícil falar desse caboclo apesar do pouco ou quase nada existir a seu respeito nos livros escritos e compulsados na região. Mas é assim mesmo, a história costuma não fazer justiça àqueles que mais realizaram, apesar de que, como se verá mais adiante, o personagem de hoje, nominar algumas ruas e instituições de ensino.
Matuto e inculto, porem educado, humano e sensível. Assim era José Dias Pereira. Grande faro para os negócios acompanhado de imensa dedicação e desprendimento. Construiu com suas próprias mãos, sem contar com herança alguma, todo o seu patrimônio que não era pouco. Dividiam suas rentáveis atividades nos campos de fazendas de criar onde se achavam infestadas de bois de corte, plantações a perderem de vista de cana de açúcar, algodão, alho, etc., casas comerciais diversificadas e muitas outras labutas que lhes auferiam merecidamente lucros astronômicos. Tudo dentro da mais pura e correta honestidade fator este do qual não abria mão.
O homenageado de hoje tinha lá suas maneiras muito próprias, e até mesmo curiosas de colocar a sua máquina de “fazer dinheiro” para funcionar. O homenzarrão parecia não dormir, jamais. No afã de colaborar com o crescimento da região, de sua gente e, claro, seu próprio, não media esforços. De madrugada, quando o galo ainda cantava e o astro rei sequer sonhava em dar as caras, ele já saltava da cama lá em “Cana Brava” onde tinha o seu “quartel general” e de posse de uma velha e enferrujada enxada, ia de porta em porta acordar os homens da casa, previamente comprometidos com ele e sua lide. Era com prazer que se trabalhava para aquele caboclo, até porque naqueles tempos, por aquelas míseras plagas onde, com orgulho, nasci, não se havia outro meio de se ganhar a vida senão suando a camisa no calor causticante da terra vermelha. E aquele caboclo honrava o trato. Jamais passou a perna em quem quer que seja. Era difícil o despertar para o brejeiro de cana brava naqueles tempos... Qualquer desavisado que porventura pretendesse fazer corpo mole e seguir dormindo estava literalmente lascado. Já ao longe se ouvia o tilintar da pedra na velha enxada seguido de fortes gritos enquanto a plebe já se reunia à frente de seus casebres.
O matuto, homenageado, vinha lá quase que sempre vestido com uma calça “arranca toco”, camisa feita de tecido de algodão semelhante ao que se usa no fabrico de sacos de açúcar, sobre a qual, invariavelmente, mantinha um velho e surrado jaleco de couro. Nos pés, um não menos velho e surrado par de botas de couro em cujas botas, pasmem, estivesse ele à pé ou à cavalo, estavam sempre ornamentadas com reluzentes esporas com suas serrilhas afiadíssimas. Sua maneira despojada e despreocupada de se vestir era imutável. Suas vestimentas pareciam fundir-se à sua própria personalidade. Era uma figura.
Zeca Guida: Era esta a sua alcunha. O Zeca Guida de Canabrava ou seria a Canabrava do Guida?
Bem isso pouco importa. O que importa mesmo é que não existia ali nenhum outro benfeitor com quem o menos necessitado pudesse contar. Era somente o Zeca Guida.
- “Zeca, priciso cuocê me impresta uma frôr de abróba pra enviá u’a receicha qui mi deu seo dotô João Alve prá expursá bichios da barriga de Tonha”.
Tem que traduzir: Zeca, necessito que você me empreste uma nota de mil cruzeiros para poder aviar uma receita que foi dada pelo senhor doutor João Alves à Antonia, para expelir vermífugos.
- “Pois não, Carrim, (Carlinhos) manda a Tonha passá lá em casa e pegá com a Lia”. Pede prá Tonha não esquecê de alembrá Lia pra ela não esquecê de anotá pra discontá no fim do mêiz.”
Outro, premido por suas necessidades também acorria ao benfeitor.
- “Eu gostcharia muincho de vim trabaiá com o sinhô, mais o ganhame aqui é muincho poço!”
- “Não tem importança, não, sô. Vá entonce trabaiá cum Erpido”. (Elpídio)
- “Mais Erpido tamêm paga poço!”, - respondia o peão, desolado.
- “Entonce vai lambê sabão de preda prá fazê escuma. O entonce vá esvaziá a lagoa das preda cum caxa de fosco” (esvaziar a lagoa das pedras com caixa de fóscoro).
Enquanto isso, outro peão expressando-se em peculiar mineirismo, próprio de alguns de nós montanheses, tentava justificar sua possível ausência ao terreiro para ajudar a bater feijões. (várias pessoas se reuniam ao redor de um monte de feijão cada qual com um cambão que consiste em dois pedaços de paus presos um ao outro por um relho de couro na ponta, utilizados para debulhar feijões).
- “Então, ficamos assim, seu Zé (este falava bem). Eu estarei lá ás 6 horas... Mas se até as 5 horas eu não chegar é porque eu não fui!”
- “Não. Isso num tá certo, respondia Zeca, desse jeicho só ocê ganha e ainda bangunça as minha idéias. Vamo simprificá isso: eu vô te esperá só até às 5 hora. Se até as 6 hora ocê num chegá eu vô imbora e ocê num pricisa vim mais. Pode percurar otro patrão pra trabaiá qui eu num vô mais te servi”.
Era a linguagem brejeira se alinhando para romper as barreiras do entendimento. Zeca Guida, não obstante ter sido homem de poucas letras, se expressava muito bem. No entanto, muitas eram as vezes em que ele tinha que se expressar na linguagem cabocla para se fazer entender melhor.
E...
Por vezes, dizia Sun Tsu, “há momentos que a maior sabedoria é parecer não saber nada”.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


65886
Por Enoque Alves - 28/1/2011 20:30:24
SAUDADE BREJEIRA - FINAL

Enoque Alves Rodrigues

Bem em frente à Igreja Matriz localizada na Praça Jacinto Alves da Silveira, em pleno centro de Francisco Sá, conversavam Feliciano Oliveira e Montalvão, ambos, candidatos aos pleitos eleitorais de um ano qualquer, bem no inicio dos anos 1960.
O primeiro, meio alto e esguio, tez parda, careca, vestindo terno azul marinho com listras de giz, gravata borboleta - apesar do calor de deserto do Brejo das Almas de então -, e calçado com um par de botas de couro com canos longos que iam até os joelhos.
Já o segundo personagem, baixo, loiro, olhos claros, barriga saliente, calça de brim azul batido, camisa branca amarrotada, igualmente calçando botas de canos curtos, num estilo bonachão, ensaiavam o discurso que fariam, logo mais, em um comício qualquer, lá no povoado de São Geraldo.
Eram velhas raposas da política do norte de minas, sendo o primeiro candidato à deputado federal e o outro a deputado estadual.
Dentro da Igreja aonde ambos se encontravam defronte, o Padre Silvestre, naquele momento, já se preparava para mais uma homilia. Fiéis assomavam-se à praça, tocados em seus recônditos pela “fé que remove montanhas”.
O Padre Silvestre, para quem não o conheceu, era um senhor alto, loiro, olhos azuis e, acreditem, muito sistemático. Diziam até que ele neste ultimo quesito conseguia superar, e muito, até mesmo o padre Salu, que todo brejeiro antigo só de ouvir falar o nome, tremia. O Padre Salu, sobre cuja personalidade difícil, já discorri neste espaço, realmente não era uma “boa ovelha”. Ranzinza, chegava muitas vezes ao extremo de expulsar as beatas de frente de seu confessionário a chutes. A molecada fugia dele.
Pois bem, o Padre Silvestre, a quem conheci de perto, não tinha, com toda certeza o temperamento do Padre Salu. Ao contrário, era dócil, tranqüilo, falar manso e um coração bondoso. Tratava a todos com amor e elevado espírito de solidariedade. Mas então, onde é que os dois padres se pareciam tanto? Pois não, os dois se assemelhavam devido ao fato de detestarem política.
Achavam. Achavam? Não, tinham certeza, assim como a temos nós hoje, que na política brasileira se escondem as maiores mentiras. Que o fator que fomenta a política é a mentira. E, claro, como Cristãos, e sendo a mentira um dos sete pecados capitais, eles, assim como todo e qualquer cidadão de bem, tinham mais é que abomina-la. Até ai, nenhum problema, não fossem os extremos.
Os dois grandes expoentes da política mineira palestravam descontraída e discretamente, já no meio da pequena multidão que se formava na praça. Ambos tinham o nítido desejo, mineiramente disfarçado, de à maneira que os brejeiros se ajuntassem todos, os dois candidatos, meteriam a mão em um bornal que traziam à mão e... zás... de lá sacariam um santinho com suas fotos e números e entregariam aos pretensos eleitores.
Mas o Padre era mesmo terrível. “Aquellos ojos verdes de mirada serena”, enxergavam mais que pirilampos do Mangal. À distancia e de relance, observava a ação dos dois, também, mineiramente. Fingia não vê-los. Os dois, por incrível que possa parecer, eram também amigos do padre Silvestre. Comungavam, ali. Mas o problema é que estavam fazendo política no lugar errado. No território do Padre. Era local sagrado. E isso ele não tolerava.
Não demorou muito e Feliciano puxou do bornal o primeiro santinho para entregar ao fiel eleitor. Tentou entregar, mas não conseguiu. Ao esticar a mão, pasmem. Assim como num passe de mágica, adivinhem de quem foi a mão que estava estendida para receber o santinho da mão de Feliciano Oliveira?
Sim. Foi ela mesma. Ao vivo e a cores: A mão do Padre Silvestre ali estava a tomar da mão de Feliciano o tal santinho.
Não contente, confiscou-lhe, sob os olhares surpresos dos fieis brejeiros, o bornal, cheio de santinhos.
Sem reagir, Feliciano, polido como sempre, mas também surpreso, apenas sorria...
Enquanto a Montalvão, evaporou-se em meio à multidão.
Pairam-me à mente, até hoje: jamais consegui entender como e de que maneira o Padre conseguiu levar a efeito toda esta ação, sem, sequer, proferir uma única palavra. Eu estava muito próximo e posso afirmar que ele não moveu os lábios.
Foram muito engraçadas e hilariantes as justificativas que os dois candidatos, algum tempo depois ao desembarcarem de uma velha Rural Willys já no povoado de São Geraldo, davam aos seus eleitores:
- “Olha pessoal. Viemos aqui falar com vocês, na condição de vossos leais e prestativos amigos de todas as horas. E todos nós sabemos muito bem que para se lembrar do rosto e da fisionomia de um amigo de verdade, aquele velho amigo que só nos faz bem, não se precisa de fotos. As nossas fotos, com toda certeza, já estão lá dentro da memória de todos vocês, nossos amigos. Mas para que não corram o risco de nos esquecerem uma vez que a pinguinha do brejo que nós lhes oferecemos já está fazendo lá em vossas idéias, os seus efeitos, lhes informamos que o meu nome é FELICIANO OLIVEIRA. Eu sou o mais altinho e careca. Enquanto este aqui que está ao meu lado, baixinho e barrigudo, é o MONTALVÃO. Obrigado meus queridos amigos e correligionários e até a vitória nas urnas, se Deus assim o permitir!”
É...
Por vezes, quando não se tem a certeza necessária, é melhor abrir o jogo, sem delongas.

Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


65548
Por Enoque Alves - 15/1/2011 11:51:17
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ XV - UM POUCO DO DR. JOÃO ALVES EM MONTES CLAROS – 4

Enoque Alves Rodrigues

Logo após a primeira guerra mundial, os miasmas das epidemias espalharam-se pelos quadrantes do mundo! Assemelhava-se aos anos da “peste negra” na idade média! Era a “gripe espanhola”!
Em Montes Claros, a Santa Casa não cabia mais doentes! Mas o Dr. João Alves tratava deles no seu próprio lar! O povo, salvo por ele do amplexo frio da morte, ofereceu-lhe uma recordação: um relógio de ouro com uma gravação na tampa!
De o Jornal “Montes Claros”, de 10 de Abril de 1919, consta o seguinte trecho:
“A SAGRAÇÃO DE UM BENEMÉRITO. A CIDADE DE Montes Claros manifesta ao Dr. João Alves a sua gratidão pelos inestimáveis serviços por ele prestados durante a pandemia de gripe espanhola. Oferta de uma rica jóia ao Dr. João Alves. PRIMUS INTER PARES.
“De há muito projetava-se uma grande manifestação popular a este apostolo abnegado da caridade sertaneja, que em sua rota pela existência nada mais tem feito senão minorar a dor física, proporcionando a paz de espírito, tão necessária a luta pela existência.
“Ninguém certamente, certamente a esta manifestação se tornou Maximo credor, senão o Dr. João Alves, o medico da pobreza, que não contente dos desvelos e cuidados prestados aos pobres que a ele recorrem, dá-lhes também o necessário para o alivio da dor.
“Esta manifestação foi a apoteose dos seus incontáveis méritos. O Dr. João Alves é a figura de destaque do Norte de Minas – médico ilustre, político abalizado e dos mais temíveis, porque sabe dominar com rasgos varonis, arrebatando, empolgando, dominando o adversário, é o Presidente da Câmara Municipal de Montes Claros, o pró-homem, o eixo da política da terra que teve a ventura de o criar e que o viu crescer.
“Ao estudarmos a personalidade política do Dr. João Alves, encontramos nele todas as virtudes do ilustre caudilho gaúcho, o eminente político que chamou-se João Gomes Pinheiro Machado. Ninguém resiste à fascinação de João Alves; bom, justo, humanitário, ele vence a golpes de modéstia, natural simplicidade de sertanejo culto, e com um sorriso hábil, político, irresistível, que é uma claridade esmagadora, domina, empolga. Político de descortínio seguro, João Alves tornou-se o árbitro da política local, o seu desejo impera, é lei; e tudo que possui, avassaladora, que entra pelos lares, em alvoradas de trabalhos e aleluias de carinhos. E porque João Alves é tudo isto? Porque tem a estima de seus pares, porque sabe amar e é amado pelos filhos, e esposa desvelada, a distinta senhora dona Tiburtina Alves, sua inseparável companheira da caridade, tipo da mulher espartana, que empunhava as armas e dizia aos filhos: “parte, ide defender vosso pai, nosso tesouro querido”.
“Nas manifestações múltiplas, recebidas por João Alves, não podemos deixar de destacar as do Sr Major Prates Sobrinho, seu adversário político, cujos conceitos foram verdadeiros hinos ao cavalheirismo, ao mérito e ao civismo do ilustre manifestado, e será sem duvida alguma, o mediador plástico das questões do Norte de Minas.

Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil. http://enoque.rodrigues.zip.net/index.html; http://twitter.com/Enoqueal


65372
Por Enoque Alves - 8/1/2011 12:19:21
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ XIV - UM POUCO DO DR. JOÃO ALVES EM MONTES CLAROS - 3

Enoque Alves Rodrigues

O Dr. João Alves era o santo da terra, o “Bom Samaritano”, que distribuía a ciência de curar com um simples rabisco de papel. Receita dada por aquele médico – dizia o jeca – “era como água na fervura”; o doente ficava limpo de uma vez!
Certa ocasião, um “tabaréu” virou-se para ele, no consultório, e recitou o seu rosário de moléstias:
- “Pois é assim, seu doto, a Maria sente u’a pontada danada nos peito que arresponde nas costa. Daí entonces, ela cumeça numa tremedeira, lança tudo que cumeu e num agüenta mais nem u’a gata pro rabo. Eu quiri que mecê arreceitasse u’a mezinha pra ela...”
- “Ora, Juca, nós havemos de dar um jeito na Maria. Não se incomode, pois ela ficará boa logo...” – respondeu-lhe o Dr. João Alves, carinhosamente.
Dito assim, sentou-se frente a sua mesa de trabalhos, colocou o “pence-nez”, pegou da pena e receitou a “mezinha” para a Maria. Levantando-se todo sorridente, com aquela sua maneira muito peculiar que tanto cativava qualquer um, deu um tapinha nas costas do Juca e entregou-lhe a receita dizendo-lhe:
- “Pode ficar tranqüilo... É só usar isto aqui. Até outro dia. Vá com Deus, Juca. Não se esqueça de me mandar noticias da Maria...”
O Jeca, meio acanhado, virou-se para o médico:
- “Hoje eu num tenho dinheiro pra pagar mecê...”
- “Ora, Juca, só o que me faltava” – Exclamou o Dr. João Alves, sorridente. Quem falou aqui em dinheiro? Outro dia... Quando você puder...”
- “Antonces, seu dotô, até mais vê. Deus qui pague mecê...”
E lá se foi o jeca!...
Chegando em casa, na roça que ficava em Cana Brava, pegou da receita e lembrou-se das palavras do medico: costurou o papel da receita dentro de um pedaço de pano morim, formando um “patuá”, amarrou um barbante numa das extremidades e colocou aquela “relíquia” no pescoço da Maria!
Afirmam os próprios médicos que a sugestão tem curado muita gente pelo mundo afora: dentro de dois dias, se é que levou tudo isso, a velha Maria andava pela casa toda bendizendo a hora em que Deus se lembrara de por no mundo um medico como o Dr. João Alves!
Quando algum parente ou amigo das redondezas se sentia febril ou desanimado, Juca levava o famoso “patuá” e recomendava-lhe:
- “Ô cumpade, põe isso aqui no pescoço e vai vê... É tiro e queda. É remédio de sô doto João Arves...”
De outra feita, a cidade de Montes Claros dormitava serena sob a abóbada celeste crivada de estrelas. Um tropel de cavalo, aquela hora, aproximava-se da residência do já famoso medico, arrancando fagulhas, com as ferraduras de grande rompante, no calçamento “pé de moleque” da cidade. À frente da casa, a animália parou, um homem desceu dela e amarrou o cabresto naquela arvore copada. Em seguida, bateu à porta:
- “Dr. João Alves! Dr. João Alves””
Daí a questão de minutos, a chave rangeu na fechadura e o medico em pessoa assomou à porta.
- “Que deseja o senhor?” – indagou.
- “Eu sou Antonio Ramiro, seu doutor – respondeu o desconhecido. Vim trazer uma noticia para o senhor: quando passava pelas imediações da fazenda das Canoas, notei um movimento estranho por lá. Aproximei-me. Era o coronel Marciano Alves que fora assassinado” Então, vim oferecer os meus préstimos...”
O Dr. João Alves era também um grande psicólogo. Por isso mesmo, uma centelha de desconfiança se apoderou logo dele! E tinha razão: era o próprio Antonio Ramiro o assassino de seus pais! Ele chegara, sorrateiramente, aos arredores da casa grande. Ali devia haver muito dinheiro, pois o coronel era tido como avaro e devia ter a “burra” sempre cheia. Matou o fazendeiro e sua esposa! Diziam que jogara os cadáveres no chiqueiro de porcos! Com o grunhido medonho dos suínos, a donzela acordou, viu a cena e enlouqueceu!
Muitos e muitos anos depois, aquela antiga donzelinha do solar do coronel Marciano Alves gritava da janela de sua casinha, mesmo ao lado da do famoso medico:
- “João José! João José! Pega aquele malvado!”
As carnes de seus dedos já estavam dilaceradas, apodrecidas, porque ela enrolava-os, por mania, em trapos de pano molhados em água fria!
- “Que tem você nos dedos, Dona?” – Perguntavam-lhe os meninos que passavam em frente a sua casa em direção ao Grupo Escolar.
- “Ah!... – gemia ela. São umas agulhas que aquele malvado enfiou nos meus dedos... Só tenho alivio molhando-os em água fria...”
Ela fora uma moça fina e educada! De vez em quando, surpreendia a todos com uma melodia antiga, daquelas que se cantavam nos serões da família Alves!...
Eram romances que tinham vindo de Portugal, contando os amores infortunados das castelãs...

Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


65364
Por Enoque Alves - 7/1/2011 16:23:26
SAUDADE BREJEIRA - FRANCISCO SÁ

Enoque Alves Rodrigues

O sol brilhava intensamente lá pelos altos da Serra do Catuni. Seus raios fortes ultravioleta lambiam, solenemente, a barriga da bela serra, marco de beleza sem igual que identifica as lindas paisagens do Velho Brejo das Almas, onde os muares ainda ruminavam o banquete noturno.
Eram 7 horas de uma linda manhã do inicio do mês de Setembro.
Nas ruas, ainda de terra batida, o vento uivava com a intensidade de um vulcão, levantando nuvens de poeiras vermelhas, que adentravam, sem prévio convite, os pequeninos casebres de então, o brejeiro, pacato, cuidava de seus mais simples e comezinhos afazeres.
É a vida seguindo lentamente o seu curso. Lento e natural. Ninguém tinha pressa...
No casarão, imponente e arejado, o mais importante do lugarejo, Jacinto Silveira e Maria Luiza, cuidavam da educação de sua prole. Os meninos tinham que crescer em um ambiente Cristão e saudável para seguirem seus caminhos. Geraldo Tito e Olyntho já manifestavam naquela tenra idade, suas inclinações para as letras.
No vasto alpendre da sala, Jacinto confabulava com seus correligionários saboreando um cafezinho mineiro acompanhado de broas de milho, preparando-se para mais um pleito eleitoral de novembro que se avizinhava, Maria Luisa, sua doce e fiel esposa, em um dos muitos quartos da casa, dedilhava um velho piano do qual arrancava maravilhosas sinfonias de Beethoven.
Enquanto isso, lá na velha Matriz do Brejo, o Padre Augusto Prudêncio se preparava para mais uma missa. Os fieis já estavam a postos, ávidos pelos seus sermões.
Na lagoa das pedras, com suas águas claras e cristalinas de um azul que refletia tal qual espelho as imagens das arvores e bovinos, peixes, marrecos, marrecos, ariris e patos nadavam, despreocupadamente.
Nos dois riachos as lavadeiras cantarolavam musicas nativas do lugar enquanto ensaboavam-nas antes de batê-las sobre uma pedra, no instante em que seus maridos desciam a Serra do Mocó, retornando de mais uma cansativa e frustrada noite de caça aos tatus. Eles não tinham a mesma sorte do lendário “Zé Tatu”, o antigo e o mais bem sucedido caçador desse espécime do Brejo. Ele tinha coleções intermináveis de cascos para confirmar a veracidade de seu sucesso neste tipo de caça.
Em Lagoa Seca, Rosalino cuidava de seu gado. Muito leite para tirar. Muitas vacas com suas crias amarradas as pernas e muitas outras prenhes.
Olympio Dias palestrava com seu grande amigo e correligionário Deputado Camilo Prates, sobre as pretensões seu filho Alfredo Dias em ingressar no mundo da política. Sonho frustrado pela vida boemia interrompido que fora com sua morte, inconseqüente.
Lolô do Mangal, baixinho e barrigudo, feio de dar dó, preparava-se para praticar mais uma boa ação. Era feio somente por fora, pois dentro daquele peito rudimentar pulsava o mais bondoso coração do brejo. Ajudava a todos, indistintamente.
Lá em Cana-Brava, ás 5 horas da manhã, José Dias Pereira, o Zeca Guida, batia numa velha enxada à guisa de sirene, com seu vozeirão inconfundível, acordava os homens para mais um dia de trabalho: vamos trabalhar, vagabundos...rapadura é doce mais não é mole. Aqui tem que se comer o couro para se cagar correias. Grande Zeca. Matuto. Rico e bem sucedido, mas enérgico, complacente e caridoso.
Alheios a vida brejeira, até então, pois viviam em outro distrito que naquela época não pertencia ao Município de Brejo das Almas, cresciam em um lar farto e culto, os meninos Francisco e Alfredo Sá, que futuramente, com toda elegância, humildade e impar sabedoria, se encarregariam de levar aos quatro cantos do Planeta, o nome daquele torrãozinho, até então esquecido lá nos cafundós do Norte Mineiro, tornando-o conhecido e respeitado, dando-lhe o lugar de destaque de há muito merecedor. Não é sem motivos que hoje, ou desde 1938, a antiga Cidade de Brejo das Almas, leva, com todo o mérito, o nome de um destes dois grandes Brasileiros: Francisco Sá. Se bem que ainda nos dias atuais, pairam sérias e oportunas controvérsias, sendo que uma delas, na minha pobre visão de “brejeiro autentico” é a de que não seria o caso de ter dado ao lugar o nome de quem lá viveu, lutou e morreu? De quem, possuindo, legalmente, como propriedades suas quase todas as terras onde se localizava o velho Brejo das Almas, desprovido de qualquer avareza mas dotado de grande desprendimento, desapego as coisas materiais e sentimento Cristão e Patriótico, abriu mão de tudo isso pelo simples sonho de ver sua terra e sua gente independentes e emancipados? Que em luta empedernida na qual entrou rico e saiu pobre, deu o sangue e sacrificou a própria vida? Que no afã de conseguir com que o lugarejo de Brejo das Almas se transformasse em Município construiu por sua própria conta e com dinheiro do seu bolso os prédios que o habilitaria ao pleito de Município?
Pois é. Esse sujeito, cuja história tenho a honra de conhecer de cor e salteado, é Jacinto Alves da Silveira, marido da Dona Maria Luisa Araujo Silveira, pais dos meninos Geraldo Tito e Olyntho Silveira e sogros de Zezé e Yvonne de Oliveira Silveira.
Então, ficamos assim: Jacinto Silveira é o cara...
E tenho dito!


Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 1/1/2011 12:46:57
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ XIII - UM POUCO DO DR. JOÃO ALVES EM MONTES CLAROS 2.

Enoque Alves Rodrigues

No mesmo Jornal “Folha do Norte”, em seu número de 27 de Julho do ano de 1930, cujo periódico era naquela época publicado em Montes Claros e distribuído para toda a região do norte das Minas Gerais, viam-se os seguintes artigos:
“Estão sendo, afinal, vitoriosos no Supremo Tribunal todos os pontos de vista sustentados pelo “O Jornal” e o “Diário da Noite” a propósito de Montes Claros. Os juízes que votaram até agora no conflito de jurisdição provocado em virtude de presença inepta de um procurador da Republica no inquérito policial instaurado pelo governo de Minas, todos dois já opinaram que não se trata de crime político. A justiça se acha diante de um delito comum submetido à jurisdição da autoridade judiciária local. Vemos desse modo, posta em cheque a palavra do presidente da Republica, que na mensagem enviada a 3 de maio ultimo ao Congresso, teve a impávida coragem de classificar como político a reação ao autonomistas de Montes Claros às provocações feitas pelo governo federal ao brio, ao pudor e ao caráter altivo dos mineiros.
“Quando ocorreram os deploráveis acontecimentos de Montes Claros, frisamos desde a primeira hora que o pais assistia ao gesto de desespero de uma coletividade, nos derradeiros transes da paciência e do espírito de sacrifício. O que a tolerância mineira contemporizou com a insolência desabusada do Sr. Washington Luiz e dos seus instrumentos covardes, só poderá ser bem compreendido examinando-se friamente a explosão de Montes Claros. O trágico morticínio que ali se verificou foi como uma válvula de escapamento da pressão formidável da temperatura mineira, contra homens como os senhores Washington Luiz, Carvalho de Brito e Melo Viana, que todo o dia procuravam um pretexto novo para enxovalhar a dignidade da gente altiva de Minas Gerais.
“Uma bomba lançada por um imprudente da caravana do Prestes, à porta da casa do Sr. João Alves, foi o estopim que ateou fogo na dinamite. Os líderes da provocação à bravura mineira saíram, graças a Deus, com vida para que a Nação evidenciasse a mistura de que era feito o caráter desses cidadãos que o Sr. Washington Luiz adquiriu para com eles ter a veleidade pueril de intimidar o liberalismo montanhês. Face a face dos autonomistas intrépidos de Montes Claros, todos eles exacerbada pelas agressões do poder federal às liberdades publicas de sua terra, - os líderes da causa do mandonismo do presidente da Republica, em Minas, não tiveram sequer coragem de enfrentar as escopetas das suas vitimas, decididas à revanche pessoal, corpo a corpo. Os senhores, Brito, Melo Viana e outros próceres concentristas receberam o contra-golpe dos autonomistas de Montes Claros de ventres colados ao solo, pálidos de susto para serem pisados, machucados pela sua caravana em debandada, a fugir estrada afora, como folhas secas varridas pelo vendaval.
“Montes Claros fixa no momento culminante da consciência brasileira.
“As palavras do juiz Artur Ribeiro são o mais tremendo libelo que poderia ouvir o presidente da Republica, a propósito daquela frase pernóstica “tocaia de bugres”, com que quis ele classificar Montes Claros. Insistiu o Sr. Artur Ribeiro no que sempre aqui dissemos: foi o sentimento da autonomia individual e coletiva que ditou aquele ato de desespero. Tenhamos coragem de pegar pela gola do casado e apontar à Nação o único responsável pela chacina verificada naquele reduto das liberdades mineiras. É o Presidente da Republica a quem o voto do Supremo Tribunal irá colocar, desta vez, em triste e miserável postura”
(Assinado) Assis Chateaubriand”

Breve, na medida do possível darei seqüência a historia de vida desse grande Brasileiro, que nasceu e viveu com grande galhardia no norte das Minas Gerais e que tanto fez por Montes Claros, Francisco Sá e toda região.

Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 27/12/2010 22:42:50
MENSAGEM DE OTIMISMO PARA UM 2011 MELHOR

Enoque Alves Rodrigues

Neste final de ano quero desejar de
coração a todos os meus amigos e leitores os mais sinceros e profundos votos de fé, perseverança e muito otimismo. Saibam meus queridos, que a mola propulsora que faz as coisas acontecerem não se restringe somente ao ato do fazer, mas, principalmente, ao ato de ACREDITAR. Acreditar é fé. É OTIMISMO. Creiam-me feliz com o sucesso de todos vocês. ACREDITEM. Seguem abaixo algumas frases de otimismo para vocês.

FELIZ 2011 MEUS AMIGOS!!!

VINTE E CINCO FRASES DE OTIMISMO PARA VOCÊ MEDITAR:

1. "O pior naufrágio é daquele que não saiu do porto"
2. "Só a vida vivida para os outros vale a pena ser vivida"
3. "De tropeços e vitórias e quedas se constrói a experiência"
4. "Acima do homem que salta, Há o homem que voa"
5. "Dói fracassar, mais doloroso ainda é nunca tentar acertar"
6. "Uma pessoa fechada jamais abrirá seus horizontes"
7. "Onde existe fé, sempre brilha a esperança"
8. "Os ventos e as ondas estão sempre do lado dos navegadores mais competentes"
9. "O rio atinge seus objetivos, porque aprendeu a contornar obstáculos"
10. "É muito bom ser importante, mas importante mesmo é ser Bom.
11. "Creia naquele que tentou"
12."Todo homem tem um vazio do tamanho de Deus"
13."Dentro de cada pessoa existe uma grande sede de felicidade e propósito de vida"
14."É fácil estar sentado observando o que é difícil é levantar-se e agir"
15. Freqüentemente , a melhor maneira de vencer é esquecer de registrar os resultados"
16. "Nem sempre convém virarmos a página, pôr vezes é preciso rasgá-la"
17."Há coisa que nunca voltam atrás: a flecha lançada,
a palavra pronunciada e a oportunidade perdida"
18."É quando fugimos que estamos mais sujeitos a tropeçar"
19."Tente ser mais simpático do que o necessário"
20."É muito melhor Ter esperanças que não Ter"
21. "As pessoas querem aprender a nadar e Ter um pé no chão ao mesmo tempo"
22."Até agora as coisas aconteceram a você, desta data em diante
faça com que você aconteça as coisas"
23."Cada dificuldade encerra uma vantagem; cada problema oculta uma solução"
24."Na batalha da vida só vencem os fortes e um homem forte sempre determina o seu destino"
25."Só é vencido aquele que admite a si mesmo que está derrotado"

Enoque Alves Rodrigues



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Por Enoque Alves - 23/12/2010 11:06:30
Corria o ano de 1930.
O estopim da revolução continuava fumegando com a mesma chama ateada em Montes Claros, na Praça Dr. João Alves.
Não discorrerei aqui sobre os lamentáveis acontecimentos havidos naquela noite fatídica de 6 de fevereiro, resumindo-me apenas a transcrever alguns artigos de jornais da época, com referência ao ambiente de simpatia que cercava o famoso médico.
Para os leitores da nova geração, que talvez desconheçam o fato, farei um pequeno retrospecto ao ano da revolução, levando-os até o centro da grande cidade sertaneja, de modo que se possam inteirar do ambiente que ali reinava no dia 6 de fevereiro de 1930.
A cidade achava-se dividida em duas grandes facções políticas, uma ao lado da “Aliança Liberal” e a outra com a “Concentração Conservadora”, ambas a espera de que o seu candidato saísse vitorioso.
No mês de fevereiro, esperava-se na cidade uma caravana política, composta dos homens de proa da “Concentração”, com o fim, diziam, de se oporem ao candidato que sucederia naquele ano ao grande Presidente Antonio Carlos.
A caravana desembarcou à noite, tendo sido recebida com grandes manifestações. Da praça da Estação, desceu rumo ao centro da cidade, passando, porém, pela praça Dr. João Alves, cuja residência se achava iluminada e repleta de amigos seus.
Ao passar a caravana em frente à residência do ilustre médico, alguém ateou fogo no estopim que incendiaria toda aquela massa humana que se movia ás acotoveladas, atirando uma bomba no Dr. João José Alves.
A esse ato impensado, que por certo nunca ocorrera às pessoas de bom senso que dirigiam a política da “Concentração Conservadora”, seguiu-se um tiroteio de conseqüências lamentáveis, nele falecendo correligionários de ambos os lados, não falando naqueles que se tornaram vitimas inocentes da grande tragédia!
Como o Governo Central fosse o mentor da oposição que se fazia no Estado ao Governo do Presidente Antonio Carlos, a cidade foi transformada em grande praça de guerra, principalmente com o intuito de coagir as autoridades que formavam o volumoso processo em que se achavam envolvidos o próprio Dr. João Alves e vários dos seus amigos.
A imprensa do País, ávida de sensações, dirigida por inimigos da Capital Federal, lançava a peçonha na pessoa de D. Tiburtina, tornando-a desse modo conhecida até no estrangeiro, como o protótipo da mulher cognominada “Paraíba”!
A “Folha do Norte”, jornal que se editava em Montes Claros naquela época, lançando-se ao centro da grande arena, aonde se procurava colocar em holocausto o ilustre medico e sua família, escreveu no seu numero de 15 de junho daquele ano de 1930 o seguinte artigo:
“O Sr. Dr. João Alves deve estar satisfeito, intimamente satisfeito, com o ambiente de simpatia que se formou em torno de sua pessoa, após os sombrios dias que precederam o 6 de fevereiro deste ano, data fatídica para a nossa cidade, que assistiu estarrecida o desenrolar em suas vias publicas de um conflito sangrento, onde foram ceifadas tantas vidas preciosas e, mais do que isso, inocentes.
“A malta de indivíduos famélicos de um falso congresso econômico, exploração política do mais baixo calão, desembarcando nesta terra tradicionalmente hospitaleira e acolhedora, provocou a carnificina que tanto deu que falar ao mundo civilizado.
“Desse ajuntamento fatídico, local e adventício, entretanto, ninguém pagou o crime nefando, saindo todos os culpados ilesos, quando pessoas simples, ignorantes do perigo, foram sacrificadas em holocausto à sanha de um Carvalho Brito e asseclas.
“A cidade sentiu-se horrorizada e cada um de seus habitantes procurou isolar-se o mais que pode da hecatombe.
“Os partidários do britismo, entretanto, menos humanos, ao invés de lastimar o ocorrido com o sentimento e dignidade, começaram a explora-lo, dirigindo-se a carga de sua metralha contra um homem que era preciso exterminar, por constituir o maior obstáculo local à consumação de suas idéias dissolventes.
“Foi o Dr. João Alves, que se viu por uma ironia, envolvido no conflito, justamente ele que, como ponderou o nosso iminente prelado, Bispo de Montes Claros, tem tanto zelado a vida alheia, com o sacrifício da sua própria.
“Mas a metralha adversária, em tiroteio cerrado, fez dele seu alvo, empregando cartuchame carregado de indignidade, mas sempre de festim, por não produzir os efeitos desejados.
“Figura única sobre quem recaiam os ódios, responsável argüido para o acontecimento, de que calculadamente fugiram os seus provocadores, num ambiente de sobressaltos pelo acumpliciamento do governo federal, o Dr. João Alves manteve-se firme na posição de quem estava tranqüilo com a sua consciência, não fraquejando um só instante, fortalecido por um predicado que nunca o abandonou: a virtude.
“Hoje, serenado o ambiente, afastada a ameaça que a quase todos atemorizou, a ponto de alguns terem desertado momentaneamente do convívio do velho companheiro, a sua figura aparece ainda maior, cercada de veneração pública, que nele vê não um ferrabrás sanguinolento, mas um espírito aureolado pelas qualidades que sempre o distinguiram, de virtude pública e privada.
“O protesto coletivo que inserimos noutra página é uma confirmação disso e vale por uma consagração significativa da individualidade que já nos deu tanto e de quem ainda esperamos muito”.
Breve, na medida do possível darei seqüência a historia de vida desse grande Brasileiro, que nasceu e viveu com grande galhardia no norte das Minas Gerais e que tanto fez por Montes Claros, Francisco Sá e toda região.


Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 11/12/2010 14:33:11
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ XI – A PRIMEIRA USINA DE LUZ. OS AVANÇOS DO BREJO...

Enoque Alves Rodrigues

Foi durante a administração do Dr. Artur Jardim, frente a Prefeitura de Francisco Sá, que se construiu a primeira usina de luz elétrica, ainda que a titulo precário, porquanto se tratava de uma usina a vapor, movida a lenha.
Ainda que em “A Gazeta do Norte”, numero de 2 de dezembro de 1939, é que se vê a noticia das festividades de toda aquela limitada população brejeira em grande regozijo por tão auspicioso e esperado evento. Diz o Jornal:
“Conforme noticiamos, realizaram-se no domingo e segunda-feira ultima as solenidades da inauguração da luz elétrica de Francisco Sá, notável empreendimento com que a operosa administração do Dr. Artur Jardim, ilustre prefeito daquele município, acaba de dota-lo.
Às 6 horas da tarde de domingo teve lugar a grande manifestação popular ao Dr. Artur Jardim, tendo falado a gentil senhorita Geralda de Lourdes Silveira, pelo Grupo Escolar, professora Salvina Miranda, pelas Escolas Municipais o Dr. Edgard Silveira, pelas classes conservadoras do município e o Farmacêutico Ferreira de Oliveira, em nome da Sociedade de Francisco Sá.
O Dr. Artur Jardim, em excelente discurso, agradeceu as homenagens, sendo improvisado em seguida animado baile que decorreu até as primeiras horas do dia.
No dia seguinte, lá pelas 6 horas da manhã, hasteou-se o Pavilhão Nacional em frente a Prefeitura e as 9 horas celebrou-se a Missa Campal no local da usina e bênçãos solenes da mesma.
Às 12 horas, na aprazível chácara do Dr. Francelino Dias, teve lugar o churrasco oferecido à Sociedade pelo prefeito do município. Essa festa realizou-se num ambiente de grande alegria e cordialidade, sendo o prefeito Artur Jardim saudado pelo Sr. Olyntho Silveira, cujo discurso publicamos abaixo.
O Dr. Artur Jardim agradeceu as aplaudidas palavras, sendo ainda ouvidos outros oradores.
Ás 16 horas teve lugar a inauguração da usina, tendo o Dr. Artut Jardim proferido magnífico discurso que abaixo publicamos. Falaram também o Dr. Antonio Teixeira, prefeito de Montes Claros e o Sr. Olyntho Silveira, cujos discursos foram bastante aplaudidos.
Ás 22 horas teve lugar o grande baile nos salões do Grupo Escolar, tendo comparecido ao mesmo os elementos mais representativos da Sociedade de Francisco Sá e numerosos visitantes, tendo as danças, ao som de excelente orquestra decorrido com grande animação até as primeiras horas da manhã.
Aos presentes, serviram-se finas bebidas e doces em artísticas mesinhas, cujos doces eram fabricados na região.
Sucedendo ao prefeito Artur Jardim de Castro Gomes, outros cidadãos estiveram à frente da prefeitura municipal de Francisco Sá. Um deles, o Dr. Antonio Tenório, nomeado em virtude dos desmandos que imperavam naquela época, fez do tempo em que governou o município uma verdadeira noite de calmaria, recordando, por certo, o período que a civilização atravessava na idade média, ao qual foi chamado de “a noite de mil anos...”.
Com a verdadeira corrida de interventores no Estado, outra administração atravessou o município, como verdadeiro relâmpago que singra o espaço, motivo por que nada temos que dela anotar.
Depois, foi nomeado o Sr. Benjamin Marinho Figueiredo, que deu inicio ao serviço de abastecimento de água e saneamento básico da Cidadezinha de Francisco Sá, ou melhor, o velho Brejo das Almas.
Dez anos depois, ou seja, no ano de 1949, a cidade de Francisco Sá rejubilava-se com a inauguração do serviço permanente de luz elétrica, cuja energia era fornecida pela usina de Santa Marta, a mesma que abastecia a Cidade de Montes Claros.
Esse grande melhoramento se deu assim como outros incontáveis avanços, durante a administração do inesquecível prefeito eleito pelo povo, Dr. Feliciano Oliveira.
Para que fique anotado como parte da história do município, transcreverei o convite que a municipalidade fez, na época, ao povo de Francisco Sá e aos municípios vizinhos:
CONVITE: A municipalidade de Francisco Sá tem a satisfação de convidar Vossa Senhoria e Digníssima família para os festejos do próximo dia 7 de setembro.
Francisco Sá, 24 de Agosto de 1949. ASSINADO: Feliciano Oliveira – Prefeito.
Na seqüência vinha a programação a ser realizada nas comemorações.
Belos tempos aqueles...
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 28/11/2010 11:08:39
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ X – AS ÁGUAS DO GORUTUBA

Enoque Alves Rodrigues

Belos tempos aqueles quando juntamente com uma grande turma de moleques todos de uma mesma faixa etária, saiamos para nos divertirmos às margens do velho rio gorutuba, que nasce em Francisco Sá, antigo Brejo das Almas.
Ao contrário de seu lastimável estado atual devido a vários fatores negativos como a pesca predatória, lançamento de resíduos e esgotos em seu belo leito, assoreamento, ausência de matas ciliares em suas margens, naquela época podia se dizer que o rio gorutuba era o principal atrativo que havia em Francisco Sá. Famílias inteiras se dirigiam para lá a cada final de semana, para nadarem em suas límpidas águas, ou simplesmente para observarem suas quedas dágua e o vai-e-vem das lavadeiras ao seu redor.
O rio gorutuba banha várias cidades do norte das Minas Gerais, e seu caudaloso curso de águas ainda desperta muitas atenções até mesmo aos menos observadores. Talvez, quem sabe, pelo simples fato de possuir suas nascentes dentro do município de Francisco Sá, “beldade do norte de Minas”, seja ele tão belo assim.
Piscoso nos tempos de antanho, resta hoje poucas atrações neste setor. Mas ainda continua belo e faceiro.
Muitos cronistas residentes em cidades banhadas pelo gorutuba ao norte das Gerais como Porteirinha, Janaúba e adjascências descrevem-no como um rio em processo de decomposição e com plena carência de revitalizações urgentes. Pura verdade. O processo de degradação do gorutuba foi tão vertiginoso que hoje, mesmo com todo otimismo que possamos ter, é muito difícil recupera-lo. Certo está que jamais voltará a ter a mesma beleza e salubridade de seus tempos áureos. Faz-se, no entanto, indispensável que as autoridades constituídas iniciem, imediatamente, trabalhos sérios com estes objetivos. Caso contrário pouco ou quase nada restará deste que foi o mais lindo rio do norte das gerais senão um triste e melancólico filete de águas turvas e sem vida a deslizarem-se, lentamente, pelos descambados do sertão das Alterosas na esperança de que um dia, quem sabe, volver-se mar. Com muitos espécimes e piscicultura abundante, com águas de um azul cristalino, porém salgadas. Bem, nesse caso, então, será qualquer outra coisa, menos o velho rio gorutuba de nossos sonhos e encantos pueris, que muitas e distantes infâncias embalaram ao som da cantilena formosa de suas águas e do tilintar de seus outrora incontáveis monjolos.
É...
Por vezes, não há nada que a ação do tempo e do homem não consiga destruir.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
Para me dedicar a revisão de meu próximo livro peço vênia aos meus queridos leitores para diminuir a freqüência de minhas crônicas até finaliza-lo.
Obrigado
Um grande abraço, brejeiros.


63903
Por Enoque Alves - 21/11/2010 11:46:26
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ IX – MULHER BREJEIRA FINAL

Enoque Alves Rodrigues

Voz baixa, falar pausado como quase todo mineiro, olhar faceiro e discreto. São alguns dos muitos traços que personificam e eternizam a beleza da mulher brejeira.
Maria Quitéria Rodrigues, sobre quem me referia na crônica anterior, traduzia perfeitamente todos estes atributos e virtudes.
Duas semanas após nosso primeiro e desastrado encontro, fui até a casa de sua tia Luiza para me despedir, pois estava de viagem para São Paulo, onde fixaria residência.
- Bom dia, Quitéria. Como vai?
- Bom dia, Noquinho. Tudo bem! E você, como está?
Percebi naquele momento que algo havia mudado, pois ao contrário da vez anterior, já não me chamava mais pelo apelido de “sapo”.
- Pois é, Quitéria. Passei por aqui somente para me despedir de você e de sua tia Luiza. Estou de mudança para São Paulo, aonde pretendo trabalhar continuar os meus estudos. Por aqui as coisas andam muito difíceis!
- E com quem é que você vai, Noquinho? Não me consta que sua família esteja de saída do Brejo. Você sabe, Cidade pequena, todos se conhecem. Todos sabem tudo da vida de todos.
- É verdade, Quitéria!
- Estou partindo sozinho em busca de meu destino. Jamais deixaria o brejo, mas todos sabemos que há momentos que temos que tomar certas decisões na vida até mesmo quando elas no momento nos são doloridas. Se por um lado, não gostaria de sair do brejo, por outro tenho que admitir não ver aqui grandes perspectivas para o futuro que sonhei para mim. São estes alguns dos motivos que me levaram a esta triste decisão.
- Uai, Noquinho. Qual é o tamanho dessas suas perspectivas para que não caibam aqui no Brejo? Veja: Há bem pouco tempo morávamos lá em São Geraldo, pequeno lugarejo, onde para nós o brejo era quase que inatingível, devido aos seus encantos e “grandes dimensões geográficas”. Pouquíssimo tempo depois de para cá vir, você me diz que aqui é pequeno para os seus sonhos? Quais são eles? Diga ai!
- Na verdade, querida Quitéria, não tenho grandes ambições na vida. O que eu quero é poder proporcionar uma vida melhor aos que me rodeiam. O cabo da enxada por aqui, já não dá mais camisa para ninguém.
- E lá em São Paulo, o que é que você vai fazer? Você não está pensando que vai chegar lá e juntar dinheiro com vassoura. As coisas estão difíceis em todos os lugares, Noquinho. Duvido muito que lá seja diferente daqui!
- Com toda certeza, disse-lhe eu-, mas por mais difícil que seja lá, acredito que estará melhor que por aqui.
- Veja como são as coisas do coração, Noquinho: Depois de nossa ultima conversa, parei e meditei tanto e ai cheguei a conclusão que deveria, sim, existir um algo mais entre a gente. Preparava-me para lhe falar isso, quando agora você me vem com esta noticia de viajar. É ou não é coisa do destino? Não tem jeito mesmo!
- Uai, que grande peso teria isso? Seria até mesmo para mim uma motivação a mais para seguir lutando, o saber que aqui há alguém a esperar.
- É, disse-me, Quitéria: você sabe que por aqui as coisas não são bem assim. Não tenho porque lhe esperar, pois ninguém sabe quando irá voltar. De repente chega lá, se engraça com uma Paulista e aí, adeus, Quitéria.
- Não seria tão volúvel assim. Mas pensando bem, o melhor mesmo para que ninguém saia machucado e conservar as boas amizades que sempre existiram entre nós e nossas famílias, é deixar as coisas como estão para vermos como é que ficam.
- Sendo assim, até mais ver, Quitéria!
- Até mais ver, Noquinho. Que Deus te acompanhe, “meu lindo”!
- Amém!
- Meu lindo? O que! Ouvi bem?
Não. Convencido estava o “eu franzino”, o “eu pobre”, o “eu matuto, sem instrução”, o “eu limitado a mais extrema insignificância do ser”, e que jamais “bala teria na agulha suficiente para derrubar aquele tremendo avião de beleza e formosura”. Será?
Pobre mente humana, era a minha que se atinha a coisas tão fúteis e banais da materialidade do ser, que não conseguia enxergar ali as grandes potencialidades das quais somos todos nós dotados e que as coisas e as pessoas não se medem com a régua do coração, cujas escalas, são infinitamente incomensuráveis.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 13/11/2010 15:16:47
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ VIII – MULHER BREJEIRA

Enoque Alves Rodrigues

É muito difícil ou quase impossível, até mesmo ao melhor dos poetas, definir o quão lindas são as mulheres brejeiras. Rosto redondo, pele morena aveludada, olhar firme e faceiro, boca carnuda, sorriso franco e aberto e o mais importante, extremamente prendadas.
Pois é, Maria Quitéria Rodrigues, não, não era minha parenta, conseguia ser tudo isso e um pouco mais. Traquinas e sapeca desde a infância lá em São Geraldo, no município de Francisco Sá, onde estudava comigo no Grupo Escolar. Começava ali o meu “calvário” nas mãos dessa deusa.
Pequenos mirrados e ainda cheirando a leite, comecei a receber dela, aquela que seria uma série interminável de bilhetinhos: “Você é o meu príncipe encantado”. “Você quer namorar comigo?”. Foi assim durante toda a nossa infância. Eu me olhava no espelho e não via nada além de menino feio, raquítico, queimado pelo sol escaldante das gerais e que ainda por cima tinha o apelido de “sapo”. Todos os meninos e meninas, menos ela, me chamava de “sapo”.
Muito tempo depois, já adolescentes no brejo para onde ela se mudou primeiro para concluir os estudos, encontramo-nos. Nem sombra daquela menininha feia e desdentada de outrora. Ao contrário, tornara-se uma autêntica “mulher brejeira”. Esbelta, corpo escultural. Chega! Já tentei definir a mulher brejeira no intróito desta missiva e não consegui.
Pensei comigo: puxa vida, a Maria Quitéria bonita desse jeito não vai me dar atenção. Vai fingir que não me conhece ou que jamais antes vira na vida esse matuto. Ledo engano: Em nada havia mudado. Ao contrário. Ao ver-me, abriu os braços e aquele eternamente inconfundível sorriso da infância, partindo em minha direção proferindo estas palavras:
- “Sapo do Céu. O que você está fazendo aqui no brejo, menino? Você veio estudar? Sua família veio com você? Sabe, “sapo”, eu jamais consegui te esquecer!
- Me recordo como hoje de nossa infância em São Geraldo: lembro de nossa escola, de nossa turma, de nossas brincadeiras durante os recreios, dos piqueniques, das fogueiras de São João, dos fogos de artifícios. E o nosso Natal, “Sapo”, como era lindo! E aqueles biscoitos de polvilho que sua mãe fazia e mandava você levar lá em casa, lembra?
- Sim, lembro-me, perfeitamente!
- Olha, “sapo”, a conversa está muito boa mais eu tenho que ir. Estou estudando para as provas finais e desejo muito passar de ano para seguir meus estudos, pois pretendo ser advogada.
- Que bom, Quitéria, creia-me imensamente feliz por tê-la encontrado depois de tanto tempo. Principalmente por ver o quanto você está bonita e por saber que continua estudando para progredir na vida!
- Obrigada, “sapo”, mas eu também vejo que você melhorou muito... Cresceu. Ganhou corpo...Também está estudando. Fico feliz por você, “sapo”, sinceridade!!!
- Ótimo! E quando poderei voltar a vê-la?
- Qualquer dia desses, “sapo”. É só você passar lá em casa, na Rua Montes Claros, que a gente proseia mais como velhos tempos. Estou morando com a tia Luiza.
- Bem, “sapo”, agora eu tenho que ir mesmo... Até mais vê!!!
- Quitéria...
- Fala aí, “sapo”!
- Você se recorda que me chamava de seu príncipe encantado em sua infância e que você era a única menina que não me chamava pelo apelido?
- Me recordo, perfeitamente. Afinal não faz tanto tempo assim!
- Uai, e porque agora você só me chama de sapo ao invés de utilizar dos mesmos adjetivos da infância ou caso os tenha esquecido, ao menos pelo diminutivo de meu nome “Noquinho” como todos me tratam hoje?
- É que vida passa, “sapo” e as coisas mudam! Quando éramos crianças e eu lhe via como um príncipe encantado, você não correspondeu. Me ignorou. Se você tivesse cultivado a ingênua pureza daqueles meus sentimentos, quase certo seria que eles tivessem se transformado no algo mais que você agora, sem nenhuma chance, deseja. No entanto, como você, quando devias, não os correspondeu, o meu encanto virou desencanto... E o meu príncipe encantado virou o sapo que você sempre foi...
- Sendo assim, Quitéria, estou no “brejo”. No lugar certo... Me atirarei em uma dessas muitas lagoas...
- Inté mais vê, Quitéria...
Lencinho branco acenando...
- Vai com Deus, “Sapo”
É, por vezes não se deve desperdiçar as oportunidades por mais simples que pareçam ser. Elas se assemelham a um cavalo arriado: se você não se jogar na hora certa, bate com os fundilhos no chão.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 6/11/2010 23:42:36
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ VII – UM BREJEIRO EM APUROS

Enoque Alves Rodrigues

As coisas e as pessoas estão em constantes modificações. Assim sendo, o que não está melhorando, está piorando. A vida não é estática, é dinâmica. Dizia já naqueles longínquos tempos um grande personagem cuja historia se fundia com a de Francisco Sá, o velho Brejo das Almas.
No entanto, apesar de seu otimismo, mesmo confiante de que dias melhores viriam cobrir de êxito sua pobre vida, o que se via, na prática cotidiana era o cumprimento do último jargão de tão importante frase de efeito: sua vida piorava a cada dia. Os negócios no “Estica o Braço” não iam bem. De há muito que a freguesia, já escassa, fugira de seu estabelecimento. As coisas no velho Brejo das Almas efetivamente não estavam boas. As “marés dos mares de minas”, ou melhor, do lindo e caudaloso rio Gorutuba não estavam mesmo para peixe. A seca grassava grande parte do Brasil e os sertões das gerais, nesse caso é o que mais sofria.
O que fazer? Como conseguir condições mínimas para dotar a si e a sua família brejeira do básico necessário para que não morressem de fome? Aonde é que foram parar os amigos? Os fregueses a quem, por diversas vezes vendera várias doses de Maria Rita na base do fiado?
Não. Não era possível que ninguém viesse a seu socorro! E lamentava: como é que pode? Sai da lavoura há muitos anos exatamente para não passar por isso. Montei esse bar com tanto sacrifício e agora, sem mais nem menos passo por esse eterno e interminável perrengue? Não, não me conformo. Parece até que é coisa mandada. Outros bares estão progredindo e aos poucos se mantendo. Mas o meu, não. É este marasmo. Ouve-se até mesmo a respiração das moscas a fazerem-me companhia.
Neuzão. Esse era seu nome, lamentava de um lado para outro no exíguo espaço interior que restava de seu Bar. Sim, o bar de Neuzão praticamente não possuía interiores. Lá só cabia ele próprio que atendia os fregueses, nos áureos tempos das vacas gordas, do lado de fora. Ou seja, o brejeiro sedento de uma caninha para afogar as mágoas, do lado de fora fazia seu pedido a Neuzão que lá dentro pegava a “mardita”, colocava no copo e aos sussurros pedia ao solicitante que esticasse o braço para receber o copo com a dita cuja de suas mãos. Era mais ou menos assim: O freguês chegava, subia em uma pequena saliência alta a guisa de soleira, punha a cabeça no nível da abertura da janela e sem mesmo conseguir ver a cara de Neuzão ia logo dizendo:
- Oh, Neuzão. Você está ai?
Lá do fundo, em meio a densa escuridão do ambiente, Neuzão respondia:
- “Tô, sim! Pode falá qui eu te escuito!”
- O que é que ocê deseja?
Bem, ouvindo dessa forma, qualquer vivente seria induzido a pensar que naquele boteco desprovido até mesmo de um interior, tivesse outras iguarias que não fosse somente cachaça.
- Desce ai, para seu amigo Firmino aqui que vos fala, aquela água que passarinho não bebe. Ou melhor, aquela cana que não brota mais.
- Ocê quer com jibóia ou sem jibóia? Perguntava Neuzão.
- Neuzão... Você está doido, homem? Esqueceu-se que eu sou solteiro? Cana com jibóia é só para homem casado. Homem que tem mulher. E eu sou solteiro de nascença!
- “Ah, ta bom, Firmino, dizia Neuzão, procê tem que sê mesmo cana sem jibóia porque senão ocê vai fazê bestera por ai. Vai acabá saindo daqui direto para a casa da dona...”
Enquanto falava, carregava o copo que uma vez cheio e pronto para a degustação miserável dizia para o interlocutor:
- Pronto, taqui. “Estica o Braço”.
Sedento, esticava o braço e de uma só vez solvia aquele liquido destilado em algum dos muitos alambiques da região do Brejo das Almas e dessa maneira, por alguns instantes sentia-se o pobre bebum transportado ao Paraíso por lindas carruagens de fogo, esquecendo-se ainda que pouco tempo ou enquanto durava o efeito do álcool no debilitado organismo, da triste, cruel e despropositada vida sem nenhuma perspectiva de sucesso aparente, ainda que a longo prazo.
É...
Naqueles tempos bicudos o Brejo não era fácil.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 30/10/2010 12:01:40
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ VI – ZEZIM TOCADOR E VAZAMUNDO

Enoque Alves Rodrigues


Braços curtos, baixinho e barrigudo. Com dois reluzentes dentes de ouro na arcada superior da boca. Camisa estampada sempre desabotoada, deixava à mostra uma musculatura peitoral má nutrida e bastante judiada pelo passar dos anos implacáveis. Calça arranca toco amarrada na cintura, sem cinto. Sandálias franciscanas aos pés e, na cabeça, um velho e surrado chapéu de couro com três estrelas sendo a maior delas situada ao meio, no estilo Lampião. Lenço vermelho sujo no pescoço. Sanfona de oito baixos colada no peito como se com ele tivesse nascido. Cão preto de olhar tristonho e distante, cujo nome, “vazamundo”, fazia jus aquele seu olhar para alguma imensidão desconhecida do planeta. Pronto: estava, ali, na frente de tudo e de todos, formado o mais perfeito trio que naqueles tempos era o principal, ou melhor, o único responsável pela alegria que contagiava as tardes, noites e manhãs Brejeiras. Sim, Francisco Sá, Minas Gerais, Brasil, ou, o “Velho Brejo de todas as Almas”, deitava, acordava e levantava ao som daquela sanfona. Não é preciso que o leitor tenha muita idade para se lembrar do que estou narrando, afinal, refiro-me a década de 1970.
Zezim era exímio tocador. Sanfoneiro dos bons, cujo repertório vasto e eclético o permitia passear por todos os ritmos. Ia do Rei do Baião, Luiz Gonzaga ao Rei do Iê, iê, Iê, Roberto Carlos, em frações de segundos. Bastava apenas que alguém de entre o respeitoso publico solicitasse que em ato continuo e simultâneo, os dedos rústicos e calejados por outras lides, mais sempre ágeis, daquele autentico brejeiro, em sintonia perfeita com o limitado teclado, dedilhava-o em uma maestria inimaginável aos olhos humanos, ainda mais quando se sabe que nenhuma instrução tivera antes aquele homenzinho. É muito simples para os céticos que atribuem todo e qualquer fato anormal as coincidências naturais, ignorarem que tamanha aptidão não tenha sido dada aquele matuto pelas mãos da Divina Providência. Mas certo está que é desnecessário ter fé elevada para não duvidar disso: Zezim Tocador foi designado pelo lado de lá, para vir ao mundo alegrar a gente brejeira. Os “Caras lá de Cima” quando lhe enviaram para cá, sabiam muito bem o que estavam fazendo. Que não havia no Orbe Terrestre localidade mais triste e melancólica e tão carente de um pouco de alegria ou bagunça mesmo, que o velho Brejo das Almas. Aí mandaram Zezim e de quebra o seu cão vazamundo que contracenava com o sanfoneiro, pois enquanto ele dedilhava a velha sanfona, vazamundo, independente da musica que seu dono estava a tocar, punha-se a latir sem parar, como se estivesse o acompanhando em cânticos.
Zezim, ao contrário do que todos imaginavam, não possuía somente uma sanfona. Ele tinha várias. Dizia que um homem prevenido vale por dois, por isso mantinha outras sanfonas para a eventualidade de substituir alguma que apresentasse problemas, afim de não deixar a gente brejeira sem um “sonzinho”. Mas convenhamos, gente boa, divertíamo-nos somente até certo ponto. Porque dia e noite ouvindo aquelas melodias muitas vezes acompanhadas, ao longe, pelo cantar triste das cigarras, transformavam-se, pelo cansaço enfadonho da oitiva permanente das cantilenas, tudo isso, no mais tenebroso martírio. Eram tristes, bem verdade, as tardes, noites e manhãs brejeiras. Precisavam de alegria. Mas “tudo de mais é sobra, uai” assim falamos nós mineiros.
Bem, eclético na musica, eclético na vida. Pois é, Zezim desenvolvia outras atividades que nada tinham a ver com o mundo de Ludwig van Beethoven. Preparava nas horas vagas garrafadas de raízes das quais era ele doutor no conhecimento e as doava para a gente carente de um Brejo das Almas sem farmácias. Ele tinha também “algum negócio” com o invisível, pois era muito solicitado a visitar as fazendas e sítios da região com a única missão de “expulsar cobras” que disseminavam pavor e prejuízos às manadas nas matas e pastagens dos fazendeiros de então.
Pequeno no tamanho, grande na vida. Seria necessário muito mais tempo para que eu pudesse descrever o que foi Zezim Tocador e seu cão Vazamundo para Francisco Sá, naqueles já longínquos tempos.
Inté...
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
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Por Enoque Alves - 23/10/2010 19:27:01
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ V – GERALDINO FOGUETEIRO

Enoque Alves Rodrigues

Ele vivia num velho casarão bem no inicio de onde hoje é a Rua João Catulino Andrade, em pleno centro. Já não sabia mais o que fazer. Até ali, tudo dera errado em sua vida. O pai, Antonio Carlos havia abandonado sua mãe quando ele ainda era menino. Sequer conseguia lembrar-lhes à feição. A mãe, Maria Lavadeira, sustentou-o, enquanto pode, com o oficio que galhardamente levava no sobrenome. Várias famílias razoavelmente abastadas do antigo Brejo das Almas davam-lhe suas vestimentas de época para serem lavadas. Trouxas e mais trouxas eram batidas com sabão em forma de bola, feito do mais puro sebo de boi, sobre uma já lisa e desgastada pedra, colocada estrategicamente pela mãe natureza nas barrancas do rio São Domingos que nasce na serra do Catuni. Geraldino, sim, este era o seu nome, pequenino a acompanhava nesta lide. Enquanto a mãe Maria batia as roupas sempre a cantarolar alguma cantiga nativa do velho Brejo, ele postava-se em curta distância da mãe com uma pequena vara com um mínimo anzol a ponta de uma linha, onde pescava algumas piabas que ali mesmo eram assadas sobre uma pequena pedra aquecida com fogo. Lá mesmo, ou seja, na beirada do rio, faziam as consumiam.
Muitos anos depois, Maria Lavadeira, depois de uma grande história de vida e amor ao Brejo, partiu desta vida deixando nosso Geraldino só. Não tinha nenhuma profissão que pudesse suprir sua subsistência. Foi ai que o amigo Caetano Dias, cuja família hoje é tradicionalíssima do lugar, ofereceu-lhe aquilo que se poderia chamar de a “grande chance”: Fabricar foguetes. O Brejo das Almas, hoje ou desde 1938, Francisco Sá, sempre foi muito festeiro. Deve isso a várias comemorações de uma infinidade de santos que o apadrinham.
Bem, como vinha dizendo, Geraldino vivia à beira do desespero. Não obstante ter obtido algum sucesso no fabrico de fogos, quando ainda jovem, agora estava velho e quase acabado e, o pior, com a nítida sensação de que passara toda a vida trabalhando sem resultado. Não conseguira fazer sequer um pequenino pé de meia. Lamentava o fato de não ter se casado e a ausência de filhos. Puxa vida, dizia, se pelo menos eu tivesse tido filhos quem sabe hoje algum deles pudesse me sustentar. Não agüento mais trabalhar. O corpo só pede descanso. Mas é ai que está o meu problema: cobra que não anda não engole sapo... mas como é que eu vou andar se sequer consigo levantar desta maldita cama?
Na manhã seguinte, como que num passe de mágica, levantou-se mais que disposto. Dirigiu-se até a velha fabriqueta de foguetes e em posição de extrema reverência pediu a quem estivesse “lá do outro lado” que o ajudasse a se erguer daquela vidinha miserável e sem graça. No afã de livrar-se de seu pesado fardo, ou quiçá na empolgação do momento, acabou prometendo o que talvez mesmo que vivesse uns trezentos anos jamais poderia cumprir: Caso conseguisse sucesso em sua trajetória de fabricante de fogos e se aquelas forças lhe devolvessem a sua saúde, disposição e jovialidade para que seguisse trabalhando, subiria, de joelhos, o morro do mocó e, de lá, em pleno cume, soltaria uma rajada de fogos numa manhã primaveril saudando todos os santos do mês de setembro.
Incrivelmente, passou a progredir. Encomendas eram feitas dos mais longínquos confins das Alterosas. Era lindo de se ver o vai e vem dos carros de bois descendo a serra com seus ressequidos cocões (quatro paus verticais que prendem o eixo dos carros de bois) a rangerem-se numa cantilena piedosa e ao mesmo tempo alegre em direção a agora grande e progressista “Fábrica Brejeira de Fogos de Artifícios”. Tropas de burros varavam o sertão durante a noite e na manhã seguinte já estavam pastando em frente a fábrica de Geraldino Fogueteiro, na cansativa espera do carregamento, para retornarem aos seus locais de origem.
“O homem cresceu. O homem mudou”, já dizia o poeta. Agora, rico, sequer pairava-lhe à mente quaisquer resquícios do que antes, no desespero prometera, sabe-se lá, para quem.
Pois bem, inesperadamente, do mesmo jeito que veio o sucesso, sem que nenhum fato relevante o justificasse, numa tarde triste e chuvosa, daquelas que antanho acometiam o velho Brejo das Almas, Geraldino, sem mais nem menos, como que por encanto, voou pelos ares.
Na chamada oral feita pelo professor Neco Surdo no Grupo Escolar onde Geraldino, já velho, estudava, na aula do dia seguinte travou-se o curioso diálogo narrado pelo grande e inimitável historiador Brejeiro Geraldo Tito Silveira:
- “Geraldino Fogueteiro...
- “Ele morreu queimado com fogos, respondeu um espoleta qualquer, seu ex-colega de classe...
É...
Por vezes, dizia Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


62750
Por Enoque Alves - 16/10/2010 11:30:50
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ IV – OS VELHOS ENGENHOS DE CANA

Enoque Alves Rodrigues

Já se vão longe e saudosos os tempos em que havia em quase todos os pequenos sítios localizados no Município de Francisco Sá, Brejo das Almas, assim como em todo o norte das Minas Gerais, os velhos e barulhentos engenhos para moagem de cana de açúcar. Lembro-me, quando criança, que na Fazenda do senhor Liberato, ou João Rodrigues, havia um desses engenhos que durante a época da moagem durante os meses de Julho e Agosto, funcionavam durante todo o dia, ininterruptamente.
A lide do velho Liberato, com ou sem moagem, se iniciava sempre ás 04:30 da manhã, quando ele levantava de seu velho catre em couro trançado onde repousava com a Dindinha Justina, com um Hinário nas mãos, entoando um hino do qual não me recordo o titulo mas que iniciava mais ou menos assim: “vamos trabalhar...vamos trabalhar”. Todos ali, ao ouvirem esta “palavra de ordem”, levantavam-se, um a um, e acompanhavam-no em cânticos, seguindo todos juntos e irmanados, em direção a imensa sala de visitas que ficava na parte da frente do antigo casarão, aonde jazia uma tosca mesa de madeira coberta por fina toalha de linho branco, denominada “o altar da família”, e ali, em perfeita comunhão, punham-se a orar pedindo que as forças do bem os abençoasse para que tivessem um bom dia de trabalho e que não deixassem que nada de ruim lhes acontecesse. O velho Liberato fazia a leitura da Bíblia de maneira aleatória e depois a traduzia com uma fluência de vocabulário inenarrável, principalmente quando se sabe que aquele “velho matuto” jamais antes tivera qualquer contato com as letras. Os encerramentos destas sessões eram quase que sempre feitos por sua filha mais velha, minha tia Nira, com uma linda oração que lamentavelmente este espaço que me é facultado pelo Jornal MontesClaros.com, que publica minhas crônicas, não me permite estender sob pena de me classificar de fazer proselitismo religioso. Uma pena. Sem entrar no mérito mais traçando uma analogia, informo que estas orações de encerramento eram o mesmo que são hoje os DDS´s corporativos, ou seja, os Diálogos Diários de Segurança que são lidos pelos empregados na parte da manhã, antes de iniciarem suas atividades. Discorrem-se, sistematicamente, sobre os cuidados que o trabalhador deve tomar durante o dia. Recomenda enfaticamente o uso dos Equipamentos de Proteção Individual, etc. Enquanto que nos “DDS´s” de minha tia Nira, - lá na Fazenda “Terra Branca” de propriedade de meu avô-, feitos em forma de oração, se implorava apenas e tão somente pela proteção Divina, ao invés do uso de EPI´s (que não existiam por aquelas plagas).
Finalizada a cerimônia, saiam todos em silêncio, de maneira ordeira, numa fila indiana com meu avô a frente, rumo ao engenho onde já os esperavam o pessoal agregado que iria colaborar com a labuta. Ali já estava tudo preparado a espera do velho João Rodrigues para iniciarem as atividades do dia que mais pareciam Obras de Artes ou coisa derivada de algum quadro de impressionismo do Século XIX, que ainda hoje pairam de forma indelével em minha memória:
Quatro montanhas de canas cortadas no dia anterior cercavam o velho engenho já devidamente equipado com três juntas de bois em cangas aos quais fora dada a incumbência de fazer girar as rangedoras e barulhentas moendas no hercúleo esforço de triturarem, enquanto o dia clareava, aquele mudo de “madeiras doces” da família das poaceaes, do gênero saccharum. Ao lado do engenho três cabanas feitas e cobertas inteiramente com bagaços das próprias canas. Lá ficavam posicionados estrategicamente imensos tachos de bronze em fogo alto a queimar-lhes os fundilhos, que recebiam a garapa da cana que era retirada de um tanque depois de ter sido captada através de cochos que ligavam as moendas ao tanque e tinham como função convertê-la em estado sólido transformando-a em rapadura, melado ou puxa a esta ultima se adicionava a cidra ou cascas de laranja o que a tornava um fino doce dos deuses, quase tudo era vendido no Mercado do Brejo das Almas.
Aquele ritual deixava qualquer um encantado. Até mesmo o pessoal envolvido com aquela lide se orgulhava dela. Imaginem isso, na mente de um guri de oito anos. Era o máximo: mesmo pequeno, eu tinha lá minhas funções. Claro que dentro daquela rígida hierarquia as minhas atribuições eram as mais inferiores. Mais eu também era graduado. Quando eu não estava provando o melado para ver o ponto, estava enchendo o saco da “Dindinha” (avó), pedindo para adicionar logo a cidra ao melado para eu iniciar comilança, ou então, postava eu sobre um dos muitos pés de manga e de lá punha-me, em inócua tentativa de contar quantos giros aquelas juntas conseguiam dar em volta do engenho ou então, quantas viagens as pessoas conseguiriam fazer com seus bangüês carregados de bagaços de cana. Bons tempos, aqueles...
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62566
Por Enoque Alves - 9/10/2010 14:21:48
Morreu Gaspar Albério em Montes Claros

Enoque Alves Rodrigues

Hoje, excepcionalmente não escreverei sobre Francisco Sá, a Cidade. Discorrerei, sinteticamente, sobre o grande homem que lá nasceu há 85 anos e que agora retorna aos Céus, chamado que fora por Deus em 04/10/10, em Montes Claros.
Trilhou, aqui na terra, todos os seus caminhos pautados sempre pela fé, dedicação ao próximo e, principalmente, por ter deixado a todos os que com ele conviveram lá em Capitão Enéas, exemplos de sinceridade, respeito, cordialidade, afeto e amizade na mais pura e sublime acepção da palavra.
Gaspar Albério, ou “Seu Gaspar”, soube como ninguém construir todos os laços que o uniam as pessoas e a sociedade de Capitão Enéas.
Estabelecido, há muitos anos nesta Cidade no ramo do Comércio, depois de haver se dedicado a várias atividades correlatas, entre elas, a de mascate, onde negociava seus produtos dentro do velho trem da antiga Rede Ferroviária Federal que cortava o norte das Minas Gerais.
Na condição de comerciante na Avenida Burarama, utilizava muito mais esta prerrogativa para conquistar novos amigos, granjear simpatias e consolidar velhas amizades, que para ganhar dinheiro. Todos que ali chegavam, com ou sem dinheiro, levava o que queria. Tudo, claro, anotado em sua velha caderneta ou muitas vezes somente na palavra.
-Seu Gaspar, eu gostei muito daquele tecido ali mais tô sem dinheiro hoje. O que é que a gente faz?
-Tem problema não, filhinha. Ocê pode levar que nóis acerta quando você puder. Ta me entendendo? Dito isso, pegava uma velha métrica em madeira, destas de se medir tecidos, e com uma não menos velha tesoura, dava um pequeno corte e de uma só vez rasgava o restante em linha reta.
Enquanto isso entrava outro:
-Seu Gaspar, em vim aqui para “acertar” aquela continha do mês passado.
-Mais como? Já meu filho?
-Espere um pouquinho, vou atender a filhinha ali. Enquanto isso senta um pouco e vamos proseando.
-Como vai a família? E aquele seu probleminha de saúde. Já resolveu com aquele remédio que você me falou da outra vez? E a porca já deu cria?
Evangélico durante quase toda sua vida, tinha ele o dom da palavra. Colaborava com todos a sua volta. Assumira na Sociedade Eneense posições de destaque que por si abalariam o ego de simples mortais. Jamais se deslumbrou com nada. Cuidava de duas irmãzinhas suas muito velhinhas e fragilizadas pelo decorrer dos anos que agora sentem-se orfãs. Todos os dias, impreterivelmente, ele atravessava a linha do trem e, do outro lado da Cidade ia estar com elas levando-lhes seu carinho fraterno e o conforto da palavra.
Seu maior orgulho: ter criado seus sete filhos todos íntegros apenas e tão somente com os seus exemplos de vida. Circunstancias naturais da vida, ou seja, a busca pela sobrevivência e melhores condições de vida, acabaram por empurrar para longe de seu convívio seus dois únicos filhos homens, restando-lhe próximos somente suas filhas mulheres que, naturalmente supria a falta dos outros, desdobrando-se em mimos e cuidados.
Jamais, em minhas crônicas fiz qualquer referência a este senhor. Entendo que da mesma forma que não devemos pronunciar o nome de Deus em vão, não existe palavra, por mais rico que seja o vocabulário, para qualificar com fidelidade sem o risco da hipérbole ou paixão, seres que a providência divina, de quando em vez, se encarrega de mandar para a terra. Principalmente quando fomos nós, diretamente agraciados com a dádiva de tê-los como parentes próximos.
Sim. Gaspar Albério Rodrigues, que faleceu em Montes Claros e que vivia em Capitão Enéas e que agora descansa em paz ao lado de Deus, era o meu querido pai. Que Deus o tenha em sua Santa Glória.
http://enoquerodrigues.blogspot.com/2010/10/morreu-gaspar-alberio-em-montes-claros.html
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


62276
Por Enoque Alves - 2/10/2010 18:04:39
ISTO É FRANCISCO SÁ - FINAL - HIDROGRAFIA

Enoque Alves Rodrigues

Nascendo na Serra do Catuni, o Rio São Domingos passa pela Cidade de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais e segue seu curso em direção ao Rio Verde Grande, do qual é um dos muitos tributários. É relativamente pobre a rede hidrográfica do Município, já que vários dos seus córregos secam após a retirada das chuvas.
Quem demanda o lado norte, encontra o córrego do Carrapato e, em seguida, o Sitio Novo, o Ribeirão de Cana Brava, o Córrego Pau Preto, o do Brejão, o Mamonas, o Traçadal e ainda o Rio Quem Quem.
Do lado Sul, deparam-se com o Rio Boa Vista, o Vaca Brava, o Córrego dos Patos, o Rio Caititu, o Rio da Prata e o Córrego Rico.
Ainda ao Norte, em demanda ao povoado do Catuni, o Rio Gorutuba, que em vários pontos, forma belíssimas praias de areia clara.
O Rio Verde Grande é o marco divisório dos Municípios de Francisco Sá e Montes Claros.
Dentro do território do Município de Francisco Sá há varias lagoas. Á margem da rodagem Montes Claros – Salinas, depois do Rio Verde e a direita de quem parte de Francisco Sá, fica a bonita lagoa da Barra, na Fazenda de mesmo nome. O antigo proprietário Dr. Felix Pimenta de Carvalho, construiu a margem da lagoa um moderno Clube Campestre, no qual a Sociedade de Montes Claros bem como a de Francisco Sá, encontram um ponto magnífico para as suas atrações domingueiras.
Ao Nascente, na belíssima Cidade de Francisco Sá já quase inteiramente drenada, fica a histórica Lagoa das Pedras, ás margens da qual o Bandeirante Antonio Gonçalves Figueira, juntamente com os seus companheiros, acampou num dia de finados, conforme já escrevi, erguendo numa elevação ao lado o cruzeiro, do qual tiraria o primeiro topônimo do lugar, que fora o de “Cruz das Almas das Caatingas do Rio Verde”.
Os que conhecem esta lagoa no seu estado atual, não formam a idéia do quanto já fora bela. Quem teve o privilegio de conhecê-la em seus tempos de gloria lembra-se de que ali havia um lindo espelho d’agua. Praticava-se ali grandes e prodigiosas pescarias aonde se pescava arrobas e mais arrobas de peixes de várias espécies. Existisse hoje como antes, certamente daria um lindo lago navegável, onde a mocidade poderia esportivamente se divertir.
Distando três léguas do Centro de minha Cidade de Francisco Sá, Brejo das Almas, e ao poente, fica a lagoa do Tabual, no povoado de mesmo nome. Á margem, do Rio Caititu existem varias lagoas, pelos lados da Fazenda da Camarinhas, e nelas, todos os anos, eram praticadas pescarias.
Para as bandas do Córrego do Carrapato, fica a Lagoa dos Mouras ou Lagoa Nova.
Com a formação do Município de Janaúba, bem como de Capitão Enéas, desmembrados de Francisco Sá, várias lagoas passaram a pertencer a estes Municípios, por terem ficado nos territórios desmembrados. Uma delas é a Lagoa Grande, no Município de Janaúba.
Um grande abraço, amigos estudantes. Creio que aqui prestei minha modesta contribuição e espero ter atendido vossos anseios.
http://enoquerodrigues.blogspot.com/2010/09/isto-e-francisco-sa
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


61657
Por Enoque Alves - 25/9/2010 11:35:21
ISTO É FRANCISCO SÁ III - POSIÇÃO GEOGRÁFICA

Enoque Alves Rodrigues

O Município de Francisco Sá, antigo Brejo das Almas, localiza-se na Bacia do Rio São Francisco, ficando o seu atual território no Vale Médio do Rio Verde Grande, tendo atualmente os seguintes limites: ao Norte limita-se com o Município de Grão Mogol; ao Sul, com os Municípios de Montes Claros e Capitão Enéas, que se chamou primeiramente Burarama; a Leste com o Município de Juramento e a Oeste com o Município de Janaúba.
Dista da Capital das Alterosas, Belo Horizonte, ou “Belzonte” como nós Mineiros autênticos carinhosamente a chamamos, 480 quilômetros. Possui área territorial de 2.749.393 quilômetros quadrados e sua população atual segundo dados estatísticos do IBGE em 2009, gira em torno de 25.994 habitantes, divididos em partes iguais entre homens e mulheres o que dá 8,2 habitantes por metro quadrado.
Francisco Sá, que outrora fora um grande Município em extensão territorial ao ser formado, por mais de uma vez sofreu mutilações no seu organismo. Dois grandes cortes lhes foram praticados com desmembramentos de partes do seu todo territorial, quando das criações dos Minicipios de Janaúba e Capitão Enéas. Mesmo assim, mutilado em partes importantes, refez-se o seu organismo em tempo rápido, e a sua caminhada rumo ao progresso não sofreu solução de continuidade. E, assim, vem cumprindo as suas metas em demanda de sua destinação histórica.
Município de vida própria, habitado por um povo laborioso, pacato de hábitos simples e hospitaleiro, o que muito dignifica as minhas origens, e o meu devotamento pelo Brejo, está a sua Sede a se transformar numa Cidade moderna e confortável.
O Município de Francisco Sá, “beldade do norte de Minas Gerais”, fica situado a 667 metros de altitude, tendo como coordenadas geográficas, 16º27’00” de altitude Sul e 43º28’00” de longitude W Gr. Em linha reta fica distante da Capital 386 quilômetros, rumo NNE.
Semana que vem falarei da Hidrografia de Francisco Sá, ou seja, sobre os seus rios.
http://enoquerodrigues.blogspot.com/2010/09/isto-e-francisco-sa-i-fauna-e-flora.html
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 18/9/2010 17:04:03
ISTO É FRANCISCO SÁ II - OROGRAFIA

Enoque Alves Rodrigues

Atendendo a vários e-mails que tenho recebido, -o que muito me honra-, de estudantes em fase preparatória de trabalhos escolares, principalmente da mui conceituada Universidade Estadual de Montes Claros, a Unimontes, direcionei minha crônica do ultimo final de semana a fauna e a flora existentes no município de Francisco Sá e hoje, dando seqüência a esta série escreverei sobre a orografia e na próxima semana sobre a posição geográfica, deste meu amado município.
OROGRAFIA – Serra do Catuni:
Sendo o sistema orográfico de Francisco Sá padronizado pelo da nossa belíssima Serra do Catuni, dou aqui a sua descrição, copiada do Relatório-Monografia do Dr. Artur Jardim, quando da sua prestação de contas ao deixar a prefeitura do município de Brejo das Almas, após haver concluído com denodo, transparência e galhardia a mais perfeita gestão que Francisco Sá já teve. Aliás, hoje, o município ressente de administradores do naipe que os anteriores.
Diz ele: “A Serra do Catuni é um planalto que desce bruscamente, na vertente ocidental, que é a do Verde Grande, de 900 – 1000 metros de altitude média, 700 – 650 na base da elevação e a menos, já na baixada. Visto daí, seu corte do firmamento é dado por linhas retas niveladas em redentes como uma amplíssima cremalheira. Esse perfil inesperado é que a torna singular para o visitante habituado ao tumultuário levantamento de cômoros, píncaros, e agulhas das cordilheiras litorâneas e das regiões sul-central.
Quem segue pela estrada de Salinas, e galga a encosta, tem no cimo a surpresa de um tabuleiro que se desdobra para o nascente, em suas ondulações, e onde farfalham as elegantes palmeiras de Catolé, batidas pelo vento constante e vivificador do Nordeste... mas, também anunciador da seca.
Os contrafortes desta serrania nunca se estendem a mais de uma a duas léguas de seu flanco, para o poente, e não tem ramificações muito longas no sentido leste-oeste.
As maiores são as de Vaca Brava, Campo Alegre e Barra. Estes contrafortes parecem partir de um centro de impulsão situado na profundidade da terra, sob a massa dos Gerais, rumo aproximado ESE, originando as elevações de Sete Passagens, Pilatos, Morro do Trigo e a serie de montes das cabeceiras do Boa Vista e outros.
Estas elevações secundárias alcançam uma profundidade para o poente de 18 a 30 quilômetros, em altitudes crescentes.
Pela maior parte constituem-se de argila e calcários em lajedos, chistos, cascalhos rolados e arestosos, bancos normais de quartzo leitoso; e, bombeando cada vez mais o dorso, separando os “baixos”, em que correm rios temporários, transformam-se depois em chapadas e tabuleiros cobertos de “carrascos” ou de “catandubas”, como diz o nativo, e até de caatingas mais férteis que sobem das baixas.
Os contrafortes de Barra, Brejo, Carrapato, Sitio Novo, Masseira, Cana Brava, Santo André, de SW para NE, são ramificações que não se estendem muito.
Esse caráter pode ser dado a todos os serros que se erguem esparsos a maior ou menor distancia, dentro do vale, e cujo maior lance é no sentido aproximado da corrente do Verde Grande, OSO para NNE.
A maioria desses serros termina com a Serra do Catuni, em linhas de cumeadas niveladas e extensas, ficando o seu perfil no fundo vastíssimo da paisagem, descortinados das elevações, como uma sucessão infinita de planaltos a cavaleiro dos vales.
Um grande abraço, queridos estudantes. Sucesso e obrigado pelos e-mails. Contem comigo!
Vejam esta matéria completa em meu blog: http://enoquerodrigues.blogspot.com/2010/09/isto-e-francisco-sa-i-fauna-e-flora.html
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 12/9/2010 08:49:07
ISTO É FRANCISCO SÁ I - FAUNA E FLORA

Enoque Alves Rodrigues

Atendendo a vários e-mails que tenho recebido, -o que muito me honra-, de estudantes em fase preparatória de trabalhos escolares, principalmente da mui conceituada Universidade Estadual de Montes Claros, a Unimontes, direcionarei minha crônica de hoje a Fauna e a Flora, existentes no norte de Minas Gerais, ou precisamente em meu município, Francisco Sá.
FAUNA:
Os animais domésticos do município em sua maioria se constituem das espécies mais comuns em varias regiões do País.
Sobressaem, entretanto, os galináceos e os palmípedes. Quanto a aves e pássaros selvagens, há alguns característicos da região, canoros e de belas plumagens. Dentre eles enumeramos o sofrê, o currixo, o canarinho amarelo, o pintassilgo, a patativa, o bicudo, o curió, o pássaro preto de três espécies, o cardeal e a brabeza.
Há também as pombinhas verdadeiras, a juriti, a inhambu, a zabelê, o sabiá, o tico-tico, o bem-te-vi, a codorna, o quem-quem, os anuns pretos e brancos, as rolinhas pedrês e parda, o João congo, o João de barro, e muitos outros. Com relação as aves de rapina, existem varias espécies de gaviões de penacho e o carcará.
Em se tratando dos animais selvagens temos no município de Francisco Sá, a suçuarana, a lombo-preto, e em algumas regiões o tigre, a anta, os gatos maracajá e marisco, a raposa, o caititu, o queixada, os tamanduás, os tatus, a paca, os veados, os coelhos, as cutias, o guaxo, os preás e a jaratataca.
Quanto a serpentes, a maior mesmo é a jibóia, a caninana, a jararacuçu, a cipó, a cascavel, a coral, a jararaca e outras mais.
No tocante as variedades de peixes são muitas, a começar pelo grande surubi do meu querido rio verde grande, o doirado, as curumatás, as traíras, o piau e, ainda no rio verde e várias lagoas, os grandes jacarés, as ferozes piranhas, os mandis, e mais os batráquios e quelônios.
FLORA:
Quanto a flora existente no município de Francisco Sá, Brejo das Almas, ela é quase toda constituída nas seguintes classificações:
CAMPOS – Limpos, Cerrados e Gerais.
CATANDUVAS – Altas e Baixas.
CAATINGAS – Altas, de vazantes, baixas e médias.
Nas Catanduvas encontram-se as seguintes madeiras:
Pau de óleo, garapa, potumujú, ipê, catinga de porco, e outras mais.
Nos cerrados o pau terra, o vinhático, a cagaiteira, a samambaia, o tingui, a caraíba, o angico e outros.
Observe-se que a vegetação nossa conhecida como caatinga difere inteiramente da que é assim qualificada por Euclydes da Cunha no seu monumental livro Os Sertões, que conheci ainda menino nos sertões da Bahia. A Caatinga do norte das Minas Gerais ou precisamente do município de Francisco Sá sobre o qual escrevo, é uma mata muito densa, constituída em sua maioria de madeira de lei, como o cedro, a aroeira, o pau preto, o tamboril, o angico, o candeio, o pereira, o jacarandá e outra infinidade utilizados em construção.
Já as Caatingas da Bahia são constituídas de vegetação rala, rasteira, raquítica, etc.
Um grande abraço, queridos estudantes. Sucesso e obrigado pelos e-mails. Contem comigo!
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
http://enoquerodrigues.blogspot.com/2010/09/isto-e-francisco-sa-i-fauna-e-flora.html


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Por Enoque Alves - 5/9/2010 14:28:59
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ III - DEMÓSTENES VENTURA

Enoque Alves Rodrigues

Ao contrário de seu sobrenome, Demóstenes Ventura andava mergulhado numa tremenda onda de azar. Ele residia ali na Praça Joaninha Pena, Centro de Francisco Sá, nosso querido Brejo das Almas. Trabalhava lá pelos lados do Catuni, onde era vaqueiro além de colaborar com as plantações de milho e alho. Sua esposa se chamava Ana, filha do velho Valdomiro Papudo, um dos contadores de causos da Francisco Sá de antanho. Tinham seis filhos, todos menores de dez anos o que indica ter o casal começado cedo sua longa prole.
Sem maiores delongas, há que se ressaltar que a sorte realmente não lhe era companheira. Jamais antes houvera lhe dado sequer um amarelo sorriso. Fugia dele enquanto ele a perseguia implacavelmente.
Se plantasse, por mais que fosse a terra fértil, não colhia. Se jogasse na loteria, ainda que comprasse todas as combinações, não ganhava. Era o azar em forma de gente.
Não, aquilo não poderia continuar assim. Ele teria que dar um jeito naquela sua vidinha monótona, sem graça e sem sorte! Continuaria lutando no sentido de reverter essas mandingas.
Naqueles tempos, a única loteria que existia por aquelas bandas do norte das alterosas, era somente a centenária Loteria Federal do Brasil, que era vendida por cambistas no lombo de cavalos, após percorrerem várias léguas sertão á dentro ou, principalmente, dentro dos velhos trens da antiga EFCB ou RFFSA que seguiam de Montes Claros a Monte Azul, uma das ultimas paradas para se entrar na Bahia. Havia um cambista que era muito conhecido no Brejo, de nome Gasparino, que me parece era ele o responsável por “semear a sorte grande” nas regiçoes do Brejo, Grão-Mogol, Salinas, Taiobeiras, São Geraldo, etc.
Foi ai que Ana, esposa de Demóstenes teve uma idéia:
-“Demoste” - assim ela o chamava, não conseguia finalizar a pronuncia correta-, “apusquê ocê num vende a porquinha e compra tudo de biete de loteria? Amanhã é o dia do Gasparino vim. Ieu sonhei desde antonte que desta veiz vai dá porco na cabeça e o numero é o 36471.Vende a porca, home, e compra tudo de biete...Vai sê batata. Pode acreditá!”
-“Vai tomá banho na soda, muié!!! Adonde já se viu fazê uma bestera dessas? Se eu trabaiando como um doido não consegui ate agora arguma coisa, pusquê seria que eu mudaria nossa vidinha com jogo. Ainda mais arriscano tanto dinheiro?”
-“Tô te falano, home, vende a porca e faiz o jogo com o Gasparino. Ocê vai vê. Vai sê batata. Num tem como num ganhá. Meu sonho num fáia. Vende e joga logo, peste!”
Não teve jeito. A grande convicção de Ana acabou por balançar, sobremaneira, as estruturas emocionais de Demóstenes. Outra opção não lhe restou senão a de fazer o que Ana insistentemente lhe recomendava.
-“Vô vendê essa mardita porca e vô fazê o que essa megera manda!”
Só que ai surgiu um grande problema: enquanto ele não decidia, a porquinha que não era besta nem nada, torceu o rabo e deu no pé. Queimou o chão, ou melhor, escafedeu-se rumo a Salinas. No dia seguinte, Gasparino, o Cambista, passou como de costume no casebre de Demóstenes e, ironia do destino, pôs-lhe às mãos exatamente o bilhete tal qual Ana havia descrito. Pobre Demóstenes, por mais que insistisse, Gasparino não lhe vendeu fiado. Recorreu a vizinhos, mas nada conseguiu. No desespero, contou o sonho de Ana para Gasparino que num sorriso sarcástico disse-lhe: agora não vendo este bilhete nem pelo dinheiro de 100 porcas. Ele é meu!
No dia seguinte, pelo Rádio, veio o resultado: Atenção Senhoras e Senhores. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro informa o resultado da Loteria Federal do Brasil: primeiro prêmio 36471. Segundo informação da Caixa Econômica Federal este bilhete foi vendido no norte das Minas Gerais, ou precisamente na Cidade de Francisco Sá. Boa sorte ao feliz ganhador e que faça bom proveito dessa grande fortuna!
É...
Por vezes, a sorte é como um cavalo arriado: se você não se jogar na hora exata, bate com os fundilhos no chão. Nem sempre há tempo para se pensar.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 28/8/2010 14:41:41
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ - MONOTONIA BREJEIRA

Enoque Alves Rodrigues

Tardes tristes e modorrentas eram aquelas tardes da Francisco Sá do inicio dos anos 1970. Se durante os dias úteis da semana o brejeiro, envolvido com a luta pela sobrevivência nem sentia o tempo passar, tomado que era pela árdua lide diária. Aos domingos, único dia reservado para seu descanso, não tinha quase nada de novo a fazer. A Cidadezinha, pródiga em pontos turísticos lindos e atrativos aos forasteiros, não oferecia mais nenhuma sensação a gente do lugar. Os fatos e acontecimentos por ali simplesmente “não aconteciam”. Muitos anos-luz, outrora, distanciavam Brejo das Almas do burburinho dos grandes centros urbanos. Para se sintonizar com as novidades, tinha que sair do Brejo. As noticias lá chegavam a passos de tartaruga e o brejeiro, coitado, vivia ansioso pela falta de informação de outras plagas.
Tardes domingueiras, então? Meu Deus, quanta tristeza. Que tédio!
Os homens não tinham opção. Ou ficavam em casa cuidando dos passarinhos, olhando para o teto ou brigando com as crianças e com patroa, ou embrenhavam-se, de corpo e alma, nos incontáveis botecos de então, aonde afogavam literalmente, suas mágoas, desilusões amorosas, solidão e falta de perspectivas, na pior pinga brejeira de graduação alcoólica beirando aos 100º. Por ser ruim, assim como toda cachaça, era a mais barata ou era a pinga que o parco orçamento permitia degustar, ou melhor, engolir. Ao entrar o primeiro gole goela abaixo, o pouco juízo que tinham simplesmente saia pelas orelhas. E o brejeiro, enquanto suas pernas conseguiam mantê-lo de pé, soltava a língua. Não. Naqueles tempos não era comum se falar da vida alheia. O brejeiro, depois de alguns goles, esquecia-se de tudo e de todos. Sequer imaginava sua vidinha monótona, Severina e extremamente miserável. Ele ficava eufórico. Ficava rico. Contava vantagens. Tudo dentro de uma ingenuidade que beirava a legião dos anjos. Havia sim, alguns fanfarrões e muitos arruaceiros. Mas esses eram poucos e não duravam muito. Ao notarem o quão pacatos eram os “points” e sua gente, sumiam-se em direção a outras freguesias. E quando não tinham mais dinheiro para beber, penduravam a conta para um dia, quem sabe, quando Deus quiser, pagar. Quando já estavam embriagados procuravam, finalmente, o caminho de casa. No entanto, poucos a alcançavam. A casa, não obstante se localizar a poucos metros do bar, ou havia se deslocado do lugar aonde por séculos haviam estado ou simplesmente desaparecia como por encanto. É não era fácil.
Para aqueles que não se entregavam aos deleites da pinga, restava apenas “pescarem” alguma casa que tinha televisão, na época, só havia o preto e branco, e se oferecer para juntar-se aos familiares do dono da casa para assistir “Silvio Santos, vem ai. Há...Hai...Hu...Hui!!!
Como, é claro, poucas casas possuíam televisor. Não havia televisão para todos, e o brejeiro ficava, então, às espreitas de um homenzinho, moreno, baixo, meio gordo, com dois dentes de ouro na boca, que a qualquer momento, como num passe de mágica, poderia brotar de qualquer lugar, vindo de todos os rumos. Era “Zezim Tocador”, puxando seu velho fole, entoando musicas antigas e tristes acompanhadas sempre pelos latidos de seu cão vaza-mundo. Eram musicas como “tristeza do jeca”, “saudade de matão” e outras quinquilharias poéticas de nosso sentimento caboclo.
Todos juntavam-se a sua comitiva e só se recolhiam as suas casas depois de haverem percorrido todas as ruas do velho Francisco Sá, Brejo das Almas dos meus encantos. Éramos felizes e não sabíamos.
É...
Por vezes, não necessitamos de muito para sermos felizes...
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 22/8/2010 11:14:49
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – PEDRO CIPÓ

Enoque Alves Rodrigues

Ele era o mais temido valentão de Francisco Sá, outrora Brejo das Almas. Por onde passava semeava medo, pavor e suplicio a pacata gente brejeira. Os homens ao vê-lo a distancia, fugiam. Não respeitava sequer mulheres e crianças. Bares e demais localidades onde os brejeiros de então se reuniam esvaziavam-se com sua presença. Um simples olhar não correspondido era suficiente para que ele partisse para cima das pessoas sem dó e piedade. Muitos bravos daquela época tremiam nas bases só de ouvir o seu nome.
Pedro Cipó, assim era chamado. Pistoleiro de dedo mole que não pensava duas vezes para puxar o gatilho. Matara muitos sem qualquer motivo, se é que existe no mundo qualquer motivo que justifique que um tire a vida do outro, prerrogativa única e exclusiva do Criador do homem e de todas as coisas. Para disfarçar sua real profissão de pistoleiro, ou seja, individuo que matava por encomenda, mantinha, como fachada, uma pequena venda de frutas e cereais nas cercanias do velho cemitério de Francisco Sá, ou precisamente na Rua das Aroeiras.
Numa das muitas pendengas que arranjava com facilidade acabou por matar um rapazola, ainda imberbe, fazendeiro dos baixios da Serra do Catuni.
Certo dia, desentendera-se com o moço Donato Pinto de Magalhães, rapaz de ótima conduta. Segundo diziam, o Pedro Cipó julgou-se desfeiteado com as respostas que o Donato lhe dera, e prometia mata-lo. Corria o boato de que o pistoleiro tinha o “corpo fechado”, isto é, as armas não davam fogo contra ele e, quando isto acontecesse, as balas não lhe penetravam à pele, perito que era ele na arte da mandinga.
E se encontraram na Rua das Aroeiras, perto da casa de Pedro Cipó, que ameaçava o Donato, dizendo-lhe mais ou menos isto:
- Segura, menino, que vou lhe dar uma lição.
Mas o Donato, moleque, não quis ser mais um alvo da pontaria certeira do Negro Pedro Cipó, e sabia que, se não o eliminasse antes não se defenderia de sua traição.
Por segurança, quando Pedro Cipó marchava em sua direção, Donato, testando os poderes sobrenaturais do Negro, dá um tiro para o ar. E, tcham... tcham... tcham... Para sua surpresa. Eureka! A arma disparou. Incontinenti, sem perder um segundo sequer, dá no gatilho. E era uma vez um pistoleiro de nome Pedro Cipó...
Galgando a sua montaria que estava perto, Donato se evade do local.
No Grupo Escolar onde naquele momento o Professor Neco ministrava suas aulas, ouviram-se os tiros e a gritaria. Donato matou Pedro Cipó... Donato matou Pedro Cipó...
Todos os alunos puseram-se em debandada. Incrédulos e curiosos, queriam certificar-se de que a noticia era verdadeira. Ao professor Neco, que por ser surdo, nada ouvira daquela “revoada de petiz”, restou-lhe apenas continuar defronte ao quadro negro com seu giz a mão, a escrever a lição do dia. Ao tornar-se de frente para a “turma” para tomar-lhe a lição, apenas e tão somente vento havia. Nenhum sinal de seus pupilos. Foi muito difícil ao velho professor, entender, horas depois, o que ocorrera. Principalmente por saber que Donato, menino franzino e inofensivo, de feições franciscanas, jamais antes matara uma barata sequer.
É...
Por vezes, é exatamente de onde não se espera é que se sai. Todos são grandes e valentes o suficiente quando estão em perigo.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


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Por Enoque Alves - 14/8/2010 20:35:10
CENAS BREJEIRAS VIII - ANTÃO DAS MANDIOCAS

Enoque Alves Rodrigues

Infante ainda divertia-me sempre que via adentrar o velho Brejo das Almas, ou Francisco Sá, em sua carroça de madeira puxada por uma jumentinha de tez preta beirando a senilidade, Antão das Mandiocas, como era chamado. Vivia ele lá pelas bandas do Catuni, ou para localizar melhor, atrás da serra de mesmo nome que tem, em seu cume, mil metros de altitude.
Sua carroça vinha carregada de milho, mandioca, batata e alho. Seguia em direção ao velho mercado onde em um Box qualquer ele os negociava. Uai, eu disse negociava? Sim, exatamente! É este o termo exato, porque nem sempre ele conseguia caracterizar a venda de seus produtos, trocando-os por dinheiro. Nesse caso, é como já escrevi anteriormente, ele assim como todos os seus iguais praticavam o escambo. Trocava suas iguarias por outras diferentes e assim ia levando a vida, como diria Milionário e José Rico.
Intrigava-me, no entanto, a cordialidade do tratamento que ele dispensava a sua necessária e mais que indispensável animália. Beirava, sem qualquer hipérbole, ao mais carinhoso trato dedicado as moçoilas. Lamentavelmente naqueles longínquos tempos, nos confins de nossa querida pátria amada, salve, salve, não era comum se ver os animais serem bem tratados. Ao contrário, eram muito mal tratados, diga-se de passagem. Vítimas indefesas de covardes contumazes aonde a lei da espora, chicote e ferrão imperava. Antão, não. Ele era diferente. E era isso que me chamava a atenção. A sua jumenta chegava a brilhar, de tão limpa que era. Estava sempre cheirosa e perfumada. Tomava banho todos os dias. Defronte ao velho mercado do Brejo, Antão, antes de desatrelar a carroça de “pretinha” que ele deixava sempre solta a pastar colonião, tirava de um dos bolsos de seu velho jaleco de couro, um pente “flamengo” e punha se pentear-lhes a crina e a falar-lhe aos ouvidos. Não contendo naturais curiosidades pueris, aproximei-me, certa feita, de ambos. Queria ouvir o “diálogo”, ou melhor, o “monólogo” já que “pretinha” não falava, só ouvia. Doces e sábias palavras eram proferidas por aquele simples matuto brejeiro. Eram palavras de gratidão que ele dirigia a “pretinha” pela dedicação diária de toda uma vida com a qual ela o brindava. Agradecia a divina providência por um dia tê-la deixado ainda que enferma, em frente ao seu casebre. Esquecia, no entanto, que se ela ali agora estava, foi exatamente porque ele primeiramente se dedicou a ela, salvando-lhe a vida. Após realizar todo o seu ritual de agradecimentos, Antão das Mandiocas, antes de se retirar para seu trabalho no Box do mercado municipal do Brejo, pedia, humildemente:
-Torça por mim, “pretinha”, para que hoje eu consiga vender alguma coisa para melhorar o nosso sustento. Eu sei que você entende tudo! Você não é uma “cabeça de jumento, não”. Você é uma “cabeça de gente”.
-Uai, eu falei, cabeça de gente?
-Gente!!!
-Cruz, credo! Desculpa ai, “pretinha” se lhe ofendi. Quem neste mundo, além de você me dedicaria tanta amizade, colaboração, respeito, tolerância, humildade e fidelidade?
-Ninguém!
-É...
-Por vezes, a maioria das virtudes não é encontrada nos corações e cabeças humanas onde deveriam sempre estar; mas em lugares tidos equivocadamente, como imprevisíveis e inóspitos: Nos corações e cabeças dos muares.
-“Poor man, poor woman”!
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


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Por Enoque Alves - 8/8/2010 11:31:58
CENAS BREJEIRAS VII – TONINHO RUAS, O BOM ALUNO

Enoque Alves Rodrigues

Donato dos Santos Silva, não obstante nominar importante instituição de ensino de Francisco Sá, Brejo das Almas, foi, no entanto, homem de pouca ou quase nenhuma cultura. Mesmo assim, é longa a sua ficha de bons serviços prestados ao Município de Francisco Sá.
Militou na política municipal como Vereador, onde exerceu por diversas vezes a presidência da Câmara Municipal. Era ele fazendeiro em cuja fazenda além do cultivo de alhos, algodões e cana de açúcar, dedicava-se também a criação de gado de corte.
Depois do Grupo Escolar Eliseu Laborne, a primeira e mais tradicional instituição de ensino construída em Francisco Sá, ainda na administração do Governador Valadares, o Grupo Escolar Donato dos Santos Silva, foi a segunda instituição de ensino mais importante a ser erguida em Francisco Sá, nos tempos do Governador José de Magalhães Pinto.
Ali estudava com o Professor Neco, o aluno Antonio Marcondes Azevedo Ruas, ou, Toninho Ruas, para os amigos.
Aluno aplicado. Notas excelentes. Havia em pouco tempo decorado a tabuada. Tinha, no entanto, dificuldades em assimilar as letras gramaticais, não obstante sua dedicação. Por mais que Neco insistisse, o aluno Toninho Ruas, não evoluía. Foi ai que surgiu na brilhante e criativa mente do Professor Neco, a idéia de “forçar” seu pupilo, meio que “na decoreba”, a aprender mais celeremente o Português.
-Vamos, então, disse-lhe o professor Neco, iniciar, querido Toninho, com o Hino a Francisco Sá. Quem sabe assim, você decorando o hino, a gente possa avançar melhor!
- Pois não, professor, pode começar que eu acompanho...
- “Do catuni ao rio verde,
Do prata, ao rio do prego;
És sempre rico e formoso,
Só não vendo quem é cego.
Estribilho:
Brejo das almas
Ou Francisco Sá,
Igual a ti,
Outro não há.
- Teu solo vasto e fecundo
Produz tudo que se planta;
Ostenta lindas pastagens,
Não há outro que o suplanta.
Estribilho:
Brejo das almas
Ou Francisco Sá,
Igual a ti,
Outro não há.
- Os teus filhos prediletos
Trabalham por teu progresso;
Querem te ver entre os grandes,
E entre os grandes ter acesso.
Estribilho:
Brejo das almas
Ou Francisco Sá,
Igual a ti,
Outro não há.
- Terra do Sargento Mor
Antigo Brejo das Almas;
Tens o nome do teu filho,
Que colheu da glória, as palmas.”
Dada a velocidade com que o professor recitava cada estrofe do belíssimo hino de nosso querido Brejo das Almas, e também por ser surdo, foi-lhe impossível constatar que apesar da imensa boa vontade do aluno Toninho Ruas, este não conseguira acompanha-lo. Sequer havia passado da primeira estrofe enquanto o professor de há muito o havia finalizado.
É...
-Por vezes, boa vontade só não basta. É preciso apertar o pé para conseguir “chegar junto”!
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


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Por Enoque Alves - 1/8/2010 18:12:32
O Esforço dos Malas com alça para superar os malas sem alça do mundo corporativo

Enoque Alves Rodrigues

Transcrevo aqui importante matéria publicada recentemente pela Revista Veja, na seção “carreira”, a qual se refere ao dia a dia de todos nós, bons e bem intencionados trabalhadores, verdadeiros malas com alça que entre outras atribuições peculiares a nossa lide, ainda temos que carregar nas costas as pesadonas malas sem alça. Leiam com bastante atenção e no final me digam com sinceridade, quem dentro de qualquer corporação, quer na área burocrática ou chão de fábrica, não passou pelos terríveis suplícios que são o convívio com os “malas sem alça”. Diz o texto de veja:
-Em meados nos anos 90 o economista Jeremy Rifkin decretou o fim do emprego formal. De acordo com ele, a revolução tecnológica levaria a uma redução gigantesca do quadro de funcionários nas grandes empresas da área industrial e financeira, e o setor de serviços não conseguiria absorver os milhões e milhões de postos de trabalho fechados. Restava aos profissionais do mundo fabril e corporativo, inclusive os altamente qualificados, enfrentar mês a mês de sísifo dos freelancers. Quinze anos depois de Rifkin lançar seu epitáfio, o pior não veio, apesar de todos os solavancos: o emprego estável, com garantias previstas pelas legislações trabalhistas, em formas reconhecidas, não acabou – muito menos em países emergentes, como é o caso do Brasil. Se nas nações desenvolvidas a paisagem não pode ser considerada rósea, embora esteja longe de exibir as tintas do apocalipse, por aqui vem ocorrendo uma forte expansão de alto a baixo da pirâmide hierárquica. Pegue-se o exemplo dos degraus superiores: o numero de funcionários com nível universitário nas grandes empresas, boa parte deles com função decisória, saltou de 436000 em 1998 para mais de 1 milhão em 2008. E o mercado corporativo permanece aquecido.
Enfim, tornar-se mala com alça – ou seja, ocupar um cargo gerencial ou executivo – continua a ser uma meta almejada e realizada por muitos. As estatísticas, porem, passam longe das dificuldades oferecidas pelos malas sem alça - aquele pessoal que dedica toda a sua energia à criação de problemas para os que querem apenas e tão somente trabalhar. Essa fauna abrange desde os colegas fofoqueiros e oportunistas até os burocratas dos departamentos encarregados de zelar pelo bom andamento das operações, mas que se entusiasmam por criar formulários e inventar reuniões tão longas quanto desfocadas. O resultado é um ambiente carregado não só de situações embaraçosas, como de um sem-número de tarefas inúteis. Não há duvidas de que as relações profissionais, de uma década para cá normatizadas pelo ideário politicamente correto, estão mais cordiais nas aparências (o que não é pouca coisa, diga-se). Mas o panorama visto das baias e salas de divisórias que não alcançam o teto poderia ser bem melhor. Uma pesquisa recente feita pelo grupo CATHO, especializado em recursos humanos, mostro que 20% das demissões estão associadas a problemas com colegas e chefes e excesso de pressão. “Um bom ambiente profissional é tão importante quanto gostar do que se faz”, diz a consultora Lia Fonseca, do Portal You & Your Career.
Com base em um levantamento feito junto às principais empresas de recursos humanos no pais, VEJA selecionou os dez problemas mais comuns que se enfrentam hoje nas companhias:
1) Horários pouco flexíveis e excesso de pressão. 2) Treinamentos e entrevistas esdrúxulos. 3) Importância excessiva a diplomas. 4) A valorização de profissionais que vem de fora em detrimento daqueles que já estão há anos na companhia, com bons serviços prestados. 5) Roubo de crédito pelo trabalho. 6) Chefes arrogantes e prepotentes que não sabem delegar e cobra tarefas. 7) Processo de fritura (quando os chefes forçam a demissão do funcionário submetendo-o a humilhações). 8) Medo de pedir aumento. 9) Falta de clareza do funcionário e da empresa na hora de negociar propostas. 10) Dificuldade em lidar com a hierarquia.
- O QUE OS FUNCIONÁRIOS QUEREM DE UMA EMPRESA
Hoje:
1 – Bom ambiente. 2 – Desenvolvimento profissional. 3 – Qualidade de vida. 4 – Possibilidade de rápido crescimento e 5 – Empresa com boa imagem e credibilidade no mercado.
Há cinco anos:
1 – Empresa com boa imagem e credibilidade no mercado. 2 – Bons salários e benefícios. 3 – Desafios. 4 – Valorização profissional e 5 – Carreira internacional.
OS DEZ PECADOS CORPORATIVOS (coisas que quase todo mundo faz, e continuará a fazer, mas não deveria)
1 – PASSAR POR CIMA DO CHEFE: Realizar uma tarefa para o diretor da empresa sem avisar o próprio chefe revela desobediência à hierarquia e falta de profissionalismo.
2 – RELACIONAR EDUCAÇÃO E SIMPATIA COM PODER: Dispensar tratamento diferenciado a cada funcionário da empresa, aumentando a gentileza e a simpatia proporcionalmente ao poder do outro, é sinal evidente de interesse.
3 – INTIMIDADE NO ESCRITÓRIO: Apelidos e brincadeiras pessoais são incompatíveis com o ambiente de trabalho, seja entre colegas, seja na relação chefe-subordinado.
4 – MANIA DE TOCAR NOS OUTROS: É muito inconveniente qualquer tipo de contato físico, até mesmo segurar o braço do interlocutor. A informalidade pode atingir níveis extremos, como massagem nos ombros e carinhos na barriga de gestantes.
5 – SER O FUNCIONÁRIO LIVRO-ABERTO: Deve-se resistir a tentação de contar a mais recente discussão familiar ou amorosa. É uma superposição descabida entre vida pessoal e trabalho.
6 – BRINCAR COM PEDIDOS DE PROMOÇÃO: Comentários como “viu meu relatório, chefe? Não acha que eu mereço um aumento?” só causan constrangimentos e dificilmente resultam em propostas objetivas.
7 – TORNAR PUBLICA A INSATISFAÇÃO: Registrar queixas em e-malls, programas de conversa instantânea, twitter, Orkut, facebook é inaceitável. Além de tornar publica a reclamação, o funcionário produz provas contra si mesmo.
8 – EXCESSO DE FEMINILIDADE: Usar a beleza ou charme feminino para conquistar favores ou benefícios na empresa é antiético.
9 – DEMONSTRAÇÕES DE CARINHOS ENTRE CASAIS: Qualquer demonstração de afeto é inadmissível num ambiente profissional. Pior ainda é fazer comentários sobre assuntos da intimidade do companheiro.
10 – CHORAR NO TRABALHO: Chorar no banheiro é tão ruim quanto fazê-lo em publico. Evidentemente, todos vão perceber a demonstração de descontrole. É melhor sair, dar uma volta e não envolver outros funcionários em seu problema.
E ai, o que me diz? Fez sua analise?
- O que? Você nunca teve problema com os malas sem alça na empresa? Também nunca burlou, ainda que inconscientemente, nenhum dos dez pecados corporativos?
- Que bom, companheiro, que você é e sempre foi autônomo. Que nunca trabalhou como empregado para ninguém. Parabéns!
- Mas se você ainda trabalha ou já trabalhou alguma vez como empregado e diz jamais ter passado por isso, desculpe: você está faltando com a verdade. Os malas sem alça são onipresentes e estão em toda e qualquer empresa. Quer como “entregadores”, “puxa sacos”, “sanguessugas”, “agitadores”, “formadores de opiniões negativas”, “fuxiquentos” e muitas outras “virtudes”. Eles são parte integrante de um processo continuo de obsolescência na empresa, dos quais ninguém se consegue desvencilhar.
-Por vezes, é preferível defrontar-se com o Diabo que ter um “mala sem alça” a sua frente.

Enoque Alves Rodrigues.


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Por Enoque Alves - 30/7/2010 17:54:55
Cenas Brejeiras VI - As secas do Brejo - Enoque Alves Rodrigues

1970...1971...1972. Anos difíceis, aqueles. A longa estiagem grassava o norte das Minas Gerais. Ouvia-se ao longe apenas e tão somente o estalar de mamonas e a cantiga triste da cigarra brejeira, lá nos confins do tórrido e esturricado serrado.
O brejeiro, coitado, já não sabia mais a quem recorrer. Novenas e mais novenas, dirigidas aos deuses da chuva, saiam de quase todas as casas, cruzavam as ruas do Brejo das Almas, em direção a velha Matriz, onde eram recepcionadas pelo Padre Silvestre.
Em Francisco Sá, Brejo das Almas, fenômenos sobrenaturais processavam-se, incompreensivelmente. Cidadezinha banhada por vários rios, inclusive em sua maioria, com nascentes dentro do município, e pelos inúmeros brejos que inclusive dão-lhe o nome de batismo, agora o que se via era somente seca. Lagoas lindas e atrativas que faziam a alegria da gente brejeira, e de forasteiros que acorriam ao Brejo para banharem-se em suas águas, como a “da barra”, “das pedras”, “do tabual” e rios como “caititu”, carrapato”, “verde”, “são domingos”, “gorutuba”, “dois riachos”, estavam secando. Definitivamente os deuses da chuva não estavam nem ai para a gente do norte de Minas naquele triênio.
Enquanto isso, no povoado de “Lagoa Seca”, na Fazenda de Darcy Bessoni, o meeiro Manoel Rodrigues, ou Mané da Quitéria, pelejava contra uma dúvida cruel que assim como a seca, calcinava-lhe os cérebros.
Previdente, havia retirado da ultima colheita, doze cumbucas grandes de sementes de arroz, feijão e milho para semear na atual safra. Mas a chuva não vinha e a barriga roncava. Os quatro bacuris e Quitéria, pressionavam-no:
- Mané, você não está vendo que neste ano não vai chover por aqui? Estamos em agosto, homem. Veja o céu como está. É melhor a gente comer logo estes grãos e matarmos a nossa fome do que você enterrar no chão e não vingar ou deixar guardado para caruncho consumir tudo!
- Mané, coitado, olhava para cima e não via nenhum sinal de chuva e lamentava: Céus, quando é que vamos ter pelo menos um pouco de chuva para acabar com essa agonia?
- Não teve jeito. Entre a pressão de Quitéria e o ronco famélico da barriga dos bacuris, a falta de perspectivas de chuvas e a ameaça dos carunchos, ele, por certo, optou por comer os grãos. Decisão inteligente, certo?
- Errado!!!
- Ainda saboreavam a ultima refeição com os grãos quando o tempo virou. Densas nuvens, carregadas de água que há muito não visitavam aquelas plagas, agora, pesadas, pareciam arrastarem-se ao chão. Dali a instantes o toró despencou-se. Água por todos os cantos. Jamais, antes chovera tanto naquela região. As Lagoas Secas que dão nome ao lugar transbordavam-se.
- Assentado próximo a soleira, encontramos agora o nosso Mané com o queixo entre as mãos em forma de conchas, triste e acabrunhado, a observar a chuvarada que caia lá fora. Em seu recôndito, com toda certeza amaldiçoava os deuses da chuva. Ainda meditava sobre a sua falta de sorte, pensando, por certo no que faria dali por diante, quando, eis que um locutor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, sacudindo um guizo, anuncia a plenos pulmões, em seu velho rádio ABC que mais parecia a um caixote de abelhas:
- “Alô...Alô, meus queridos lavradores do norte das Minas Gerais. Se vocês ainda não plantaram, vamos plantar! Levantem da cama... Mexam-se...A meteorologia informa que as chuvas que estavam atrasadas nesta região, vão voltar com tudo! Daqui até dezembro, é só chuva e sol. Você, produtor, terá todos as razões para sorrir de orelha a orelha. Vai ser a melhor safra que você poderia colher, talvez em toda a sua vida! Colheita melhor que esta você não terá nunca mais!”. Para incrementar sua fala, o tal locutor finalizava com a música “Meu Irmão da Roça”, gravada em 1972, por Leo Canhoto & Robertinho: “Nazareno do olhar meigo e puro; amparai nosso querido lavrador. Dái a ele muita força para a luta; dái a ele esperança, paz e amor”.
Não foi possível ao nosso querido Mané segurar a barra! Tomado por fúria repentina, frustrações e desilusões, sentia-se ali, diante do rádio, o personagem principal daquelas que para ele seriam gozações e ironias do locutor. Chegaram tarde demais os berros de Quitéria para que ele não espatifasse o pobre rádio na parede, depois de proferir esta frase:
- “Seu locutorzinho de uma figa... Vai tirar sarro da sua mãe, seu FDP”.
É...
Por vezes, dizia Sêneca, não existe vento favorável para quem não sabe aonde quer chegar.
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


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Por Enoque Alves - 28/7/2010 14:42:01
Cenas Brejeiras V – Policarpo Taioba, o vaqueiro - Enoque Alves Rodrigues
Policarpo Taioba era um vaqueiro que vivia em Francisco Sá, no Brejo das Almas de antanho.
Chapéu de couro com jugular, botas, gibão e um inseparável chicote fundiam-se à sua própria personalidade. Em todos e quaisquer lugares por onde o encontrasse, lá estavam esses apetrechos colados ao seu corpo como se com ele tivessem nascido. Parecia algo congênito.
Nascera, na verdade, em Taiobeiras, mas, ainda criança transferiu-se com toda sua numerosa família para Francisco Sá, Brejo das Almas. Viviam em um pequeno casebre bem no inicio da antiga Rua Padre Augusto. Dona Dezinha, sua mãe, uma senhorinha já beirando os 70 anos era uma biscoiteira de primeira linha. As suas fornadas eram vendidas por dois de seus filhos menores, o Edgar e o Gino, no Mercado Municipal.
Durante toda a semana, Policarpo passava embrenhado nas fazendas de meu padrinho Rosalino, próximo a Lagoa Seca, na lide da ordenha da vaquejada e no pastoreio da bizerrada nos pastos verdejantes. Aos Sábados, retornava ao Brejo quando eu também saia de Terra Branca, fazenda de meu avô, para fazermos as nossas ingênuas, infantis e despretensiosas farras que consistiam em tomar umas “crushes”, refrigerante da época, nos bares do Brejo e depois, já com outros rapazolas, irmos nadar nos dois riachos. Bons tempos, aqueles...
Aos domingos, a diversão era muito rara. Não podíamos repetir a rotina do sábado. Como naquela época poucas eram as famílias que possuíam aparelhos de televisão em casa, toda a petizada ia para o lugar onde eu ficava hospedado, ou seja, para a Pensão da Dona Quino, que ficava na rua, hoje alameda principal, onde quase todos as linhas de ônibus faziam seu ponto final. Lá, naquele velho casarão esverdeado, diante de um não menos velho televisor branco e preto, cuja tela era fixada em uma caixa de madeira, curtíamos os programas de então.
Víamos e não conseguíamos entender como o jovem Silvio Santos tinha tanto dinheiro para que, postado diante de uma interminável fila de vemaguetes, cordinis, rurais e outros carrões da época, realizar a distribuição gratuita a tantos de seus agraciados com essas verdadeiras fortunas capazes de uma só delas, fazer a felicidade de qualquer simples mortal. Belos tempos... Lindos dias, dizia a música do Rei Roberto, fazendo jus aquela ocasião.
No mesmo Canal o Velho Guerreiro fazia vasta distribuição de bacalhau, abacaxis e bananas. Por alguns instantes dava-nos a impressão de estarmos em uma feira livre.
Sentado em um diminuto banquinho de madeira o nosso vaqueiro Policarpo, em sua já mencionada e inseparável roupagem de couro, observada tudo como se estivesse anestesiado.
- Uai, Policarpo, não está gostando da programação de hoje?
- Não é isso não, Noquinho! Faço muito gosto dessa programação, moço! O que eu num consigo entender é a bondade do Sirvo Santo. Como ele tem um coração tão grande assim, moço!
- Coração tão grande? Uai, Policarpo, mas do que é que você está falando, moço?
- Uai, Noquinho, você ainda não entendeu? Por acaso você já viu argúem puraí dando quarqué carro de presente pra outro? Isso não existe em nenhum outro lugá! Só mesmo ai na televisão, c’um Sirvo. Ele é muitcho bacana. Carqué dia desses vô lá em Su Paulo pra pidi um pra ele!
- É...
- Dissestes bem, Policarpo. Somente na televisão se pode ver tanta bondade...
Na prática, por vezes, a teoria é outra.
Inté...
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


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Por Enoque Alves - 17/7/2010 20:10:33
CENAS BREJEIRAS – IV – A CAMINHO DO BREJO

Enoque Alves Rodrigues

Ano de 1971. Acabava de descer na velha estação ferroviária de Montes Claros. Estava retornando de Belo Horizonte onde havia estado em busca de dias melhores, antes de definir os rumos que daria a minha vida Severina de jovem pobre, parca cultura e nível escolar beirando a zero. Anos difíceis e literalmente de chumbo, aqueles... sem quaisquer perspectivas de melhoras a curto prazo.
Saindo da estação do trem, cansado da enfadonha e interminável viagem, sentado agora, sobre minha pequena mala de fibra, onde trazia duas mudas de roupas, estava eu ali a observar a estátua do grande Ministro da Viação e Obras Publicas, o Dr. Francisco Sá, quando eis que surge do outro lado da praça, a Jardineira com destino a Cidade de Francisco Sá, ou Brejo das Almas, dos meus encantos, localidade de meu aporte. Saudoso estava da querida terra onde sempre voltava em busca de algum aconchego para o ego ferido por infrutíferas tentativas. Lá, apesar da curta permanência, por obras inexplicáveis a limitada sabedoria humana, encontrava a paz na medida certa e a carga exata para as baterias. Tinha que investir quantas vezes fossem necessárias até encontrar o meu rumo.
-Sentado ao meu lado, um senhor de idade já avançada, o qual trazia nos ombros um alforje de couro onde, dada a sua inquietude e preocupação, havia com certeza algo de valioso que o obrigava a manter o tempo todo, uma das mãos ocupadas, segurando fortemente ao fundo como se estivesse a conferir o seu conteúdo. Em uma das orelhas portava, à guisa de brincos, um pequenino galho de arruda. Olhou-me, fitamente, e como eu não correspondi, desviando o meu olhar para a paisagem do caminho onde já estávamos próximos ao rio verde grande, disse-me:
- De onde você vem, moço?
- Venho de Belo Horizonte, senhor!
- Uai, mas você não pegou a Jardineira na estação do trem, lá em Montes Claros?
- Perfeitamente, senhor, respondi-lhe: Mas quando peguei a Jardineira, havia acabado de apear na estação de Montes Claros vindo de Belo Horizonte!
- E para onde você vai? Você é do Brejo? Quem é sua família lá?
- Respondi-lhe: vou para Francisco Sá. Sou do Brejo e pertenço aos Rodrigues, cujo patriarca é o velho Liberato de quem sou neto. O meu destino final é a pequena fazenda Terra Branca, de sua propriedade, que fica depois de Cana Brava, lá perto do povoado de Vaca Morta!
Por alguns instantes aquele senhor do qual, até então, sequer o nome sabia, permaneceu estático. Olhar fixo no teto da Jardineira. Mudo...totalmente... Silencioso... Meditabundo... Irrequieto... De repente, frases monossilábicas e desconexas. Observava-o, agora meio assustado por não entender os motivos daquela repentina mudança de atitude daquele que supunha já um novo amigo. Nesse entrementes, fui surpreendido por frases agora inteligíveis como:
- Liberato??? Fazenda Terra Branca??? Aquele velho de barbas brancas é seu avô??? Eu não posso acreditar nisso!!! Fale, ai, moço, que isso não é verdade!!! O que é que você está fazendo aqui?
- Calma, Senhor. Qual é o seu problema com o meu avô? Ele é uma pessoa maravilhosa. Do bem...
- É por isso mesmo! Convivi por tanto tempo com o Sr. João Liberato, aquele santo homem. Vários eitos de roças tiramos juntos em nossa juventude. Sei com que luta ele conseguiu o pouco que tem. Como criou seus dez filhos e eu, como já lhe falei, apesar de ter vivido com ele por tantos anos não consegui assimilar quase nada de suas maneiras e hoje não passo de um “judeu errante”! Não tenho paradeiro... Toda a minha riqueza está dentro deste alforje e a minha sorte, acredite, moço, está neste galho de arruda que trago atrás das orelhas!
Mais surpreso e agora muito curioso, indaguei-lhe:
- Desculpe-me, senhor, mas poderia, nesse caso, me dizer o que há de tão precioso dentro de seu alforje?
- Sim, claro, como não? Trago aqui tudo o que consegui “ajuntar” durante toda a minha vida... e tirando do alforje um montão de moedas, mostrou-me.
- Pasmo. Mesmo sem querer lhe frustrar mas, por consciência, não poderia reter comigo tão importante informação, perguntei-lhe:
- Qual é o seu nome, senhor?
- Natanael Ferreira de Oliveira, seu criado! Respondeu-me.
- Pois é, seu Natanael. Mil perdões, mas quis o destino que coubesse a mim, desiludi-lo: Lamento lhe informar que estas moedas que o senhor trás ai em seu alforje a tantos anos e que acaba de me mostrar, não valem nada! Elas não passam de um monte de patacas de cobres enferrujadas, cunhadas que foram no ano de 1901. De lá para cá, muitas mudanças se processaram em nossa economia. De maneira que os cupins das inúmeras inflações as corroeram de forma tal que hoje, em 1971, é possível que o senhor não encontre ninguém que lhe ofereça um centavo sequer, por elas.
- Frustrado, ainda o escutei dizer:
- Moço, não posso acreditar no que me diz. Esse dinheiro é o resultado da venda de uma grande manada de gado que meu pai fez e o que está comigo é a minha parte da herança.
- Mas quando foi que o senhor recebeu esta herança, seu Natanael?
- Foi no ano de 1902!
- Ah, bom... Está explicado!
- Por vezes é melhor usufruir de alguns segundos de felicidade na vida do que deixar que os mesmos se convertam em pó. Não existe vento favorável para quem não sabe aonde quer chegar.
Inté, meu povo.
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


59995
Por Enoque Alves - 8/7/2010 17:29:45
CENAS BREJEIRAS – III - A NOITE DO BREJEIRO AUSENTE

Enoque Alves Rodrigues

Enquanto Firmino finalizava sua fala, por sinal, muito decepcionante para todos nós que o rodeavam e que esperávamos que fosse verdade o que acabava de nos relatar sobre tantas facilidades em conseguir o almejado sucesso em tempo tão curto, outros “brejeiros ausentes”, preparavam-se para nos brindar com seus lindos “causos”, mas que a partir do que nos fora antes contado por Firmino, certamente não iriam nos causar maiores impactos ou surpresas. Estávamos, todos, a partir dali preparados para qualquer coisa.
Foi assim que Cráudio, fio da dona Marta, (Cláudio, filho da Dona Marta), de posse de seu novo sotaque, o carioca, se aproximou mais da roda e já com alguns quentõezinhos na cuca, deu inicio as suas infindáveis cantilenas de vantagens lá no Estado do Rio de Janeiro, ou melhor, na Cidade de Volta Redonda.
-Lá, sim, dizia ele, é que é lugar de a gente viver. Não falta nada! É só querer trabalhar que o sucesso logo vem!!! Foi assim comigo e com uma dúzia de brejeiros que me acompanharam, mas que não quiseram vir desta vez para a Noite do Brejeiro Ausente por estarem muito atarefados lá no Rio. Eu estou aqui, de certa forma, representando eles, pois não seria justo deixar passar as festas de Setembro no Brejo sem que nenhum de nós pudesse estar "presente" na Noite do Brejeiro "Ausente".
-Uái, Cráudio, disse-lhe Marcolino, filho da Dona Nana da Quitanda: Mais o que é que eles ficaram fazendo lá no Rio? Que trabalho é este que não permitiu que eles viessem festejar com a gente as comemorações mais importantes do Brejo das Almas? Você sabe moço, que o mês de Setembro é muito mais importante para nós brejeiros até mesmo que o mês de Dezembro quando se celebra o Natal e Ano Novo?
-Pois é, respondeu Cráudio, eu sei muito bem disso, mas o que eles ficaram fazendo lá é muito mais importante que qualquer festa ou comemoração. Eles ficaram contando o dinheiro do pagamento que receberam na Usina. É que neste mês devido a um problema na usina, todo o mundo teve que trabalhar dobrado e a conseqüência disto tudo é a grande “bufunfa” que eles agora são obrigados a contar. –Lembrando-se que naqueles tempos o soldo não era creditado em banco, mas pago diretamente ao empregado dentro de envelope-.
-E você, Cráudio, também não trabalhou dobrado na Usina? E onde está o seu dinheiro? Quem está contando para você? Perguntou-lhe, Manoelito de Vaca Morta.

-É simples:
-Como eu já disse, não poderia deixar de vir. Assim eu deleguei a dois colegas meus de lá, que não são brejeiros, para receber o meu pagamento e contar para mim!
-Mas você ta louco, Cráudio! Aonde já se viu isto. Deixar nas mãos de estranhos o seu dinheiro? E o pior: Nem brejeiros são!
-É ai que você se engana, Manoelito: Lá não tem disso de alguém passar a perna nos outros, não! Sabe porque? Exatamente porque todo mundo lá tem dinheiro mais que suficiente para sequer pensar em ficar com algum que não lhe pertence!
Dizendo isto, para surpresa de todos que o rodeavam, arrancou da guaiaca um pacote com mais de mil flores de aboboras emboladas (notas de mil cruzeiros da época cujas cores eram amarelas).
Atônitos e embasbacados ainda fomos brindados por uma “experta” ironia ou seria um simples gracejo pronunciado no mais autêntico sotaque carioca por aquele "novo rico" brejeiro:
-Se querex ficar aqui chorando mitseriax, ox problemax xão de vocêx. Se ao saírem daqui, pegaram o ômnibux errado para outra localidade que não o Rio, ainda há tempo de corrigir o perrcurxo. Lá é como eu falei...A guaiaca cheia não me deixa mentir. Carioca é gente boa, cerrto? Agora é com vocêix. Eu lá consigo trampox pra todox. Podex creer!!!
-E!
Dessa vez era verdade! Quem diria?
Por vezes, a linha imaginária que separa a ficção da realidade não é tão robusta quanto parece.
Inté, meu povo... Um grande abraço.

Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.




59957
Por Enoque Alves - 7/7/2010 11:07:35
CENAS BREJEIRAS – 2 - A NOITE DO BREJEIRO AUSENTE

Enoque Alves Rodrigues

Neste intróito peço permissão a grande escritora que o norte de Minas já produziu, Karla Celene Campos, nascida em Montes Claros mas que durante muitos anos de sua infância e adolescência viveu em Francisco Sá, Membro da Academia Montes-Clarense de Letras, da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, etc., para apropriar-me de um de seus textos especialmente na parte que irá corroborar com a minha crônica deste final de semana, sobre algumas festas do brejo e sobre a noite do brejeiro ausente. Diz Carla:
-“Em todos os mapas, registros e documentos oficiais consta o nome Francisco Sá para a setentrional cidade. Porem, mais forte que a linguagem escrita, registrada em cartório, é a linguagem falada, informal, sentida. E é essa linguagem dos usos e costumes do coração que faz com que ninguém se refira ao lugar pelo nome oficial. Salvo nos dicionários, não existem Francisco-Saenses, mas sim, Brejeiros. Brejeiros não visitam Francisco Sá, não existe a noite do Francisco-Saense Ausente. Brejeiros visitam o Brejo e para lá retornam quando Setembro chega, para se encontrarem na “Noite do Brejeiro Ausente”. Caprichos do coração, caprichos.”
Quando chega o mês de Setembro, a Cidadezinha do Brejo das Almas se engalana toda para realizar os festejos comemorativos em homenagem a alguns de seus muitos santos - que neste espaço, com intuito de evitar proselitismos, não declinarei nomes até porque desnecessário seria ao mais simples “brejeiro do brejo”-, mas, principalmente para que os brejeiros se confraternizem, incluindo aqueles, assim como este que vos escreve, se acham distantes da querida terra, sendo que para estes, ou seja, nós ausentes, se instituiu, - vejam se não é muita honra para nós-, a “Noite do Brejeiro Ausente”-.
-Curioso e emocionante para nós brejeiros, que por motivos da força maior que requer nossa lide em busca da sobrevivência, ainda que provisoriamente, fomos privados de participarmos, de vivenciarmos a vida cotidiana do lugar. De respirarmos o puro ar emanado dos muitos morros que o cercam. De caminhar por suas ruas, atos comezinhos e desprovidos de qualquer importância para quem vive o Brejo vinte e quatro horas.
-Pois bem, vinha eu dissertando sobre as curiosidades das “Noites do Brejeiro Ausente”. Vamos lá:
-Outrora, pelos menos assim foram em todas das quais participei, reuníamos, todos nós brejeiros, nascidos no brejo das Almas, ou, como queiram Francisco Sá, vindos de várias partes do Brasil e do Globo, em local predefinido para nossas inocentes comemorações. Ali, cada um, em seu modo de se expressar, pois vários não obstante não se acharem ausentes do brejo por muito tempo, traziam, propositadamente ou não, algum sotaque de seu “segundo lugar”. Assim, bastava que o nobre brejeiro abrisse a boca para se saber de onde ele vinha. Tertúlias inocentes e desprovidas de maldades, já o disse, mas muitas delas por vezes “fugiam” ao bom senso e chegavam a beirar as raias da “crueldade” para quem as ouvia e que por alguma razão de princípios não as queria devolver “a altura”. Refiro-me aos muitos “causos” de vantagens e sucessos inatingíveis em tão pouco tempo, que a maioria daqueles brejeiros ausentes, contavam.
-Sabe, Noquinho, falava-me Firmino, dentro de sua calça amarela boca de sino, cinturão grosso a La Roberto Carlos, grande fivela no formato da cabeça de Jesus de Nazaré, - febre daqueles tempos até mesmo pelo sucesso da Musica cantada composta por Claudio Fontana e cantada por Antonio Marcos-, camisa verde e sapato plataforma, saido do Brejo há apenas seis meses: Lá em Belzonte, no Bairro Carlos Prates, onde moro e trabalho na Fábia de fiação, já consegui fazer o meu pezinho de meia. Em seis meses, já comprei a minha casa que mais se parece a uma mansão. Tenho vários empregados lá para me servir. Acabo de comprar dois “gordinis novinhos em folha”. Só não vim pra cá com eles por que estão sendo licenciados. Não me falta nada lá! Parece que quando eu saí daqui “Deus pós a mão na minha cabeça”. Lá é o Eldorado que tantos falam. A minha conta no banco nem te conto... Ainda bem que dinheiro não fala...
-Uái, Firmino, perguntei-lhe cercado por uma multidão de crédulos curiosos ávidos por facilidades e dias melhores:
-E como é que você conseguiu tudo isso em tão pouco tempo? Estou em São Paulo há quase dez anos e posso lhe dizer que lá, onde muitos por aqui acreditam que se junta dinheiro com rodo, a coisa não é mole. Levanto-me, todos os dias as quatro da manhã, entro na obra as sete horas, cumpro, as vezes, doze horas de trabalho, vou a Faculdade pelo trem dos estudantes que sai do Brás, chego de volta no meu “muquifo” quase na mesma hora de sair para o trabalho, não tenho ou jamais tive qualquer vicio, e, acredite, sô, que até para eu vir aqui comemorar com vocês não é fácil. Dê para nós, meu bom moço, a receita para tanto sucesso em tão pouco tempo!
-Firmino, com seu indefectível ar brejeiro, sorriu... E porque todos o fitassem com olhares inquiridores para obter a resposta que ele, até então, se negava a dar, assim respondeu, forjando, somente para nos gozar, um caipirês que não era dele:
-“Mais ocêis num muda mesmo, eh cambada de molengas! Tá todo mundo ai quereno riqueza fáci. Quer moleza? Vão empurrá bebo na escada... Raspadura é doce mais num é mole... Vai trabaiá, vagabundos! Eu num tenho nada... Cheguei aqui de “cagona” –ele não conseguia falar carona-... É tudo mentira, bando de urubu!
Inté, meu povo... Um grande abraço.

Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.



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Por Enoque Alves - 3/7/2010 13:19:41
CENAS BREJEIRAS - I - FRANCISCO SÁ ANTIGO

Enoque Alves Rodrigues

De cócoras, na Alameda Central, ponto de encontro da gente brejeira, conversavam informalmente, Neuzão, Almeida e Manel de Vovó, antigos proprietários de bar no Brejo das Almas de então.
- Pois é, já não sei mais o que fazer com o meu bar. Esta seca medonha que assola o nosso norte de minas está consumindo o ´estica o braço` - sim, este era o nome do bar do Neuzão, devido que o bar dele de tão pequeno que era não possuía interior. Os fregueses eram atendidos do lado de fora. Apenas Neuzão ficava lá dentro e quando o infeliz aos berros pedia: ´oh, Neuzão, sorta ai um torresmo!!!`. Ele, lá de dentro do bar com o torresmo na mão, respondia: ´então estica o braço!!!` e assim o torresmo era pescado pelo faminto solicitante que nenhuma outra visão tinha de quem o atendera, senão a de uma solitária e quase fantasmagórica mão que em átimos de segundos após cumprir sua função de deixar o torresmo na mão de quem o pedira, era imediatamente recolhida a espera de futuras incumbências.
Naqueles tempos bicudos, realmente a maré não estava para peixe lá no brejo. Aliás, nem mesmo maré havia. O ´único mar` daquela região agreste de minas, ou seja, o rio verde grande estava secando. Os peixes debatiam-se na lama sobre o fundo do rio onde eram apanhados à mão. Via-se, aqui e ali, alguma planta, dessas que resistem a tudo, como o gravatá, a barriguda e pouquíssimas outras, tentando oferecer algum verde, infrutiferamente. Ouvia-se, ao longe, o estalar de mamonas nos confins do sertão. Até o cantar das cigarras ´chamando chuva` era triste e melancólico. Enquanto elas, coitadas, de tão fracas e debilitadas que se encontravam pela secura, antes de iniciarem suas cantilenas se certificavam de que estavam realmente firmes, em local seguro, afim de não caírem ao chão. Ao passo que, no solo, suas rivais, as sempre prestativas e trabalhadoras formigas, transitavam em seu vai-e-vem com folhagens a tinirem-se de tão secas, presas as suas poderosas hastes. Fazia quase um ano que não chovia nada naquela região e o brejo, mesmo com muitas almas e santos, não conseguiu passar incólume. É a natureza cumprindo o seu curso de imparcialidade.
-Com o seu cigarro de fumo de rolo preso entre os dentes, Almeida, outro dono de bar fazia coro a Neuzão.
-Uái, sô, você num imagina que já faiz quse treis mêises qui num entra niuma vivalma no meu bar. Tô passando um perrengue dos diabos. Lá in casa já num tenho mais o armôço pra vendê pra comprá a janta. Num sei mais o qui vô dá pra Creuza cuzinhá. Os bacuri já estão cansados de beldroega e fubá de miio carunchado. Adespois foi grande o meu prejuízo na tentativa de vendê o meu bar prá aquele mardito ´seo João`, ferroviário de Montes Claros de uma figa. Magina ocêis que pra impresioná ele eu gastei toda a minha reserva, truxe um montão de gente pro bar pra cumê e bebê de graça enquanto ele me visitava e adespois o desinfeliz ainda veio me falá qui num pudia comprá meu bar apusquê era muito movimentado e que ele já tinha trabalhado muito na vida e qui agora ele queria um negocio só pra passá o tempo e não pra trabaiá. Qui eu devia tamêm pensá nisso apois eu trabaio muito. Qui ele nem pudia imaginá o quanto de dinhero qui eu ganhava com tanto movimento. Qui ele já está apusentado e qui num necessita mais de tanto dinhero para vivê. É mole, meus cumpades!!!
-Manel de Vovó, mineiramente, ou melhor, brejeiramente, só observava. Eram muitos os lamentos dos dois amigos. Estavam, sem dúvida alguma, em situação de penúria. Não. Ele não faria coro a tamanha desgraça! Ainda de cócoras, manuseava entre os dedos uma pequena folha de fumo que pretendia mascar. Sem querer dar o braço a torcer. Mas também desprovido de quaisquer condições que o colocasse em melhor situação que seus iguais interlocutores, balbuciou, de forma quase que inaudível o seguinte:
-Uái, sô. Ocêis arreclama apusquê quere! E apontando para o morro do mocó, lá ao longe, quase inatingível a olho nu, completou: ´na barriga do mocó há um tesoro que foi escondido lá pelo bandeirante cujo nome num me alembro. Isto é verdade... num é lêndia...o cumpade firmino mesmo pode confirmá. Ele viu a bola de fogo azú qui sai de tráis do morro e cai lá, exatamente onde o tesoro está. O qui acuntece é qui aqui num tem homes de corage pra ir cumigo lá disinterrá os oro. Apusquê ocêis dois ao invêis de ficá ai chorano misera num vem cumigo` O será coseis tamêm é uns tremendo medrosos qui tem medo de fantasmas?
-Não ouvindo de nenhum dos dois amigos qualquer resposta as suas provocações, decepcionado e supondo-se ser o melhor de todos, bateu-se em retirada.
-É...
-Por vezes é melhor deixar como está para ver como é que fica.
Um grande abraço amigos.
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


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Por Enoque Alves - 26/6/2010 11:05:31
O DR. FRANCISCO SÁ – O HOMEM E A CIDADE - FINAL

Enoque Alves Rodrigues

Não me cabe aqui fazer a biografia do Dr. Francisco Sá, tarefa já desempenhada com grande maestria e eloqüência por escritores renomados, sendo a meu ver, a mais completa delas, a do Bacharel Sidney Chaves. Nela podemos constatar com riqueza de pormenores o retrato fiel da pessoa que foi o Dr. Francisco Sá e que aqui estou tentando exaltar.
Relatarei, para finalizar, alguns tópicos de sua vida, que propositadamente deixei para adicionar neste epilogo, com o intuito de colaborar com pesquisas eventuais sobre este grande Brasileiro de nossa Terra.
-Nasceu na Fazenda do Brejo de Santo André, então pertencente ao território de Grão Mogol, hoje e desde o ano de 1923 ao território do Brejo das Almas, hoje Francisco Sá. Portanto, ao contrário do que muitos pensam, Francisco Sá, não nasceu “brejeiro” do Brejo das Almas. Era “brejeiro” apenas por ter nascido no Brejo de Santo André, no município de Grão Mogol. Assim sendo, quero fazer justiça a nossa não menos linda e vizinha Cidade e ao seu povo hospitaleiro: O gentílico do Dr. Francisco Sá, quando nasceu não era “brejeiro” mas “grão-mogolense”. Parabéns, Grão Mogol, fundada que foi aos 23 de Março de 1840, cuja Bandeira do Município ostenta o mais lindo e significativo lema: “A riqueza está no trabalho”.
-Estudou as primeiras letras com Professor Particular ali mesmo na Fazenda do Brejo de Santo André. Fez o curso secundário em Diamantina e o curso superior em Ouro Preto, formando-se Engenheiro pela Escola de Minas, galgando o primeiro lugar de sua turma da qual foi ele o orador, no ano de 1884, então com 22 anos de idade.
-Foi Secretário do Presidente da Província do Ceará, Dr. Carlos Honório Otoni. Pelo mesmo Ceará elegeu-se Deputado Geral. Regressou para Minas Gerais onde se elegeu Deputado Provincial. Ainda nas Minas Gerais após a proclamação da República foi Diretor dos serviços de Terras e Colonização. Foi Secretário do Governo de Bias Fortes, elegeu-se Deputado pelo Ceará, Estado que depois viria a representar como Senador da República. Três vezes Ministro, sendo duas vezes da Viação e uma vez da Agricultura.
Na condição de Ministro da Viação, construiu, em vários Estados da Federação, Estradas de Ferro e Portos, e deu combate a seca do Nordeste Brasileiro. Prometeu e trouxe, -como “bom brejeiro de palavra”-, na condição de Ministro da Viação do Governo Arthur Bernardes, a Estrada de Ferro Central do Brasil, que veio beneficiar toda a região do norte-mineira. Em sinal de gratidão, o povo ergueu-lhe uma estátua na Praça da Estação, em Montes Claros. Numa placa de bronze, ao pé de sua estátua, estão gravadas as seguintes palavras: “Foi o maior e melhor amigo”.
-Nos anais da História estão gravados de formas indeléveis e inequívocas, varias homenagens a este grande brejeiro do qual todos nós nos orgulhamos mesmo não tendo tido o privilégio de ser-lhe contemporâneo. É nosso conterrâneo e isto nos basta. Ainda que não fosse do Brejo ou de nossa Grão Mogol, mas apenas pelo fato de o Grande Francisco Sá, que nomina minha Cidade, ter nascido no Brasil -que hoje produz tanta porcaria como Político -assim como os Sarneys e os Maluf´s, para citar algumas tranqueiras podres que como múmias do Século zero, antes do Mundo, insistem em manterem-se de pé, a escarnecer de nós, pacatos Cidadãos que carregam este Pais nas costas-, já seria mais que suficiente para nos sentirmos orgulhosos.
A revista “Montes Claros em Foco” do ano de 1962, centenário do Dr. Francisco Sá, à página 452, vários escritores como Nelson Viana, Olyntho da Silveira e muitos outros, além do historiador Hermes de Paula, prestam-lhe, através de inúmeros discursos, grande homenagem.
-A verdade é que, meus amigos, e conterrâneos, com a modéstia que faz parte de minha personalidade, procurei, durante boa parte de minha existência, ir a fundo, aprofundar-me com imparcialidade, sem endeusamento, no “escarafunchar” a vida da Ilustre figura que foi Francisco Sá, o homem. Devo dizer, com humildade, que em razão disso possuo grande acervo de conhecimento escrito ou simplesmente gravados na memória, sobre nosso conterrâneo Francisco Sá. Mas tenho que admitir que por mais que alguém tente, pesquise, garimpe nos “sebos da vida”, jamais se conseguirá juntar fragmentos aqui e ali suficientemente compatíveis ou próximos do que foi Francisco Sá, o homem. Por mais que se investigue ou escreva, sempre ficará algo por relatar.
Um grande abraço.
Inté...
Enoque Alves Rodrigues, atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada e Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


59459
Por Enoque Alves - 19/6/2010 14:07:16
O DR. FRANCISCO SÁ – O HOMEM E A CIDADE

Enoque Alves Rodrigues

1975. Novembro. Sentado atrás de uma velha Olivetti tentava datilografar trabalho de redação livre que teria que apresentar na Escola. Apegado que sempre fui a minha querida Terra, o Brejo das Almas, Francisco Sá, beldade do norte de minas, vacilava quanto a repercussão que poderia não obter, caso dissertasse sobre um pequenino lugarejo encravado em algum lugar do Sertão do Norte de Minas. Estava eu em São Paulo, e como poderia imaginar, por aqui, naqueles tempos, quem além de mim conheceria Francisco Sá, o Brejo das Almas?
-Era um trabalho que valia pontos para as provas finais e eu não poderia jamais desperdiçar a oportunidade.
Foi quando me ocorreu escrever sobre o Dr. Francisco Sá, o homem, não a Cidade, para depois dessa introdução, falar da Cidade do Brejo das Almas. Nasceu ali há exatos 35 anos o meu desejo de ser um divulgador voluntário da pequenina Cidade que me serviu de berço. Iniciava, assim:
- O Dr. Francisco Sá, nasceu na Fazenda do Brejo de Santo André, no Município do Brejo das Almas, Minas Gerais, no dia 14 de Setembro do ano 1862 e faleceu no dia 23 de Abril de 1936. Possuía inteligência extremamente avançada e muito além de seu tempo, foi engenheiro, jornalista, político e um grande Ministro. Exerceu com competência e galhardia por três vezes os Ministérios da Viação Transportes e Obras Públicas, nos governos de Nilo Peçanha e Artur Bernardes de 1909 a 1910 e de 1922 a 1926 e em 1909 assumiu o Ministério da Agricultura Industria e Comércio. Foi ainda Deputado Federal e Senador no período de 1906 a 1927.
Era filho de Francisco José de Sá Filho, rico fazendeiro e criador de gados, sendo a fazenda do Brejo de Santo André onde nascera, propriedade de seu avô. Aos seis anos de idade, Francisco Sá, o homem, recebera da vida tremendo golpe quando seu pai, o fazendeiro Francisco José, no ano de 1868, com apenas 36 anos veio a falecer.
Ficara aos cuidados de sua mãe Dona Agustinha Josefina Vieira Machado dos Santos Sá, que arregaçou as mangas e procurou suprir a ausência do pai dotando-o de todo conforto, educação, disciplina que viriam a ser fatores determinantes em sua carreira de surpreendente sucesso. Na fazenda Brejo de Santo André o Dr. Francisco Sá passara toda a sua infância e parte de sua adolescência quando finalmente se deslocou para a Capital da Republica, Rio de Janeiro, tendo primeiro passado por Belo Horizonte, para concluir seus bem-sucedidos estudos.
-A formação Política do Dr. Francisco Sá, o homem, veio de berço. Seu avô Francisco era ferrenho Republicano e abolicionista.
-Enquanto Ministro da Viação Transportes e Obras Públicas, Francisco Sá, o homem, deitou dormentes sobre os quais repousam centenas de quilômetros de trilhos por onde antes escoava quase toda riqueza produzida nos mais inatingíveis rincões do Norte das Gerais. Timidamente foram surgindo ao redor das estações de trem, povoados que posteriormente se transformaram em grandes e progressistas Cidades. Tudo isso graças a força de suas marias-fumaça a carvão, que depois foram substituídas pelas locomotivas atuais, hoje quase inexistentes. Em homenagem ao grande Brasileiro que foi o Dr. Francisco Sá, o homem, a Cidade do Brejo das Almas em cujo Município nascera, orgulhosa de sua grande inteligência, humildade (pois mesmo tendo nascido em berço de ouro, atingido o mais elevado status social), jamais deixou de se apresentar como “brejeiro”, inclusive em certa ocasião, intrigados, perguntaram-no porque tanta “brejeirice” quando ele respondeu que a divina providência assim o denominou quando o fez nascer no “Brejo de Santo André”, no município do também brejo, o “Brejo das Almas”. Que tantos brejos em sua vida eram suficientes para não deixa-lo esquecer de onde viera. Hoje o Brejo das Almas orgulhosamente ostenta o nome de Francisco Sá, que lhe fora dado pelo Decreto-lei estadual nº 148, de 17-12-1938.
Inté
Enoque Alves Rodrigues, atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada e Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.
Saibam mais sobre o Brejo das Almas visitem o site: http://citybrazil.uol.com.br/mg/franciscosa/index.php


59226
Por Enoque Alves - 11/6/2010 20:36:54
FICHA LIMPA? E AGORA...

Enoque Alves Rodrigues

Notícias divulgadas no dia de ontem em todos os meios de comunicação dão conta de que finalmente, a Lei que impede que indivíduos de conduta pouco ou nada ilibada e que não disponham de bons antecedentes, inclusive criminais, sejam candidatos a quaisquer cargos eletivos já a partir do próximo pleito. Até ai, morreu neves. Porventura não é isso que ocorre com o cidadão comum quando ele se candidata a qualquer vaga de emprego por mais simples que seja numa empresa da iniciativa privada? Na lista de documentos que o futuro funcionário terá que apresentar ao departamento de Recursos Humanos, consta, como exigência principal, a juntada de seu atestado de antecedentes criminais. Sem isso, adeus emprego. Sem contar que mesmo antes do pobre candidato apresentar a documentação, à sua revelia, a própria empresa já se encarregou de fazer um levantamento paralelo rigoroso em sua desgraçada vida pregressa, que muitas vezes beira as raias do ridículo. Mas isso, apesar de certos excessos que prevalecem em um regime capitalista como o nosso, onde predomina a lei do mais forte, ou seja, do fala quem pode e obedece quem tem juízo, são cuidados mais que necessários. São garantias que a empresa retentora da vaga tem que ter. Ela tem o direito de conhecer antes, de cabo a rabo, o colaborador que irá fazer parte de seus quadros e que estará “vestindo a sua camisa”.
Uai, sô, então por quais motivos estes mesmos conceitos teriam que ser diferentes em se tratando do Estado, do qual somos nós o patrão, quando ele vai “admitir” às nossas custas, políticos para nos representarem? Sabemos, perfeitamente que por não existir no Brasil o regime de voto distrital que de certa forma, daria alguma visibilidade ao eleitor de monitorar e analisar a ficha de seu candidato antes de dar ao mesmo seu voto, obrigatório, diga-se de passagem, este, coitado, por absoluta falta de conhecimento e opção, acaba votando em indivíduos sem quaisquer compromissos com a ética, moral e dignidade, totalmente desvinculados de uma conduta minimamente correta, transparente e aceitável. Fecha-se os olhos e narinas e vota-se no escuro no que lhe parece menos pior.
É oportuno ressaltar que a iniciativa que culminou com o projeto de lei denominado vulgarmente de “ficha limpa”, não partiu de nenhum político. Esta iniciativa é da Sociedade Civil. É nossa, portanto. É a voz das ruas de um povo sofrido, calejado e envergonhado com tantas bandalheiras que campeiam nesta Terra de Santa Cruz. Foi através da coleta de milhões de assinaturas nossas que depois foram levadas aos Poderes Constituídos que, por não disporem de quaisquer alternativas que lhes possibilitassem o veto, por estarmos em ano eleitoral, acabaram por transforma-las em Lei, sancionando-a, mesmo a contra-gosto.
Estou certo de que nem mesmo o mais simples e bem intencionado brejeiro, que com toda pureza d’alma habita o cume de nossa linda Serra do Catuni, em meu querido Brejo das Almas, alimenta a doce ilusão de que eles teriam aprovado esta lei se não estivéssemos realmente em ano eleitoral. Ou será que alguém ainda acha que eles são todos bonzinhos assim? A aprovação desta lei que, em tese, foi criada para punir a eles próprios, foi por “livre e espontânea pressão”. Quem em sã consciência daria um tiro no próprio pé? Desta vez e espero que sempre... nota MIL para nós, o povo, e para eles, tontos políticos, nota ZERO. Ou eu estou errado!
Inté!
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


59123
Por Enoque Alves - 8/6/2010 20:58:17
O PÉ NO BALDE DA VACA BOA DE LEITE...

Enoque Alves Rodrigues

É de domínio popular a velha anedota da vaca boa de leite que após permitir que seu ordenhador enchesse grande balde com seu leite, sem qualquer motivo, meteu o pé no balde, derramando ao chão todo o leite que tanto trabalho custara a ambos para produzir.
Lembrei-me desta antiga e surrada versão para, respeitando as proporções de tempo e de espaço, traçar uma singela e mui oportuna analogia do que tem feito nosso querido Presidente Luiz Inácio, com os Poderes Constituídos do Brasil ou especificamente com o Tribunal Superior Eleitoral.
Refiro-me as cinco multas de valores irrisórios que foram até aqui aplicadas ao Lula por fazer campanha fora de época em prol da candidata a sua predileção.
Conheço pessoalmente o nosso Luiz Inácio com quem convivi nas décadas de 1970 e 1980, em São Bernardo do Campo e confesso-me surpreso com esta sua atitude. Não obstante vários tropeços em seu Governo com o envolvimento de pessoas de sua confiança em atos ilícitos tendo sido muitos deles blindados pelo próprio Lula que não tomou as providências de exonerações pura e simples a tempo, é ele pessoa de bem e que possui índole pura e muito próxima de nós, simples e pobres mortais. É bem intencionado e tem inteligência muito acima da média.
Por isso mesmo não temos outras maneiras de definirmos as razões que o levaram a tantas infrações à Lei Eleitoral ultimamente, da qual ele teria que ser o principal guardião, que não sejam pelos valores ínfimos arbitrados em tais multas, comparativamente aos seus proventos. Ou seja, os valores das multas em reais não são fatores inibidores de suas práticas. Some-se a tudo isso o peso da popularidade do Lula e veremos sem quaisquer dúvidas, que vale muito a pena, sim senhor, correr o risco. No computo geral dos fatores custos benefícios, os benefícios são infinitamente superiores.
Mas aí nos esbarramos com outro adágio popular que diz que a justiça começa de casa e que o exemplo tem que ser dado de cima para baixo.
-Uai, sô! E agora?
-Neste caso não teria o nosso Luiz Inácio, mandatário máximo da Nação, que dar o exemplo para nós que estamos aqui em baixo?
-Sim! Com toda certeza. Ele teria que seguir à risca as letras da Lei!
-Uai!!! E porque é que ele não as segue?
-Simples: Com índice de popularidade beirando os 80% lastreados, em grande parte, na prática de paternalismos com o nosso dinheiro, arrancado de nós mediante impostos desumanos e vergonhosos, mas acertos inegáveis que justificam um governo de razoável para bom, quem, em sã consciência, se habilitaria a bater de frente com o Lula? Não seria mais cômodo e prudente seguir aplicando estas multinhas que jamais serão pagas, mas que são o máximo que a Lei atual permite, fazer vistas grossas e ir empurrando com a barriga até o limite que a mesma lei eleitoral facultará subir em palanques e fazer campanhas? Aliás, estamos em ano eleitoral e são todos eles candidatos.
-Pois é. Lá no Brejo das Almas onde fui nascido temos um outro dito popular que muito justifica a vista grossa e esse empurrar com a barriga.
-Caititu fora de manada, é papo pra onça!
-Ou ainda se preferir: passarinho não canta na muda!
Inté
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes


58993
Por Enoque Alves - 3/6/2010 13:41:22
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO - FINAL

Enoque Alves Rodrigues

Subindo mais adiante em direção a serra do Catuni, antes de se chegar a estrada de Cana Brava, o viajante era presenteado pela mãe Natureza com vista panorâmica indescritível ao passar pelo que antes se denominava ‘vale das barrigudas ou paineiras”. São, para quem não conhece, árvores frondosas, de copas fechadas, que possuem estas duas denominações devido que a primeira se explica por seu caule grosso, podendo chegar a um metro de diâmetro, com grandes saliências principalmente ao meio dando-lhe o formato de barriga. Enquanto que a segunda denominação está respaldada no fato de que seus frutos, quando secos, liberam a paina, algo em forma de algodão, muito utilizada naqueles tempos para o enchimento de colchões e travesseiros. No tronco da paineira há uma incidência enorme de espinhos. Suas flores são brancas e róseas e o fruto aparenta a um mamão que ao contrário do mamoeiro, estes ficam pendurados nas galhas feito pinhas e não no caule. A árvore da paineira pode passar facilmente dos 15 metros de altura.
Depois do vale, caminhando um pouco mais se chegava ao “pé na cova”. Era um velho bar que ficava em frente ao cemitério do Brejo. Ali, não somente os bebedores contumazes mas muita gente importante do lugar ia para degustar a melhor pinga do sertão do norte mineiro. Para lá se dirigiam também nas altas madrugadas, boêmios vindos do famoso “Rancho da Lua” , acompanhados, muitas vezes, por Rogério da Costa Negro, que após pagar-lhes várias rodadas, retirava-se com a mesma fineza e educação de sempre.
Havia naquele bar pinga para todos os gostos e bolsos. Não me aterei as marcas que eram muitas mas as formas e modalidades de certas exposições que muitas dúvidas pairavam sobre minha mente infantil de antanho. Não entendia, por exemplo, porque razão a grande maioria dos fregueses daquele estabelecimento, muitos vindos de Salinas, Grão Mogol, Taiobeiras e outras regiões distantes, preferiam quase que sempre a cachaça, em cuja garrafa, branca e cristalina, repousava, à curtir durante sabe-se lá Deus por quanto tempo, uma longa e agora inofensiva cobra coral. Faziam fila para bebê-la. Enquanto as outras garrafas contendo frutas, raízes e outras iguarias eram moderadamente solicitadas, as com as cobras eram pedidas por berros desesperados:
-Zefa, cadê a branquinha, da coral que picou o coveiro que eu pidi procê há “meia hora”?
-Carma, Tonho, qui ocê me pidiu num faiz nem um minuto e eu tenho qui servi os outro tamém, home! Eu num tenho quatro mão!
-Dizia outro:
-Apusquê ocêis num trais mais povo pra atendê nóis, Diabo?
-Dá um tempo aí, Jazão, qui nóis vai atendê ocêis todo! Dizia a cansada e esbaforida Zefa!
-Cuma cana tão gostosa qui nun tem quem serve! Resmungava outro no canto do Bar.
Ao contrário das outras cachaças que eles, sempre antes de solver o conteúdo do copo, “davam o primeiro trago para o Santo”. Costume este adotado até hoje em grande parte do Brasil e que consiste em jogar fora o que seria o primeiro trago. No caso da pinga com cobra coral eles não jogavam nada fora. Não ofereciam nada pro Santo. Que decepcionado, creio, triste ficava!
Depois da bebedeira, de muitas doses de pinga de cobra, iam todos rumo ao Centro do velho Brejo das Almas e se embrenhavam nos cabarés e inferninhos de então.
-Nem mesmo assim, minha mente brejeira de pequeno infante conseguia assimilar as razões daquela euforia toda. Tempos depois, o grande senhor da razão, se encarregava de me explicar: A pinga com cobra coral curtida dentro da garrafa era consumida à guisa de afrodisíaco, ou seja, era ela naqueles longínquos tempos o “Viagra dos pobres”.
Inté!

Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.
Visitem meu blog: http://enoque.rodrigues.zip.net/index.html


58834
Por Enoque Alves - 28/5/2010 20:42:54
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO 5

Enoque Alves Rodrigues

Depois de passar pela Casa do velho Mateus Gordo, o maior contador de histórias do Brejo, deparava-se, finalmente, com um descampado onde surgiam timidamente pequenos núcleos à guisa de ruas onde, minutos após, o viajante se defrontava de ambos os lados, com pequeninas e singelas casas, a maioria feitas de adobe e algumas com tijolos queimados, invariavelmente pintadas a cal e com um pequenino vaso à janela onde resistentes flores teimavam em dar o ar de sua graça ignorando o Sol escaldante e a implacável aridez daqueles confins de nosso querido sertão do norte mineiro onde está localizado Francisco Sá, ou Brejo das Almas, beldade das minas gerais.
Ali, outrora, aonde a mãe natureza que privilegiava apenas a berduega como se sua única filha fosse, iniciava, de fato, o povoado do Brejo. Era e o é até hoje sua principal rua. Por lá se entrava e saia do Brejo.
Seguindo mais adiante sem que fosse necessário caminhar muito, se chegava ao centro “nervoso” do comércio Brejeiro: constituía, na verdade, de poucas e tímidas casas comerciais onde se vendiam de tudo. Desde açougues onde as carnes de vacas, bodes, porcos, etc., eram e o são até hoje, em algumas, expostas penduradas na frente do estabelecimento, servindo de aeroporto para o pouso de moscas de passagem por aquelas plagas, até armarinhos de secos e molhados, onde se vendiam de tudo desde um simples botão a mais fina e requintada fazenda, do linho a chita, do tergal ao morim. As Lojas, onde somente tecidos vendiam, eram poucas. A maior delas a qual reinou no Brejo por longo tempo foi sem dúvida a Casa Branca e Costa Negro. Pertencia a Rogério da Costa Negro, seresteiro do Brejo, tremendo “bom vivant”, inclusive com destaque na política da região. De bem-sucedido comerciante, mas de vida perdulária, finalizou seus dias de existência septuagésima neste Orbe Terrestre na mais absoluta pobreza, mas com a cabeça erguida na dignidade que somente os grandes congênitos possuem.
A Casa Viena era outro gigante do comércio do lugar. As pharmacias ou bouticas eram raras. Apenas duas, de cujos proprietários minha mente hoje já não tão prodigiosa assim, não me permite lembrar os nomes.
A Igreja Matriz do Brejo, da qual tanto já tenho falado, lá sempre esteve. Ou seja, sábia e faceira como ela só, jamais quis sair do local mais bonito e privilegiado do Brejo que é a Praça Jacinto Alves da Silveira. Sempre permaneceu ali, de atalaia. Atenta a tudo que ocorre a sua volta. Ela é o que se pode chamar de testemunha ocular do Brejo desde a sua fundação. Ela, a Igreja Matriz com a Praça que leva o nome de seu dono se fundem. Até parece que ela, a Igreja Matriz, ali está para tomar nota de todas as ocorrências e depois as relatar ao Velho Jacinto. Mas ela, a Igreja Matriz, é vaidosa. Nas festas religiosas e dos muitos padroeiros, ela se enfeita toda. Se pinta como as lindas mulheres brejeiras, de suas melhores cores para as comemorações.
-Desculpe-me, Senhor Diretor. Não estou aqui fazendo proselitismo religioso até porque não pertenço a nenhum credo, especificamente. Pertenço, sim, a uma doutrina que não é religião, mas Ciência, da qual não pretendo jamais tentar convencer alguém a segui-la por respeitar o poder do livre arbítrio de cada um. Estou apenas discorrendo sobre o meu fascinante Brejo das Almas e algumas de suas muitas belezas.
Inté, brejeiros. Um grande abraço.
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


58688
Por Enoque Alves - 24/5/2010 20:50:41
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO 4

Enoque Alves Rodrigues

Depois de passar pelo Casarão cor de rosa do Sr. Antonio Miranda e Dona Edite, atravessar a Chácara de Sá Antonina e o Sitio de Juca Brinco, o transeunte que entrasse no Brejo das Almas vindo de Montes Claros via-se no lado direito da descida uma pequena pousada cujo dono era o velho Mateus gordo. Ali o viajante encontrava além de boa comida, pastagens vastas para seus animais e água abundante para seu banho.
Mateus Gordo era o que se podia denominar de “caboclo bom de prosa”. Pitando seu cachimbo de chifres de bode, carregado com fumo “in natura” produzidos por ele próprio em seu roçado, entre uma baforada e outra, ia vertendo histórias de seus tempos de menino em sua querida de Grão Mogol. Uma dessas histórias, presenciei-o contar por no mínimo uma duas vezes. No entanto, não obstante o interlocutor saber previamente o final de cada historia, era sempre uma sensação nova ouvi-lo contar outra vez, pois ao contrario do final que todos sabiam, cada história ele contava diferente de maneira que nós só sabíamos tratar-se da mesma história quando esta já estava caminhando para o final. Para dar veracidade a esta história ele nos apresentava sempre a “prova do crime”: uma velha e enferrujada espingarda de cano torto, quase em forma de anzol, que segundo ele dizia, era para matar onça na curva. De cócoras, no meio de uma roda de ouvintes atentos, Mateus gordo iniciava sua antiga cantilena sempre desse jeito:
-Foi lá em Grão Mogol quando eu era rapazinho e sai com meu pai para caçar veado no serrado, nas imediações da cidade. Meu pai caminhava na frente com sua espingarda de dois canos e eu ia atrás dele com minha pequena espingarda de um cano só. Eu tinha de seis para sete anos e já sabia atirar. Acertava numa cidra a um quilômetro de distância sem fazer mira.
-De repente eis que surge diante de nós uma tremenda onça pintada acompanhada de seus filhotes. Ela de tão faminta e braba que estava nem viu a gente! Foi meu pai que mexeu com ela puxando-lhe o rabo. Não deu tempo para nada! De um só tapa, ela jogou meu pai longe e partiu para cima de mim... Não dava para eu correr. Tive que encarar a fera! Afastei uns quatro metros para trás e engatilhei minha pequena espingarda de caçar passarinho. Eu pretendia com isso apenas dar um susto nela para que eu pudesse correr. Mas quem foi que disse que a maldita espingarda disparou? Eu apertava o gatilho que acionava o cão da espingarda que picotava a espoleta que não explodia para queimar a pólvora. Enquanto isso, a onça ficava em minha frente, de pé, com os dois braços abertos, como se estivesse me convidando para brigar... Não teve jeito. Joguei a espingarda fora e parti para cima dela. Engalfinhamo-nos, rolando ladeira abaixo até cairmos dentro de um riacho. Nem dentro dágua a gente se desgarrou. Nesse entrementes, meu pai que até então se achava no chão conseguiu se levantar e veio em meu socorro. Ela nem deu atenção pra ele; ao contrário, ficou mais nervosa ainda. Pegou-me pelo pescoço e quando já estava quase me enforcando, meu pai que usava rapé, se lembrou de jogar uma pequena porção na água. Foi minha salvação! Ela começou a se contorcer toda de vontade de espirrar e quando não agüentou mais pôs a cabeça para fora. Foi quando meu pai, de posse de um porrete deu-lhe uma cacetada nas fuças deixando-a tonta, quando finalmente consegui me libertar. Não foi fácil.
-E aonde é que entra nessa história a espingarda de cano torto que está em sua mão, Mateus gordo?
-Não. Ela não faz parte desta história, não mais da outra que oportunamente lhes contarei.
Inté, brejeiros!!!

Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.



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Por Enoque Alves - 22/5/2010 16:52:21
BRINCANDO DE DEUS?

Enoque Alves Rodrigues

Nesta semana a Humanidade foi surpreendida com a notícia de que cientistas conseguiram CRIAR, pela primeira vez no mundo, uma célula com genoma sintético, ou seja, uma bactéria a qual deram o nome de Mycoplasma mycoides JCVI-syn 1.0.
A comunidade cientifica mundial, inclusive a do Brasil, está fazendo tremendo auê em torno desse feito. São vários os depoimentos de impolutas e inquestionáveis autoridades desta área ressaltando a importância desta CRIAÇÃO para o mundo. Tanta exaltação, elogios e endeusamentos a equipe que participou desse evento que muitas vezes dão a nós, pobres e leigos mortais, a idéia de que o homem reinventou a vida!
-Não é nada disso, meus queridos. Eles não inventaram nada! Não CRIARAM absolutamente nada! O grande problema é que o verbo CRIAR está sendo utilizado para definir esse episódio, que não saberia eu dizer se propositadamente, da maneira mais incorreta possível. Nem precisa recorrer a dicionários para entender isso. Lá está registrado o verdadeiro sentido do verbo CRIAR:
“Dar existência”, “tirar do nada”, “imaginar”, “inventar”, “dar origem”, “produzir”, “fundar”, “instituir”, “começar a ter”, “alimentar”, etc.
Mas o que foi que esse cientista-empresário Craig Venter e sua equipe fizeram, então?
-Eles apenas inseriram um genoma construído artificialmente em uma célula, essa sim, CRIADA pela Natureza cuja célula passou a ser comandada por eles. Somente isso. Ou seja, para se CRIAR alguma coisa tem que se partir da estaca ZERO o que não ocorreu nesse caso, bem como, respeitando as devidas proporções, na mundialmente conhecida clonagem da Ovelha Dolly. Lembrando que para chegarem a este estágio eles realizaram investimentos bilionários em experimentos que duraram quinze anos. Esqueçam, portanto, de que o homem algum dia terá condições de CRIAR a vida, senão pelos métodos tradicionais, através da “cópula fecundativa”. Nada mais!
Não desprezemos, entretanto, o feito. Ele pode significar um importante salto para a humanidade. Mas longe de merecer a divulgação extremada que estão querendo ensejar. Desde a descoberta da Penicilina, não vemos no campo da Ciência, feitos que nos incitem a grandes comemorações. Doenças aparentemente simples, que de há muito já deveriam ter sido erradicadas e banidas do Planeta, grassam, nos dias atuais, de maneira incontrolável e inclemente, vidas humanas, ceifando-as sem dó e piedade.
A Natureza, meus queridos, não permite saltos. Na ordem natural das coisas não se queima etapas. Significa dizer que de nada adianta eles quererem “brincar de Deus”, se ainda não conseguiram sequer descobrir o básico.
-Por vezes, é preferível não acreditar em nada, que se deixar levar por calendas. Pensem nisso!
Um grande abraço.
Enoque Alves Rodrigues.


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Por Enoque Alves - 21/5/2010 20:49:02
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO 3

Enoque Alves Rodrigues

Outrora, para quem entrava no Brejo das Almas vindo de Montes Claros, passava em frente a um casarão de cor rosa, que pertencia a família tradicional do lugar a qual conhecia de vista. Ali, naquela linda e espaçosa casa, além da paz e tranqüilidade que pareciam reinar, segundo reza a tradição, se fazia o mais fino e requintado doce daquela região. Eram vários os sabores: doce de leite, goiaba, banana, cidra, etc. Os transeuntes inadvertidos quando passavam defronte aquela casa, eram, fatalmente, surpreendidos pelos mais puros e tentadores aromas, que voláteis em forma de fina fumaça, chegavam-lhes até as narinas, penetrando no âmago, por fim atingindo o olfato de maneira, irremediavelmente “destruidora”. Era difícil resistir àquela tentação da gula. Se a boca estivesse seca, devido ao calor e poeira do Brejo, imediatamente umedecia-se. Era como se olhos d’água brotassem do estômago. Às gestantes, coitadas, que passassem por este “flagelo” sem que oportunidades tivessem de provar dessas iguarias, poderiam causar aos seus rebentos “sérios danos”. Depois de muito tempo consegui descobrir quem na verdade residia naquela casa e onde se conseguiria encontrar aqueles doces. Eram produzidos em grande escala e que tinham como destinação, creio, o comércio do Brejo. O casal que os fabricava, sobre quem já tive a oportunidade de fazer pequena e rápida alusão neste espaço em matéria anterior, era impressionantemente sensacional. Era o Sr. Antonio Miranda e a Dona Edite. Ele, um senhor naquele tempo de meia idade e sua senhora, a dona Edite, apesar de muito bem cuidada, parecia ser um pouco mais velha. Tinham muitos filhos, que via com freqüência apesar de não ter estabelecido com eles, por absoluta falta de oportunidade, elos que levassem a uma aproximação de amizade intensa.
-Subindo mais adiante, ainda no inicio da pequena ladeira íngreme, depois de atravessar o sitio do velho Mateus e cruzar uma pinguela, via-se ao longe a pequena chácara de bananas, laranjas, lima da pérsia, cana e outras culturas. Pertencia a Dona Maria Antonia ou “Sá Antonina”, senhora já com idade avançada, mais muito forte ainda, que fazia questão de acompanhar em frente a sua propriedade, os carregamentos das carroças, charretes e cangalhas ao lombo de burros. Ela, a guisa de conferir seus produtos a fim de evitar quaisquer erros de contagens e prejuízos, postava-se com uma velha tabuleta em uma das mãos e na outra segurava um pedaço de carvão com o qual registrava na tabuleta sua infalível contabilidade. Assim como a maioria dos brejeiros de antanho, “Sá Antonina”, jamais, antes estivera sequer em frente a uma Escola. Não sabia ler nem escrever.
-Sendo assim desnecessário seria também dizer que não conhecia matemática, certo? -Errado!
-“Sá Antonina” sabia contar melhor que ninguém! Só que por não saber escrever, por ter pouca familiaridade com os números, ela que não confiava em ninguém a sua contabilidade, executava suas indelegáveis prerrogativas de “contadora”, de uma maneira meio inusitada e pitoresca: Para que nada lhe escapasse às vistas, com o intuito de ficar ao nível do meio de transporte, colocava-se ao lado do mesmo, um antigo catre tecido com couros de bois, catre este, utilizado anteriormente pela “qüinquagésima geração de sua família”, sobre o qual, por ser ela pequenina ao extremo, colocava uma cadeira, contemporânea do catre, onde após organizar suas vestimentas, --uma longa saia amarrada com uma tira de tecido à cintura-, começava a fazer a contagem; era mais ou menos assim: os carregadores saiam de sua chácara por um único portão que dava na rua. Ao chegarem ali onde ela estava, paravam e punham-se a fazer a contagem. Ela, de cima, apenas observava. Quando entendia que a contagem não estava correta, fazia o infeliz carregador repeti-la quantas vezes fossem necessárias ao seu difícil e indócil convencimento. Para facilitar seu trabalho, adequando-o as suas limitações culturais, a contagem era feita invariavelmente por dúzia qualquer que fosse o produto. Dessa forma, os cachos de banana eram fracionados de doze em doze unidades inteiras. Se no final do cacho a ultima fração não alcançasse as doze unidades, ela mandava retira-la, ainda que em tal fração tivesse onze unidades. Quando ela considerava correta a contagem fazia o registro com um simples risco com o carvão na tabuleta o qual representava uma dúzia, sendo os quatro primeiros riscos na parte externa em forma de um quadrado e os dois na parte de dentro em forma de xis. Tinha ela ai em sua contabilidade seis dúzias e assim por diante.
Todos os produtos ali coletados tinham como destino certo o velho e improvisado mercado que como o descrevi na crônica anterior, mais parecia a um “ajuntamento cigano”. Vendiam-se de tudo naqueles confins dos Sertões das Minas Gerais, no nosso querido Brejo das Almas. Quando não havia por lá quem tivessem dinheiro para comprar seus produtos eles negociavam-no entre si por escambo.
-Quanto a “Sá Antonina”, tudo aquilo que ela não conseguia vender desta maneira no atacado, ela oferecia no varejo de forma simplificada que ainda hoje, não obstante o passar de tantos anos, ainda é praticada à beira de qualquer estrada em vários estados brasileiros.
-Como ela, “Sá Antonina” morasse na beira da estrada de Montes Claros – Francisco Sá, ou Brejo das Almas, montava ali às margens uma pequenina mesa de madeira tosca sobre a qual fazia a exposição de seus produtos, disponibilizados para a venda aos estradeiros. Era um sucesso!!!
-No final da subida, após passar a chácara de “Sá Antonina”, do lado esquerdo de quem seguia em direção ao centro do Velho Brejo, cercado por densas e floridas “barrigudas”, ficava o sitio do velho Juca Brinco. Mulato alto, forte, que mancava da perna direita, devido ser esta mais curta que a outra, que, segundo ele contava, era resultado de várias pelejas que tivera com algumas suçuaranas em defesa de suas criações de rezes de seus apetites vorazes. O brinco que fora inserido, compulsoriamente em seu nome, que exatamente pelo fato de a principio ele detestar, acabou “colando”, era atribuído a uma marca de nascença que possuía atrás de uma das orelhas, que, saliente, dava a aparência de brinco. Muito tempo depois, munido de infantil desejo de livrar-se do apelido que o projetara, - era conhecido como o seu Juca “Brinco”, o maior contador de histórias do Brejo-, de posse de suas parcas economias, amealhadas a duras penas com as vendas de carnes de alguns garrotinhos, que certamente não haviam sido notados pelas onças suçuaranas, rumou, aquele simpático senhor para Montes Claros. Ali chegando, procurou um dos melhores cirurgiões da velha MOC de então. Procedimentos cirúrgicos bem sucedidos, encontramos agora o nosso Juca, de retorno ao convívio de seus amigos e familiares no Brejo. Transformara-se, no entanto. Simpático, afável e cordial, traços anteriormente inerentes a sua personalidade, agora era um velho ranzinza e intoleravelmente rabugento. A molecada ao vê-lo, fugia. Os mais velhos, seus amigos o questionavam:
-Mas o que houve com você, Juca! Porque razão você está tão mudado desde que retornou de Montes Claros?
-Sabe o que é, Cardoso. Fiz a maior burrada da minha vida! Gastei toda a minha fortuna para me livrar daquele maldito brinco, por nada!
-Surpreso, Cardoso, voltou a indagar-lhe:
-Mas como por nada, Juca? Você não tem mais o brinco que tantos aborrecimentos lhe causavam. Do que é que você vai reclamar agora homem?
-Pois é, Cardoso. Parece que só você vê que eu não tenho mais brinco, porque para a maioria desses brejeiros bocós da lagoa do sapo, pinguços adoradores de “Chora Rita” e “Providência do Mangal”, eu continuo sendo Juca Brinco. Para eles, de nada valeu o meu esforço. O pior é a gozação deles, sô!
-Mas que gozação, Juca? –Outra vez, Cardoso, surpreso!
-Quando falo pra eles que retirei o brinco numa cirurgia em Montes Claros, eles fingem que não acreditam e ainda me dizem:
-“Uai, sô. -Ocê pensa qui nóis aqui é troxa! A quem ocê pensa que vai enganá, Juca Brinco? Nóis aqui bem sabe qui ocê dexô seu brinco c’um orive lá em Montes Claros, para lustrá ele procê e colocá u’a pedrinha azú aní. Qui depois ocê vai buscá para usá de novo!”
-É!!!
-Por vezes não se deve mexer com o que está quieto. As “marcas e patentes”, mesmo com defeitos de fábrica, tem que ser preservadas!
Um grande abraço, amigos.
Enoque Alves Rodrigues
Agradeço aos amigos do Brejo pela homenagem a minha simples pessoa. Apesar de não me julgar merecedor, estarei ai em Julho ou Agosto para recebê-la e abraça-los.


58395
Por Enoque Alves - 15/5/2010 11:26:04
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO 2

Enoque Alves Rodrigues

Na terça-feira, dia 04/05/2010, fez exatamente um ano em que estive visitando a querida Terra que a Divina Providência designou para que eu reencarnasse na atual existência física. O querido e inesquecível Francisco Sá, ou como nós “brejeiros autênticos” carinhosamente o chamamos, “Brejo das Almas”.
Fazia muitos anos que não retornava ao meu berço natal e como pude narrar em matéria publicada neste mesmo espaço, muitas foram ás mudanças processadas ali, naquele pequeno torrão, encravado em um dos extremos do norte das Minas Gerais, no decorrer destes anos todos.
A começar pelo Largo da Matriz, que de tão lindo que se encontra atualmente, em nada se assemelha ao antigo Largo daqueles “lejanos tiempos”. Em um banco qualquer que existia ali, vestido com minha melhor roupa, enquanto aguardava o inicio das missas de domingo, celebradas por Sua Reverendíssima, o Padre Silvestre, sentava-me juntamente com a “doce plebe brejeira”, meus eternos iguais, para, imaginem, fazermos o que?...
-Poupo-lhes a curiosidade, pois por mais que sejam prodigiosas vossas mentes, com toda certeza não conseguiriam adivinhar nunca. Reuníamos ali naquele local estratégico por onde todos e quaisquer viventes que entrassem ou saíssem do Velho Brejo teria que passar, para simplesmente nos deliciarmos com a “grande e inusitada descoberta”:
-Contar carros.
-Contar carros?
-O que é isso?
-Sim!
-É isso mesmo o que o amigo leitor entendeu! Pouquíssimos eram os veículos a motor naquela época no “Velho Brejo”, apesar de não se fazer tanto tempo assim, afinal não sou tão velho, que havia quem como nós ainda se dedicasse a contá-los e, muitas vezes, apenas os dedos das mãos eram mais que suficientes para tanto. Naqueles calorosos tempos que insisto, para não deixar dúvidas quanto a minha “jovial idade”, não se vão tão longe, o principal veículo que imperava por estas minhas adoráveis plagas que carinhosamente chamo de “beldade do norte de minas” eram os veículos de “tração animal”, movidos pelo mais puro combustível com o qual eram cuidadosamente abastecidos por seus donos, em seus “auto postos de origem”. Combustível este que se denominava “capim colonião”, que era encontrado com a mais absoluta facilidade em quaisquer paragens.
-Ao contrário dos possantes veículos a motor, como as jardineiras, rural, camionetas, jeeps, caminhões, etc., que sempre surgiam de um mesmo lugar, vindos dos lados de Salinas, Taiobeiras, Grão Mogol, e outras localidades nesta direção, mas sempre com passagem pelo velho Largo da Matriz e com ponto final na antiga rua principal, hoje Alameda, em frente à Pensão da Dona Quinó, - pois naquela época ainda não existia a Rodoviária-, “os veículos de tração animal”, ou melhor dizendo, carroças, charretes, carros de bois, juntas de burros com cangalhas ao lombo carregadas dos mais preciosos produtos produzidos nos mais longínquos recantos pela mãe terra, “brotavam” de todos os lados e lugares. Eles vinham carregados de alho, algodão, rapadura, banana, melado de cana, cachaça, tempero, mandioca, milho, farinha, fubá, arroz, cidra e outros. Ao chegarem ao Largo da Matriz, no entanto, o caminho deles se afunilava. Iam todos em um só rumo, ou seja, em direção ao velho e improvisado “mercado”, onde na maioria das vezes, diante das dificuldades em encontrar quem dinheiro tivesse para de suas mãos adquirir seus produtos, pois naquele tempo não era fácil se defrontar com uma “flor de abóbora” (nota amarela que valia mil cruzeiros), negociavam-nos por escambo.
Dessa forma, quem tinha arroz procurava negociar com quem tivesse feijão, óleo, querosene, sal, roupas, ou qualquer outro produto diferente do seu. E assim, aquele velho e hoje inexistente “point” se transformava em um verdadeiro “ajuntamento cigano” e a petizada menos ou quase nada favorecida, ficava ali, às espreitas, como cachorro faminto, sempre no aguardo de que alguém necessitasse de “uma força” para movimentar alguma cangalha, saco ou alforje, em troca de algumas frutas. Éramos, no entanto, demasiadamente “esnobes” e “interesseiros”. Se durante os dias úteis da semana, rezávamos e até fazíamos novena em prol do aparecimento destes “veículos de tração animal”, que, por vezes, depois de oferecermos aos seus donos a nossa “ajuda”, nos auferia, “alguns dividendos” com os quais, com toda a nossa humildade e honestidade, dávamos “um chega pra lá nas solitárias ou tênias famintas”, nos finais de semana, fugíamos deles. Até fingíamos jamais tê-los visto. Virávamos lhe a cara quando inesperadamente surgiam à frente. Aliás, aos domingos e feriados, nós, do alto de nossa “pompa”, até achávamos esses pobres veículos de tração animal, parecidos “com nada”. -Verdadeiras geringonças. Sequer olhávamos para eles quando ao longe “brotavam”. Sim, a redundância é proposital: Eles, por surgirem do nada, pareciam “brotar do solo”. Tínhamos grande “tino comercial” e sabíamos distinguir o “nosso negócio” da semana, da diversão de domingo e a nossa diversão era contar os “carrões” de então.
-Eles eram privilégios da nata mais abastadas da sociedade “Brejalmina” (gostaram do gentílico?) Em sua grande maioria, políticos, grandes fazendeiros donos de importantes latifúndios ou emergentes vindos estes, não sei de onde, uma vez que no Brejo daqueles tempos, quem nascesse rico ou pobre estava fadado a morrer em suas respectivas condições sócio econômicas hereditárias. Se você desejasse realizar o seu sonho de um futuro melhor, tinha que “fugir do brejo”. Esse foi o meu caso e de milhares de brejeiros.
-Era para todos nós, muito fácil, identificarmos naqueles tempos, a que classe social o indivíduo pertencia. Podia ele vir numa velocidade de 300 quilômetros por hora. Bastava-nos apenas e tão somente termos reflexos para identificar qual era o tipo de seu carro e “batata!!!” Se fosse jeep com tração nas quatro rodas, camioneta ou rural, de preferência sujos de lama ou barro, estávamos convencidos de que, seus donos, eram fazendeiros; vinham de suas imensas fazendas. Quando ocorria o contrário ou até mesmo se estes veículos estivessem sempre limpos, tínhamos a certeza de que seus donos eram alguns ricos que viviam no perímetro urbano do velho Brejo.
Nesse caso, os pobres veículos de tração animal, ou seja, aqueles puxados por burros, bois ou quaisquer outras espécies animálias, não recebiam de nós nenhum mísero e desprezível olhar. Eles se contorciam todos de inveja e até mesmo de raiva. Mas, fazer o que?
-Quiçá lá no fundo de seus “recônditos”, eles, pobres coitados, fizessem a clássica pergunta:
-“Mais o que é que esses desajeitados, horríveis e mal acabados carrões motorizados tem que nós não temos?”
-Uái, sô, precisa responder?
Ao contrário de seus temíveis e desiguais concorrentes que nenhum resíduos vertia senão uma quase imperceptível fumaça, os resíduos deixados por estes “pobres diabos”, de coloração esverdeada, com odor um pouco diferente que o da tradicional “gasosa”, -utilizada em seus concorrentes veículos a motor-, resultantes da “queima de seus combustíveis”, iam ficando para trás, cobrindo as ruazinhas do velho Brejo das Almas, hoje a minha, a sua, a nossa querida e encantadora Francisco Sá, Minas Gerais, Brasil, a maioria delas, antanho, de paralelepípedos ou chão batido, com um verdadeiro e sólido “tapete persa”, os quais, ao contrário dos originários do velho Oriente, nos quais muitos gostariam de por os pés, estes todos evitavam sequer passar por perto.
-Voltando a linda Igreja Matriz, localizada no não menos lindo e já acima mencionado Largo, ou melhor, na lindíssima e muito bem conservada praça cujo nome faz justa homenagem ao personagem que mais fez pelo Brejo, Jacinto Alves da Silveira, sob o qual já dediquei aqui neste espaço bem como no livro que escrevi e que ainda não quis publicar, várias páginas a respeito. Francisco Sá, não o Ministro que nasceu nos arredores, na Fazenda de Santo André e que foi responsável por levar a Estrada de Ferro Central do Brasil para o norte das Minas Gerais, mas sim a Cidade, de Francisco Sá, muito lhe deve. Talvez, não fosse ele, ela não existiria. A história é pródiga em atos de esquecimentos dos mesmos vultos que a escreveram. Jacinto Silveira é, a meu ver, um desses injustiçados.
-Achava-se a Igreja Matriz quando de minha visita ao Brejo em 04/05/2009, pintada recentemente. Adentrei-a. Agradável aroma de tinta fresca subia-me às narinas. Sentado ali, sozinho, agora homem feito, de há muito formado, que tanto lutou e muitos Mundos correu em busca de uma digna subsistência. Católico Espírita há quase quarenta anos, etc. Olhar fixo no Crucificado, retroagia-me ali, no tempo e no espaço, as despretensiosas peripécias de meus tempos de menino e as minhas furtivas idas aquela Matriz, devido meus avós pertencerem a outro Credo. Eram adventistas.
Naqueles tempos, as missas celebradas pelo Padre Silvestre eram quase que o mesmo que o são hoje as missas celebradas pelos chamados “carismáticos”. O Padre Silvestre, que minha geração conheceu sempre foi muito sério. Estatura mediana tendendo para alto, tez branca, olhos azuis, meio careca e um sorriso largo no rosto, claro, quando queria. Eram muito alegres suas missas e muitas foram ás oportunidades que tive de presenciar o querido Sacerdote incrementa-las com algumas anedotas extraídas e sempre embasadas nos Evangelhos. Daí que sua popularidade e suas missas arrastavam multidões.
-Eu tinha sete, oito ou nove anos e morava em São Geraldo, quando lá pelos idos de 1960, fui batizado pelo Padre Silvestre. A chegada dele, sempre a cavalo ou de jeep era uma festa. Por se tratar do batismo da petizada quase todos na mesma faixa etária, vestimos nossas melhores roupas e, perfilados, quase que em posição de “sentidos”, assim como o fazem os recrutas no exército, ficamos aguardando ansiosamente pela chegada do Padre. No dia anterior havia chovido muito. Não obstante, vários candidatos da região do Brejo haviam estado em São Geraldo e naqueles “belos” tempos quando na caça implacável ao precioso voto do eleitor, tudo valia, até mesmo a fartura cavalgar sobre a miséria, “rolou”, em frente a pequenina Igreja que ficava ao lado do Cemitério, um grande comício com comes e bebes a vontade. Para quem não sabe ou não mais se lembra, naqueles tempos, os apetitosos espetos de churrasco eram assados sobre uma valeta, aberta no chão a guisa de churrasqueira onde se colocavam os espetos diretamente. Sem “maiores delongas”.
Fizeram a tal valeta que em forma de serpente, sumia de vista. Assaram-se os inúmeros espetos de churrascos que suavizaram muitos estômagos famintos. Vieram os políticos e deram seus respectivos recados e finalizaram o evento. Mas ninguém se lembrou de tapar a tal valeta. Nove horas da manhã, continuava uma garoinha fria e persistente, quando eis que na entrada do lugar surge o padre com sua comitiva. Ao vê-los, pusemo-nos a rezar. A maneira que ele ia se aproximando, nós, para fazermos média, aumentávamos nossas vozes, prontos para a saudação de boas vindas.
Por vezes, o destino nos pregam peças em forma de inexplicáveis coincidências que por mais que tentamos, não conseguimos entender.
-Aliás, é um grande equivoco da humanidade que habita este Orbe de expiações e provas debitar na contabilidade das coincidências, fatos e feitos de a muito planejados lá em Cima pelos Arquitetos do Universo...-
-Pois bem, não é que no exato momento em que o Padre descia de sua montaria... Quando nós preparávamos os nossos pulmões para com grandes haustos fazermos a nossa saudação “bem vindo santo padre...”, surge ao nosso lado aquilo que em nossa imaculada inocência mais temíamos: quatro musculosos indivíduos, cada um com uma ponta de forquilha às costas e no meio delas, uma rede, com um pobre defunto a caminho do campo santo logo ali adiante! Atrás vinha sua doce e inconsolável viúva, uma senhorinha de meia idade, vestida de preto, com um terço às mãos, juntamente com sua numerosa prole de pequeninos, todos aos prantos. Acompanhavam-no até a derradeira morada. Foi, queridos amigos leitores, muito para as nossas frágeis pernas com sua ossatura ainda em formação. Ficamos estáticos. As pernas bambeavam. Nossas vozes não saiam. O Padre, que até então não havia presenciado a mesma cena que nós, não entendeu, evidentemente, nada do que estava se passando com a gente. Surpreso e decepcionado por não ter sido “saudado”, vinha em nossa direção. Olhar firme e até inquiridor, focado em nós. Queria, por certo, saber os motivos de nossas indiferenças ou talvez, dependendo de nossas justificativas, nos amaldiçoar ou, quem sabe, “negar os ritos do santo batismos aqueles “capetas em forma de guri”. Mas não foi necessário. De relance ele viu a mesma cena que nós e de imediato assimilou nossa reação. Bondoso, no exercício do verdadeiro sacerdócio, para nos tranqüilizar, abriu-nos um largo, porém tímido sorriso proferindo algumas palavras como: não se assustem. Isso é comum. Todos nós morreremos um dia. Para morrer basta estar vivo. Vocês devem ter medo é de certos vivos. Quem morre não faz mal a ninguém. Dizendo isto, pensou partir rumo ao cortejo para agora, dirigir algumas palavras de consolo à viúva. Mais ele só pensou. Pobre Padre, tão compenetrado estava em seu mister, que não viu a sua frente, a tenebrosa valeta cheia de água suja, barro, restos de espetos (só a madeira), com a boca escancarada para de uma só vez traga-lo. Não teve jeito... O querido Padre não conseguiu “brecar” a tempo. Caiu inteirinho dentro da valeta. Nós que até então estávamos tristes, com medo e meditando sobre as sábias palavras que ele segundos antes nos dissera, não conseguimos nos conter. Ao vê-lo ressurgir daquele “inferno” com seus reluzentes sapatos e sua impecável imaculada batina preta cheios de lama, pusemo-nos a rir, sem parar. Coisa de criança que Deus em Sua infinita Bondade “entende e perdoa”. A mim, por ser o maiorzinho, coube, finalmente, “fazer as honras da casa” e a primeira boa ação do dia, estendendo as minhas pequenas e tenras mãos ao santo padre grandalhão, que, agora de pé, esfregando as mãos sobre a batina como se a quisesse limpar, esbravejava:
-Mais para que diabos vocês fizeram este maldito buraco?
-Vocês não tem mais o que fazer?
-Onde estão os pais de vocês, seus diabinhos?
-Vocês não vão mais à escola?
-É isso que estão lhes ensinando lá?
-Por ser o maiorzinho, de novo, coube a mim dar as explicações que afinal não foram tão difíceis assim.
-Sabe, santo padre, é que ontem á noite estiveram aqui, em comício, Feliciano, Montalvão e outros incontáveis candidatos, pedindo votos para as próximas eleições. E esta imensa valeta foram eles que mandaram abrir para assar os espetos de churrascos com os quais encheram as nossas “pobres e severinas barrigas...”
-Uái, Noquinho, exclamou, contemporizando! – Ele me conhecia de nome. Ia sempre a São Geraldo:
-Se foi Feliciano que abriu. Está aberto! Eu entendo que ele devia ter fechado, mas deve ter se esquecido. Ele é muito ocupado. Depois como você bem disse, foi por uma causa muito nobre. Afinal, matou a fome do povo. Acrescente-se a isso que eu não me machuquei e que por isso ninguém morreu! Pobre, Noquinho, é aquele coitado que vai ali dentro daquela rede. Para ele não tem mais jeito. Tudo acabou. Assim como tudo um dia acabará para todos nós. Vamos, filho, que eu preciso me limpar para batizar vocês, pois dessa vez não vim para dormir aqui. Tenho que retornar ao Brejo ainda hoje. É muito corrida a minha vida, sabe Noquinho! Mais eu gosto disso. É a Missão que Deus me deu da qual pretendo um dia prestar contas a Ele...
Um forte abraço meus queridos conterrâneos Francisco-Saenses e Brejeiros.
Inté...
Enoque Alves Rodrigues
-Sou muito simples para me julgar merecedor de qualquer homenagem. Mesmo assim agradeço aos diletos amigos do Brejo pela lembrança de meu nome. Em Julho ou Agosto, estarei ai para vê-los e recebê-la.
Abraços
Enoque


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Por Enoque Alves - 8/5/2010 14:36:21
RECORDAR É VIVER – REMINISÊNCIAS DO VELHO BREJO - 1

Enoque Alves Rodrigues

Buscava nas reminiscências de meu passado algo que pudesse relatar neste valioso espaço, sem que lançasse mão dos originais do livro que escrevi “Fatos e Personagens do Antigo Brejo das Almas”, composto de 58 episódios encartados em 320 páginas, o qual ainda se encontra nos originais por não entender oportuna sua publicação agora, quando ao acessar minha caixa de entrada de e-mails:enoquerodrigues2010@hotmail.com, deparei-me com linda missiva do conterrâneo Waldemar P Dias Reis, a qual se refere ao “Fatos e Personagens do Antigo Brejo das Almas - 2”, publicado neste MontesClaros.com do dia 27/03/2010, por remeter-me a episódios de minha infância que se encontravam de certa forma adormecidos no recôndito do ser. Assim sendo peço vênia para que seja aqui publicada na integra, sobre a qual farei alguns comentários a guisa de recordação. Antes, porém, agradeço ao querido Waldemar, a quem certamente conheci em infância apesar de não nos lembrarmos, pelas palavras cordiais e incentivadoras, mais principalmente, pela riqueza de pormenores nelas contidas, fruto, evidentemente natural de uma mente privilegiada, apesar de ser o querido Waldemar, um ano mais velho que eu, o que me deixa, de um lado feliz por ele e do outro lado, com uma "pitadinha de inveja", por eu não poder dispor de uma mente assim.
Ei-la:

"Meu caro Enoque:
Sou um grande admirador de suas crônicas e contos, desde a pouco tempo, quando descobri o montesclaros.com – a partir daí tenho visto tal site, diariamente.
Você escreve e pontua muito bem. Fico ansioso para ver suas crônicas, sempre que entro no site.
Parabéns, você é um colunista convidado muito interessante.
Acho que não o conheço pessoalmente, mas sou seu conterrâneo e devo ser também seu contemporâneo. Nasci em 1952.
Você deve de ter conhecido os meus pais – Santo Lagoa (Santos Dias dos Reis) e Dona Antonia de Santo – Fazenda Vista Alegre – no Mangal. Sou irmão de Zé dos Reis, Lau, Tina, Dadim e outros que você não deve se lembrar.
(1) Enoque: Conheci seus pais, Caro Waldemar, e várias vezes estive no Mangal, na Fazenda Vista Alegre. Lembro-me de seu irmão Zé dos Reis.
Vim para São Paulo muito novo, em 1969 com apenas 16 anos. Morei próximo a estação da Luz, na rua Augusta e na região da Bela Vista, até 1983.
Daí me mudei para Jundiaí, continuei a trabalhar na Capital, até que me mudei para Limeira-SP – em 1997, onde moro atualmente.
Uma a duas vezes por ano, sempre vou visitar meus parentes na minha querida terra natal – Brejo das almas e região.
Com relação ao seu conto, abaixo – conheci pessoalmente os seus avós.
Eu era um dos mensageiros de minha mãe, que duas vezes por mês – ou até uma vez por semana, ia à casa de minha avó – Marcolina, de minha tia Dina/Teotônio e de tio Dô (Rodofino) – na região denominada Furado D’antas ou Furado do Mel, – levar melado de cana, rapadura, tijolo de cidra, batida de melado – e, outras vezes, levava laranja, manga rosa, uma manta de carne de sol – sempre com um bilhete ou carta expressando a saudade de minha mãe.
(2) Enoque: Recordo-me de todas estas pessoas mencionadas por você, querido Waldemar. Creio ter palmilhado todo o solo dessa região quando criança.
Algumas vezes minha mãe ia junto – lá pelos idos de 1962/1966, numa viagem longa, mas que não era mais que 12 Km – montados em bons cavalos. Ela tinha um cião – não sei se é assim que se escreve, mas era uma sela para senhoras montar no cavalo.
A estrada, caminho para a casa de minha avó, passava do lado da casa do Sr. Liberato, daí a minha mãe parava para conversar um pouco com a Sra. sua avó. A Tina – minha irmã, era muito amiga de uma sua tia que não me lembro o nome. A parada sempre durava mais de duas horas e, normalmente éramos servidos com delicioso café com biscoitos fritos, bolos de fubá, queijo e requeijão.
(3) Enoque: Lembro-me, perfeitamente, Caro Waldemar, como se fosse hoje, de sua avó, a Dona Marcolina “proseando” com a minha, Dona Justina, na maioria das vezes em frente a casa da Fazenda “Terra Branca”de meu avô, Sr. Liberato, enquanto o gado pastava lá na pequena serra. A minha tia de quem sua irmã, apesar de aquela época ser tão jovem, era muito amiga, é a tia “Nira”, filha mais velha de meus avós. Tia Nira, hoje com quase 90 anos, vive em Capitão Enéas, com sua irmã, minha tia “Nana”. Era costume de nossa região e família àquela época não deixar que a visita fosse embora sem que antes se tomasse café com biscoitos, broas, queijos, etc. Meus avós, e toda a sua família, como adventistas daqueles tempos, não tomavam café devido a cafeína. Eles utilizavam como café sementes de “fedegoso”, e às vezes batatas ou milho, que uma vez torrados, davam quase que o mesmo sabor do café. Eram vegetarianos radicais. Não comiam carne de nenhuma natureza.
Eu era um menino e ficava observado o Sr. Liberato – de barbas brancas e longas – lendo a bíblia com um outro Sr., também de barba. Eles eram Adventistas do sétimo dia. Foi aí que tomei conhecimento de que existiam outras religiões.
(4) Enoque: Quanta saudade me vem n’alma estas suas lembranças de meu avô, querido Waldemar! Como você consegue se lembrar de tantos detalhes assim? O outro senhor de barba ao qual você se refere chamava-se Laudelino. Não tinha nenhum parentesco, pelo menos que eu saiba, com os familiares de meu avô. Era um “irmão” adventista e vivia com eles. Não obstante serem ambos da mesma religião, divergiam entre si sobre a interpretação de alguns conceitos que concatenavam. Lembro-me, com saudades, de muitas “pelejas” que varavam noites e mais noites, daqueles dois luminares dos adventistas, nos cafundós dos sertões das alterosas. Uma dessas memoráveis “pelejas”, sobre a qual devido ao elevado grau de importância, pois “mexiam com o Criador”, na concepção deles, foi quando em 1969 o homem finalmente chegou à Lua. O irmão Laudelino, assim o chamávamos, defendia, ardorosamente, que isso era mentira. Que Deus jamais permitiria ao homem “pisar” sobre uma Obra Sua. Que tudo aquilo era falácia. Pura invenção desse pessoal que “está ai dentro do rádio” (lá não tinha televisão) para nos enganar... Já o meu avô, Sr. Liberato, “defendia a tese” de que o homem havia ido sim à Lua. Que ele não tinha nenhuma dúvida. Mas se o homem “pisou na Lua” foi porque Deus quis e com toda certeza estes astronautas serão derrubados de lá. Ai ele citava um trecho da Bíblia que nos deixava a todos de cabelos em pé. Isaias Capitulo 14, versículo 14, que dizia assim: “e subirás acima das mais altas nuvens e sereis semelhantes ao Altíssimo. Contudo, jogado serás ao inferno, no mais profundo abismo”. Imaginemos hoje, meu caro Waldemar, como a minha pobre cabeça de menino de seis anos naquela época poderia processar tudo aquilo. O “pior de tudo” é que como eu sempre estava do lado do meu avô, tinha que concordar com sua tese que naquelas alturas definia um “Deus montando suas armadilhas na Lua, há 400 mil quilômetros de altura, para uma vez lá cima, joga-los cá em baixo”!!! A verdade é que eu comentava isso e sorria, sem parar.
Minha mãe contava que os senhores seus avós promoviam uma grande festa, uma vez por ano, que durava uma semana – e falava das cabanas e dos cânticos religiosos. Dizia que era sempre muito bonito, mas eu não me lembro, deveria ser muito pequeno.
(5) Enoque: as festas das cabanas eram realmente algo que fugia aos costumes de outras famílias, não adventistas. Eram muitos bonitas. Não tenho noticia de que ainda hoje existam em algum lugar do Brasil. Creio que não.
Tenho imensa saudade daqueles tempos em que eu era o mensageiro de minha mãe. Na maioria das vezes eu ia sozinho. Ia bem cedo, sempre aos sábados – as vezes dormia na casa de minha avó ou na casa de minha tia Dina e voltava no domingo, pois tinha medo de voltar durante a tarde, por causa da mata densa e alta que escurecia a estrada.
Certa vez fui de bicicleta – um velha bicicleta que meu pai comprou para a comunidade de meus irmãos, que – a muito custo convenci a todos que “não consegui pegar o cavalo” – que eu iria na casa de minha avó, somente se fosse na bicicleta.
Foi o maior erro que pratiquei. Eu mais carregava/empurrava a bicicleta do que fui montado nela. Na descida de uma curva, a bicicleta foi para um lado, eu fui para o outro e as rapaduras ralaram pelas as pedras da estrada. Eu também chequei todo ralado na casa de minha avó.
Bom. Foi só para relembrar um pouco de minha infância pelas bandas de minha querida terra. Aliás, nossa, pois segundo o seu relato – abaixo, a estrada de que você fala é o meio de caminho para a casa de minha saudosa avó.
(6) Enoque: Exatamente. É o mesmo caminho.
As pessoas de que você fala – seu tio Júlio, Sinhozão (Sr. Jacil), Maria de Guida, dona Quinó e outras, eu também tive a oportunidade de conhecer e conviver nesse tempo.
(7) Enoque: Meu querido tio Julio e minha doce e adorada tia Cota, que eram donos da Fazenda “Minas Novas”, que fazia divisa com a Fazenda “Terra Branca”, de meus avós, através do rio, se mudaram depois para Buritizeiro e hoje vivem no Céu.
A Cana Brava, a serra da Masseira (ou maceira), a Fazenda Vaca Morta, Tabua, o Mangal, são lugares que não saem de minha mente, apesar dos 41 anos que vivo fora de lá.
É por isso que acho que temos muitas coisas em comum e, que terei imenso prazer em conhecê-lo melhor.
Fico a sua disposição e aguardo um contato seu.
Um grande abraço.
Waldemar P. Dias Reis"
Um grande e cordial abraço, querido Waldemar. Muito Obrigado pela atenção e por acompanhar minhas crônicas.
Alô “brejeiros”. Aquele abraço... Semana que vem falaremos mais.
Enoque Alves Rodrigues
Vide foto de meus avós em meu blog:http://enoquerodrigues.blogspot.com/2010/05/recordar-e-viver-reminisencias-do-velho.html


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Por Enoque Alves - 1/5/2010 20:06:08
FATOS E PERSONAGENS DO ANTIGO BREJO DAS ALMAS – FINAL
Enoque Alves Rodrigues
Então, Noquinho, disse-me, Badú, quase que eu ia me esquecendo de te contar: Sabia que lá no Brejo voltou a antiga corrida em busca do ouro que o Sargento Mor Jerônimo Xavier de Souza, escondeu há vários séculos, lá no Morro do Mocó, ou precisamente na Fazenda de Antonio Miranda?
Uái, sô, que conversa é essa, Badú. Todos sabem que isso jamais passou de lenda! Você não se recorda que desde nossos tempos de meninos esse assunto sempre esteve em evidência mais que de concreto mesmo, até hoje não se há nada?
Quantas vezes varamos noites em claro juntamente com inúmeros conterrâneos em nosso observatório próximo ao Cemitério, olhando para o Céu tentando ver a tão sonhada “bola de fogo azul” que segundo se noticiavam, saia sempre por detrás do Morro do Mocó e vinha subindo em direção a sua parte mais alta e, de repente... pfaft: caia exatamente nas proximidades da casa da fazenda de Antonio Miranda, abrindo uma tremenda cratera, sumindo, quase que misteriosamente, solo abaixo, o que mais atiçava a cobiça e curiosidade dos brejeiros que de enxadas, pás e picaretas em mãos, empreendiam uma perseguição frenética e implacável aquela misteriosa bola de ouro, na qual, no entanto, até hoje ninguém jamais conseguiu por a mão?
Sim, Noquinho, voltou a dizer-me, Badú: Mais dessa vez a coisa é mesmo séria. Imagina que até mesmo o Paulo Lambreta viu a tal bola descendo do Céu e no dia seguinte todos rumaram para lá. Foi uma correria danada. De lá para cá o povo não parou mais de procurar. Dá até pena, Noquinho você observar hoje a buraqueira que está a barriga do morro mais ouro que é bom até agora, “necas”.
É possível, Badu, que estes boatos estejam sendo disseminados por alguém que esteja querendo se divertir ás custas de nossa gente simples e pacata... Há quem ainda consiga ver graça em algo dessa natureza.
Pode até ser, Noquinho, mais até eu mesmo estou acreditando que dessa vez eles irão por as mãos nesse tesouro. Começo até a me arrepender de ter vindo para São Paulo. Eu gostaria tanto de estar no Brejo quando este tesouro for descoberto!!!
Quem está liderando esta corrida ao ouro da “Serra Pelada Brejeira”, Badú?
Ah, Noquinho, eu lhe digo: É tudo gente séria: Mateus Velho, Juca Brinco, Carlão da Nena, Zé Veloso, Manel da vovó, Carlinho chocro de “lagoa seca”, Janjão “do caititu”, Mariana da Mata, seu Padrinho “Rosalino e todos os seus camaradas”, Praxedes de “vaca morta”, Eunicinha e seo João “zarôio”, Bimbim e muitos outros que eu não consigo me lembrar.
Bem, disse-lhe eu: pelo que vejo a coisa é realmente séria. A nós que aqui estamos, tão distante, nos resta ficar torcendo para que eles logrem êxito nesse mais novo intento para que, quem sabe um dia, possamos lá retornar e encontrar “todo mundo rico” e o mais importante: “sem fazer muita força!”.
É mesmo, Noquinho: eu rezo tanto pela nossa gente. Peço para que Deus proteja o nosso povo brejeiro. Que os mantenha com essa fé inabalável, sempre! Que faça com que o tão cobiçado e perseguido ouro do “maldito” Bandeirante, um dia apareça. Mais, se porventura, não for possível Ele me atender, que pelo menos mande chuva para que as plantações cresçam viçosas e possam encher o nosso Brejo de fartura... O Brejeiro, Noquinho, como você sempre disse, é um caboclo que nasce predestinado a por a mão no ouro fácil do Bandeirante, lutar, tenazmente pela sobrevivência sem sair do Brejo, ou, o mais provável assim como nós e muitos outros fizeram: Largar o Brejo em busca de um futuro melhor. Para que um dia possa retornar ao Brejo em condições melhores. Não tem outro jeito, não... O homem que nasce em Francisco Sá, ou melhor, em São Gonçalo do Brejo das Almas, ou já nasce rico, e ai terá sempre o privilegio de lá permanecer, ou se nasce pobre, não lhe restando nenhuma outra alternativa, senão esperar pela “bola de fogo” do Morro do Mocó no Brejo ou “dá no pé. Cair no Mundo. Fazer rastros pela vida. Sun Paulo direto...”
Falávamos, quando, eis que de repente surge à nossa frente a “figura” do Mestre da Obra, “Seo” Zé Ivan, Paraíba. O que é que “vocêis” tanto conversam, “dois meninos?”, indagou-nos.
-Estamos aqui, em nosso intervalo, “grande mestre”, recordando do nosso “brejo”, de nossa gente...
O Mestre José Ivan da Silva Furtado, de quem já tive a oportunidade de falar aqui, era realmente uma figura. Senão vejamos:
Dois metros e seis centímetros de altura. Barriga saliente. Dois reluzentes dentes caninos cobertos de ouro os quais ficavam sempre a mostra, devido o querido mestre possuir lábios leporinos. Trajava-se à caráter, ou melhor a moda de Mazzaropi e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, pois usava camisas folgadas, em tecido xadrez, preferencialmente remendadas, com duas grandes algibeiras, onde numa ele punha seu inseparável “romance de cordel” que por ele não saber aquela época ler, era minha a atribuição de fazer a leitura dessas obras para ele, obras estas de grande aceitação entre os nossos irmãos nordestinos de onde ele provinha. Na outra algibeira, ou seja, na do lado esquerdo, “do lado do coração”, ele colocava a foto de sua adorada, porém muito distante esposa, “Dona Sabastiana” que ficara em sua querida Campina Grande. A calça que ele usava, era sempre a famosa “arranca toco”, pois nunca passava da metade da canela. Isso muito o assemelhava ao jeca dos cafundós do Brasil tão bem representado pelo Amacio Mazzaroppi, o jeca de Taubaté, mais que na verdade, nasceu no Bairro do Brás, aqui na Capital de São Paulo. Até mesmo a forma de prender o cinto sobre a camisa “na boca do estômago” era idêntica. Nos bolsos laterais de sua calça “arranca toco”, o mestre punha do lado esquerdo, seu “patuá” onde trazia fumo de rolo picado, palha de milho para cigarro e uma não menos inseparável “binga”. Sim, não era isqueiro. Naquele tempo era binga mesmo. Consistia aquela pequena geringonça numa pequena pedra, uma barrinha chata de aço, um pedacinho de chifres com algum pó dentro. Quando o Mestre queria pitar, para fazer fogo, ele atritava a barrinha de aço na pedra sobre o chifre cujas faíscas acendiam o tal pozinho sobre o qual ele levava o cigarro. A semelhança com o Lampião estava no chapéu de couro, do qual o Mestre não abria mão, apesar da obrigatoriedade do uso de capacetes brancos para sua função, preferia seu velho chapéu que compunha de três estrelas sendo a maior delas localizada ao meio da aba quebrada do chapéu. Um tanto “sinistra” a figura do Mestre Zé Ivan, mas jamais convivi com pessoa tão bem humorada, simpática e cordial. Quando eu lia para ele nos intervalos do almoço, a “peleja de Lampião e Antonio Silvino” na tal Literatura de Cordel, quando chegava na fala de Lampião: “Minha mãe, voltei pra trás. Não fiz mais porque não pude. Deixei sangue derramado. Que dá para encher açude. Para vingar a morte de meu pai. Só quero que Deus me ajude...” O Mestre ouvia essas “balelas” com tanta atenção, compenetrado, mesmo. Como se versos fossem de Antonio Frederico de Castro Alves, o grande Poeta dos Escravos. Ao final, dava uma longa e interminável gargalhada e exclamava! “Eita que tremendo cabra-macho era esse Lampião... Tá veno, Zé Agusto. (Era assim que ele me chamava). Home de tutano e corajoso como Lampião, só se faz lá no Norte. É por isso que eu tenho muito orgulho de ser de lá...”
-E este tal de “Brejo” que vocês tanto falam, “Zé Agusto”, é um buraco ou é uma lagoa?”.
-Não, querido Mestre, Francisco Sá, ou como carinhosamente ainda hoje a chamamos “Brejo das Almas”, é uma Cidadezinha encravada em um cantinho estrategicamente reservado pelo Criador desde os primórdios dos tempos, para nos servir de berço, da qual, assim como o senhor ao se referir a sua Terra, também muito nos orgulhamos e amamos, apesar de ela ainda não nos oferecer o suficiente para que lá vivamos, ou talvez, quem sabe, são os nossos sonhos e anseios bem maiores que as nossas necessidades.
-Entendo “Zé Agusto” e Badú: As coisas na maioria das vezes não são tão “difices” assim. “É nóis que fazemo com que tudo seja ruim mais na verdade a vida é um colosso.” Sábias palavras para uma pessoa culturalmente tão simples como o Mestre “Zé Ivan”. Juntos, convivemos vários anos naquele e em outros projetos. Ao me formar, me transferi de empresa, mas levei-o comigo. Não poderia me afastar daquele Anjo de Luz e Bondade que tanto me ajudou. A duras penas consegui com que ele se alfabetizasse. Criou gosto pela leitura. Descobriu os segredos do “be-á-bá”. Aposentou-se mais não quis parar de trabalhar, apesar de ter conseguido seu pequeno quinhão que lhe permitia agora uma vida mais tranqüila. Parar, não, “Zé Agusto”. Parar enferruja e morre... Só que as suas pobres vistas, apesar de seus óculos de fortes graus, não mais correspondiam. Dessa forma tocava a mim, agora, com o peso de todo o projeto e execução de uma obra sobre as costas, seguir fazendo a “leitura do meio dia” da Literatura de Cordel, para o agora velho, alquebrado, mais eternamente amantíssimo Mestre. Era o mínimo que eu poderia retribuir a quem tanto por mim fizera. Lealdade, fidelidade, simplicidade, cordialidade, respeito e dedicação aos que um dia em uma curva qualquer do destino nos estenderam à mão, são sentimentos puros de quem deseja vencer na vida. E tome cordel de Lampião sobrepujando seu desafeto Antonio Silvino, em seu relato a sua mãe: “era ele doente. Todo levado das brecas. Não tinha força nos braços. Nem tampouco nas munhecas. Sofria ele, paludismo. Doença que ataca o Jeca!..”
Um grande abraço brejeiro para vocês, meus queridos conterrâneos.
Inté...
(...)


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Por Enoque Alves - 22/4/2010 12:08:18
FATOS E PERSONAGENS DO ANTIGO BREJO DAS ALMAS – 4
Manhã ensolarada de um Domingo qualquer do mês de Dezembro. Coisa rara em Sampa que aquela época se intitulava “a terra da garoa”. Em meu alojamento que se encontrava no primeiro andar da obra em construção, me via cercado por centenas de apostilas. Eram do curso Supletivo, pois tendo eu retomado os meus estudos aqui, não havia outra maneira de recuperar o tempo perdido senão através dos famosos “intensivões”. Fiz o primeiro e o segundo graus em uma das melhores escolas daquela ocasião, a qual ficava no Bairro da Liberdade.
Adiantamento no bolso, única oportunidade no mês em que me sobrava alguns “tostões” para uma simples “farra” como almoçar na antiga “Sopa Paulista”, que ainda hoje, só que com outra roupagem bem mais modesta, permanece na Avenida São João, aqui no centro de São Paulo, onde eu, quando podia, ia saborear um franguinho à caçadora, preparado pelo Chinês, “Seo Woo Shon”, cujo prato, além de demasiado saboroso, era também o mais barato do cardápio e aproveitava para ir assistir um filme "bang-bang", no antigo e não mais existente "Cine Sacy, na Rua Formosa. Eis que, inesperadamente, chega o colega "Peão" Badú. Ele morava também nos alojamentos da Obra, só que nos andares de cima, já que o primeiro andar, onde ficava meu alojamento, era destinado aos Setores de administração da obra, como almoxarifados, apontadoria, engenharia, alojamentos do pessoal administrativo, etc. Eu era apenas ajudante, mais um ajudante “muito especial”, pois eu era “cachimbo” do Mestre “Seo Zé Ivan”, Paraibano de quatro costados. Quais eram, afinal, as atividades de um “cachimbo de Mestre de obras”? Explico: eu era aquele sujeito que além de fazer todas as atribuições de um ajudante. –Vocês viram na pauta anterior eu empurrando “gericas de concreto”-, ainda, devido ser eu à época um dos poucos ali, que sabia ler e escrever, era, sem nenhum outro privilégio a não ser o do alojamento na administração, convidado nos finais de expedientes pelo Mestre “Seo Zé Ivan”, a escrever o que ele me ditava em nossas percorridas pelo canteiro de Obras. Curiosamente, o Mestre “Zé Ivan” não me tratava pelo meu nome de batismo. Ou seja, por Enoque ou “Noquinho” como os demais. Ele me chamava de “Zé Agusto”. Sim, a grafia “Agusto” está correta. O ilustre Mestre, não obstante ser o “degas” na atividade de gerir uma construção (muitos foram os estagiários de Engenharia que passaram pelas suas competentes mãos), era analfabeto, coitado, de nascença, pai e mãe, além de possuir a língua presa ao céu da boca, que muito lhe dificultada o falar. Intrigado, perguntava-lhe eu às vezes: Mais porque “Zé Augusto, querido Mestre”? . Respondia-me: Porque você é muito parecido com o cantor “Zé Agusto” que faz sucesso na televisão, no programa do Silvio Santos, cantando a música “De que vale ter tudo na vida...De que vale a beleza da “fulô”...Se eu não tenho mais seu carinho...Se eu não sinto mais teu calor!” Claro que jamais tive eu qualquer semelhança com o Cantor deste grande sucesso que era só o que se ouvia nas rádios de então. Mais quem era eu para questionar, tentar convencer ou contrariar o Mestre “Zé Ivan”? Perfeito, grande Mestre, dizia-lhe eu: Já que é vossa vontade que eu me sinta parecido com o Cantor José Augusto, tudo bem. Só lhe imploro que não me peça jamais para cantar! Pois ao contrário do que dizia a linda música, da vida eu não tinha nada a não ser a vontade de lutar e vencer e até aquela ocasião, nenhum grande ou pequeno amor tivera eu de cuja perda teria que lamentar... O Mestre sorria com seu cigarro de palha e fumo de rolo preso aos dentes...
Ok, “Zé Agusto”, pegue sua prancheta e vamos logo percorrer a Obra. Ele ia ditando. “Anota ai, Zé Agusto”. Capricha na letra porque isso ai vai para o “Diário de Obras” que é lido pelo “Dr. Dirceu” –naqueles tempos engenheiro era tratado por doutor-. “Chapisco no teto do 10º ao 12º andares”... “Armação de ferragens e formas dos pilares do 14º andar”...”Enchimento das vigas de arranque da garagem do térreo”...”Tamponamento das bocas das lixeiras dos andares 4º ao 7º”...”Inicio da alvenaria com tijolos baianos no 8º andar e amarração com tijolinhos comuns”... “Aplicação de massa corrida nos tetos dos 2º e 3º andares”, etc. Ah, não se esqueça. Anota ai: “fartaram” hoje, quatro peões, sendo dois "meia cuié" (meio oficial de pedreiro), um “selvente” e um “carapina” (carpinteiro). “Deve ser os pileques do final de semana”! Falando nisso, você bebe, “Zé Agusto?”... Não, Mestre, jamais bebi! Você é que faz bem, bom menino... Pinga é a perdição de “carqué home!”, dizia-me.
Bem, voltando á visita de Badú, ele viera até meu alojamento para bondoso como era, me responder algumas das muitas perguntas que eu lhe fizera naquela semana na qual não havíamos tido tempo de voltar a falar.
Pois é, Noquinho! Como hoje é Domingo e nós não “trabalha” vim aqui para lhe atualizar sobre o nosso Brejo das Almas e suas almas queridas que lá estão:
- Pra começar, seu “Dindinho” não anda muito bem e sua “Dindinha” anda meio perrengue. Talvez sejam já os sintomas da idade avançada de ambos. Pois “seo” Liberato já beira os noventa e “Sá” Justina também não fica para trás.
- Quanto as nossas queridas Professoras, faz tempo que não as vejo, Noquinho. Desde que nos mudamos para a Cidade de Francisco Sá, não retornei mais a casa delas. Mais eu acho que está tudo certo, porque se alguma coisa de ruim tivesse acontecido com elas, com certeza eu já saberia.
- Sobre o pessoal que vive lá “dentro do Brejo”, eu posso lhe dar todas as informações que você me pede, pois, nada mudou no nosso “Brejo”. Por incrível que pareça, ele continua do mesmo tamanho. Dessa forma, vejo todos os seus personagens todos os dias. Exceto os “Silveira”, que como você sabe, desde há muito que se mudaram para Montes Claros. E você sabe, “atravessou o rio verde grande, dificilmente volta!”.
- O Bar “estica o braço” do “seo” Neuzão, Noquinho, não existe mais. Parece que ele teve umas desavenças familiares e o pobre tem passado a maior parte do tempo cabisbaixo, meditabundo, sei lá!
- Quanto a Pensão da Dona Quino, continua muito movimentada. É um comércio muito “rendoso”, pois, como você sabe, nossa cidade ainda não tem uma Rodoviária e todos os motoristas e passageiros que vem de Salinas, Taiobeiras, Grão-Mogol e outras da região fazem ponto lá. A Dona Quino está muito bem de saúde e lhe manda muitas lembranças. Elas ás vezes se põe a recordar de quando você partiu rumo a São Paulo e do que ela lhe disse. É muito bom Noquinho ser querido por pessoas que nem parente sua é.
- A respeito daqueles nossos amigos, aos quais à maioria, chamava de “loucos”, mais que na verdade, de loucos não tinham nada, estão todos muito bem. Roberto Carlos do Mato, que é o piorzinho deles, é que não anda muito bem. Voltou a ter aqueles desmaios epiléticos, mais é passageiro...
-Uái, Sô, disse-lhe eu: Que desmaios são estes. Jamais os tivera antes. Ao menos que eu saiba.
- Tinha, sim, Noquinho. É que nós nunca podemos saber tudo das pessoas!
- E “Zezim tocador?”.
- Não anda muito bom não, Noquinho! Já não faz mais as “famosas garrafadas” e já não se anima mais a ir para as fazendas “expulsar cobras”, porque, parece que os espíritos já não o atendem mais. Da Outra vez foi lá na Fazenda Vaca Morta...Subiu no mourão da porteira. Deu suas ordens em voz alta para que as cobras saíssem e, sabe, Noquinho. Não saiu uma cobra sequer. Perdeu a “otoridade sobre elas”. Elas não o respeitam mais. O que resta agora do “Zezim tocador” é seu cão que continua lhe prestigiando com seus latidos enquando toca a sanfona... Mais sabe, Noquinho. Até isso não tem mais a intensidade de antes!
- E sobre os dois riachos, Badú, o que você me diz?
- É triste, Noquinho, mais eu tenho que falar. As águas dos dois riachos onde íamos tomar banho já não são mais claras e azuladas como antes. Parece que andaram “mexendo” lá na cabeceira deles, pois á água agora vem meio que barrenta. E nem precisa chover para que isso aconteça.
- E a Serra do Catuni?
- Bem, Noquinho. Essa sim, continua lá faceira e imponente com sua altitude de 900-1000 e 700-650 metros em média, inalteráveis. Assim como continua lá a nascente do rio São Domingos e outras atrações. Ela continua a varrer as ruas empoeiradas de nosso Brejo com o seu assoprar de ventos fortes, uivantes e ensurdecedores, nas tardes primaveris. Falando em rios, todos os demais leitos, salvo alguns que já secaram, continuam a trilhar as mesmas trajetórias: ribeirão de cana-brava, pau preto, do brejão, o mamonas, o quem-quem, traçadal, o rio boa vista, vaca-brava, córrego dos patos, o caititu, da prata e o córrego rico. O rio gorutuba que continua a formar em seu leito lindos blocos de areia e o que para nós é o maior de todos, o rio verde grande que, viu, Noquinho, continua sendo o marco divisório de nosso município, ou seja, Francisco Sá, “Brejo das Almas” do de Montes Claros.
- Você não me perguntou, mais eu vou lhe falar: Lembra-se da “Lagoa da Barra” que fica na Fazenda de mesmo nome?
- Lembro-me, perfeitamente! Uai, o que aconteceu com a Lagoa da Barra?
- Nada! Continua, também lá. Só que sem peixes!
- Uái, sô. E para onde se foram os peixes?
- Sei, não, Noquinho!
- E O Clube Campestre? Perguntei-lhe, já que me falava da Lagoa da Barra!
- Continua lá! Mais pobre não entra! Somente a nata mais abastada que vem de Montes Claros. Lá, “proleta” não pode nem chegar perto.
- Ah, outra vez eu estava me esquecendo: A sua tia Cota, o seu tio Julio e o seu primo Vadinho, donos da Fazenda Minas Novas, estão muito bem. As plantações estão muito viçosas. A colheita do arroz, alho, feijão e milho prometem ser de muita fartura. As moagens da cana já estarão começando e pelo que podemos notar, vai ser muitas rapaduras, melaço e “puxa de ciidra” que sua tia Cota vai fazer e que lamentavelmente lá não estaremos para comer.
- Badu, meu querido. Interrompi-lhe: falando em comer, lembro-lhe que hoje ´´e Domingo e um dos poucos dias em que disponho de algum no bolso. Convido-o para ir comigo almoçar no “Sopa Paulista”. É tudo por minha conta! Depois você me conta mais.
- Tá bom, Noquinho, respondeu-me. Da outra vez fui eu quem lhe interrompeu lembrando de nosso horário de retornar ao batente. Dessa vez é você quem me interrompe. Só que por um motivo muito “mais nobre” que é “comer”, já que como se falam por ai, “saco vazio não para em pé”. Vamos, então!!!
Um grande abraço “brejeiro” meus conterrâneos de Francisco Sá, ou melhor: de São Gonçalo do Brejo das Almas!!!
Inté!
Enoque A Rodrigues
De, São Paulo, SP.


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Por Enoque Alves - 19/4/2010 21:20:59
JOVENS - SEJAM SOLIDÁRIOS, SEMPRE!

Por certo, não desconheces as conseqüências dessa onda de egoísmo que recrudesce no seio social, toda vez em que os valores educativos não se fazem prezados.
A bem da verdade, bem poucas têm sido as pessoas ocupadas em trabalhar essa dimensão da personalidade, qual seja a do altruísmo, tornando-se úteis à dinâmica da vida planetária.
Encharcados de personalismo, os indivíduos falam somente de si, disputam nonadas para si, recorrem a favores diversos apenas para si, sufocando-se no esquife do egoísmo, mais e mais.
Nas atividades cotidianas, esses egoístas aproveitam-se de todas as chances possíveis para driblarem os outros, tendo a sensação de serem mais astutos, mais vivos, mais sabidos, dando vazão ao intimo doente.
Se devem enfrentar as filas variadas, desse ou daquele tipo, para serem atendidos a seu tempo, tratam de descobrir pessoas conhecidas, localizadas à frente, que lhes facilite passar para posições privilegiadas, quando não invadem abusivamente, elas mesmas, o espaço dos que aguardam dignamente. Crêem-se mais apressados ou com mais compromissos que os demais.
Entretanto, para o egoísta, tanto faz seja a fila bancária, ou dos cinemas e outras diversões, o que deseja é passar à frente dos outros, porque lhe impacienta a espera ou por vício, sempre alimentado.
Os males do caráter, desenvolvidos e alicerçados no egoísmo, não se limitam.
Nas conduções populares, o acomodado egoísta vê pessoas idosas, mulheres gestantes, criaturas visivelmente enfermas, viajando de pé, sob ingentes sacrifícios, sem qualquer sensibilização, mantendo-se assentados, indiferentes.
Em outros momentos, vemos crianças e moços assentados, ao lado de seus pais, que acompanham a tudo, fazendo de conta que não estão vendo ou entendendo o que se passa.
A disputa generalizada por entrar ou sair primeiro dos lugares de muita gente, quantos acidentes há provocado? E os desentendimentos e guerras mentais que se somam, incontáveis?
A marca do egoísmo, assim, mostra-se em toda parte, entre as mais diversas personalidades.
Avaliando esse quadro que se forja nos grupos sociais, percebe, meu jovem companheiro, quantas ocasiões de conquista salutar para a alma têm sido postergadas.
Verifica, desse modo, como tens agido, em relação à gentileza. Se constatares que não tens estado sintonizado com ela, esforça-te para alcançá-la.
Se te encontrares em algum transporte coletivo, valendo-te do vigor da tua mocidade, não esperes que te solicitem. Oferece o teu assento para quem dele precise, demonstrando os valores que te lucilam no íntimo. E é tão pouca coisa.
Evita que tombe uma gestante ou um velho; impede que se fira uma pessoa obesa ou doente, e sintas as alegrias de ser útil.
Diante das filas, enfrenta-as. Tu podes fazê-lo. Se tiveres pressa, chega mais cedo. Não sobrecarregues os amigos que encontres com teus pedidos, embora possas pedir a alguém que te guarde o lugar e, quando chegues, esse alguém, então, sairá.
A virtude costuma parecer tolice, quando começamos a exercitá-la. Depois, transforma-se em luz tão ampla que não mais a dispensamos.
Ao atravessar a via pública, vê se por perto não haverá um velhinho, um cego, alguém a quem possas ajudar na travessia. Far-te-á imenso bem essa atitude.
Coopera com alguém que sobe ou desce uma escada com fardos e bolsas pesados. Dá-lhe pequena ajuda e recolhe, nas vibrações agradecidas, verbalizadas ou não, as alegrias de servir.
Abre uma porta para esse ou aquele, dando-lhe passagem, gentilmente, seja em tua casa, seja num elevador, seja onde for, e sintas a euforia de ser atencioso.
À principio, terás que fazer esforços; com o tempo a gentileza será parte de ti.
Juventude, se pretendes influir no mundo para modificar-lhe as bases de vida social, que sabes tão complexa e perturbadora, começa com teu empenho, com a tua contribuição.
Na gentileza exemplificada por ti, verás que a postura egocêntrica vai sendo transformada, e que, ao te sentires mais leve e feliz, não te preocuparás com a gratidão ou não dos beneficiários da tua solicitude, porque, para o teu coração, valerá a cooperação que prestas à Vida, a cooperação com a Obra de Deus.
Segue, então, adiante. Contagia os teus amigos e afetos com a tua atitude gentil, ajudando a extinguir o egoísmo do mundo.
Pensem nisso!
Enoque A Rodrigues


57335
Por Enoque Alves - 17/4/2010 20:18:04
OLYNTHO DA SILVEIRA – MINHA TERRA E A NOSSA HISTÓRIA
Com grata satisfação registro aqui neste valioso espaço, a beleza, elegância e encanto com que o grande e inesquecível filho de nossa Querida Francisco Sá, “Brejo das Almas”, Olyntho da Silveira, recentemente desaparecido, tomado aos Céus que fora por Deus, documenta com tamanha riqueza de pormenores fatos de suma relevância de nosso antigo “Brejo” e de seus antepassados, em seu livro “Minha Terra e a Nossa História”, escrito em 1969. Membro da Academia Montesclarensse de Letras e da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, o que muito lhe orgulhava, apesar de sua peculiar e congênita modéstia, talvez tenham sido apenas estas, não obstante tão importantes honrarias, os únicos reconhecimentos que o nosso querido Olyntho, a quem não tive o privilégio de ter conhecido pessoalmente, tenha recebido em vida.
De há muito, ou quiçá, desde meus tempos pueris, sou suspeito para falar da família Silveira de Brejo das Almas. Certamente que por mais que se possa enaltecer a importância que teve todo o numeroso “Clã Silveira”, desde os tempos do velho Jacinto e sua dileta esposa Dona Maria Luiza, pais “dos eternos meninos da pena de ouro e grande tino para a escrita”, Olyntho e Geraldo Tito, para o nosso Brejo, o tempo, grande senhor da razão, ainda não se encarregou de fazer-lhes justiça, colocando-os no alto do pedestal da história dos grandes, cujo patamar lhes é de direito.
Brejeiro como eles, possuo o dom do “matutar mineiro”, observo que, de quando em vez, surge na vida pública Brasileira, figuras deletérias, que pouco ou nada fizeram em prol de alguém ou de toda uma comunidade, mais que, como num passe de mágica, da noite para o dia, são transformadas em eternos “salvadores da pátria”, endeusados e coroados como se reis fossem, mais desprovidos de qualquer ação exponencialmente concreta em beneficio de outrem.
Os feitos da família Silveira a começar pela sua luta em busca da emancipação daquele povoado de Brejo das Almas, encravado lá nos cafundós do norte de minas, por si só, já seriam mais que dignos de todas as honrarias. Defendia com “unhas e dentes” o progresso aquela época tão distante, para aquele povo, aquela gente... Muito ao contrário do que hoje se vê, quando a grande maioria, mergulhada em cruel egoísmo e adepta do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, os Silveira de Brejo das Almas, Francisco Sá, brigavam em nome de uma causa que se denominava melhoria coletiva sem individualismo. Ou se tinha para todos ou não se tinha para ninguém. O foco. A meta perseguida era o beneficio do povo.
Relata o grande Olyntho em seu livro, que tardiamente me chega às mãos, fatos que dão a conotação exata, respeitando o grande lapso de tempo nos quais se deram, que nos dias atuais, seria impossível de se acreditar que os mesmos venham a se repetir, com o mesmo denodo, devotamento de amor a causa de um povo e despojamento de interesses materiais. Sim, os Silveira, eram ricos “de nascença” e em nome da “causa do brejo”, muitos deles abriram mão de suas fortunas e em paralelo a sua causa, foram à luta em busca da própria subsistência. É ou não é um grande gesto de nobreza.
É isso ai, meu povo. Meus conterrâneos Brejeiros. Muitos motivos temos hoje para nos orgulharmos de nossa Cidade, de nossa gente, de nosso hino: “Do Catuni ao rio verde. Do prata ao rio do prego. És sempre rico e formoso. Só não vendo quem é cego. Brejo das Almas ou Francisco Sá. Igual a ti, outra não há...” e de tudo de bom que ela “lhes” oferece. Eu digo “lhes” porque você sabem perfeitamente, meus brejeiros, que há muito tempo não vivo mais ai. Mais também sabem que espiritualmente jamais me afastei do Brejo. Talvez, mesmo longe, modéstia à parte, poucos estejam tão sintonizados com o Brejo, com suas virtudes e suas mazelas, quanto eu. Por isso, como vinha dizendo, antes de nos orgulharmos de nossa linda Cidade, orgulhar-nos-emos dos nossos antepassados que a fizeram. Dos que lutaram incansavelmente para que ela hoje pudesse ser o que é. Orgulharemos dos “Silveira”, dos “Dias”, dos “Pereira”, dos “Xavier”, dos “Oliveira” de onde provêm Feliciano, dos “Mineiro de Souza”, dos “Rodrigues e Seabra” e quem sabe um dia, desculpem-me pela pretensão, mais pode ser daqui a quinhentos anos mesmo. Sou “humirde” desse pobre “Alves Rodrigues”, brejeiro, que aqui vos fala e tanto lhes “enche o saco” tamanha a paixão e entusiasmo com que discorre sobre sua Terra querida.
Um abraço brejeiro para vocês meus conterrâneos.
Enoque A Rodrigues.


57141
Por Enoque Alves - 12/4/2010 13:33:44
FATOS E PERSONAGENS DO ANTIGO BREJO DAS ALMAS – 3

Você é Mineiro?
-Perguntou-me, lá pelos idos de 1973, um peão de obras, quando trabalhávamos na construção de um grande edifício na Rua Santa Helena, em São Paulo.-
-Não, sou Montanhês, respondi-lhe-.
-Mas, Montanhês, de onde?-, voltou a indagar-me. Montanhês, porventura não é o mesmo que Mineiro? Você não nasceu em Minas?
-Bem, voltei a responder-lhe, depende da maneira como você define esses dois gentílicos. Em minha concepção a sua definição está corretíssima, mas quando digo que sou Montanhês ao invés de Mineiro, estou me referindo que tendo eu recebido a graça de ter nascido numa área geograficamente montanhosa das Minas Gerais, onde há mais montanhas que minas, me considero mais montanhês que mineiro, apesar de que também, por lá, darmos nossas “pauladinhas” com algumas minas que ali existiam e que foram o fruto da cobiça de muitos bandeirantes, tanto é verdade que minha cidade foi uma das que foram fundadas por bandeirantes, ou seja, Antonio Gonçalves Figueira, a busca do ouro, nas quebradas dos sertões do norte de minas.
-Entendi-, disse-me, outra vez o colega Peão: Você, pelo que diz é Francisco-saense, assim como eu, que inclusive conheço seus avós, e estudei com você, lá em São Geraldo, nas décadas de 50/60.
-Já que você não se lembra mais de mim, me apresento: “Sou o “Badú”, filho da Dona “Dazinha” esposa do “Seu Lau”, açougueiro, e a nossa Professora era a “Dona Ana Lucília Silva Garcia”, aquela linda pernóstica, e depois foi a “Dona Florisbela Martins Ferreira”, lembra?-
Como não me lembraria. Depois de tantos detalhes? Passei ali, naquele povoado pertencente ao Município de Francisco Sá, “Brejo das Almas”, memoráveis momentos de minha infância entremeados por bons e maus, dentro do que se pode proporcionar uma infância “Severina”, que ainda hoje repousa no recôndito de minha mente, mesmo tendo conseguido, a duras penas, mesmo longe de minha terra, o meu “lugarzinho ao sol”.
-Ótimo, Badu-, disse-lhe eu, vamos fazer aqui uma pequena correção para seguirmos proseando-.
-Não somos Francisco-Saenses. Somos “Brejeiros”!”. Deseja que eu justifique o porque?-
-Não, Noquinho, obrigado! Sendo eu dois anos mais velho que você, me lembro perfeitamente, de quando na escola, a professora lhe mandava fazer uma dissertação sobre “nossa cidade”, com que eloqüência você falava. O Ruim era que você não parava mais e deixava todos nós cansados...
-E os seus pais, Badu, onde estão?-
-Estão lá, no Brejo. Todos bem, Noquinho, respondeu-me-.
-E você tem ido “no Brejo”? Voltei a lhe perguntar!-
-Tenho, sim, disse-me. Inclusive retornei de lá faz 20 dias-
-Oh, meu amigo, disse-lhe eu, outra vez, quanta saudade tenho daquelas nossas plagas! Há três anos que não vou lá. Desde que cheguei aqui em “São Paulo”, sozinho, reiniciei os meus estudos e a minha meta é ser Engenheiro, dos bons. E você sabe que não é fácil “trabalhar, estudar e queimar lata”. Mais é assim mesmo, vou levando enquanto Deus quer-.
-Conta-me, então, Badu, sobre o “Brejo” e nossa gente!-
-E as festas de Nossa Senhora do Rosário, do Divino Espírito Santo e de São Benedito que ocorriam no mês de Setembro, ainda existem?-
-Sim, Noquinho. E por mais incrível que possa parecer, ainda continuam a acontecer no mesmo mês Setembro!-
-Ué, respondi surpreso, o que há de estranho nisso?-
-É...respondeu-me-, que eles deveriam variar um pouco de mês. É muita festa para um mês só. Não sei porque lá eles prestigiam tanto o mês de Setembro.
-E os Catopés? Provoquei-o.-
Sei lá, Noquinho!
Nesse ínterim, veio-me a mente alguns dos antigos personagens do Brejo que de alguma ou outra maneira, cada qual a seu modo, ajudaram a escrever lindas historias do lugarejo:
-Como andam o “Seu” Antonio e a Dona Edith, doceiros?-
-Morreram Noquinho, sendo que Dona Edith partiu primeiro!-
-Fale-me, da linda serra do catuni, do morro da maceira, dos dois riachos onde íamos nadar, dos “picolés de pinga” criados e servidos no Bar do Zé Galvão, cujos picolés só existem no Brejo, da alameda, da Praça Jacinto e Mariquinha Silveira, da pensão da Dona Quinó onde os ônibus que vinham de Taiobeiras, Grão-Mogol faziam seu ponto final, da Casa Branca e Costa Negro do velho Rogério, do Bar Estica o Braço do “seu” Neuzão onde eu passava para entregar as raízes que retirávamos do solo para ele por nas suas garrafadas com as quais serviam seu fregueses, do Bar Pé na Cova que fica quase dentro do cemitério, da casa Viena, das grandes pastagens de algodão, das imensas e infinitas plantações de alho, do Bar da Barbina, de onde observávamos toda a serra, etc...etc...etc...
É muito grande minha saudade de tudo e de todos do Brejo. Fale alguma, querido Badu, sobre aqueles seres que tanto apreciávamos, como: Zezim Tocador e seu cão que sempre latia enquanto ele dedilhava sua sanfona, de Pascomiro, Feliciano Oliveira, Olyntho, Geraldo Tito e Yvonne, do Padre Silvestre Classen que nos batizou, de Antonio Benzinha, do velho Mateus e Paulo Lambreta, de Mané da Vovó, de Zé Veloso, da Dona Quino, de Maria Bocão, do Miro, da dona Carla de Benê, de Roberto Carlos do Mato, do João Banana, de Zé Trindade, de meu Dindinho Liberato e de Minha Dindinha Justina, lá na Fazenda Terra Branca, fale-me também de meu Tio Júlio, de minha Tia Cota e de meu Primo Vadinho, enfim, conta-me tudo...Necessito mais que nunca saber, para que eu possa seguir por aqui lutando até obter condições de lá retornar para abraçar e beijar a todos...
-Badu, fulminado por tantas perguntas para as quais ele certamente não teria as respostas, mas que, bondoso como era, tentava de certa forma satisfazer minhas curiosidades e desejo do saber sobre a terra querida, assim começou-.
-Sabe, Noquinho! Eu queria muito ter as respostas para tudo o que você me pergunta. Mais o grande problema é que eu não vou poder te ajudar, pois são muitas as perguntas que você me fez, que, lamentavelmente, acabaram me “canfundindo as idéias” e não sei se você sabe, mas nós estamos em nosso horário de almoço e daqui a pouco o “enxadão da obra” vai bater meio dia e você mesmo sabe que o Mestre, “Seo” Paraíba Zé Ivan, não dá moleza. Temos ainda muitas “gericas” de concreto para colocar sobre o guincho para encher a laje do 14º andar e se a gente não conseguir, não vamos receber as “horas prêmio” no fim do mês e ai, sim, Noquinho, é que você nunca mais vai poder voltar para o Brejo. Vamos trabalhar, porque senão o seu sonho de ser engenheiro é que “vai pro brejo”. Depois a gente conversa com mais tempo. Hoje com certeza não vai ser mais possível, pois vamos “ficar no serão” até tarde. Um outro dia quem sabe!!!
Um forte abraço meus conterrâneos “Mineiros”... “Montanheses”...”Francisco-Saenses”... Ou melhor. Querem saber? É esse o nosso gentílico mesmo! “Brejeeeeeeiros”. Somos nós, com todo orgulho!
Inté...
Enoque A Rodrigue, de São Paulo.


56841
Por Enoque Alves - 3/4/2010 17:16:11
EVOLUIR SEMPRE
Calor escaldante em alguns países, frio intenso em outros, inundações, terremotos, levam o ser humano a perguntar: “Por que tudo isso?”. “Onde está a bondade Divina?”
Em fatos isolados ou não, o acaso não existe. Tudo tem a sua razão de ser.
De um lado, a evolução do Espírito, que é imortal. De outro, a da sua morada.
Os Espíritos que habitam a Terra são, na sua grande maioria, seres em desenvolvimento e aprendizado básico frente às leis imutáveis do Criador, especialmente do ponto de vista moral.
Nosso Planeta é um corpo celeste relativamente novo, cuja “maturidade” vai se fazendo aos poucos, obedecendo as leis da física, que são também obra da Providência Divina.
Estagiar alternadamente nos dois planos da vida é necessário: “nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei”.
Provas e expiações fazem parte desse contexto, tanto as individuais como as coletivas.
Diariamente, a cada hora, a cada minuto, muitos milhares de pessoas desencarnam no mundo inteiro. Poucos tomam conhecimento e se comovem, lembrando a fugacidade da existência material e a importância de valorizar os talentos da alma.
As grandes calamidades, tem a ver com o determinismo do Alto, que age nos fatos, e servem, também, para nos sensibilizar promovendo a solidariedade.
O reino do bem vai se instalando no seio da humanidade, ainda que de maneira imperceptível numa avaliação de poucos anos. O horror ao mal será alcançado um dia.
A lei de ação e reação está a serviço do progresso do Espírito. Essa a verdade que a fé raciocinada entende, obediente e resignada.
A lei de destruição faz parte das leis Divinas. Os flagelos destruidores fazem a humanidade progredir mais depressa, esclarece a questão 837 de “O Livro dos Espíritos”.
Tudo na criação é harmonia; tudo revela uma previdência que não desmente, nem nas menores, nem nas maiores coisas. Se a nossa época está designada para a realização de certas coisas, é que estas têm uma razão de ser na marcha do conjunto, coloca no capitulo XVIII, item 2, do livro “A Gênese”.
E prossegue: nosso globo, como tudo o que existe, está submetido à lei do progresso. Ele progride, fisicamente, pela transformação dos elementos que o compõem e, moralmente, pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Ambos esses progressos se realizam paralelamente, porquanto o melhoramento da habitação guarda relação com o habitante.
Fisicamente, o globo terráqueo há experimentado transformações que a Ciência tem comprovado, e que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais aperfeiçoados. Moralmente, a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que o melhoramento do globo se opera sob a ação das forças materiais, os homens para isso concorrem pelos esforços de sua inteligência. Saneiam as regiões insalubres, tornam mais fáceis as comunicações e mais produtiva a terra.
Se no universo infinito estrelas e constelações nascem e morrem, como vêm constatando telescópios potentes como o Hubble, também na Terra a lei de destruição está associada à do progresso, levando tanto o físico como o humano a evoluir sempre.
Por isso mesmo, sabendo que a qualquer momento podemos “ser chamados” para o lado de lá, procuremos investir sempre mais e melhor no nosso desenvolvimento espiritual e moral.
Pensem nisso!
Um grande abraço. Cuidem-se.
Enoque A Rodrigues


56818
Por Enoque Alves - 2/4/2010 16:15:27
EVOLUIR SEMPRE
Calor escaldante em alguns países, frio intenso em outros, inundações, terremotos, levam o ser humano a perguntar: “Por que tudo isso?”. “Onde está a bondade Divina?”
Em fatos isolados ou não, o acaso não existe. Tudo tem a sua razão de ser.
De um lado, a evolução do Espírito, que é imortal. De outro, a da sua morada.
Os Espíritos que habitam a Terra são, na sua grande maioria, seres em desenvolvimento e aprendizado básico frente às leis imutáveis do Criador, especialmente do ponto de vista moral.
Nosso Planeta é um corpo celeste relativamente novo, cuja “maturidade” vai se fazendo aos poucos, obedecendo as leis da física, que são também obra da Providência Divina.
Estagiar alternadamente nos dois planos da vida é necessário: “nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei”.
Provas e expiações fazem parte desse contexto, tanto as individuais como as coletivas.
Diariamente, a cada hora, a cada minuto, muitos milhares de pessoas desencarnam no mundo inteiro. Poucos tomam conhecimento e se comovem, lembrando a fugacidade da existência material e a importância de valorizar os talentos da alma.
As grandes calamidades, tem a ver com o determinismo do Alto, que age nos fatos, e servem, também, para nos sensibilizar promovendo a solidariedade.
O reino do bem vai se instalando no seio da humanidade, ainda que de maneira imperceptível numa avaliação de poucos anos. O horror ao mal será alcançado um dia.
A lei de ação e reação está a serviço do progresso do Espírito. Essa a verdade que a fé raciocinada entende, obediente e resignada.
A lei de destruição faz parte das leis Divinas. Os flagelos destruidores fazem a humanidade progredir mais depressa, esclarece a questão 837 de “O Livro dos Espíritos”.
Tudo na criação é harmonia; tudo revela uma previdência que não desmente, nem nas menores, nem nas maiores coisas. Se a nossa época está designada para a realização de certas coisas, é que estas têm uma razão de ser na marcha do conjunto, coloca no capitulo XVIII, item 2, do livro “A Gênese”.
E prossegue: nosso globo, como tudo o que existe, está submetido à lei do progresso. Ele progride, fisicamente, pela transformação dos elementos que o compõem e, moralmente, pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Ambos esses progressos se realizam paralelamente, porquanto o melhoramento da habitação guarda relação com o habitante.
Fisicamente, o globo terráqueo há experimentado transformações que a Ciência tem comprovado, e que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais aperfeiçoados. Moralmente, a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que o melhoramento do globo se opera sob a ação das forças materiais, os homens para isso concorrem pelos esforços de sua inteligência. Saneiam as regiões insalubres, tornam mais fáceis as comunicações e mais produtiva a terra.
Se no universo infinito estrelas e constelações nascem e morrem, como vêm constatando telescópios potentes como o Hubble, também na Terra a lei de destruição está associada à do progresso, levando tanto o físico como o humano a evoluir sempre.
Por isso mesmo, sabendo que a qualquer momento podemos “ser chamados” para o lado de lá, procuremos investir sempre mais e melhor no nosso desenvolvimento espiritual e moral.
Pensem nisso!
Um grande abraço. Cuidem-se.
Enoque A Rodrigues



56622
Por Enoque Alves - 27/3/2010 10:29:42
FATOS E PERSONAGENS DO ANTIGO BREJO DAS ALMAS – PARTE 2

Belos e longínquos tempos aqueles quando eu, então com treze anos, ia passar férias na Fazenda “Terra Branca”, propriedade de meu avô, que fica no Município de Francisco Sá, ou Brejo das Almas. Quando se falava em ir “pro brejo”, a impressão que se tinha naquela época era a de que se estaria partindo para o outro lado do Mundo. Apesar de hoje se percorrer a mesma distância em poucos minutos, antes eram poucos os meios de transporte sendo os mais usuais o cavalo, bicicleta ou os próprios pés, o que tornava a viagem até o Brejo um périplo. Só que assim como hoje, valia muitíssimo a pena “ir pto Brejo“. Uma vez lá, não se tinha mais vontade de voltar. Tantas eram as novidades e diversões que a Cidade oferecia. Talvez tenha surgido ai o dito popular que diz “que a vaca foi pro brejo”. Certamente que se ela não ficou atolada no meio do caminho, ficou no “Brejo” para todo o sempre, amém. A viagem antes era muito divertida. Se cruzava rios, densas matas, plantações infindáveis de milho, arroz, alho, cana e outras culturas da região, sendo a principal delas o alho, pois naqueles belíssimos tempos “Brejo das Almas” ou Francisco Sá, “beldade do norte de minas” era considerada a “capital do alho”. Alguém ai do outro lado se lembra disso? Pois, é.
Antes de arriar o cavalo e partir rumo ao “Brejo”, havia todo um ritual: Minha Santa “Dindinha” – avó -, (que Deus a tenha em sua Santa Glória), ajoelhava-se ao chão e rezava pedindo a Deus que me protegesse durante toda a viagem. Que guiasse os meus passos. Que iluminasse os meus caminhos. Era como se eu estivesse indo para uma guerra! Depois da reza, fazia-me um rosário de recomendações: Noquinho, meu filho, tenha muito cuidado ao atravessar a “pinguela” do rio que liga nossas terras a Fazenda Minas Novas de seu tio Julio e de sua tia Cota! Você pode escorregar e cair. As águas estão subindo muito! Houve enchentes na cabeceira! Cuidado com cobras pelo caminho! Elas estão saindo da plantação de arroz, na “vazante”. Muita atenção com as vacas ao passar pela Fazenda de “Sinhozão”. Fiquei sabendo que ele tem muitas vacas parideiras com muitas crias novas e você sabe que elas ficam “brabas” quando alguém se aproxima delas nesse estado. Antes de chegar ao povoado de “Vaca Morta”, cuidado com as abelhas “oropa” que estão infestando aqueles pés de “anjico”, É que estamos na época da florada das laranjas e elas aproveitam para ir até o laranjal sugar o néctar das flores e numa dessas pode picar você!.. Ao passar pelo povoado de “Vaca Morta”, não pare naquele boteco que está na beira da estrada. Lá tem “um trem” chamado “pinga do Sertão” que os homens muito apreciam, mais é só ela entrar pela boca que os “juízo sai pelas zoreias”. Se eles lhe oferecerem, Noquinho, não aceite! Isso pode “viciar você”. -Talvez, ou quem sabe, com toda certeza, seja por isso, que jamais pus qualquer bebida alcoólica na boca-. Santas palavras de minha amada Dinhinha, que prosseguia... Quando passar por Cana Brava, leve meu abraço a irmã Maria de Guido. Fale pra ela que tenho agora quase 40 galinhas poedeiras. A Dona “Martinha de Seu Jacinto”, fale que Nira, minha filha, tem andado meio doentinha e que peço oração pra ela. Pra Dona “Margarida de Seu Damião”, você fala que a dor que sinto nas costas do reumatismo eu estou aliviando com um tal de “emplasto poroso Sabiá” para ela usar também, para se curar da mesma dor que ela sente desde que teve que forçar pra ter a “Toinha”. Meu Deus... Falando em “Toinha”,como cresceu essa menina! Peguei no colo! Já para o problema de “prisão de ventre”, recomendo para ela tomar bicarbonato. Depois de Deus, é um santo remédio. Diga também pra ela não se esquecer: Quando tiver “arrotando ruim” tomar “ruibarbo”. Sabe, Noquinho, eu acho que esses remédios que estão chegando da Cidade vão acabar substituindo os remédios do mato que temos aqui. Eles já não fazem efeito...
Se em Cana Brava, você encontrar com seu tio “Bimbim”, meu irmão, fala pra ele que nós ainda não descobrimos remédio para acabar com a “papeira dele” mas que “Liberato”, - meu avô - escuta o Edgar de Souza, da Rádio Nacional, todos os dias. Que homem de sorriso gostoso, Noquinho-, e assim que eles descobrirem esse remédio, o Edgar vai contar pra nós e nós contamos pra ele. Diga também que estamos esperando ele para as festas das “cabanas” (meus avós e toda sua família eram adventistas e no mês de Julho costumava-se comemorar esses eventos do Antigo Testamento), cujas festas que duravam uma semana, coincidiam com a moagem das canas no mês de Julho e com os bagaços faziam as tais cabanas onde havia danças, cânticos de louvores a Deus, pregações, batizados, etc. E continuava...Sabe, Noquinho, não quero que você demore muito no “Brejo”, não. Antes de terminar suas férias e voltar para Orion, você tem que descansar bastante, comer muito. Você anda muito fraquinho. Vou fazer umas batidas de cidras – melado de cana quase ao ponto -, para você ficar forte para ajudar seu “pai velho” (avô) no corte da cana em Julho. Lá em Francisco Sá, ou melhor, no “Brejo”, não fique fazendo estripulias. Lá é Cidade Grande e você é matuto daqui dessas matas e não sabe andar nas ruas de lá. Você só tem 13 anos e é bom não ficar na rua até tarde. Fique na Pensão de nossa amiga, a Dona Quinó. É aquela rua onde os ônibus que vem de Salinas, Taiobeiras, Grão Mogol, param. Não tem como você se perder, pois os ônibus ficam bem na frente da casa da Dona Quinó. Entregue para ela esse alforje que está cheio de queijos, farinha de milho, rapaduras, dois litros de melado de cana e dois litros de manteiga! Esse embornal, você leva e entrega para ela com muito cuidado: São ovos de galinha e algumas frutas do conde que ainda não estão muito maduras. Quando você voltar, peça para ela me mandar somente tres litros de “creosene” pra lamparina e dois metros de pavio pra lampião. Não precisa mandar mais aqueles venenos pra espantar muriçocas. Elas não respeitam. Fale que nós estamos usando “estrume seco de vaca” que é bem melhor. Aproveite e passe no Bar do “Seu Neuzão, o Só Cinco” e veja como ele está. Me disseram que ele anda tendo atritos com a esposa. Fale pra ele que estamos orando pela paz no lar dele! Caso você encontre com “Zezim Tocador” diga a ele que antes da moagem das canas Liberato vai mandar trazer ele aqui para fazer a expulsão das cobras do canavial. Mais que ele tem que vir sem a sanfona, pois aqui a nossa cantoria é outra. Se você encontrar com o Prefeito Eurico Pena, fale pra ele que nós ainda não sabemos votar, mais que estamos treinando. Que ele deve ajudar esse “menino careca”, como é mesmo o nome dele? Ah, me lembrei: Feliciano Oliveira. Parece ser muito bom, viu Noquinho? Se você encontrar com algum “Silveira”, Geraldo, Olyntho, Yvonne, diga que Liberato, seu “dindinho”, mesmo não gostando de Política lhes manda lembranças. Caso encontre nas ruas com Rogério Costa Negro, cumprimente, mas não tome o tempo dele. Gente rica não gosta de perder tempo com conversas que não lhes rendem dinheiro. Tome aqui, “duas flores de abóbora”, ou seja, duas notas de mil cruzeiros na época. É para você passar na Loja de tecidos dele, “Casa Branca Costa Negro” pra comprar dois metros de tergal dois metros de brim azul pra eu fazer seu uniforme escolar. Pra seu “dindinho” você traz dois metros de “fazenda” azul com riscas de giz, pra fazer camisa, peça para o vendeiro duas calças “arranca toco”, fala que é para “Seu Liberato” que ele sabe o tamanho. Já para mim peça quatro metros de chita daquelas bem “floradas” para o meu vestido longo das festas das cabanas e quatro metros de “morim” para as anáguas e a combinação. Pra sua Tia “Nira”, dois lenços de cabeça sendo um azul e o outro amarelo. Pra sua Tia “Nana” uma sandália de couro franciscana, três metros de fazenda e uma blusa de xadrez vermelha. Já para sua tia “Catarina”, traga aquele colírio e passe no Joça Sapateiro para ver se já costurou o sapado dela. Se você for pegar o caminhão para ir nadar naquelas águas cristalinas dos dois Riachos, tome muito cuidado. Não gosto que você vá pra lá. Mais você é criança e somente aqui com a gente é que você pode aproveitar. Falando nisso, se você passar próximo do “Bar da Barbina” – sim, naquela época em toda e qualquer esquina do “Brejo” havia um bar -, diga pra ela que o “Elpidio”, seu conhecido, esteve aqui em Terra Branca, outro dia querendo comprar uma faixa de terra de Liberato. Mas não deu. Ele ofereceu muito pouco capital.
Quando você voltar, Noquinho, atenção: Isso você não pode nem pensar em esquecer! Passe na “Casa Amarela”, fica na saída para Montes Claros. Se você não souber ir lá, peça para a Dona Quino te levar. Lá eles fazem uns doces de leite dos deuses! Vê se eles lhe passam a receita desses doces! Se você conseguir você vai ter doce por aqui todos os dias!
Bem Noquinho, já tomei muito o seu tempo com minhas recomendações, mais você sabe, né meu filho! É importante! A “Dindinha aqui te ama”! Vá com Deus!
-Lencinho acenando...Inté!-
Um grande abraço, amigos brejeiros. Meus conterrâneos!!!
Enoque A Rodrigues.


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Por Enoque Alves - 6/3/2010 20:28:55
UM POUCO DE CHICO XAVIER – Por Enoque A Rodrigues

No próximo dia 2 de Abril de 2010, nosso querido Francisco Cândido Xavier estará completando 100 anos de sua última reencarnação entre nós.
Nascido em Pedro Leopoldo, pequena Cidade de Minas Gerais, aos 5 anos perdeu a mãe, Dona Maria João de Deus, uma lavadeira, tendo seu pai um vendedor de bilhetes de loteria, Sr. João Cândido Xavier, contraído novas núpcias, em 1917, com Cidália Batista, em 1917. A partir daí, se a vida de menino pobre, raquítico já era difícil quando vivia com sua progenitora, agora transformou em um verdadeiro martírio, face os terríveis maus-tratos que Dona Cidália, sua Madrasta lhe causava. A verdade é que o menino Francisco, preparado que fora desde o ventre materno para trilhar pelos caminhos deste mundo de expiações e provas, com paciência, disciplina, perseverança e desapego as coisas materiais, sempre teve seu comportamento e conduta pautados por estes princípios. Mas mesmo assim, como se fora para cumprir um ritual macabro, Dona Cidália sempre o espancava. Mantinha sempre uma vara de marmelo com a qual lhe aplicava as reprimendas imerecidas.
Começa a ouvir vozes, sendo que em várias oportunidades sua Santa Mãezinha lhe aparecia em espírito para lhe recomendar sempre que tivesse paciência. Que fosse um menino obediente. Que do local onde ela estava vivendo poderia vê-lo e que ela não se sentia bem com o sofrimento dele mais que mesmo ele não merecendo tanto sofrimento, isso era necessário e indispensável ao seu crescimento. O menino, claro, não entendia, mas obediente que sempre fora seguia tudo que o espírito de sua mãe lhe orientava.
Em 1919, com apenas 9 anos, começa a trabalhar em uma fábrica de tecidos em sua Cidade e com muita dificuldade, em 1924 termina o curso primário e nunca mais teve oportunidade de voltar a estudar. Em 1925 muda de emprego, trabalhando como auxiliar de cozinha em um Restaurante. Em 1927 em uma sessão espírita vê o espírito de sua mãe que antes lhe aparecia com freqüência o qual lhe orienta estudar as obras de Allan Kardec. Em Junho de 1927 Chico ajuda a fundar o Centro Espírita Luiz Gonzaga e um mês após, em Julho de 1927, psicografa pela primeira vez 17 páginas recebidas de vários espíritos. Em 1928 começa a publicar as mensagens por ele psicografadas no “O Jornal”, do Rio de Janeiro e no “Almanaque de Notícias” de Portugal. Em 1930 é descoberto pelo “O Reformador”, um dos principais jornais do mundo espírita da época, que existe até os dias de hoje. Em 1931 mantém seu primeiro contato com o espírito que viria a ser durante toda sua existência física sem guia e mentor espiritual, Emmanuel, cujo espírito proveniente de várias reencarnações, devido ao seu elevado grau de pureza e envolvido pela luz que emana do infinito de onde provêm os Seres Angélicos, se apresentava sempre em uma cruz fluorescente cuja luz, de tonalidade azul, iluminava a escuridão de seu pequeno quarto de vigília. A parceria de Emmanuel e Chico Xavier rendeu vários livros e inúmeras passagens que ás vezes quando Chico a elas se referia na intimidade parecia tratar-se de diálogo de dois “vivos materializados”, tamanha era a convivência dos dois.
Quando Emmanuel veio a Chico pela primeira vez, disse-lhe que a vida dos dois se fundira na imensidão dos anos e que ele, Emmanuel, a fim de divulgar o Espiritismo, a terceira revelação, tinha recebido do Alto a incumbência de ditar para que Chico escrevesse vários livros. Que tinham muitos projetos a executar. Surpreso, Chico quis lembrar aquele espírito que sua paupérrima cultura, apenas o curso primário mal feito, não lhe permitia pensar tão alto e que ele, o espírito certamente se decepcionaria com sua parca inteligência. Emmanuel, bondoso, lhe recomendou não se preocupar com isso, pois os livros viriam naturalmente. Que ele, Chico, no entanto deveria seguir três conselhos. Perguntado quais eram Emmanuel lhe respondeu 1º disciplina. 2º disciplina e 3º disciplina...
Em 1932 Chico publica o primeiro livro “Parnaso de Além Túmulo”, com 59 poemas recebidos pela psicografia, de 14 renomados espíritos poetas como Castro Alves, Olavo Bilac e outros. Em 1935 passa a trabalhar na Fazenda Modelo do Ministério da Agricultura de Pedro Leopoldo e em 1939 começa a psicografar as obras do Escritor Humberto de Campos e no mesmo ano lança “Crônicas de Além Túmulo”, com textos do escritor. Alguns anos depois devido a grande originalidade destas obras que Chico recebia do espírito de Humberto de Campos, houve problemas de interesses por direitos autorais por parte da viúva do mesmo, obrigando Chico a mudar o pseudônimo do espírito autor das psicografias dos livros que ditava para “Irmão X”.
Em 1944 publica “Nosso Lar” ditado pelo Espírito de André Luiz, que em outras encarnações fora médico no Rio de Janeiro, tanto que são incontestáveis a literatura cientifica tratada nestes livros, exceto alguns que retratam com riqueza de pormenores a vida além da morte, de cidades com ruas, avenidas, hospitais, ministérios ou seja, toda a mesma infra estrutura que aqui dispomos, lá no mundo invisível. Em 1959, com problemas familiares e com a saúde abalada, muda-se para Uberaba, no Triângulo Mineiro, onde passaria toda sua vida de amor, dedicação e solidariedade aos menos favorecidos. Lá, tive a graça e oportunidade de conhece-lo mantendo com o mesmo um pequeno e esporádico convívio pois naquela época eu trabalhava na construção da usina hidroelétrica de Volta Grande, na divisa de Minas com São Paulo, cuja usina sobre o rio grande, e aos sábados eu quando possível, lá estava.
Em 1965, vai a Washington, EUA, divulgar o espiritismo no exterior. Em 1971 participa do programa de televisão da rede Tupi chamado “Pinga Fogo”, onde é sabatinado pelos mais importantes jornalistas e reportes daquela ocasião, tendo sido ali programa alcançado uma audiência jamais antes conseguida, ou seja, 75%. Em 1975 com base em suas obras a TV Tupi lança a novela de cunho espírita “A Viagem”, onde o próprio Chico Xavier faz uma pequena participação. Em 1979, fato inédito revoluciona o meio Jurídico Brasileiro: Uma carta psicografada por Chico Xavier ajuda a inocentar o jovem José Divino Nunes, da morte de seu melhor amigo da qual estava sendo acusado. Em 1981 é indicado prêmio Nobel da Paz. Em 1985 recebe a visita de Fernando Collor de Mello a candidato a Presidência da Republica e, por razões que até hoje nós, pobres mortais, mesmo espíritas desconhecemos, dá seu apoio à campanha do mesmo. Naquele mesmo ano João Francisco de Deus é julgado inocente do assassinato da esposa, Gleide, com base em cartas psicografadas por Chico Xavier.
Em 1992 um jovem do Paraná pula armado o muro da casa de Chico em Uberaba com a intenção de mata-lo. Foi preso mais Chico mandou solta-lo. Em 1995, muito fraco devido a um enfisema pulmonar, passa a usar cadeiras de rodas e chega a pesar 35 quilos. Em 2000 é eleito o Mineiro do Século em votação promovida pela Rede Globo de Minas. Em 2002, No mesmo instante em que o povo Brasileiro comemorava a conquista da Copa do Mundo, nosso Chico, cumprindo profecia dele próprio, recebida do além, quando dizia que “certamente ele partiria deste mundo em um momento de grande alegria e felicidade para o povo Brasileiro”, dava seu último suspiro em um hospital de Uberaba onde se achava internado já há algum tempo. Muitos viram mais muito poucos entenderam. A televisão mostrou: no exato momento em que Chico desencarnava, dois fachos de luz adentravam as vidraças da janela do quarto do Hospital onde jazia o corpo do Médium. O Kardec Brasileiro.
A você, amigo, espírita ou não, recomendo procurar saber um pouco mais sobre a vida deste grande Brasileiro. Talvez você não tenha tido o mesmo privilégio de conhece-lo quando aqui conosco vivia. Oportunidades certamente não lhes irão faltar. Grandes nomes do cinema Brasileiro estão programando grandes lançamentos ainda neste ano em comemoração aos 100 de Francisco Cândido Xavier, ou Francisco de Paula Cândido, ou ainda Chico Xavier, ou, quem sabe, como ele próprio se auto-intitulava “Cisco de Deus”, em referência a sua insignificância, do alto de sua humildade. Com toda certeza, por mais completos e expressivos que sejam quaisquer filmes, livros ou outra alusão criteriosa a este baluarte do espiritismo no Brasil, ficará aquém do que ele foi em vida. Ou seja, geralmente quando algum autor retrata alguma biografia de figuras expoentes as endeusam, muitas vezes dando-lhes atribuições e qualidades que na verdade em vida não tiveram isso é próprio da facilidade de escrever, pois é mais fácil escrever ou teorizar do que viver. Assim, a vida real de quase todos os biografados fica, em muitos livros, incompatível. Com Chico foi diferente. Por mais que se escreva sobre suas qualidades de pessoa humilde, simples, devoto, disciplina, cordialidade, solidariedade, sintonia com o além, etc., mais se tem por falar e retratar. Há muitas biografias sobre o grande Chico. Talvez eu possua quase todas. Posso afirmar, mesmo tendo tido um convívio pífio com o mesmo, que se somados todos os minutos creio não alcançar nem 6 horas, que jamais existirá qualquer biógrafo capaz de retratar inteiramente sua vida e sua obra.
Vejam algumas marcas deste GIGANTE:
451 livros escritos e publicados. Sendo 39 após sua morte.
50 milhões de exemplares vendidos. Com todos os direitos autorais doados inteiramente à causa espírita. Chico jamais utilizou um centavo sequer do lucro de suas obras. Vivia com uma mísera aposentadoria do INSS cujo tempo de trabalho fechou na Fazenda Modelo.
Seus livros foram vertidos para diversas línguas, como: Inglês, Espanhol, Japonês, Esperanto, Italiano, Russo, Romeno, Mandarim, Sueco, etc.
Dezenas de Espíritos desencarnados há muitíssimos anos falaram ou enviaram mensagens aos seus entes queridos através de suas mãos e voz.
Psicografou aproximadamente 10 mil cartas de mortos para suas famílias.
Pelo seu testemunho, dobrou os Centros Espíritas no Brasil que antes eram de 8 mil e quando morreu em 2002 já eram 16 mil.
O número de nós, espíritas, na década de 50 era insignificante. Hoje somos declaradamente 2,3 milhões e se somarmos todos os que estão de certa forma, ligados ao espiritismo seremos quase 20 milhões de almas.
Pensem nisso, amigos!
Um grande abraço. Fiquem em Paz. Que Deus esteja com vocês!
Enoque